CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK

Mostrando postagens com marcador #Experimental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #Experimental. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Otacílio Melgaço - L'autre côté du vent

Eu já fiz outra resenha do Otacílio Melgaço esses dias e acho que ficou bem clara a preocupação do músico para chegar a pontos ainda indeterminados. Enquanto em Brutalism tínhamos uma espécie de movimentação capaz de desvelar estruturas e suas subsequentes ideias de “verdades”, em L'autre côté du vent predomina uma ambientação clássica, ainda que radical. Portanto é justo afirmar que essa obra é mais “sombria” que a outra, uma vez que tenta transpor ao ouvinte sonoridades mais “insondáveis”. Desde o começo das peças, a grandiosidade apontada por Melgaço resvala em tentativas de capturar uma sensação. Não é como se ele quisesse emular “pássaros voando”, por exemplo. Ao invés disso, Otacílio reconhece as entidades naturais e é a partir desse reconhecimento que brota sua música.

Esse álbum de Melgaço oferece uma resistência inicial e aos poucos, por trás dessa densa camada sonora, vamos descobrindo um quarteto que impõe diversas texturas e encontros possíveis resididos nelas. O próprio título (algo como “do lado do vento”) representa uma sonoridade guardada por rumores que de maneira fragmentada se revelam, ascendem e depois retornam à obscuridade inicial. É como se houvesse um núcleo gravitacional que esses elementos rondam, penetram, dissolvem-se. Analisar possíveis coincidências talvez restrinja a abordagem poética que é imanada em todos os movimentos de L'autre côté du vent, poesia que trabalha com reconhecimento e desconhecido de forma paralela. É uma reação que desenha no espaço vazio (o silêncio) impressões de um observador (o compositor) fascinado com essa oportunidade de preencher o espaço, preencher o que não emite barulho.


L'autre côté du vent comprova que a obra que está sendo construída por Melgaço merece ser atentada mais proximamente num futuro muito próximo. Não que ele precise de grande atenção para continuar produzindo, pois seus atravessamentos criativos parecem longe de perder a força.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Otacílio Melgaço – Brutalism

A arquitetura brutalista emergiu na década de 1950 radicalizando preceitos da época, embora não fosse um “movimento” rígido, suas explorações na forma influenciam a produção contemporânea. Os clamores que surgem na primeira faixa fazem questão de preencher tudo que é possível, não há silêncio porque não há tempo para ficar calado. Devemos apreciar as variações de Brutalism como um preenchimento em que é muito difícil de respirar. Eu encaro o transbordamento do disco como um ato de liberdade. De qualquer forma, Brutalism soa cheio e feito de movimentações inesperadas.

A concepção sonora de Otacílio Melgaço para esse disco parece ter nascido dessa vontade de preencher o vazio de maneira que não há pausas para fôlego, e embora os elementos predominantes remetam ao jazz, toda a ambientação de Brutalism trabalha no contrassentido do vácuo. Novamente, essa necessidade de expressão do músico que combate formações medianas e uniformidades.

Esses condicionamentos limitantes que esvaziam a maioria das tentativas artísticas e as transformam em mera mímesis. Melgaço diagnostica esse esvaziamento contemporâneo e reconhece nos atos mais libertadores do jazz formas que propulsionam todos os contornos musicais do álbum. Mais do que linhas retas, toda a estrutura de Brutalism (o noise rock, a música eletrônica e também a música clássica) opera de maneira que redimensiona um tempo e espaço que parecem opacos. Leiam todos esses desvios de Otacílio como uma maneira da aparência (o som) desvelar as estruturas em favor de qualquer ideia de “verdade” que você possa ter.

Essa apropriação do conceito da arquitetura brutalista não é em vão; somente os contornos podem desnudar a essência da estrutura. A produção musical contemporânea, seja pelo excesso de zelo na produção ou apenas uma estratégia de mercado, usualmente esquece-se de brindar o ouvinte com uma “crueza” ou qualquer outro ato de sinceridade. Brutalism encontra uma sinceridade há muito esquecida para transpor uma ideia de ocupação em uma época criativamente vazia. É uma gravação que escava até a raiz de seu criador para fugir de procedimentos fáceis ou confortáveis e estimular todos que a escutam para se apropriarem e tomarem parte nessa nova construção. Eu sei que soou confuso, mas é como não somente a ideia de construção musical fosse posta em jogo, mas também a verdade por trás dessa construção.

Brutalism começa focando exatamente nessa ideia de ocupação, como se as estruturas já dadas não fossem suficiente e há uma necessidade evidente de Melgaço reelaborá-las e sem se preocupar com qualquer espécie de desconforto que isso possa causar. A seção rítmica depois dos primeiros cinco minutos iniciais mais caóticos, se reorganiza e segue caminhando para caminhos inesperados. O álbum soa como uma alçada que não pode ser freada, uma alçada preocupada em reconstruir, ocupar e desvelar as principais ideias artísticas (em constante movimento) de Otacílio.

A primeira peça é a que traz todos esses conceitos e também é o mote que colabora com a ideia do músico. Não é muito fácil diagnosticar precisamente os instrumentos utilizados nessa, mas temos uma ambientação que a recorrência percussiva coexiste com elementos de sopro, eletrônicos e outros escapes. Melgaço não quer se resignar em nenhum momento e por isso todo o disco é uma batalha contra um conformismo artístico e a voracidade de alguém que anseia em ver seu projeto realizado. Brutalism é a captura desse momento de tensão e criação, em que se percebe que nada é permanente, tudo é ocupável.


Finalmente, todos esses conceitos e ideias não devem atrapalhar sua audição. Entendam o disco como uma tentativa de sair de esquemas convencionais de composição (estruturas) para, na batalha parar criar seções mais radicais, estabelecer algum tipo de movimentação (ocupação). Vai além de meros conceitos ou usurpações para usar esquemas tradicionais e mostrar que o que cria essa tradição (instrumentos) também é capaz de criar outros contornos, esperançosamente mais verdadeiros. Somente os sons são deixados e tudo que podemos sentir dentro da estrutura que eles criam.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sketchquiet - The Nature Only Wants To Please Itself // Seize The Moment

Ninguém está em casa. As lembranças se fundem e os signos externos são apropriados assim como o canto dos pássaros; a noite passa lentamente, a observação transforma-se em absorção. As músicas de Sketchquiet são esse processo de absorver e reordenar o mundo que nos cerca de forma interna. Os versos de guitarra acolhedores de Seize The Moment flui com umas palavras em seu plano de fundo; são memórias que preenchem a vastidão do céu noturno e solidificam sensações como saudade e nostalgia. Mas o que o Sketchquiet realiza não é uma celebração e/ou tristeza em cima do que já passou, mas como Mário Alencar (ele é o Sketchquiet) é atravessado por essas lembranças. Porque elas surgem, e se decidem ficar, não há como combater e aí que músicas como as do Sketchquiet fazem todo o sentido. Elas existem não para lutar contra os nossos sentimentos, mas para acolher e dar vazão para eles, para estetizá-los de forma que eles também caracterizem uma presença. Sketchquiet pinta um cenário que sentimentos paradoxos são possíveis, nenhum contorno é simplesmente objetivo nessas duas canções. Todos os rabiscos são precisos e necessários.


