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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

a escavação vertical de Gnawed | as reminiscências vivas do Shimmer Crush

Gnawed :: Pestilence Beholden (Malignant)
Se boa parte da música que se convencionou a chamar de industrial e suas inúmeras variações tem um pé forte na performance, o início de Pestilence Beholden é poderoso neste aspecto; é como se a estética fosse as próprias ruminações do inicio. Não é bem uma introdução, não há tempo para introduções nesses simulacros de estrutura. A estética distópica, conturbada, obscura- ainda assim sintetizadores saturados prolongados que escavam o espaço. Pestilence Beholden é uma escavação vertical enquanto tudo que é deixado para trás é engolido por uma matéria seca; incrementada em abatimentos, formações disformes, aparições repentinas.

Se a base é uma performance e se a performance nasce através da experiência e se a experiência do Gnawed é puxar sonoridades árduas para um terreno de diálogo com o ouvinte e a partir daí estruturar os meios que Pestilence se desenvolve. As texturas massivas, os berros industrializados, os cânticos como plano de fundo- não é bem uma questão de "em que mundo estamos" mas como estamos habitando este inferno e ainda assim tirando algo disso? A isolação gritante na obra de Gnawed ( preferia referir como "isolacionismo", pena essa palavra não existir) é uma topologia que vai além de uma solidão admoestada; ela é uma solidão obcecada pelo controle caótico em um terreno organizado por rupturas poderosas. As gravações de campo e os vocais cheios de efeito são o transe da mesma obsessão. É como se o Gnawed quisesse representar não uma ambiência obscura que o envolve, mas como seu próprio estar-no-mundo (o acontecer de Hannibal) espalha certa nebulosidade. As tendências mais eletrônicas na música industrial não são para modernizar qualquer estética- elas são a forma de Gnawed tentar esboçar um não sufocar completo.

Ainda assim permitindo-se momentos de sonho em um pesadelo intermitente. Ainda assim há uma respiração que germina em toda a claustrofobia provocada por Pestilence Beholden. É como se a perseguição não seguisse qualquer rastro teu mas ela fosse intrínseca a qualquer forma que você assuma no mundo. Não há ser no mundo por tanto. Apenas um disfarce. E Gnawed reconhece que nestes trânsitos entre  o que há de mais densamente violento em neuroses modernas que encontra algum ar para respirar. E ele se recusa aos ares limpos. Ele se recusa ao idealismo.

Shimmer Crush - These Four Walls

Idealismo que nem entra em voga no cenário de reminiscências vivas que é These Four Walls. O álbum estabelece partículas (um fluxo constante de alterações de densidades sonoras, estranhamente continuadas, estranhamente insistentes) que envolvem o ouvinte numa arquitetura horizontal de possibilidades paralelas. É como se o glitch artificioso de Shimmer Crush celebrasse um enigma ao invés de tentar resolver qualquer coisa. Por isso, apesar de todos os elementos grosseiros que envolvem These Four Walls, Shimmer constrói sua identidade através do que ela não consegue capturar. Os layers, as vozes descontínuas e fragmentadas surgem numa rica textura que dimensiona a nostalgia. Ao contrário de Pestilence Beholden, Shimmer estimula uma visualização mais idílica com arte. Sem, com isso, emprestar qualquer inocência pueril que possa ameaçar a densidade do seu trabalho. As percussões ora manuais ora eletrônicas em um downtempo cortado por milhares de atravessamentos, a distância que a mesma nota tocada várias vezes provoca- é tudo muito extenso em  These Four Walls, estranhamente disperso.

Escapes entorpecidos com drones fraturados, cortes bruscos novamente, sessões harmônicas descontinuas, cânticos em completo desacordo com o ritmo. Os ruídos são modulados de maneira criativa; eles estranham o espaço mas se redistribuem nele; eles aceitam. É curioso que tudo pareça brotar de uma pulsação modular que tem como estratégia a busca de algo indefinido (talvez por isso a indecisão estética nítida no começo da maioria das faixas).

These Four Walls sai de qualquer conceito reducionista para expressar uma busca afetiva-racional que pelo menos elucida o caráter da apreensão- ou  tentativa dela. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ricardo Donoso - Machine to Machine

Impressiona muito a coerência dos últimos lançamentos de Donoso no decorrer dos últimos anos; é sempre essa áurea essa celeste, como se outros seres (trajados às vezes como espíritos ou entidades) fossem invadir nossos corpos. Sua obra é repleta de trabalhos atmosféricos arquitetadamente construídos sob a influência da utilização de sintetizadores.

Machine to Machine é realmente aquele típico trabalho que é melhor ouvir sozinho, com os fones de ouvido, imaginando cenários possíveis para a grandiloquência que é o clímax da primeira peça. O álbum, inicialmente, se revela como algo que vai conter muitas insinuações e detalhes que só podem ser percebidos depois de algumas ouvidas. O problema é que os “defeitos” nunca vão ser concretizados enquanto potência e vão permanecer no plano do interminável. A música de Donoso é muito pautada em riscos, mas aqui eles não soam perigosos; parecem efeitos que existem por uma aleatoriedade estética que Donoso raramente mostrou em sua carreira. Infelizmente, essa falta de força e fibra está em todo Machine to Machine.

Não é um disco coesivo como Saravá Exu em que a unidade da progressão sonora convivia com a repetição sem corromper nenhum propósito de Donoso. E não é nem que algo soe “corrompido” em Machine to Machine, é que não há ponto de ligação entre os microssistemas que o formam. Não é um processo de derretimento como o antecessor e pra falar a verdade, eu tenho alguma dificuldade para saber sobre o que se trata exatamente. Há, no entanto, em alguns momentos, uma pluralidade de sons que aponta redenções para o disco (elas só podiam acontecer mais). Aliás, é essa pluralidade que pode rasgar a faceta mais “frágil” da música de Donoso e aproveita melhor seu potencial.

