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terça-feira, 26 de maio de 2015

AVA ROCHA – AVA PATRYA YNDIA YRACEMA (2015)

Depois da dissolução da banda Ava, Ava Rocha lança seu primeiro disco em projeto solo. Pode-se ver esse novo disco como uma série de evocações. Já que está em lançamento próprio, a cantora parece mais disposta a experimentar por diversos terrenos. As certezas estéticas se esvaem em múltiplas sonoridades, como se estivéssemos em um espaço totalmente livre e pudéssemos nos dirigir para onde bem entendêssemos.

Talvez essas voltas que, à primeira ouvida, parecem despreocupadas demais, denunciem uma artista demasiada compromissada com os detalhes. AVA PATRYA YNDIA YRACEMA é cheio deles. Essa liberdade vai muito além de meras reverências, porque a música de Ava pulsa numa tentativa de escapar de uma espécie de prisão, da solidão. Ela quer a liberdade de andar pela rua e se deslumbrar pelas possibilidades da caminhada. Parte-se desse “pensar que é” para olhares mais aguçado ao redor, numa tentativa de desconhecimento de fórmula simples. Como em “Transeunte Coração”, o amor de Rocha se localiza no deslumbramento do desconhecido. Ela foge de domesticações que muitas vezes esse tipo de música (popular) impõe para respirar num lugar mais brando que ela mesma não cessa de construir. Com a frase “não sou em quem você procura” ela já deixa bem clara suas intenções. Ainda que esse coração pulse, ele não trás os vestígios da imposição contemporânea de uma suposta “necessidade” de ser amado. Ele quer bater livremente. Essa definição de “si” pode parecer provocação, mas só quem pensaria nisso seria uma pessoa muito presa em conceitos ultrapassados.

Não deixa de ser surpreendente; estruturas que a rigor pareciam mais “comuns” transmutarem-se completamente durante as músicas- aderindo microfonias, chiados, etc. Mas a vastidão que AVA PATRYA YNDIA YRACEMA certamente cobre é toda direcionada pela intimidade de Ava. Mesmo com todos os escapes sonoros (e acreditem, eles são muitos), a voz de Rocha perdura em ambos os planos – no campo onde o experimentalismo avança, e nas transições relativamente mais simples (se comparadas com os momentos mais “porra-louca” do disco). Ela habita todos esses lugares, e com muita coragem ousa desbravar esses terrenos. Era de se esperar, no entanto, que as duas seções não soassem tão próximas. É exatamente o que não ocorre. Em “Mar Ao Fundo” temos uma explosão sonora absurda sobre um clima mais “inofensivo” que a canção construiu. Não se trata de “elementos surpresas”, mas de uma exploração corajosa, sem meias verdades. Vemos a intensidade ao mesmo momento em que a brandura existe, porque ambas as sensações têm a mesma matiz. A arte de Rocha, no caso.

Claro, se ela que canta, essas sensações obviamente teriam o mesmo ponto de partida. Contudo, repito, embora existam vários momentos que a progressão sonora se “dispersa” em ecos, microfonias, cordas soltas, a transição para essas catarses representam também o caos que os momentos mais calmos exprimiam. Não à toa, o movimento de transe hipnótica em “Mar Ao Fundo” cai positivamente em um violão e um assobio. O que acontece em todo o disco; os movimentos de “repulsa” e “atração” se sobrepõem, nunca existem individualmente. Estão amarrados na voz de Ava. Ao fundo de todos esses rompimentos e retornos a certo tipo de sobriedade, a mesma inquietação em doze canções que rompem significantes simples para estabelecer uma nova voz poderosíssima. A banda de roque da garagem, o livre improviso, litorais com luau, confusão urbana- Ava traz a cacofonia confusa do mundo contemporâneo justamente para celebrar uma imensa incerteza. O ponto é; percebe-se essa intensidade também nos momentos calmos. Ela é onipresente.


Todo o transe em AVA PATRYA YNDIA YRACEMA evoca um gosto pelos limites da vida, em que se pensar nos sentimentos doces canaliza lembranças que se convergem para uma expressão tão abrangente do presente. Mas Ava fornece esse aspecto a partir da sua intimidade, que se mostra profunda. E se tal análise se expressa por uma voz tão contundente como a dela, que nunca se debruça sobre a monotonia, melhor ainda.

terça-feira, 19 de maio de 2015

DUDA BRACK – É [2015]

Depois que me falaram após algumas cervejas em um boteco, de que eu “precisava” ouvir o álbum de Duda Brack, o fiz assim que cheguei a casa, com expectativas altas. Devo dizer, que de primeira, as melodias da cantora me soaram muito próprias, fugindo do senso comum. Mas seria apenas a voz poderosa de Duda o elemento forte do disco? Aí que a guitarra distorcida surge. Inclusive, “É” é um disco que se trata de interpretações que Duda realizou de outros artistas. Sentimos nela uma necessidade de encarnar essas músicas de diversas autorias, realmente forçando incessantemente sua voz em cada uma. Brack é daquelas pessoas que não “esperam” a inspiração- as músicas soam mesmo como se houvesse a necessidade implacável. Ela decididamente prefere arriscar.