Amanheceu e pouca coisa ainda faz sentido. Os versos de guitarra ainda são aquela mesma melodia da última noite, mas tanta coisa mudou, meu humor é outro. Eles continuam acolhendo minhas sensações. Na pausa de uma música para a outra, realidade se mostra existente, rígida como um concreto. Nós podemos acordar todo dia na mesma hora, mas o céu está sempre diferente. Indiferente a todos nós. O que eu sentia, ontem, na primeira vez que ouvia essas músicas, eu não me lembro. Acho que assim eu posso entender um pouco melhor a fragmentação da voz em The Nature Only Wants To Please Itself. Afinal, nossas memórias só obedecem a si mesmas e suas ordens malucas e caóticas. Elas são como os cantos dos pássaros; determinadas por suas vontades.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Cássio Figueiredo – Presença

Eu realmente ficaria feliz se os leitores, para chegar a Presença, ouvissem os três trabalhos anteriores de Cássio e suas relações explosivas com o instante. Cássio descreve lugares e como ele se sente neles. É a manifestação de uma ocupação. Mas Cássio descreve por impressões, por surgimentos abruptos; nesse tipo de estrutura em que “descrever” é um atravessamento de lugares. Ele descobre a “presença” indo além das formas; ele ouve os ruídos, as cordas do violão, a mesma risada; a presença é a insistência e o que se repete, mas também é o que morre ante mesmo de ganhar contornos definidos. Não podemos confiar na presença, como demonstra Cássio. Ela é pueril. Nem sempre o instante ganha formas e é exatamente aí que Cássio opera todo esse disco. Mas muito mais do que uma questão filosófica, a afirmação do músico e de sua existência passa por cada som que é vazado em Presença; existe muito mais do que pensamos, existe muito mais do que podemos definir.

Presença é um cuidadoso processo de catalogar instantes altos e monótonos que ganham muita importância quando são sentidos de outras maneiras; os barulhos constantes saem então do campo da simplicidade significante (as buzinas de carro) para se transformarem em símbolos dos multielementos que nem sempre ganham forma definida. Por isso que são encontrados monumentos em toda operação de Cássio; os sons saem da esfera cotidiana porque seus contornos não são limitados. O que Cássio faz é dar liberdade e vazamento para esse emaranhado de “lugares-comuns”. Ele musica esses lugares. Devolve a eles o formato artístico que eles são.

A intenção de Cássio fica evidente já na primeira peça, que tem participação de Cadu Tenório; uma imersão sensível em lugares que, através do processo de imersão e desconstrução, vão nos presentear essências sonoras que precedem a forma. Isso porque o músico é muito transparente em relação às suas ferramentas; a investigação contida em Presença também é uma exposição de alguém que foi passado por esses lugares. Suas ações são atitudes do dia-a-dia que se potencializam na música contida nessas peças justamente pela sensibilidade de Cássio; o lugar é indiferente a ele, mas é graças ao músico que esses lugares que se misturam em sua estética repetitivo-agressiva podem ganhar uma afirmação tão positiva, ainda assim que não estejam completamente definidos, que não estejam completamente dissociados uns dos outros. Ele releva as frestas do cotidiano, o quão explorador uma caminhada a dois pode ser, quando você está andando ao lado de alguém e as risadas dessa pessoa se misturam com uma melodia que você lembra, com o barulho dos metais da cidade.

Todo esse mistério é manifestado na maneira que ele manipula esses elementos, esses encontros aglutinados. Cássio é um observador de seu ambiente e suas percepções do que pode ser musicado são evidenciadas em faixas como Condução, em que a saturação extrema é cortada abruptamente, porque ele chegou a algum lugar, ou porque simplesmente ele decidiu parar. A quantidade de sentimentos que ele consegue demonstrar através de barulhos considerados não musicais refletem uma abertura do músico a esses lugares. Apesar da agressividade aparente de Presença, suas consecutivas ouvidas mostram quão sutis são os detalhes que Cássio explora. São deslocamentos frequentes, explosões imprevisíveis que interrompem uma frase, ainda assim continuam o clima ambiente. Porque Cássio não quer modificar as estruturas que o cercam, mas obviamente suas percepções são frágeis, constantemente incertas e, mesmo assim, ele quer evidenciar essa fragilidade. É sua única certeza.

Musicalmente, Presença representa uma tentativa de recolher o caos interno e externo e dar alguma ordem possível. A ordem escolhida é representada de forma caótica também, mas dessa vez Cássio recolhe essas impressões incertas e as cataloga de acordo com sua memória afetiva e seus laços, como o lindo final de “Dois”, em que as risadas fecham a peça. Essas memórias estritamente individuais também garantem para o músico um escape, porque muitas vezes o peso de Presença recolhem sentimentos mais monótonos, um afogamento lento em repetições que refletem um mundo que está se esgotando de si mesmo. O que fica evidente em “Caminhão de Lixo”, que tem a participação de Cadu Tenório e que se repete exaustivamente, insatisfeita com os destinos que uma grande volta pela cidade revela. “Condução” e seu corte final me soa como um símbolo da repetição extrema em que essa mesma cidade esgotada na faixa anterior revela para alguém; mas ela é mais nervosa e rápida, ela é a saturação de toda insinuação anterior. Parece que a presença da cidade nunca vai ceder, e que essa sensação na verdade vai se amplificando- desde as buzinas da primeira faixa até ter essa explosão agonizante. Mas se é a partir daí que Cássio prefere discursar, ele atesta sua vida na metrópole, todas as vibrações escondidas em Presença afirmam de algum modo a existência.


Inspirações como pessoas extremamente próximas se juntam na percepção de Cássio, e ao mesmo tempo em que as risadas dessas pessoas se desintegram e outros barulhos ganham mais vida, essas memórias, ainda que distorcidas e distantes, mostram alguém que ainda não se rendeu. Exatamente essas distorções podem ser encaradas como metáforas estetizadas das alterações constantes de humor do músico. Ele desconstrói suas memórias e é nesse processo que todo intervencionismo exterior se instala e se torna parte do processo também. Uma mente que está constantemente indo para frente e regredindo. E é essa movimentação que instaura uma Presença, ainda que obscuramente definida.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Yarn/Wire – Currents Vol. 3 (2015)

O projeto musical Yarn/Wire se trata da bilateralidade (são dois pianos e duas percussões) e das simetrias e cortes que essa junção pode causar. Os frutos disso são construções que soam inaugurais e só por isso o conjunto já merece o louvor. Vol. 3 representa, obviamente, a terceira série no trabalho Currents que o grupo vem apresentando há alguns anos e exibe um “médium” inicial, cinco oscilações consecutivas, e a peça final que é a integração desses elementos. É um desempenho ao vivo que mantém o legado do conjunto na tentativa contínua de transitar entre terrenos novos, se aproveitando da injeção de elementos exteriores e teoricamente “estranhos” ao quarteto.

O grupo absorve essas teóricas excentricidades e as transformam em uma continuidade surpreendentemente estável e com firmeza conduzem as peças para os pontos mais macro que elas, inicialmente, não pareciam ter resistência para.