Não é no conceito que Machine to Machine se equivoca, mas sim na falta de um cerne que realmente represente toda a história intencionada. Há intenção, mas não há evidências dessa intenção. Não há cortes, não há interrupção. Ao mesmo tempo, nada parece intencionalmente contínuo. Parecem sons aleatórios. Os movimentos não soam vivos (e não é realmente como se a morbidez fosse a intenção). Sabemos a vocação de Donoso para a retaliação, para a estruturação cuidadosa de ambientes que depois são esmagados.


Sei que soa um pouco impreciso simplesmente falar que não há naturalidade na movimentação de Machine to Machine, mas realmente me parece um apanhado de sons que normalmente (pela facilidade de Donoso) transitariam em unidade sem problemas. As máquinas de Machine to Machine existem por existir; elas não constroem nada, elas não retaliam nada e elas não ameaçam nada. A música não se mostra soberana; é evidente que tem alguém manipulando e que estamos sendo manipulados.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Mz.412 – Hekatomb [2015]

Não há dúvida que a trilogia lançada em meados da década de 90 pelo  Maschinenzimmer 412 foi essencial para estabelecer o pós industrial- explorando um território limítrofe  entre Black metal, industrial, poewr eletronics e dark ambient. Criando obras extremamente perturbadoras, pode-se afirmar sem engano que o Mz. 412 é responsável pelos lançamentos mais extremos da música nesse mais de vinte e cinco anos. In Nomine Dei Nostri Satanas Luciferi Excelsi [1995] com loops obscuros e pesados, samples distantes e instrumental ao vivo, atmosfera ritualística e pequenas passagens mais calmas e serenas, tudo isso em pouco mais de uma hora. Burning the Temple of God [1996] tem aquela capa clássica da igreja pegando fogo, e é um ritual que relembra velhos clássicos da música industrial, em conjunto com um Black metal cru, e um dos primeiros registros entre o Black metal e o noise. Nordik Battle Signs [1999] fecha a trilogia com formas puras e extremas de expressão, profundamente inspiradora (a seu modo, convenhamos) e envolvente. O legado deixado pelo Mz.412 se dissolve em timbres perversos, onde a interação entre elementos extremos idealizam ambientes ocultos de forma extremamente sensorial.

No último dois de março, o MZ 412 lançou pelo selo inglês Cold Spring a gravação de uma desempenho ritualístico executado há quatro anos, na lendária The Garage, em Londres. A apresentação ao vivo marcou a reinterpretação do vasto material acumulado nos últimos vinte e três anos. É quatorze faixas, que são indicadas como atos e seguidas de algarismos romanos. Essa repaginação, mais do que uma forma de atualizar a visão musical, se apresenta como um embrutecimento daquelas faixas. Ou seja, é como se elas tivessem, de certa forma, mais “pobres”.

A claustrofobia ganha maior aderência, maior tato. É como se todos esses anos de produção, toda essa desolação somada, a angústia, a perversão e o caos fossem nos enfiado goela abaixo, sem dó. Imaginem todas as almas que rastejaram e elas agora nos fechando em um quarto escuro, sufocado pelo desespero. É um tipo de música que essencialmente ofende o estomago, onde as diferentes camadas sonoras (difícil identificar qual é a mais agressiva) abrasam ironicamente essas pseudo fortalezas em terrenos áridos, distantes, muito, muito cruéis. Como se apertar o play fosse abrir a caixa de pandora, mas em um local onde não há ninguém que possa compartilhar essa experiência, você está muito sozinho e apenas esses gritos de fantasmas distantes te acompanham. Penso nesses ruídos e relaciono com dizimação em massa, tropas marchando, soldados decepados, nos estupros cometidos, na maldade e na dor. É uma verdadeira carnificina sem escapatória, onde ninguém sobreviverá. Sem dúvidas, ninguém consegue ficar indiferente a esse tipo de catarse sonora.

São mimetizadas marchas militares com poderosos e implacáveis fluxos sonoros, onde a dizimação coletiva simula batalhas doentias onde ninguém escapa. Metais se distendendo e perfurando qualquer coisa que ouse passar na sua frente, ou atmosferas mais “calmas”, como se procurasse algum conforto existencial nessas manifestações malignas e só descobrisse um vazio, evocando experiências extras corpóreas, vozes demoníacas, gravações de chamadas a partir de rituais esotéricos exibidas em flashs durante a apresentação, combinado com gritos perfurados que originam mil manifestações eletrônicas. São episódios hipnóticos onde podemos ver uma maré negra que sobe gradualmente ao som de tambores de guerra e um relâmpago silencia toda essa miséria humana. Pode-se, por outra ótica, ver isso como um rito, uma passagem que libera em algo, digamos, mais essencial. Mas é um atravessamento extremamente duro, desconfortável e duvido, de verdade, que muitos aguentem presenciar uma apresentação dessas até o final.


Um trabalho como Hekatomb denuncia também uma movimentação poderosa de “música subterrânea”, nesse caso em particular, ligada ao pós-industrial sueco. Como se representasse o pior na descida dolorosa de Dante ao inferno, onde decididamente não há caminho verdadeiro, em uma selva tenebrosa, numa sinistra floresta onde nos deparamos com tristeza, solidão e desânimo. Lembro-me da movimentação interessante que ocorre no Brasil de deslocamentos parecidos e acho muito importante que as pessoas tomem nota desse registro. Registro de um local extremo e claustrofóbico, que existe com uma força derradeira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ricardo Donoso - Saravá Exu [2015]

Penso em Saravá Exu com um disco de retaliação. Um álbum que tem seus ambientes cuidadosamente estruturados para serem esmagados depois. Reduzidos em pó. Penso em cada renascimento e cada rompimento como poesia, como a aniquilação da estagnação. Nasce a beleza e o perverso absurdo. Uma histeria tensa que é produto de uma enorme inquietação por parte de Donoso, onde se especula ciclos que convivem com as pluralidades disformes que caracteriza a sonoridade.