O jogo forte que a distorção da guitarra impõe funciona como locomotiva para qualquer suposta “zona” de conforto que Duda possa pensar em se acomodar. Apesar dessas “apropriações” de músicas alheias, sente-se que Brack viola as expectativas que se pode ter dessas versões. A escolha delas também contribui para a ideia de voracidade que suas interpretações causam. O espírito de Duda se crava ferrenhamente nessas concepções, porque com certeza elas desde sempre a habitaram.

Não deixa de ser impressionante o fato de este ser o primeiro disco da cantora. Sua interação com a banda vai além do mero “eles ficam bem juntos”. Essa produção faz um necessitar do outro, as melodias se confundem com a música popular brasileira enquanto o instrumental tem decididamente um pé forte no rock. Mas todo esse conjunto forte que o instrumental propõe alcança outras proporções com a voz fortíssima de Duda. Os instrumentos ficam mais potentes porque a interpretação da cantora os alça a outro nível.

Claro, as condições do álbum também proporcionam essas “minicatarses” em cada canção. Trata-se, principalmente, de “não narrações” que estabelecem cenários impulsivos revelando as mais variadas condições da cantora. O que acontece na abertura lúdica de “Venha”, que conta com uma narração que inicia como um “sonho”. Aos poucos, a tensão vai se desenvolvendo, como se o objeto “por vir”- Agatha Christie, José Saramago- fosse chegando mais e mais perto, numa evocação de espíritos. O próprio ambiente vai se “distorcendo”, afinal estamos mesmo em um terreno muito estável e transcendente.

Mesmo nas suas declamações finais, que são mais calmas que toda a pegada do disco, Duda afirma sua ideia de “desmedida”. Ora, é essa mesma desmedida que curiosamente regula o disco, em um campo onde a tensão é constante. Possivelmente o “conceito”, se é que o disco tem um, é apresentar uma artista que, embora não tenha suas decisões límpidas e concretas, quer se atirar, quer enfrentar.


Pela pouca idade, muitas pessoas certamente pré-julgariam alguma “ingenuidade” no comportamento de Duda. O que, obviamente, não ocorre. Brack busca uma voz própria a despeito de todas as contrariedades do mundo, que são colocadas na música. É uma cantora de desafios. Mas ela se entrega tanto a cada canção, que o estímulo se confunde com uma vontade absoluta de provocar tanto o ouvinte como o próprio instrumental, que caracteriza Duda como uma líder de banda nata. Essa essência de puxar limites é a sensação que “É” enquadra. Não serão meras apropriações de composições de outrem, mas esforços pesados em uma direção para além do que aponta o senso comum. Tudo isso, vale lembrar, num álbum de estreia.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Juçara Marçal- Encarnado [2014]



A relação entre morte e vida é óbvia. Recentemente, Juçara Marçal decidiu-se lançar solo, mas o que realmente surpreende aqui, é que ela traz elementos que eu ainda não havia identificado em sua música. Protegida por uma discografia de destaque ao lado de grandes nomes, o disco novo tem muita força própria e é prévio candidato aos melhores álbuns do ano.

Mas é óbvio que toda essa discografia não se sustentaria sozinha, era preciso arriscar. Para Marçal, interessa demais subverter as regras (?) ou estruturas tão tradicionais da música popular brasileira, e pra isso ela utilizou de certa dose de amor por Patife Band, Arrigo Barnabé, Letícia Garcia. Com antecedentes assim e sua própria história dentro da música, Juçara mais uma vez se reinventa ao apelar para a redução de instrumentos, que mesmo assim não se omitem a cacofonia, ruídos, barulhos, experimentalismos.

Assim, Marçal renasce com sua potencia vocal. É uma obra muito bem elaborada com letras invariavelmente rondando o definhamento, o aniquilamento e a destruição. Em suma, ela não tem medo de pegar melodias já conhecidas, relativamente famosas, e deixá-las ao doce julgamento de sua voz. A questão é que a cantora tem uma personalidade tão forte e interpretações corajosas e audaciosas.

Esta exposição deixa Marçal mais acessível, sem barreiras complexas para comunicação com ouvintes. Há diversas ramificações, cenários e alternativos para as versões incorporadas, que tem um grande apelo popular, embora ainda sob o “estranho” que habita o universo de Juçara. Existe essa acessibilidade que é possível perceber logo no inicio do disco, preparando para o que vem a seguir. A música vaga pelo samba, MPB e, claro, a vanguarda paulista.

Assim, ela está livre para interpretar as canções fora de qualquer acordo prévio, criando melodias são completamente singulares. As músicas revelam Juçara explodindo alucinadamente. Surpreende que tão poucos instrumentos retratem incrivelmente bem a dimensão visceral que Marçal utiliza na fragmentação de harmonias. Mas não se enganem; essa modulação tem todo um efeito cênico dentro do disco.

Podemos perceber instrumentistas bem alinhados, confortáveis com o espaço alheio. Porque Juçara transita entre o acessível e o essencialmente torto, os músicos providenciam o tipo de ambientação que segue essa coerência, e conseguem. Ou seja, um passo muito corajoso para a música nacional, confirmando nossa excelente produção que a todo o momento- seja por que raios for- queremos estar dando como morta.

Baixa o disco gratuitamente clicando aqui.