Os elementos eletrônicos interagem com um piano desatado em curiosos movimentos de conforto/retaliação. É uma convivência muito engraçada. Ao mesmo tempo em que a combinação dessas execuções vai crescendo, os cortes também vão soando mais severos e mais pontuais. Essas combinações que eu nunca tinha ouvido são só possíveis ao ligar elementos teoricamente mais tradicionais (piano e percussão) à tecnologia MIDI e uma investigação inventiva de quais caminhos isso pode tomar. O piano realiza, em paralelo, os ataques mais “delirantes” e também é responsável por trazer uma espécie de serenidade em alguns momentos. Currents Vol. 3 se trata, sobretudo, de um delírio em tempos que uma normalidade domina todos os charts de melhores discos do ano.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Kid Millions – The Sanguine Cadaver (2015)

Kid Millions é membro da corajosa banda Oneida que consiste em criar um ambiente enorme, urbano e repetitivo- como se caminhássemos no mesmo túnel infinitamente. É uma ambientação poderosa, com drones épicos e grooves bem colocados. O conceito de The Sanguine Cadaver é extremamente pautado nessa repetição; é um andamento lento e introspectivo em uma atmosfera que as diferenças são apenas insinuadas. Mas aqui Kid se mostra como compositor máximo e não apenas um exímio baterista, e percebe-se que as dissonâncias que o lavaram a criar um trabalho tão denso como The Sanguine Cadaver não seriam tão bem aproveitadas no Oneida. Porque enquanto a banda constrói esse ambiente enorme, as repetições de Kid são de enclausuramento.


Pegue os imprevistos “controlados” do Swans e os insiram em um ambiente diário e nada megalomaníaco. Kid reconhece nas variações que “surgem” a validação para se expressar; ele é um artista das brechas que, mesmo assim, consegue moldar uma massa sonora gigantesca com isso (a forma como ele usa as baterias eu nunca tinha ouvido). Não há um grande marco divisor em The Sanguine Cadaver, mas chega a ser constrangedor (para outros compositores) a maneira que Kid transita facilmente para uma explosão contida e abafada, uma interiorização de observações externas. As gravações de campo criam uma atmosfera, esse disco é uma afirmação do que quer que seja essa atmosfera íntima. Tudo isso é destruído na segunda parte. Temos uma intimidade mais objetiva, com Millions fazendo o que faz de melhor; improvisar na bateria. Pode-se enxergar toda a construção da primeira parte como uma pergunta. Felizmente, Millions tem uma resposta.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

John Luther Adams / Glenn Kotche – Ilimaq (2015)

Que a programação da música clássica não é mais é a mesma temos testemunhado ano após ano na realização do “faça você mesmo” nesse tipo de composição. Em seus últimos trabalhos, é notório o exame do compositor Adams nos intrincados padrões que conectam os organismos e os ambientes em que vivem. Além desses micros padrões, Adams busca por uma totalidade desses padrões e os macros sistemas que essa soma forma. Em busca de uma totalidade que fosse registrada de forma minimalista, Kotche é encarregado de todo o trabalho percussivo em Ilimaq.

Em Become Ocean, Adams criou uma peça que representava uma sobreposição de ondas, e nessa tentativa de imersão ecológica que ele foi além de uma romantização da natureza para expor um desastre de ordem natural. Esse ponto de vista ecológico desconsidera conceitos humanos como aquecimento global para refletir a grande indiferença da natureza perante todas nossas preocupações mundanas. Become Ocean foi muito premiada e se tornou uma linha divisória na abordagem ecológica que Adams criava sua música até então. A evocação de imagens que representava a correnteza marítima é a tentativa de totalizar o oceano explicando seus micros sistemas. A experimentação de Kotche no terreno da música clássica se baseou em sua carreira na manipulação eletrônica, sem uma abordagem tão “conceitual” quanto a de Adams. Isso além dos trabalhos colaborativos de Glenn, que além de ser membro de Wilco sempre trabalha com compositores importantes em terrenos radicais e que frequentemente apelam para o livre improviso.

Adam considera o ecossistema como uma rede de sistemas, uma multiplicidade complexa de elementos que funcionam juntos como um todo. Para ele, a essência da música não reside em padrões simples de harmonia, melodia, ritmo e timbre. É a totalidade sonora que configura a plenitude da música. Por ser extremamente conceitual e Kotche pautado muito na intuição, que Ilimaq é um momento de quebra de barreiras para ambos os artistas.

O título do disco se refere a uma jornada espiritual mas, conhecendo parte do trabalho teórico de Adams, acredito que o mais justo seja chamar de jornada ecológica. São múltiplos elementos que tentam se integrar em micro sistemas para formar uma totalidade- as gravações de campo, as manipulações eletrônicas, a percussão. É somente essa sobrecarga sonora que pode sintetizar uma unidade. Mais do que a estrutura calma visível, Adams compôs algo que confronta suas obras anteriores e tem numa espécie de “minimalismo totalista” a catarse para suas revindicações entre a suposta aproximação de música/ecologia.

Os movimentos que compõe Ilimaq se baseiam em vários níveis de velocidade e desaceleração- pode-se dizer que a ideia de integração de Adams é justamente nessa dissonância de velocidades. As oscilações de Kotche mostram-se importantíssimas para as ambições de Adams então; não há possibilidade de totalidade sem os imprevistos. Esse ambiente é frequentemente contaminado por interrupções eletrônicas e gravações naturais. A totalidade é imprevisível. Mesmo assim essas seções indeterminadas e esses encontros não catalogados constroem uma totalidade desinforme, onde o trabalho gradual de Kotche ao mesmo tempo, desestabiliza e constrói esse panorama. Tantos elementos que se encontram; é filtrada essa aproximação máxima à ecologia que Adams defende em seus ensaios.


Pode-se encarar Ilimaq como um rito, uma tentativa genuína de aproximação a um discurso que cubra todos os pontos de uma obra, e é justamente na espantosa técnica de Kotche que o disco destoa para um discurso vibrante. Adams exclama categoricamente seu conceito e aproveita do talento de Kotche para fazê-lo. Resultados esperados não é o foco de Adams, ao invés suas abordagens transgridem construções musicais comuns para mirar sempre em uma totalidade, mesmo que abstrata e/ou invisível.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Cadu Tenório e Eduardo Manso - Casebre(2015; Selo QTV)

Depois de diversos trabalhos pesados, cada um com seu projeto, Cadu e Eduardo se unem em uma sessão de livre improviso para ampliar os “limites” do noise e extrapolar sensações tão desconfortantes.  E não vejo isso como “estudo” ou “investigação”, mas sim uma adesão intensa dos sentimentos dos artistas em uma estética tão radical nessas cinco faixas. Se estes já são conhecidos por não respeitarem nenhuma suposta “zona de conforto”, o trabalho de Casebre com certeza é uma soma indispensável ao estoque sonoro violento que eles têm produzido. Por isso, vejo esse lançamento como uma “coisa”. Algo que não podemos prever a direção e muitas vezes instransponível pela parede de ruídos. Mas que quando revelada, explora verazmente as manifestação que pode causar. Imagine-se em um quarto sozinho e que cada som externo te preencha totalmente. Preencha-te de forma que te deixe inquieto, nitidamente sem conforto. Tudo é um absurdo; cada ruído, cada batida. Inclusive, Casebre pode ser visto como um espaço vazio e desabitado de “intenções”, onde uma pessoa cega tenta se guiar por sonoridades tão drásticas e catárticas, compostas pela visão distorcida de quem as produz. E apesar dessa distorção (as vozes ininteligíveis, por exemplo), há um esforço em comum da dupla em se locomover para “espaços novos”.