As abrangências dos temas de Ricardo, e a sonoridade sofisticada, convergem para a sensação contínua de rompimento. Pensamos até que ponto ele consegue esticar esse elástico e experimentos, cada passagem como uma volúpia de desencontros. É um não reconhecimento de ambiente que, lentamente, se transforma numa abstração que é a única demonstração possível. Eu evito ler qualquer coisa sobre discos antes de ouvir e com esse não foi diferente. Aqui temos um distanciamento da pessoa Ricardo e tentativas árduas de uma conexão com uma espécie de vazio onisciente. O fenômeno das coisas. Fico com essa impressão porque é, indubitavelmente, um disco de persistência e perseguição. Mas a formulação que cada empreitada busca, em consequência de uma necessidade de continuação, soa incompleta. Não podemos deixar de relacionar o “ritual de busca” que é esse disco com os Exus e Pombagiras, que são as entidades da Quimbanda mais próximas aos humanos. E é nessa proximidade (onde elementos iminentes me remetem à sensação poética que falei no primeiro parágrafo) que reside a força maior do álbum- uma incessante busca, apesar de sua impossível conquista.

A ênfase em um “tema” em cada faixa, onde a repetição caracteriza esse vetor de busca incessante. Uma estratégia, porque cada faixa é o sintoma da condição que Donoso estigma esse disco- o ponto de bifurcação entre suas procuras enquanto “indivíduo perdido” com o mundo externo, sensorial e tangível. Assim como os Exus. Essas iterações ecoam abordagens mais radicais, em meio às manipulações eletrônicas que propositalmente rompem (utilizando ruídos, distorções, etc.) qualquer esboço de linearidade. É preciso dizer, por tantos avanços e recuos, que não há um “gênero” próprio que Donoso se ancora. Mas como qualquer artista que busca autenticidade, essas precipitações inclassificáveis que saturam a obra em devaneios, rompimentos e (des) encontros.

As mudanças bruscas de Saravá (como o processo de retaliação que mencionei no começo do disco. Aliás, esse processo é mais uma transcrição, uma realocação de um espaço fechado –mundo- para algum lugar menos árido) intensificam a sensação de desamparo. As alterações graduais de volume, os sons “primários”- esses métodos incomuns (que cada vez mais estão sendo utilizados) e, de certa forma, desconfortáveis, estimulam a perseguição. Caça essa que atinge o auge em Diluculum, onde uma imensa massa sonora coexiste com um ambiente convidativo. Sem dicotomias simples, essas variações são como o sistema nervoso que percorre a meditação de Donoso.


É nessa tensão que vibram as possibilidades, nas diversas inversões que formulam um ciclo de, basicamente, erros. Não há a exclusão entre “ser” e “mundo”, e é em manifestações como as de Saravá Exu que há uma espécie de compartilhamento (e aí o exilado, após anos de perambulação e reflexões, pode se maravilhar com a simples existência das coisas). Em uma época que os assujeitamentos  e padrões instituídos ameaçam a simplicidade e beleza do exílio, Saravá Exu é uma indagação necessária e urgente. Ricardo Donoso não banca uma busca com  perspectiva definida, mas a esperança para que ainda exista uma perspectiva. Os Exus procuram, então, um retorno a uma humanidade essencial. Esse álbum é o terreno de chegada, o momento de espera num período de uniformização e sepultamento do alheio e do disperso, onde as técnicas e resultados que determinam o jogo. Já é muito esquisito fazer uma metáfora de jogo, então é melhor se amigar desses demônios e expurgar essa compulsiva devoção à claridade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Kovtun - Androginóforo [2015]

O Kovtun lançou um dos meus álbuns favoritos no ano passado, pela “desolação” e repetição de temas. Ocorre, em Androginóforo , o oposto. Aqui vemos uma obra mais aberta do que a saturação da antecessora, aqui temos mais desvios e inquietações- isso provavelmente em função de que cada uma das quatorze faixas tem participação especial. Aqui as medidas são destroçadas, pois cada movimento-canção é uma afirmação e negação da faixa antecessora. Afirmação porque reconhece sua unidade, negação porque busca outras expressões. Estamos, ao invés da uniformidade de Sleepwalking Land, em um local onde não há controle e cada imanência irrompe e se estrutura em suas próprias aflições, em seu próprio instrumental. Poderíamos pensar, “mas com essas divisões, não seria melhor ouvir o disco íntegro de cada participante? Como encontramos um núcleo criativo do próprio Kovtun?”. Mas não são objetivamente divisões, são blocos de um mural gigantesco (o disco tem uma hora e meia), e as próprias controvérsias dessa estrutura garantem a unidade de cada participante. O disco não seria o mesmo sem as aves e o barulho absurdo na colaboração com o Godpussy e assim por diante. A abertura, então, está na vastidão que o ouvinte tem que encarar, assim como na ambição do disco e suas múltiplas facetas- é mais difícil, assim tão recortado, e provavelmente mais recompensador.

