CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK

Mostrando postagens com marcador #Ricardo Donoso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador #Ricardo Donoso. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ricardo Donoso - Machine to Machine

Impressiona muito a coerência dos últimos lançamentos de Donoso no decorrer dos últimos anos; é sempre essa áurea essa celeste, como se outros seres (trajados às vezes como espíritos ou entidades) fossem invadir nossos corpos. Sua obra é repleta de trabalhos atmosféricos arquitetadamente construídos sob a influência da utilização de sintetizadores.

Machine to Machine é realmente aquele típico trabalho que é melhor ouvir sozinho, com os fones de ouvido, imaginando cenários possíveis para a grandiloquência que é o clímax da primeira peça. O álbum, inicialmente, se revela como algo que vai conter muitas insinuações e detalhes que só podem ser percebidos depois de algumas ouvidas. O problema é que os “defeitos” nunca vão ser concretizados enquanto potência e vão permanecer no plano do interminável. A música de Donoso é muito pautada em riscos, mas aqui eles não soam perigosos; parecem efeitos que existem por uma aleatoriedade estética que Donoso raramente mostrou em sua carreira. Infelizmente, essa falta de força e fibra está em todo Machine to Machine.

Não é um disco coesivo como Saravá Exu em que a unidade da progressão sonora convivia com a repetição sem corromper nenhum propósito de Donoso. E não é nem que algo soe “corrompido” em Machine to Machine, é que não há ponto de ligação entre os microssistemas que o formam. Não é um processo de derretimento como o antecessor e pra falar a verdade, eu tenho alguma dificuldade para saber sobre o que se trata exatamente. Há, no entanto, em alguns momentos, uma pluralidade de sons que aponta redenções para o disco (elas só podiam acontecer mais). Aliás, é essa pluralidade que pode rasgar a faceta mais “frágil” da música de Donoso e aproveita melhor seu potencial.

Não é no conceito que Machine to Machine se equivoca, mas sim na falta de um cerne que realmente represente toda a história intencionada. Há intenção, mas não há evidências dessa intenção. Não há cortes, não há interrupção. Ao mesmo tempo, nada parece intencionalmente contínuo. Parecem sons aleatórios. Os movimentos não soam vivos (e não é realmente como se a morbidez fosse a intenção). Sabemos a vocação de Donoso para a retaliação, para a estruturação cuidadosa de ambientes que depois são esmagados.


Sei que soa um pouco impreciso simplesmente falar que não há naturalidade na movimentação de Machine to Machine, mas realmente me parece um apanhado de sons que normalmente (pela facilidade de Donoso) transitariam em unidade sem problemas. As máquinas de Machine to Machine existem por existir; elas não constroem nada, elas não retaliam nada e elas não ameaçam nada. A música não se mostra soberana; é evidente que tem alguém manipulando e que estamos sendo manipulados.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ricardo Donoso - Saravá Exu [2015]

Penso em Saravá Exu com um disco de retaliação. Um álbum que tem seus ambientes cuidadosamente estruturados para serem esmagados depois. Reduzidos em pó. Penso em cada renascimento e cada rompimento como poesia, como a aniquilação da estagnação. Nasce a beleza e o perverso absurdo. Uma histeria tensa que é produto de uma enorme inquietação por parte de Donoso, onde se especula ciclos que convivem com as pluralidades disformes que caracteriza a sonoridade.

As abrangências dos temas de Ricardo, e a sonoridade sofisticada, convergem para a sensação contínua de rompimento. Pensamos até que ponto ele consegue esticar esse elástico e experimentos, cada passagem como uma volúpia de desencontros. É um não reconhecimento de ambiente que, lentamente, se transforma numa abstração que é a única demonstração possível. Eu evito ler qualquer coisa sobre discos antes de ouvir e com esse não foi diferente. Aqui temos um distanciamento da pessoa Ricardo e tentativas árduas de uma conexão com uma espécie de vazio onisciente. O fenômeno das coisas. Fico com essa impressão porque é, indubitavelmente, um disco de persistência e perseguição. Mas a formulação que cada empreitada busca, em consequência de uma necessidade de continuação, soa incompleta. Não podemos deixar de relacionar o “ritual de busca” que é esse disco com os Exus e Pombagiras, que são as entidades da Quimbanda mais próximas aos humanos. E é nessa proximidade (onde elementos iminentes me remetem à sensação poética que falei no primeiro parágrafo) que reside a força maior do álbum- uma incessante busca, apesar de sua impossível conquista.

A ênfase em um “tema” em cada faixa, onde a repetição caracteriza esse vetor de busca incessante. Uma estratégia, porque cada faixa é o sintoma da condição que Donoso estigma esse disco- o ponto de bifurcação entre suas procuras enquanto “indivíduo perdido” com o mundo externo, sensorial e tangível. Assim como os Exus. Essas iterações ecoam abordagens mais radicais, em meio às manipulações eletrônicas que propositalmente rompem (utilizando ruídos, distorções, etc.) qualquer esboço de linearidade. É preciso dizer, por tantos avanços e recuos, que não há um “gênero” próprio que Donoso se ancora. Mas como qualquer artista que busca autenticidade, essas precipitações inclassificáveis que saturam a obra em devaneios, rompimentos e (des) encontros.

As mudanças bruscas de Saravá (como o processo de retaliação que mencionei no começo do disco. Aliás, esse processo é mais uma transcrição, uma realocação de um espaço fechado –mundo- para algum lugar menos árido) intensificam a sensação de desamparo. As alterações graduais de volume, os sons “primários”- esses métodos incomuns (que cada vez mais estão sendo utilizados) e, de certa forma, desconfortáveis, estimulam a perseguição. Caça essa que atinge o auge em Diluculum, onde uma imensa massa sonora coexiste com um ambiente convidativo. Sem dicotomias simples, essas variações são como o sistema nervoso que percorre a meditação de Donoso.


É nessa tensão que vibram as possibilidades, nas diversas inversões que formulam um ciclo de, basicamente, erros. Não há a exclusão entre “ser” e “mundo”, e é em manifestações como as de Saravá Exu que há uma espécie de compartilhamento (e aí o exilado, após anos de perambulação e reflexões, pode se maravilhar com a simples existência das coisas). Em uma época que os assujeitamentos  e padrões instituídos ameaçam a simplicidade e beleza do exílio, Saravá Exu é uma indagação necessária e urgente. Ricardo Donoso não banca uma busca com  perspectiva definida, mas a esperança para que ainda exista uma perspectiva. Os Exus procuram, então, um retorno a uma humanidade essencial. Esse álbum é o terreno de chegada, o momento de espera num período de uniformização e sepultamento do alheio e do disperso, onde as técnicas e resultados que determinam o jogo. Já é muito esquisito fazer uma metáfora de jogo, então é melhor se amigar desses demônios e expurgar essa compulsiva devoção à claridade.