Talvez o charme principal de Casebre seja essa mistura entre realidade (a respiração prolongada da faixa-título) e imagéticas que os sons propõem. Mais do que “construir um clima de terror”, a dupla consegue verdadeiramente causar certa aversão nos ouvintes. A questão do horror não se trata apenas da violência sonora, mas sim como não há nenhuma possibilidade de “progresso” nesse lançamento, são sentimentos conflituosos que esses sons transmitem! É estranho porque depois da audição de Casebre, eu senti muitas coisas esquecidas. É uma espécie de sensação que só esse disco dá acesso completo. Lógico, cada obra é “única” por si, mas uma falta clara de adjetivos para esse registro revela todo conflito ao qual me referi. Só ouvindo coisas como o final hipertenso da faixa-título que temos acesso para o estado de Casebre, principalmente com fones de ouvido; há uma saturação de microelementos e é justamente nesse ponto que sentimos uma profunda inconstância.


A dupla abusa desses ruídos não como fins em si, mas para apontar locais em que só podemos chegar devido a essa visão distorcida. Não deixa de ser um lugar de confusão e não deixa de ser um lugar fantasiado que abusa de elementos “reais” em movimentos mais complexos que simples transições. São cortes que martelam e se arrastam, como um colapso nervoso, um grito sufocado no meio da garganta, a respiração impaciente. Certamente, o processo de digestão de Casebre vai ser conturbado, e é justamente esse seu ponto; estimular inquietações. Essas exortações acontecem tanto nos instantes mais quietos quanto nos mais ruidosos; não há sossego possível nesse disco. Mesmo nos dezoito minutos da faixa-título não há um instante de relaxamento. Eduardo e Cadu não estão em paz e aqui todos os ambientes de suspense e apreensão são explorados com uma múltipla variação sonora. É como se o elemento do caos, tão habitual nos outros trabalhos de ambos, estivesse presente tanto na respiração ofegante quanto nos desdobramentos externos a esta. Nenhum componente é apaziguador. Mas não temos uma redução a uma única sensação; é nesse trânsito de inquietações que toda a variação (nenhuma faixa segue a “mesma linha”) de Casebre se estabelece.

Todas essas ruminações e tensões construídas tornam Casebre um álbum de difícil significação. Mas os dois artistas oferecem um ambiente altamente experimental e não somente conceitualmente, é um álbum para ser explorado porque existe uma construção em cada uma de suas variações. E se você ainda não conhece as intensas produções de Cadu e Eduardo, considere Casebre como uma porta de entrada. De algum modo, se você sobreviver a uma retaliação como os primeiros minutos de Rádio, descobrirá coisas fascinantes que renderão dias e dias de barulho. Muitas vezes sentimos a necessidade de estender nossos limites, mas para eles isso é uma urgência. Se não é um álbum para todos, ao menos aqueles dispostos a sentir a própria vulnerabilidade têm que tentar.

Cadu Tenório e Eduardo Manso - Descalço from VICTIM! on Vimeo.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Anna Clock- "Celestial" [2015]

Nos tempos atuais em que jornalistas preguiçosos jogam qualquer repetição vocal/sonora para a aba do “noise” (afinal é tudo barulho!), artistas como Anna provocam uma reação assustada de quem tem tanta necessidade de taxar música. Podem-se encontrar variações interessantíssimas em cima do processo “exaustivo” que Celestial é. Todas essas alterações são notáveis porque existe a repetição. Separá-las em “movimentos repentinos” seria excluir a integração que forma o bloco sonoro proposto por Anna.

Nomear não deveria ser o objetivo então. Não no famoso clichê “nomear X é reduzir X”, mas que conceitos em cima de conceitos limitam a experiência que a audição de Celestial pode causar. Para não pecar pelo excesso ou falta deste, há de se explorar as possibilidades ampliadas pelo álbum, o que significa passar pelos seus quase quatorze minutos se perdendo e se encontrando, em uma espécie de jogo de aparições iminentes. Talvez essa fuga que caracteriza todos os momentos de rupturas em Celestial seja também a fuga da nomeação. Fugir da classificação, porque por mais “radical” que uma tag seja, ela já está domesticada. Em um plano oposto, é exatamente o que a música de Anna não quer.

O começo de celestial projeta drones clássicos e uma melodia vocal que não entoa exatamente palavras. É como uma harmonia preponderante reinasse um campo de cansaço. Um plano belo, no entanto. As cordas e os pratos projetam toda essa beleza em um desenvolvimento estranhamente inconstante. Inconstante porque amplia a sensação de certa incoerência na repetição. É muito louco. No atroamento do ritmo mais intenso, os instrumentos de cordas tornam-se mais discerníveis. É a tentativa de afastamento. Justamente no momento de maior encanto, é que existe a separação mais brusca. Nessa convergência, o vocal começa a cantar palavras de verdade. O mais curioso é ver como a “união” inicial se desmancha em uma bela poesia. Nesse caso, a união era uma prisão. A harmonia era forçada!

Lidando com conceitos mais “densos” na música, ao mesmo tempo, a sonoridade de Anna puxa certa juventude. Indo para além de uma autopiedade embaraçosa, toda performance dela é uma transe entre o “interno” e a reflexão no vazio exterior, se trata aqui mais de uma “aceitação” do espírito trágico, ao mesmo tempo em que a compreensão de que tudo é tão simples quanto observar as estrelas.

A descoberta da singularidade é o processo de Celestial. Mas ao invés de muitos lugares-comuns (a transição rústico-elaborado), sente-se um empenho pela composição muito bem executada nos dois momentos. Há espaço para a poesia e espaço para a confusão também (não que a poesia seja sinônima de certeza, inclusive as palavras indicam o contrário), ambos os ambientes habitados pela voz, pelos instrumentos de cordas e os pratos. Há o comportamento distinto em dois momentos. Porque o reconhecimento da singularidade de Anna no vazio celeste exige essas transformações.


Mas não se enganem por toda a beleza que a áurea de Celestial exibe. Já disse que há espaço para tudo nesses treze minutos, inclusive para o caos. As trompas invadem e provocam uma zona sonora. De repente, a voz de Anna cede e parece que ela não tem mais tanta certeza. Essas convicções desmanteladas, no final, é o que vão garantir o espaço para a poesia final. A poesia nasce da confusão e do incerto, das tribulações que formulam nossa existência. Somos humanos filhos dos erros. Há tanta beleza nisso que Anna a transpõe para um pacto com o celeste.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Gustavo Jobim - A New Life in a New Planet [2015]

É raro hoje em dia encontrar algum paralelo para o corpo sonoro poderoso que Gustavo vem construindo. Estranhamente pouco citado, eu sempre me pego surpreso com a capacidade de sua música me “deslocar”. São tentativas muito verdadeiras de moldar sons tão densos em uma estética que “narre” algo. De alguma maneira, A New Life in a New Planet me soa como um desbravamento- uma única longa canção de quarenta minutos que tenta localizar espaços menos óbvios, localidades ainda não pensadas.

É por isso que A New Life in a New Planet tem uma sonoridade fantástica. É impressionante como uma quantidade absurda de efeitos variados em um mesmo instante consegue estabilizar marcas. Tenho isso como cenas na minha cabeça; cenas de dificuldade enorme, pois poucas coisas são realmente agradáveis nesse álbum. Se em Inverno tínhamos um poderoso solo de guitarra para nos orientar durante a passagem em um terreno nada hospitaleiro, nesse disco tudo soa como extraterrestre. Sons alienígenas tão surpreendentes como improváveis que invadem sem aviso algum qualquer zona de conforto. É por isso que insisto; ouvir cada álbum de Jobim é se surpreender.