As variações desafogam e trazem repentinas e interessantes mudanças de estrutura, talvez a única forma de criar um disco tão grande seja apostando tanto nas bifurcações de gêneros mais “densos”. Pois eles próprios são radicais às suas maneiras e demonstram alicerces mais dinâmicos do que a simplista nomeação de “barulho”. Com meu quarto devidamente fechado, são fascinantes os “empréstimos” imagéticos que as músicas me proporcionam, seja nas mais econômicas (ou a primeira parte, como imagino uma divisão estética) ou a segunda, que agride mais. Penso, porém, que elas se unem porque são como defuntos procurando um terreno mais hospitalar, e por isso tamanha difusão sônica e necessidade agressiva, o corpo já sabe que o mundo aparente, essa tal de “realidade”, não serve mais. Precisamos respirar em outros lugares. Nossa mente pode se atrever a isso se nos relacionamos com esse disco da forma que ele merece- sem uma “necessidade” anterior, porque as microestimulações vão jorrar com cada canção e terminar com elas também.

E ouçam isso alto. Pois há aqui uma espécie de “grito” anônimo que ecoa em cada base distorcida, cada repetição que aumenta e cada acidente que topamos. É um disco que versa sobre uma dor que é impossível de especificar, uma inquietação constante que fez com que Mandra (ele é o Kovtun) decidisse reunir esses nomes e nos oferecesse tamanho corpo que registra uma época bem importante de nossa música independente (aqui eu estou assumindo as motivações por trás do disco). O ambiente enclausura e rompe com uma organização mais “meditada”. Ao mesmo tempo em que temos aberturas instrumentais que nos deixam mais a vontade até mesmo para divagar, as pancadas dessa parede nos deixam estáticos. Não há uma limitação da experiência, apenas uma força própria que não permite titubeação. São músicas que exigem sim atenção e apresentam camadas que merecem ser ouvidas muitas vezes. Falei sobre a “possibilidade de divagação”, mas não quero diminuir nada. É um disco perturbador. São barulhos agressivos, são estruturas que nos confundem, na maioria das vezes.


Eu evitei ler qualquer coisa sobre o disco anteriormente porque queria deixar aqui somente minhas sensações, minha experimentação. Por exemplo, o nome das músicas, aparentemente científicos, o que querem dizer? Aqui eu volto à parte que questionei o porquê de um disco em que todos os faixas têm participação de outros artistas. Não há resposta, na verdade (para o nome das músicas). Eu poderia ter falado também sobre as variações e os “gêneros” que esse disco atravessa, mas imagino que tags reduziriam a inauguração que Androginóforo propõe. É através da escuridão que envolve todo o disco que, talvez, podemos encontrar algo mais simples, para podermos nos maravilhar com cada “surgimento” (e não começar a questionar o porquê do nome das músicas, ou o porquê das participações). Androginóforo é um experimento do Kovtun, mas também uma afirmação. Sem objetivo aparente, ele se ergue e exterioriza que uma música significativa sendo realizada no Brasil que não é demonstrada em charts, na Wire ou qualquer outro veículo. Mas que ela existe e é substancial. Que ela não hesita e que ela não se explica- ela só pode atravessar e ser atravessada. Espero que essas irrupções aconteçam com quer ouvir o disco. Comigo aconteceu.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Kreng - The Summoner [2015]

The Summoner pode ser encarado como uma trilha sonora que vai culminar na aceitação- até lá, vamos passar pela negação, raiva, negociação, depressão e evocação. Mas evocar o que? Qual o ponto que converge essas frustrações em uma aceitação? Esse álbum reflete os estágios pós-perda de alguém próximo, em transes melancólicos e silenciosos de alguém que está nitidamente desgastado e parece ter na criação o único meio de expressar uma dor nostálgica que também é solidão e isolamento. O universo de Kreng não visa à redenção nem uma cura, apenas reflete um mundo interno arrasado.

O luto retalha e não há nada que possamos fazer em relação a isso. Muito se fala como situações com essas catalisam a criatividade de compositores, mas gosto de pensar que não é assim. Kreng faz um registro, se pensarmos bem, não muito original. Aliás, a busca aqui é sempre de uma quietude serena e a impossibilidade de encontrá-la. É a potência da derrota que podemos ouvir, como se nós estivéssemos rodeados pelo improvável e o único fato consumado nesse mundo fosse a morte. Como se a morte do outro nos transformasse em fantasmas. Estamos aderindo a uma zona onde o caos recusa a violência, um caos mais verdadeiro, talvez, porque ele mesmo antecede à reação violenta, ele antecede tanto que talvez a tristeza seja a única emoção capaz de salvação (salvação como entrar na ordem de uma narrativa, ser narrado como experiência, mesmo que negativamente). Não podemos dizer muito, não podemos fazer muito- estamos no terreno da espera.

Aqui (e duas escutadas depois) eu faço um contraponto interessante ao primeiro parágrafo. O ponto é; quanto mais ouvimos o álbum, é passado para nós que ele não trabalha objetivamente atravessando as categorias mencionadas (negação, raiva, negociação, depressão e evocação), mas que a estrutura de cada suposta “etapa” é tão caótica que remete sempre às outras sensações. Oras, como que o luto pode ser “dividido” em fases? Seria demais simplista. “Anger”, a segunda faixa, tem uma explosão que nos faz compreender o tema principal, mas são vários momentos subjacentes que não remetem apenas à própria raiva, como serão desenvolvimentos repetidos em outros “estágios”. Então esse álbum se ergue como um corpo sonoro que rejeita a classificação. Ou melhor; refuta as nomeações reivindicadas destruindo-as por dentro. Uma entropia conceitual, também. Penso nos instrumentos como pacientes de um manicômio que tentam romper a camisa de força, em uma fidelidade ao que é interno ou a tentativa de aniquilar o que bloqueia essa introspecção.

