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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Kovtun - Androginóforo [2015]

O Kovtun lançou um dos meus álbuns favoritos no ano passado, pela “desolação” e repetição de temas. Ocorre, em Androginóforo , o oposto. Aqui vemos uma obra mais aberta do que a saturação da antecessora, aqui temos mais desvios e inquietações- isso provavelmente em função de que cada uma das quatorze faixas tem participação especial. Aqui as medidas são destroçadas, pois cada movimento-canção é uma afirmação e negação da faixa antecessora. Afirmação porque reconhece sua unidade, negação porque busca outras expressões. Estamos, ao invés da uniformidade de Sleepwalking Land, em um local onde não há controle e cada imanência irrompe e se estrutura em suas próprias aflições, em seu próprio instrumental. Poderíamos pensar, “mas com essas divisões, não seria melhor ouvir o disco íntegro de cada participante? Como encontramos um núcleo criativo do próprio Kovtun?”. Mas não são objetivamente divisões, são blocos de um mural gigantesco (o disco tem uma hora e meia), e as próprias controvérsias dessa estrutura garantem a unidade de cada participante. O disco não seria o mesmo sem as aves e o barulho absurdo na colaboração com o Godpussy e assim por diante. A abertura, então, está na vastidão que o ouvinte tem que encarar, assim como na ambição do disco e suas múltiplas facetas- é mais difícil, assim tão recortado, e provavelmente mais recompensador.

As variações desafogam e trazem repentinas e interessantes mudanças de estrutura, talvez a única forma de criar um disco tão grande seja apostando tanto nas bifurcações de gêneros mais “densos”. Pois eles próprios são radicais às suas maneiras e demonstram alicerces mais dinâmicos do que a simplista nomeação de “barulho”. Com meu quarto devidamente fechado, são fascinantes os “empréstimos” imagéticos que as músicas me proporcionam, seja nas mais econômicas (ou a primeira parte, como imagino uma divisão estética) ou a segunda, que agride mais. Penso, porém, que elas se unem porque são como defuntos procurando um terreno mais hospitalar, e por isso tamanha difusão sônica e necessidade agressiva, o corpo já sabe que o mundo aparente, essa tal de “realidade”, não serve mais. Precisamos respirar em outros lugares. Nossa mente pode se atrever a isso se nos relacionamos com esse disco da forma que ele merece- sem uma “necessidade” anterior, porque as microestimulações vão jorrar com cada canção e terminar com elas também.

E ouçam isso alto. Pois há aqui uma espécie de “grito” anônimo que ecoa em cada base distorcida, cada repetição que aumenta e cada acidente que topamos. É um disco que versa sobre uma dor que é impossível de especificar, uma inquietação constante que fez com que Mandra (ele é o Kovtun) decidisse reunir esses nomes e nos oferecesse tamanho corpo que registra uma época bem importante de nossa música independente (aqui eu estou assumindo as motivações por trás do disco). O ambiente enclausura e rompe com uma organização mais “meditada”. Ao mesmo tempo em que temos aberturas instrumentais que nos deixam mais a vontade até mesmo para divagar, as pancadas dessa parede nos deixam estáticos. Não há uma limitação da experiência, apenas uma força própria que não permite titubeação. São músicas que exigem sim atenção e apresentam camadas que merecem ser ouvidas muitas vezes. Falei sobre a “possibilidade de divagação”, mas não quero diminuir nada. É um disco perturbador. São barulhos agressivos, são estruturas que nos confundem, na maioria das vezes.


Eu evitei ler qualquer coisa sobre o disco anteriormente porque queria deixar aqui somente minhas sensações, minha experimentação. Por exemplo, o nome das músicas, aparentemente científicos, o que querem dizer? Aqui eu volto à parte que questionei o porquê de um disco em que todos os faixas têm participação de outros artistas. Não há resposta, na verdade (para o nome das músicas). Eu poderia ter falado também sobre as variações e os “gêneros” que esse disco atravessa, mas imagino que tags reduziriam a inauguração que Androginóforo propõe. É através da escuridão que envolve todo o disco que, talvez, podemos encontrar algo mais simples, para podermos nos maravilhar com cada “surgimento” (e não começar a questionar o porquê do nome das músicas, ou o porquê das participações). Androginóforo é um experimento do Kovtun, mas também uma afirmação. Sem objetivo aparente, ele se ergue e exterioriza que uma música significativa sendo realizada no Brasil que não é demonstrada em charts, na Wire ou qualquer outro veículo. Mas que ela existe e é substancial. Que ela não hesita e que ela não se explica- ela só pode atravessar e ser atravessada. Espero que essas irrupções aconteçam com quer ouvir o disco. Comigo aconteceu.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Kovtun- Sleepwalking Land [2014]

Sleepwalking Land parece, ao mesmo tempo em que devemos ouvi-lo seqüencialmente, uma fragmentação de idéias. Sonoridades. Evidentemente, há um mantra que guia todas as faixas, algo onipotente e onipresente. Essa obscura ambientação criada por Raphael, porém, é um terreno inquieto, construído sobre paradoxos, causando um movimento “atrativo-repulsivo”.

Incorporamos essa terra desolada e nos agarramos nos momentos mais “belos” que o álbum estimula, para sermos silenciados e arremessados novamente de volta à trincheira pelo clima soturno. Sem dúvidas, uma viagem em que a melancolia parece ser o sentimento mais vigente, enquanto o teclado, os sintetizadores e as vozes do fundo parecem nos chamar. Mas para onde?

Álbuns assim dialogam diretamente com nosso esboço de subjetividade. Não há “bloqueios” e entram direto em nossa mente. Capaz de sacudir da alienação constante em que nos encontramos, Sleepwalking Land é um estranho abrigo para quando nos sentimos alheios demais. Seu ambiente não deseja totalidade, mas suas faixas compõem retratos e que espero que você reconheça e se amigue desse estranhamento tanto quanto eu.


Raphael Mandra retorna com sua música decididamente não comercial. E aqui ele parece não querer revelar tanto os “fatos” como no seu outro projeto, Rádio Morto. Aqui, ele parece dar mais espaço para o ouvinte impor suas dúvidas. Estas são micro movimentações que rumam a um todo invisível. Uma viagem sempre de volta a si. Sem qualquer tipo de clichê, Sleepwalking Land nos trás aquele tipo de reflexão mais importante; um diálogo com si mesmo sem “estratagemas”, optando pela ambientação e um respeito enorme pela inteligência de quem está ouvindo.