Em seu bandcamp, Gustavo informa que esse trabalho é diferente dos anteriores, pois tem mais camadas e efeitos digitais. Eu me pergunto como foi o processo de criação, me parece que A New Life in a New Planet objetiva uma chegada bem obscurecida, se não inexistente. Eu nunca precisei de temas para ouvir música. Acho que é por isso que credito tanto a esse álbum. Há algo na música de Jobim que “só” ele consegue fazer. Não me refiro a tecnicismos como “densidade sonora”, musicalidade ou produção. Quero dizer que há certa “ordem” que não consigo identificar propriamente que traz essa sensação de “transe” durante toda a audição. Cada variação invoca uma nova imagem, de modo que temos uma justaposição bem ruidosa de elementos que se encontram nesse clima realmente “estranho” que Gustavo imputa ao disco.

A discografia de Gustavo está cheia de discos “climáticos”, ou seja, álbuns que nos deslocam enquanto ouvintes. Suas múltiplas abordagens refletem um artista interessado em não se repetir, e embora nós encontrássemos aqui muitos elementos semelhantes ao Tsunami, por exemplo, estes soam completamente autênticos. Repito, Jobim é um músico interessado em terrenos que não foram totalmente explorados, por isso as consecutivas audições de sua obra nos revela desbravamentos incessantes de diversos ângulos. Alguma força reside oculta sobre a diversidade sonora de New Life in a New Planet, mas ela sempre está tangível, sempre a deriva- como uma paisagem que ainda não vemos, ou uma localidade escondida atrás das árvores na beira da estrada.


O maior trunfo desse álbum é também sua maior, digamos, “inconveniência”. É nitidamente um disco difícil, mas realmente divertido à medida que vamos avançado. Ele parece que fica menos “escandaloso”, mas aquela estranheza inicial permanece. Ora, tamanha monstruosidade não era provocada pelo volume do barulho e pela soma dos efeitos, mas principalmente pelos sons que estes emitiam- um contraste gritante com o que estamos acostumados a ouvir. Algo difícil de encontrar mesmo nos recônditos mais profundos, algo novo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

hateyourmusic - tenha bons sonhos [2015]

Gosto de falar sobre discos, aqui, “a partir” da percepção. Ou seja, como a música de tal artista realmente me atravessa e a experiência que esta me propicia. Acredito que isso seja mais honesto e não estou tão apto a falar de “gêneros” ou “tecnicismos”. Acredito que isso cega a conversa e o diálogo/rombo que a arte pode causar. Digo isso porque “tenha bons sonhos” perfurou minhas sensações desde a primeira audição.

“tenha bons sonhos” trata, principalmente, de problemas grandes. Problemas enquanto indagações numa escuridão profunda. Os signos que importavam tanto pra gente (o desmoronamento de uma casa) se dissolvem em desilusões presentes, onde apenas restam rememorações angustiantes do que se passou. São essas narrativas misteriosas e inconclusivas que ambientam o disco. Relações entre o que “está submerso” e a estética, onde expressar essas obscuridades se torna a complexidade do próprio discurso. Trata-se de colisão, as mesmas memórias que nos formaram são nossas fraquezas, e reparamos na nossa fragilidade, em afirmações tão simples ainda assim essenciais (“porque tudo é em vão”). É trazida a nós uma lamentação profunda e verdadeira de quem sente a vida (assim com suas fortalezas, sua segurança) escorrer pelos dedos. O que podemos ver, depois de tudo que passamos? Nossos sofrimentos e nossa tristeza não nos ensinaram nada?

O álbum é dividido em duas partes e a segunda, conforme o próprio bandcamp do projeto, é destinada para “relaxamento”. São duas longas faixas, que tratam de impressão- a figura da mulher que some na escuridão noturna. Mas diferente talvez da primeira metade do disco, há nessa segunda etapa uma “aceitação das ilusões”. Tanto que a ambientação aqui se torna preponderante, como se o “eu lírico” que habitava as canções anteriores fosse lançado para um local imerso em “aparições”. A abordagem mais onírica contempla uma espécie de vazio, há um deslocamento e não estamos mais em lugar algum, as indagações também não têm mais tanta importância. Há uma espécie de deslumbramento nessa manifestação, sua finalidade não é explicita- e sinceramente duvido que de fato tenha alguma “finalidade”. É quase uma exposição do “nada”, as transições de um local “vazio” para outro. Não por acaso o álbum tem o nome de “tenha bons sonhos”, se dormir é um espaço de tempo onde objetivamente coisa algum acontece. Quase um ritual místico para o “sono”, para que a tristeza de toda a primeira parte possa ser -durante esse período- esquecida.

Claro que esse esquecimento temporário não significa uma tentativa de fuga. Ao acordar vamos ter que confrontar com as mesmas merdas pendentes do dia seguinte, não há escapatória. Justamente por estarmos nessa prisão sem saídas, que devemos aproveitar ao máximo esses períodos “entre” os acontecimentos. A última faixa, “boa noite, punpun” é uma referência ao mangá Oyasumi Punpun, de Inio Asano, onde a personagem principal passa por uma série de situações que o força ser adulto, onde as pessoas tentam encontrar significado para sua existência, e no fim ninguém encontra um significado pleno. Aliás, “tenha bons sonhos” encaixa completamente no ambiente do mangá. As emoções que se contradizem, o ciclo que nossa vida se transforma e ainda sim uma realidade imutável, praticamente intransponível. Dessa morte inescapável, porém, surge a poesia, as iminências que atravessam nossas experiências e fazem brotar sensações que nos atinge na pele, potencializando nossas possibilidades, nossas angústias.


Toda essa sensação de prisão que perpetua a audição de “tenha bons sonhos” é de uma constatação de nossos limites físicos, sofrimentos psicológicos. Nós queremos morrer, nós queremos viver e é justamente essa diversidade (que muitas vezes nos esgota) que cava sentimentos mais profundos e sinceros. O hateyourmusic amplia seu espaço (o espaço “negativo”, o campo da “escuridão”) para valorizar as coisas que ficam retidas. Para evidenciar o massacre da realidade e se maravilhar com o vazio.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Michel Banabila & Oene van Geel – Music for Viola and Electronics II [2015]

Ouvir trabalhos como Music for Viola and Electronics  II é algo recompensador. A interação entre Michel e Oene, que se conheceram na Cloud Ensemble, entusiasma pela dificuldade dos temas propostos e como estes são tratados com a densidade necessária. O tempo é estendido e seu andamento lento provoca suspense, pela repetição dos sons eletrônicos, um verdadeiro drone, para inserções pontuais do violino que, mesmo tentando evadir essa estrutura inicialmente rígida, constrói em sua “prisão” versos verdadeiramente bonitos. A relação é expressa cuidadosamente, em uma lenta comunhão que muitas vezes se extravai para além da percepção conceitual. É um tipo de música que trabalha intensamente com conceitos, mas está primariamente fundada no que essa imersão extracorporal realiza com nossas percepções. Até a “entrada” na parte mais sinistra do disco, que se inicia na segunda faixa, é uma transição de modo que o último período da música se estenda para outra- estamos claramente falando de prolongamentos.

Os eletrônicos densos e meditativos de Michel são perfurados quando combinados para a viola, mas não que um tenha necessariamente função oposta ao outro. Muitas vezes a viola cria o ambiente também enquanto a parte de Michel soa alto, revelando influências do dito dark ambient e do noise. De alguma maneira, é como se toda a potência de ambos os espectros tentasse ocupar o espaço do outro, não em forma de disputa, mas uma compreensão de possibilidades e o que tais atritos podem efetivamente criar. É certamente algo que soa além da simples soma entre sons mais “clássicos” dessas diferentes abordagens. Provavelmente releva um espaço novo sempre que tal atrito é criado, e por desconhecermos (e só estarmos dispostos a compreender o que nos viciou), foge de nossa apreensão.