As variações das tonalidades surpreendem no andamento, mais voltado ao minimalismo, e até, de certa forma, sedutor esse jogo de construções frágeis que o Kreng estabelece. Os músicos devem seguir rigorosamente a composição (a não ser nas partes obviamente reservadas para o livre improviso) porque, em nenhum momento saímos da aflição constante através das músicas. Essa sensação exclui a lógica que os nomes das músicas (e a sequência que elas estão dispostas) propõem, esse ressentimento reinante pode ser visto como o “núcleo”, embora nunca de forma objetiva ou determinada. Não é um álbum, então, de aceitação. Ele não oferece conclusões e soa muito instável, muito incoerente ao que podíamos imaginar antes. Kreng discursa sobre o luto e sobre isso não há explicações claras- apenas migalhas, restos, vislumbres, dias.


E isso tudo seguiria de forma bem resistente e, de certa forma, perturbadora, se as últimas duas faixas não entregassem toda a previsibilidade que, depois de escutadas especificamente essas ambas as músicas, vamos lamentar não ter reparado isso antes. Ao invés de procurar uma “aceitação”, elas desestabilizam a “fragilidade emocional” que o disco meticulosamente ensaiava construir. Penso nelas como reciclagens de ideias repetidas, apenas “adicionando” uma banda (Amenra) para tentar garantir outro ponto de vista para o corpo sonoro do disco. Não soa uma “fusão” de estilos, mas sim uma tentativa desesperada de mostrar que dá para fazer outra coisa, que o Kreng não quer se esconder sob a mesmice. Penso no conceito de The Summoner e, se no meio do disco fiquei em dúvida se o desejo era implodir as pré-determinações, no fim do álbum tenho a plena certeza de que não. A ideia era fazer um caminho da “redenção”. Penso nessa ausência como algo fundamental para tentar demonstrar o luto e escancarar seu sofrimento e a penúria que é viver sob seu desígnio. Porém, enquanto algumas composições realmente valem aqui, a sensação é de que os músicos penaram muito para algo com tão pouco a oferecer.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Amargo - Processo de purificação [2015]

Seria complicado e eu me perderia muito se falasse sobre “racionalidade” em um tipo de música que aponta a extinção.  Prefiro falar me atentar mais à “decomposição” dos parâmetros mais tradicionais na criação da música. Em Processo de purifcação, podemos nos questionar o que está sendo purificado. Essa sequência irrefreável de repetições distorcidas justapostas que abre o disco pode, à primeira estância, parecer o oposto de qualquer purificação possível. Então vamos tentar não falar de uma purificação na concepção judaico-cristã, vamos tentar enxergar como purificação um mundo livre dessas concepções que nos amarram. Emerge o monstro profano na forma do barulho insuportavelmente alto da guitarra, ele se ergue e vai fazer o que tiver que fazer para instaurar seus métodos e quem sabe, com alguma sorte, nos tirar desse rebanho.

O disco tem uma abordagem minimalista à sua maneira. A saturação ocorre desde o início e não há pausas, a guitarra mais alta e os berros atrás, subterrados. Embora muitas bandas denominadas como Black metal tenham aderido às outras influências de outros estilos, o que garante autencidade ao Amargo é uma espécie de fidelidade à argamassa densa e cinzenta que podemos facilmente confundir como a estética do gênero.  Há com certeza um enraizamento na produção lo-fi e na infusão apenas da guitarra, seus efeitos e os berros.

No entanto, essa subprodução funciona como efeito catalisador para a sensação que o álbum almeja. Anteriormente falei sobre a reclusão à guitarra e vozes, mas na primeira faixa percebe-se o adicionamento de uma bateria. Essas difícil percepção das somas ocorre ou por intencionalidade ou pela própria condição de gravação. Não importa, funciona. Parece que não há orientação e nesse mundo homogêneo seria estranho se houvesse orientações em uma música de ruptura. Essa presença forte da guitarra não oculta, ela cobre como a terra. Ela está por cima do universo pesado e saturado que Processo de purificação habita, esse ambiente extremamente denso que é ele mesmo, uma amostra de um mundo cíclico, repetitivo. As sete faixas do disco sufocam-nos no mesmo ambiente, o processo é a repetição e só por ela que vamos sair purificados. O Amargo nos oferece essa uniformidade que não é a mesma monotonia dos processos tradicionalmente instituídos, sua formulação musical é uma oposição rígida contra a Instituição. É a presença do “contrário”, é a conversão de um método em outro que, embora utilize técnicas que se assemelhem, significa justamente o inverso.

Processo de purificação pode ser encarado como um disco de oposição, embora siga um enraizamento calcado nas bandas “faça você mesmo” de Black metal, enquanto o vocalista (que é a banda toda), Victor, urge em linguagem profética sobre a decomposição. Parece que estamos em um atrito constante e em nenhum instante temos brechas. As distorções soam tão altas que às vezes elas tomam conta e somos conduzidos por suas esquisitices. A guitarra que comanda essas divergências e transições entre espaços (se é que há um espaço habitável nesse ambiente enclausurado do Amargo)- em Parte Três é oferecida uma argamassa praticamente impenetrável, com os riffs repetidos e protegidos pelas distorções, é um “não se aproxime” claro.


Esse álbum do Amargo contém os elementos que ainda me cativam na busca por “música esquisita”. Processo de purificação é o mesmo tempo repetido diversas vezes e tentando violar conceitos como “pecado”, ”condenação”, etc. O Amargo expande sua dissonância para fragmentar e incomodar nossas convenções. E assim é feito.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Gustavo Jobim – Inverno [2014]

"Eu me pergunto se a neve ama as árvores e os campos, que os beija com tanta delicadeza? E, então, os cobre confortavelmente, você sabe, com uma colcha branca; e, talvez, ela diz: "Vão dormir, queridos, até que o verão venha outra vez."
-Lewis Carroll

Frozen Lake é a faixa que abre o disco Inverno (meu álbum favorito de tudo o que ouvi do Gustavo até agora). Já fico arrebentado pela fragmentação que ela insunua- elementos densos e verdadeiramente ameaçadores! Sinto-me preso e sem saída, não há uma fresta possível. Jobim, aqui, não manipula seu som nos “convidando” a participar, é peso atrás de peso e dissonâncias que nos tonteiam, nos deslocam. Se Zone Of Silence é até que um refresco, embora continue cultuando a obscuridade que permeia todo o disco, Ice Age Coming e Permafrost (essa última com ventos muito, muito gelados) nos ratifica a sensação de imobilidade.

Penso muito num atravessamento de Vikernes e do Schulze, como se as feridas destes fossem também as de Gustavo e os três deram- cada qual a seu modo- um testemunho do lugar frio onde passaram. E pode ter certeza que é uma área bem inóspita. Assim que chegamos a Winter Song, porém, temos a certeza de que tudo iria se projetar nisso. Em seus vinte minutos, temos um relato trêmulo da passagem. Não sei se Jobim quis, de fato, inserir um contexto narrativo no andamento das faixas. O fascínio dessa música é que ela mantém aquela inevitável sensação de imobilidade das anteriores, mas apresenta possibilidades com uma melodia relativamente regular de pano de fundo. É nela que devemos seguir ou é apenas um oásis? Sussurros surgem atrás, sons cavernosos que se sobrepõem trazendo aspereza limítrofe. (Sério, tentem ouvir isso em casa com os headphones bem altos, parece que a redenção nunca vai ser possível).

Parece que toda essa ambientação quer nos engolir. A sobreposição e a invasão dos sintetizadores intrigam, nos balançam. É uma entrega passional o que testemunhamos. Um espaço farto de dissonâncias que exploram nossa capacidade e realizam a estética álgida. O que nós temos a oferecer a não ser essa integração impossível? Fica uma sensação de desmineralização dos encantamentos, onde só o que resta são fagulhas reminiscentes de algum outro plano menos congelado, talvez. A existência é rígida e Gustavo nos lembra disso. Em cada investida de Inverno, temos uma rigorosa catarse que se seguirmos sem pudor, levar-nos-á ao que menos suportável podemos encarar. Se eu vejo Inverno como um disco essencialmente negativo, não estabeleço uma negação primária de destruição ou qualquer besteira dessas. Falo sobre o atravessamento de uma espécie de satanismo da luz. Onde tudo tem que ser modulado e conforme o instituído- é uma obra dessas, com sua instabilidade total, que pode trazer o atrito necessário para perfurar esses elementos tão concretos, tão reais.


Esqueçam o inverno escandinavo. O frio ao qual esse disco que me arremessa é de tudo o que encaro todo dia. Inverno surge para lembrar que esse terreno inóspito, sem medidas e especificamente rigoroso, é uma abertura de tudo o que essencialmente existe. Os sintetizadores ampliam e nos apontam caminhos. Mais difíceis e mais puros. Para onde o vento sopra mais forte. Um mundo com muitas quedas que parece ser eterno. Onde qualquer amanhã é devidamente arrancado da esfera das possibilidades, curiosamente pela grande alternância de elementos que Gustavo coloca em sua música. O futuro é esse frio e esse vento. Essa agitação constante onde tudo ficará inerte.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Kovtun- Sleepwalking Land [2014]

Sleepwalking Land parece, ao mesmo tempo em que devemos ouvi-lo seqüencialmente, uma fragmentação de idéias. Sonoridades. Evidentemente, há um mantra que guia todas as faixas, algo onipotente e onipresente. Essa obscura ambientação criada por Raphael, porém, é um terreno inquieto, construído sobre paradoxos, causando um movimento “atrativo-repulsivo”.

Incorporamos essa terra desolada e nos agarramos nos momentos mais “belos” que o álbum estimula, para sermos silenciados e arremessados novamente de volta à trincheira pelo clima soturno. Sem dúvidas, uma viagem em que a melancolia parece ser o sentimento mais vigente, enquanto o teclado, os sintetizadores e as vozes do fundo parecem nos chamar. Mas para onde?

Álbuns assim dialogam diretamente com nosso esboço de subjetividade. Não há “bloqueios” e entram direto em nossa mente. Capaz de sacudir da alienação constante em que nos encontramos, Sleepwalking Land é um estranho abrigo para quando nos sentimos alheios demais. Seu ambiente não deseja totalidade, mas suas faixas compõem retratos e que espero que você reconheça e se amigue desse estranhamento tanto quanto eu.


Raphael Mandra retorna com sua música decididamente não comercial. E aqui ele parece não querer revelar tanto os “fatos” como no seu outro projeto, Rádio Morto. Aqui, ele parece dar mais espaço para o ouvinte impor suas dúvidas. Estas são micro movimentações que rumam a um todo invisível. Uma viagem sempre de volta a si. Sem qualquer tipo de clichê, Sleepwalking Land nos trás aquele tipo de reflexão mais importante; um diálogo com si mesmo sem “estratagemas”, optando pela ambientação e um respeito enorme pela inteligência de quem está ouvindo.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

GUSTAVO JOBIM – Retrospect 2013 (2014)

Talvez a melhor introdução para a produtiva obra do Gustavo Jobim seja esse retrospecto de 2013. Coletânea que reúne faixas de seus quatro lançamentos de 2013. E talvez porque não foi um lançamento planejado como “conjunto” ou “conceitual”, temos diversos pontos de vista em uma aposta que, mesmo tangendo o minimalismo, se mostra surpreendentemente ampla.

Em suma, essa coletânea funciona como um guia do que podemos encontrar nos estudos de Jobim, e também para ouvintes mais antigos, o desenvolvimento de sua obra e em que pontos nós encontramos semelhanças e disparidades.

A composição se mostra bastante abrangente, variando entre as estruturas mais simples e outras faixas com desenvolvimento completamente inesperado. São grandes momentos de inspiração e manipulação eletrônica que me lembram de Mike Oldfield ou mesmo a organização de Klaus Schulze.