Banabila disse recentemente que essa é apenas uma evolução natural de sua música, mas é engraçado como um músico de seu gabarito, que desde 1986 vem produzindo um corpo sonoro muito importante para a música eletroacústica, considera “evolução natural”. Obviamente mais minimalista que suas outras obras e menos seletivo (nesse álbum, por exemplo, não há inserção de nem um sample), também abdicou de uma espécie de multi etnicismo para algo que se aproxima às relações de causa-consequência.

Esse minimalismo focal, porém, cede muitas vezes espaços para construções cinematográficas. A última faixa lembra muito ambientes interioranos, e Oene nos apreende com violino e viola, onde as cordas variam entre o livre improviso e música clássica contemporânea. Essa música é exemplo da dualidade e confiança da dupla- nela, ambos os espectros realizam o livre improviso e uma construção mais metódica. Não consigo capturar o conceito de Music for Viola and Electronics II, talvez pelo que mencionei no primeiro parágrafo; a dificuldade em reconhecer novos territórios quando uma arte de vanguarda aponta elementos tão limítrofes. Curiosamente, quando os músicos convidados são introduzidos, que toda essa elaboração fica mais assimilável.


Passando por toda a obra Banabila (onde Spherics talvez seja a mudança completa de rumo) temos contrariedades inerentes à visão complexa que um artista tem da música. Onde as expectativas possíveis se equivocam a cada lançamento. Mas repito, é um corpo sonoro poderoso. Eu indicaria Spherics como o melhor ponto de inserção, porque os direcionamentos de seus discos nos deixa sempre a sensação de algo realmente “grande”. Onde meros “formatos” são dissolvidos em prol de um caráter mais honesto em um lugar que as sensações ficam em primeiro plano. Ou seja, um compromisso radical com sua visão de vida, que indubitavelmente está em cada segundo de suas músicas.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cássio Figueiredo - Dias [2015]

Há pouco menos de um mês eu falei sobre o primeiro EP que Cássio lançou esse ano, Dias, e de como me inquietava o que os músicos contemporâneos (principalmente os ligados ao noise e suas variações) tinham em mente quando criam suas obras, muitas vezes estas, o contrário de conceitos chulos e clichês como “música orgânica, fluída, sólida, etc.”. Se em Diário, Figueiredo já não se subordinava às execuções simples –inclusive “desobedecendo” a temporalidade suposta na nomeação das músicas- em Dias temos esse rompimento transcrito de forma concreta.

Os dias transcorrem mesmo de forma segregada, disparates que são impossíveis de “justificar”, “conceituar”. Isso seria domar o “tempo” e reduzir o poder iminente de cada momento. Por isso os cortes bruscos, a superfície inconstante e alta- é difícil situar com precisão, é complicado tentar encontrar a ligação que torna uma explicação real possível. Só há reminiscências do que entendemos por realidade e a forma que se pode absorvê-las para transformá-las em algo que ecoe. Não uma apreensão que tente copiar o que aconteceu- mas uma forma de massa sonora que seja consequência dos dias. Para isso Cássio utiliza memória e imaginação. E criatividade.

Assim como o decorrer dos dias, os elementos aqui parecem dispersos. Reúnem-se, depois somem. Essas mesmas “aparições” foram realizadas em Diários, só que nesse EP os fragmentos estão mais dispostos e mais variáveis, até. E a imposição de tantos sons periféricos integram lembranças, reminiscências e certa aleatoriedade. É a vastidão interna que Cássio compõe- as contradições cognitivas que nos possuem no passar de uma medida (no caso, o tempo). Temos uma análise final, de qualquer forma; aquele terreno descentrado onde reconhecível e irreconhecível se convergem tanto que passamos mais a acreditar no que é imediato. Essas frequências acusam, então, uma confusão mental que Figueiredo espelha em forma de retratos sonoros e imagéticos- as ondas, as músicas, as vozes.

A não divisão em faixas torna ainda mais aberto ao ouvinte à transferência destravada de memórias que caracteriza Dias. Como a partir de um minuto e quarenta, onde uma imensa onda sonora surge vibrante, para depois se aquietar. É um fluxo de lembranças e esse fluxo tem suas marés. Isso torna o “surgimento” (em qualquer das suas formas; ruídos, distorções, melodias chiadas) a característica principal dos registros afetivos de Figueiredo. São portais da percepção que preenchem toda a escuta com “entradas” e “saídas” tão surpreendentes que não podemos constatar exatamente onde começa e onde termina. Confiar “apenas” no modelo intuitivo e suas deliberadas maneiras de criação- e ainda assim produzir texturas tão incisivas e intensificadas- garante uma liberdade cuja qual Cássio tem discursado em todas suas gravações.


Fala-se tanto sobre “interioridade” e “personalidade” na criação da música contemporânea, que muitos se esquecem de que o que realmente está em jogo é o que “suporta” conceitos tão poucos expressivos. Figueiredo utiliza sons para questionar sua própria construção como indivíduo e se baseia em mundo próprio que, às vezes, parece um exílio. A memória é usurpação também, não nos esquecemos. Dos outros e da nossa confabulação. O que resulta em uma dissonância que aperta a concepção de “entidade” contra a parede. Uma espécie de apropriação desorientada e, em certo ponto, mística.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Astronauta Marinho - Menino Sereia [2015]

Qual é a música que um menino pode cantar para soar como uma sereia? Ainda faz sentido, na disparidade do contemporâneo, tentar encenar melodias “doces”? Menino Sereia pode não ser um álbum conceitual, mas em seus momentos mais etéreos temos uma dinâmica interessante: a manifestação lúdica através de ecos e delays, o som do mar se confundindo em uma paisagem que tenta, a todo instante, representar a “multiplicidade” urbana. Não se trata exatamente de um suposto urbanismo, mas há nessas articulações uma estética que denuncia lugares em movimento, uma música que recusa a inércia. As baterias precisas atrás de versos de guitarra que, quase sempre, preferem uma construção mais sóbria e acessível, construindo esse estranho “aconchego” nas grandes cidades.

Embora podemos, facilmente, relacionar o Astronauta Marinho com muitas das bandas que emergiram do “pós-rock”, uma especificação da banda nesse gênero seria tolice e uma espécie de redução. A integração entre piano e contrabaixo, em faixas como Xote para Goya, deixa claro o afastamento de clichês do gênero. Há aqui traços mais proeminentes de jazz e música eletrônica também- são reverberações que progridem em contraponto ao lado mais “clássico” do conjunto. O disco não trata de “desarranjos” e duvido que eles queiram trazer essa sensação em algum momento. É uma música assentada na celebração (à sua própria maneira, obviamente). Eles têm um acervo extenso e propõem direções curiosas nos andamentos da música, ainda assim caprichando na produção- o som das águas, os ecos mínimos que surgem apenas em um lado do alto-falante. É uma vibração de transformação fluída, sem forçar a barra. É um disco que eu facilmente ouviria com alguns amigos comendo batata frita e tomando cerveja e filosofando sobre nada. Toda essa manipulação de diversos elementos sempre deixa uma brecha, algo aberto para elementos psicodélicos, em uma interação que, com certeza, foi muito ensaiada anteriormente.