Meditações que não se limitam em formas, um instrumental eletrônico variado que com certeza encontra apoio em estruturas oriundas do rock progressivo e da música clássica. Temos sempre a impressão de estar de frente a uma face nova, onde a repetição é modulada de encontro a elementos que surgem para uma combinação implicitamente distinta.


Embora possa soar muito diverso sonoramente para ser encarado como um álbum, à medida que vamos ouvindo mais cuidadosamente encontramos elementos que se intercalam, evidenciando que há uma base sólida que opta por estéticas não confortáveis, mas realizações extremamente autorais. Componentes distintos que formulam a obra (em andamento) de Jobim.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Entrevista com Robert Rich




Eu gosto muito de música "ambiente". A fantástica discografia de Robert Rich me deixa a sensação de eternidade. Muitos barulhos bonitos, como uma jornada no desconhecido. Preenchendo muitos espaços vazios, me deixando fora de consciência. O mundo real parece muito distante, com sons ininteligíveis. Demorou um pouco para "entrar" nos seus álbuns, mas depois disso, fiquei obcecado para ouvir suas gravações. Então, é claro, fiquei muitssimo feliz quando ele aceitou ser entrevistado:
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[Anthem Albums]  Como o norte da Califórnia influência sua música, a maneira que você compõe, cria?

[Robert Rich] No sentido de que eu nasci aqui e permanece o meu lar, eu tenho certeza de que a música e o clima tem afetado minha música mais do que eu sei; mas não de maneiras simples que as pessoas podem imaginar. As pessoas pensam que tudo da Califórnia deve soar ensolarado e feliz, como os Beach Boys ou algo assim. Obviamente isso não tem nada a ver com a realidade. Eu consigo pensar em duas linhas na minha música, que talvez estejam ligadas com o ambiente.
Primeiro, as memórias de crescer na década de 60, sul de São Francisco, cercado pelo inicio dos beatniks e dos psicodélicos do submundo. O ônibus de Ken Kesey estacionava na rua acima de nós, o Grateful Dead fazia seus primeiros ensaios como The Warlocks em uma garagem na esquina, e eu conseguia ouvir o som do meu quintal, toda quinta e domingo. Essas são as primeiras memórias, eu tinha mais ou menos cinco anos. Eu iria de bicicleta a uma famosa livraria, Kepler, e olhava todos os pôsteres e livros da contracultura, o começo do movimento ambientalista, religião oriental e música mundial começavam a chamar nossa atenção. Algo como a sensação de possibilidade definiu minha mente em uma direção, uma esperança de que a mudança pudesse acontecer, um passo por vez.
Outra parte dessa história é de perda, perda do meio ambiente, o crescimento populacional, uma sensação de que o paraíso está desaparecendo por nossos próprios atos (ou atos falhos). A Área da Baia de São Francisco era um tipo de paraíso, duzentos anos atrás, uma terra muito fértil com clima perfeito, algumas das melhores frutas do mundo, montanhas, florestas antigas, oceanos, estuário, fauna. No meu tempo de vida de apenas 50 anos, eu tenho observado as sombras desse paraíso ceder ao concreto, rodovias, sedes de empresas para o Vale do Silício, e habitações para pessoas que vieram para cá trabalhar. Eu sei que esta é apenas uma pequena amostra da crescente população de seres humanos em nosso planeta, urbanização global, e perda de lugares naturais. De alguma forma minha música representa a busca do Éden, e está cheia de desejo e uma sensação gritante de perda. Se nós observarmos que muitas culturas tem o mito da “queda do paraíso”, vemos que pode ser uma metáfora para a exclusão autoimposta do Jardim dentro de nós mesmos, que realizamos todos os dias. Com a música eu tento manter os portões abertos.



[A.A] Quanto você mudou como artista e pessoa de seus primeiros discos para o Meridiem - A Scattering Time?

[R.R] Vale lembrar que nós gravamos "A Scattering Time" quatorze anos atrás, e o atraso em seu lançamento causa alguma confusão. Também, meu papel em Meridiem foi ajudar o  Percy Howard a alcançar sua visão. Eu sou apenas um servo nesse projeto. Quando certas gravadoras progressistas saíram dos negócios, Percy ficou cansado de constantemente tentar. Eu senti a necessidade de completar esse buraco; então eu mesmo lancei o álbum. Isso dito, eu acho que Meridiem é um exemplo de como eu trabalho meu próprio centro de gravidade: como eu experimento novos vocabulários, eu uso o centro como um ponto de balanço, um núcleo que me ajuda a confiar nas decisões que tomo, mesmo que as tome rapidamente, quando improviso. Em 2013, eu voltei para remixar algumas gravações que fiz no primeiro estágio da minha carreira, por volta de 1980, para o conjunto de 4 LPs “Premonitions”, e eu fiquei um pouco surpreso com o quanto que essa música continha sementes para meu trabalho posterior. Como aprendi novas habilidades, novos vocabulários, acho que essas técnicas ainda têm raízes das sementes plantadas muito cedo na minha vida.

[A.A] Como um artista, você acha que a crítica ainda é relevante? Você lê críticas?

[R.R] Sim, eu queria que elas fossem mais pensadas, discussões bem informadas sobre arte e música. Todos nós somos beneficiados ao aprender sobre as ideias atrás das ações criativas, quando a discussão é inteligente e balanceada. Boa crítica escrita pode ajudar as pessoas a entender o contexto em torno da obra de arte. Eu tendo a ser muito autocrítico, por isso, infelizmente, eu costumo concordar com os comentários negativos sobre meus próprios trabalhos, e eu posso ficar um pouco desencorajado em função disso; eu também tendo a ser cético quanto a louvores que dizem que sou brilhante. Eu acho que essas são reações típicas de certo tipo de personalidade perfeccionista.

[A.A] Como foram as sessões de gravação de "A Scattering Time"? Difíceis, divertidas, desafiadoras?

[R.R] Excelentes e intensas! Eu encontrei Percy Howard num casamento de um amigo em 1999, quando ele estava começando seu trabalho com Bill Laswell, Fred Frith e Charles Hayward. Eu nunca tinha visto um vocalista com sua intensidade de trabalho em um contexto de rock improvisado, foi desafiador e excitante. Nós começamos a falar sobre desenvolver o projeto Meridiem, com uma rede mais ampla de músicos, muitos deles da Área da Bacia [de São Francisco]. Percy perguntou se eu queria ser o produtor, e nós começamos a produção em meu estúdio. Trabalhamos juntos cerca de uma dúzia de vezes ao longo de um espaço de 4-6 meses, no começo de 2000, para algumas sessões intensas de raciocínio rápido, a sincronicidade quase Zen. Percy confiou em minhas decisões, e nós confiamos nas pessoas que colocamos juntas no grupo musical. Eu amo experimentar esses momentos fluidos de criatividade, inspiração, improviso. Percy é um cantor de “primeira tomada”. Eu tinha que me deslocar rapidamente. Após essas seções fluidas, eu poderia, então, ter mais tempo para editar tranquilamente as performances, e polir nas estruturas de canção, como você ouve no álbum. Eu pude permitir um pouco do meu perfeccionismo no processo, após a descarga de adrenalina que formou a base. Foi uma experiência emocionante.

  
[A.A] "Space-music" com certeza está em seus trabalhos. Como você “descobriu” isso e pensou, “isso é realmente bom”?

[R.R] Eu penso que a primeira vez que ouvi artistas como Vangelis e Tangerine Dream foi por volta de 1975, então eu comecei a olhar para todos os registros com sintetizadores listados na contracapa. Era a música na minha cabeça, como se eu sempre tivesse ouvido isso. Parecia muito natural para mim. Eu comecei a montar kits de sintetizador, por volta de 1976, esperando criar música daquele jeito, e eu aprendi que era difícil soar bem com equipamentos eletrônicos caseiros baratos! Eu sou grato a Stephen Hill, cujo programa de rádio “Music from the Hearts of Space" tocava uma grande variedade de música introspectiva, me permitindo descobrir novas direções, e ele foi a primeira pessoa a tocar minhas primeiras gravações na rádio, por volta de 1980.

[A.A] A literatura influencia sua música? Quais são seus autores favoritos?

[R.R] Sim, e não apenas ficção literária, mas também ciência, arte, cinema, arquitetura. Eu tenho me inspirado em Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marquez, J.G. Ballard, Stanislaw Lem. Talvez minha maior inspiração tenha surgido da novela "Starmaker" do Olaf Stapledo. Eu gravei uma peça sobre esse livro em "Below Zero." Eu sou muito influenciado pelo cineasta Andrei Tarkovsky- você pode encontrar muitas referências a seus filmes nos títulos de alguns dos meus trabalhos (Stalker, Zerkalo, "The Raining Room", por exemplo). Eu amo arquitetura orgânica (Gaudi), padronização islâmica (geometria). Cosmologia, ciência planetária, micologia e taxonomia (Bestiário)... Eu sou uma pessoa curiosa.

[A.A] Como são suas apresentações ao vivo?

[R.R] Eu tento tratar desempenho ao vivo de uma forma diferente de gravação. Se gravar é como criar uma escultura, se apresentar é como dançar, quero que minhas apresentações tenham uma energia focada, profunda e ritualística. Eu não sou muito preocupado com perfeição técnica, mas sim para criar uma energia mútua com o público, uma viagem em uma espécie de espaço xamânico.

[A.A] Você é muito produtivo. Tantos lançamentos. Às vezes, você tem bloqueio criativo?

[R.R] Sim, infelizmente eu fico preso. Eu tento não trabalhar quando as ideias não estão fluindo. Há sempre algum trabalho para fazer no estúdio- às vezes para outras pessoas (eu trabalho muito com produção), design sonoro, experimentando ou aprendendo minhas ferramentas, ou apenas arrumando a bagunça. Ou apenas vou para uma longa caminhada. Em média, só libero um novo álbum por ano, o que não é tão prolífico, eu acho. Eu apenas tento manter o trabalho.



[A.A] Quais músicos são seus remédios?

[R.R] Hariprasad Chaurasia, Ali Akbar Khan, Hamza El Din, Javanese Gamelan, Joni Mitchell, Bill Evans, Miles Davis, John Coltrane, Terry Riley, Neil Finn, Oumou Sangare. Eu podia seguir em frente, mas esses são alguns favoritos de uma ampla gama de sabores.

[A.A] Você ainda ouve os discos que ouvia quando começou a gostar de música?

[R.R] Não muito space music dos anos 70, ou música do começo da cena industrial, o que também foi uma enorme influência. Eu perdi interesse após alguns anos. Mas eu nunca cansei de Terry Riley, e ele é definitivamente minha maior influência. Jazzistas corajosos como Keith Jarrett, Bill Evans, Miles e Coltrane permanecem frescos para mim. Música clássica indiana é sempre o meu lugar para ir quando eu preciso recuar para a música.

[A.A] Deixe uma mensagem final para nossos leitores.

[R.R] Surpreendam-se com a vida. Acho que se pudermos manter um senso de admiração em nossa existência, tanto a luz e as sombras, e permaneçam humildes sobre nosso pequeno papel nesse planeta, então talvez possamos refletir em nossas ações e nos ecos que deixamos para trás quando morrermos.

Robert Rich
Março 17, 2014.