As passagens variam e saem da mera contemplação para estados mais físicos, mais urgentes- mais vivos. Embora seja um disco com muita “energia”, Menino Sereia é a busca de um balanço, a busca de qualquer que seja o equilíbrio entre o ruidoso e o contemplativo, entre as fáceis definições e algo mais ousado. Crazyneide é essa busca, essa alteração contínua entre estados divergentes. Curiosamente, como pano de fundo, temos um som meio “estranho” que não nos abandona. Reconheço esse eco, é aquele som mais estridente e alto da Intro. É como se o ciclo começasse novamente. Negord! tem sua ambientação calcada em versos de guitarras que se interagem em uma melodia própria formada por diferenças nas notas, no volume.


Menino Sereia não é um apelo a “técnica” musical, e sim quer comprovar um ponto de vista que encontra alegria na manifestação das coisas (dos sons, no caso). É maravilhoso que isso aconteça porque esse disco exige outras escutadas. Ele consegue radiar sem simples abordagens, ele consegue ser acessível enquanto não é “mais do mesmo”. Uma zona mística entre folclore, senso comum e experimentações sonoras gestadas na observação de um ambiente que simplesmente se desenvolve.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

SŎNAX - SŎNAX [2015, Seminal Records/2008, Creative Sources Recordings]

Se música é essencialmente representação, eu não consigo de forma alguma encontrar a essência do representado no SŎNAX. Obviamente que nada é tão simples, e nessa gravação temos uma estética que flui em micro dissonâncias onde a abordagem da experiência pode nos auxiliar a verificar essa falta de “núcleo” no som, podemos encontrar referências concretas mais que uma mimética, mas atravessamentos. Podemos encarar (apesar de certa “concentração” em instrumentos bem específicos) como uma justaposição de “elementos concentradores”- ao menos é o que parece “jardim dos seres e não seres”, onde há uma variação considerável de elementos que se intercalam e se justapõem. Ainda nesses surgimentos efêmeros de uma suposta “ordem”, não há determinação. Como nada é determinado, cada instante é crucial como uma palavra na poesia. É um espaço convidativo ao ouvinte, que tem suas perspectivas potencialmente ramificadas e talvez no fim ele se questione o que condicionou certa perspectiva.

São tradições paralelas que coabitam o mesmo espaço que o SŎNAX oferece- como nossa percepção recebe essas manifestações e como ela encara isso ao que referimos como “conceito sonoro”? Parece uma distribuição de sensações e desenvolvimentos tão característicos que rejeitaram sua matriz. Tudo precisa ser escutado, mas também tudo é insinuação de espírito, de intelecto. O SŎNAX não agride nossa intimidade, mas desloca em uma frequência e vemos como ela é frágil, equivocada. Tudo não precisa ser escutado, ainda assim continuamos.

E como ressoar, da forma mais honesta possível, esses atravessamentos? O próprio Takemitsu falava sobre transcender o corpo para permitir o surgimento da música. Mas a maneira ocidental de técnicas está pulverizada e é difícil encontrar o que não seja mera mimese de intelecto, ao mesmo tempo, “estudo para uma improvisação sem desenvolvimento” estimula uma reação espontânea, inédita. O desenvolvimento então não passa por uma “disciplina” e os ouvintes também são premiados por essa inauguração- o que acontece é um ambiente determinado a todo instante, aniquilando o antecessor, estabelecendo o seguinte, sem pausas. A noção de unidade é algo notoriamente mais estilhaçado, é algo que pode ganhar corpo quando as justaposições se iniciam e é algo que é dissolvido no isolamento de elementos sonoros. É um balanço sensível entre o desenvolvimento enquanto conceito e do isolamento enquanto liberdade. Nem todos “desenvolvimentos” são naturais, muitos poucos, aliás, então o campo se ramifica nessa pretensão- de respirar, de revelar expressões pessoais sem “intermédio” de algo que legitima o discurso. A fragmentação não é esse intermédio, mas ela própria a linguagem. A música não nos diz nada, ela não é nada, mas ela nos convida através desse espaço vazio.


SŎNAX é um período que sugere dilacerações com o espaço presente. É um espaço que necessita do ouvinte para qualquer coisa- significado, essência, ou o que raios sejam. As faixas têm o nome de “estudo” muitas vezes, mas, especificamente, não é nesse terreno que eu gosto de me debruçar e prefiro encarar “estudo” como um terreno de preparação para descobrir o que o som pode revelar. Para que os espaços vazios não carecessem de seres que não os habitem e não os celebrem. O compositor é o criador, mas diferente de meras convenções, ele não é um criador que estabelece significados- dele, “apenas” ocorre a distribuição do som no tempo e no espaço. O som é a expressão humana que irrompe essas medidas, ele é a desmedida. O objetivo de uma composição não tem que necessariamente ser claro, ele fica mutilado em rastros e experimentos, ele é dissolvido em avalanches instrumentais, ele também não é nada sem um ouvinte. Talvez o maior objetivo do SŎNAX seja forçar o ouvinte a criar um espaço ativo. Uma alquimia. O ouvinte tem que participar além da contemplação, essa contemplação tem que se tornar força. Não é como se eles não criassem nada. Eles criam um convite. Um gesto inaugural.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cássio Figueiredo- Diário [2015]

O “processo de criação artística” sempre foi algo que me fascinou quando eu comecei a ir atrás desse negócio que chamamos de arte. No entanto, desde que a Internet se mostrou (pelo menos para mim) como principal meio de transfusão de movimentos artísticos, esse mito foi se quebrando. Quero dizer, com essa emanação de artistas e músicas no sistema faça você mesmo, estabelecendo ruídos discrepantes com ambientações que anseiam por autenticidade, fica evidente que esse “processo” está cada vez mais voltado em uma manifestação estética interna. É isso que temos em Diário, EP que surpreende pelo seu movimento descontínuo e, de certa maneira, desconfortável.  O ouvinte cai em movimentos que se repetem, irrompem e se desintegram.

Esses movimentos ‘imperfeitos’ de desintegração atravessam estilhaços como espectros. São significados disseminados através de diferentes freqüências que evocam cada dia de Diário como um espanto- parecem dias longos, perpetuados pela manipulação de Figueiredo. Justamente essa percepção multiforme (os dias mudam, afinal) que destacam a singularidade desse lançamento do Cássio. Ele não insiste na saturação e extrapolação, mas desenvolve mini temáticas em cada faixa-dia. Dias rendidos em um diário.

Por essa questão de múltiplos atravessamentos que evito referir a esse EP como minimalista. Embora haja influências claras, cada dia aqui contém sua inquietação. Óbvio que se Figueiredo fosse fazer algo mais uniforme e fechado às mediações externas, ele lançaria uma ou duas longas faixas. Esse sistema completo que pode ser Diário indica a impossibilidade de um ciclo. Muitos ruídos se repetem aqui, mas o confinamento temporal em Diário é abandonado para a percepção afetiva de quem o redige. Diário é uma unidade na medida em que foi pensado pelo mesmo músico em um conceito e essa sensação de bloco único se desintegra enquanto avançamos nas faixas. A certeza de continuidade morre na audição e persiste no nome das músicas “Dia 1, Dia 2,...”. Eu posso estar interpretando isso completamente equivocadamente, mas a própria música reage contra sua pré-nomeação. Se não é um disco explicitamente de diversidades, suas recaídas e insinuações aplicam alterações abruptas nas sensações.

Não em um movimento convidativo, Figueiredo desafia o ouvinte a não ser só testemunha. Diferente, por exemplo, do que acontece em Disintegration Loops, que também é um processo de desintegração. A problemática de Diário se constrói com a mesma dificuldade que é passar pelos dias. Recaídas, explosões de blocos sonoros, uma melodia mais agradável que lentamente se transforma em uma espécie de sussurro fantasmagórico, alternações abruptas no volume. Em Dia 1, há uma mínima insinuação de desintegração na “melodia” que inicia a faixa. Em Dia 2, o bloco que terminou a faixa antecessora ganha mais vibração e continuidade. Os sons são descontínuos, outros ruídos são mais resistentes, o volume se altera novamente. O que faz um dia ser encarado como unidade, então?


Essa descontinuidade e incerteza que caracteriza Diário. Uma efemeridade enorme e sensações que não podem ser explícitas em medidas temporais. Temos um período, mas estranhamente, a música não trabalha para esse bloco de tempo. Ela revela outra coisa. Que tudo pode acontecer agora e que exatamente nada vai acontecer. Há a continuidade dos dias, mas uma inércia que justifica alterações abruptas e rompem esse conceito de linearidade. O anúncio de uma melodia pode morrer antes mesmo dela ganhar vida.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Gustavo Jobim & Visszajáró – Arrival [2014]

A abertura que os sintetizadores em Visitor (uma das melhores músicas do ano) propõem, pode resumir bem todo o conceito de mais um disco lançado pelo Gustavo Jobim, dessa vez com a dupla sérvia Visszajáró.

Embora ainda haja muitos sons na mesma freqüência, parece que Jobim decidiu expandir seus temas e os contra-pontos são desenvolvidos com mais “espaçamento”, enquanto ainda nos deparamos com as passagens tão habituais de signos sonoros que não conseguimos identificar claramente, uma espécie de aparição. Mesmo sendo decididamente experimental, há certos espectros sonoros que se fixam em nossa mente, apesar do minimalismo dominante. Curioso que certo “radicalismo” estético interaja com essas projeções e tanta coisa floresça daí.


Essa ambiência “obscura” criada pelos artistas, porém, abriga elementos eletrônicos que podem até ser considerados “dançantes”. Talvez Jobim não aumente sua base de fãs em função desse lançamento, e sinceramente duvido que esse seja o principal objetivo. Já estamos no ponto de afirmar que é algo “típico” de Jobim, o que certamente significa uma construção de uma obra muito prolífica. Certamente, em progresso.

domingo, 17 de agosto de 2014

Entrevista com Is Anybody There?

Totalmente baseado no "faça você mesmo", o "Is Anybody There?" é uma dupla de São Caetano Do Sul, São Paulo que emerge em sentimentos do dia-a-dia para potencializá-los através de música. A sensação de que a vida pode ser bem mais do que é e de que pequenos momentos que realmente importam. A dupla é composta pelo Rafael Imamura que conduz a percussão, e Rodolfo Gatti (violão/voz) que respondeu algumas perguntas, falando sobre seu estilo de composição, bandas favoritas, envolvimento com a música e mais:
-


As músicas do “Is Anybody There?” são muito convidativas, atraentes e íntimas. Por que a opção de ir mais “para esse lado”?
R: No momento que penso em escrever uma canção, penso em tudo que vivi e tudo que estou vivendo. As vezes até, me inspiro nas situações íntimas de outras pessoas. Atualmente tenho escrito mais músicas de amor, com base na Gabriela, minha namorada e algumas letras com bastante ódio, raiva, a respeito da hipocrisia, moralismos e também dos políticos.

Seu trabalho do dia-a-dia  influência, de alguma maneira, suas músicas? Como é o processo de criação do instrumental?
R: O trabalho influencia, principalmente quando estou cansado e pensando em desistir de tudo. Quanto ao instrumental, o processo é simples. Faço os acordes e se sentir que aquilo tocou meu coração é o que vai ser. Não tenho noção de partitura, nem de porra nenhuma, deixo as 6 cordas me guiarem de uma forma transcendental, mágica e divina (divina no sentido de incrível e não no sentido, deus está me guiando, ou algo do tipo, pois não creio em deuses e religiões)

Quais são as bandas que mais te influenciaram?
R:As minhas maiores influências para compor são: Érico Junqueira, Nenê Altro, Legião Urbana, Portishead e Radiohead.

Como São Caetano atua na maneira que você compõe a música?
R: Creio que São Caetano não atua em quase nada. Apesar de ter bons amigos aqui, não sou fã daqui, meu coração é expatriado de São Caetano, São Paulo e Brasil. Creio que o universo todo atua na maneira, com seus eventos cotidianos, seja fora da terra, como dentro dela.

Lembrando-se de tempos mais distantes, como você se envolveu com música?
R: Desde pequeno tenho influências do rock, MPB e bossa nova, graças aos meus pais. Meu pai sempre foi um ás do violão e isso também sempre me deixou louco para aprender um instrumento. Aos 16 anos comecei a tocar violão! Uma sensação maravilhosa, uma liberdade gostosa. Não sei como explicar, sério! Atualmente canto e toco cajón também, se precisar haha. Quero aprender a tocar a gaita que meu pai me deu no ano passado, espero que consiga!


Quais são as coisas que você escuta hoje, que ainda escutava nos tempos de garoto?
R: Vamos ver, hummmm... porra, tem o Capital Inicial, mesmo achando que o Dinho ouro Preto é um trouxa, o Linkin Park, Gorillaz, Nirvana, Good Charlotte, Djavan, Iron Maiden, Green Day, Nenhum de Nós, Engenheiros, Legião Urbana, Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Raul Seixas entre outras aí.

O  “Is Anybody There?” tem planos para esse ano?
R: Nesse mês de agosto fechamos um contrato com uma “gravadora” independente chamada Selo MIV. A proposta dos caras é ajudar o cenário independente brasileiro sem alterar estilo musical da banda, letras da banda ou vestimentas. Com essa parceria aí, gravaremos um novo EP em Novembro.  Além dessa gravação do EP, eu gravarei uns sons, como se fosse projeto solo para jogar no youtube. Um deles, intitulado Ideologia, terá a participação do Batata (Douglas Barbosa). Acho que só, tudo que veio em mente por agora.

Explica pra galera como funciona o Musicômio.
R: O musicômio é um programa que passa toda quarta feira das 21h30 às 22h na www.radionagem.com.br  e tem como objetivo ajudar o cenário independente. Toda banda que tiver um som gravado pode mandar mensagem via inbox na facebook.com/musicomiooficial e solicitar participação no programa.

É isso ai mano. Deixa um recado pros nossos leitores. Valeu!
R: Um recado? Afaste-se de tudo que faz mal, não deixe professores retrógrados acabarem com seus sonhos, não seja escravo da política, seus sonhos não cabem em uma urna.Liberte-se dos dogmas religiosos! Acredite no que quiser, mas você sabe que não precisa de um líder religioso para dizer-te em quem acreditar ou para cagar regras na sua vida. No fim das contas a política e a religião só querem adestrar você, te condicionar em um sistema podre e falido. Não seja mais um que apóia a repressão policial e lute para que seja livre, livre para fazer o que quiseres. Fume, beba, leia, ria, ame, faça o que quiser, mas não interfira na vida de outra pessoa, faça o que quiser, mas saiba os riscos que isso trará a você.
E pra fechar, um trecho da música “A Vitória” do Dance of Days: “Hoje celebramos a nossa vitória contra o império da tristeza e do medo da escuridão. Nunca mais viveremos à sombra de teus deuses e reis!”
-