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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Boogarins - Manual, ou guia livre de dissolução dos sonhos

A variação de gêneros no Brasil tem sido cada vez mais evidenciada pela dissolução do império “sertanejo” e afins. Pensem que, no imaginário de certa juventude, ficar difícil fazer uma associação livre entre lugares físicos e gêneros musicais. Na verdade, constrói-se um labirinto de influências e ramificações, de tradições desconstruídas e também prolongadas. Pode-se encontrar essa difusão sonora em Goiânia, terra dos Boogarins. Levando para o lado positivo do verbo, a banda tenta realmente “inventar” sonoridades novas através de caminhos conhecidos. Eles fazem essa “caminhada” no escuro para ampliar as possibilidades instrumentais da banda.

Eu não sei até qual ponto a “intuição” é um fator para a composição do grupo, mas mesmo assim, a música do conjunto me parece fortemente apoiada na intuição, em sessões livres em que encontram elementos que os agradam e são melhores lapidados para entrar no disco. Tudo soa, mais que um relato íntimo, como uma exposição do ambiente que os cerca. “Manual [...]” é uma tentativa de evasão para lugares onde a intuição pode levar, é uma caminhada fermentada pela proximidade física dos signos que compõe o habitat do conjunto.

 O disco é próximo, parece algo que sempre ouvimos. Mesmo assim, é difícil de explicar e de entender. Quero dizer, é difícil dizer o que esperar de “Manual [...]”. Com uma sonoridade que resgata certa estética dos anos 1960, o Boogarins usa reverb e letras que buscam uma estimulação mais onírica. E não sabemos em que lugar nós vamos parar, pois essa veia psicodélica é tão gritante que nos causa uma imersão no “instante”. É como ir de encontro a uma massa sonora (que não é agressiva, até é reconfortante, como eu disse) e deixar que ela se entregue por você. É preciso ter a noção de que a “naturalidade” das progressões do Boogarins não apela para truques; elas são fonte da intuição do grupo.

Enquanto todo um fluxo imprevisível percorre o disco (mas não deixa de ser um fluxo extremamente não agressivo), começamos a nos importar com questões como “ok, mas SÓ essa massa sonora que vai preencher todo o trabalho?”. Mas não podemos esquecer que esse suposto manual do Boogarins é o próprio registro de um ambiente bastante surreal (a julgar pela capa) que é propagado não por seu retrato, mas pela percepção da sua irrealidade. Sem parar com essa catalogação do irreal, mas também perdurando uma grande dúvida de “não é só resgate que a banda realiza?” que podemos definir “Manual [...]”. Aí, pode-se cair em questões subjetivas, de “se eu gosto tudo bem, oras”. Até os efeitos que eles podem trazer, podem-se perguntar outras coisas, talvez mais importantes, “até que ponto de afogamento eles nos levam que esqueçamos coisas tão secundarias (conceitos) na música?”. Porque o que sentimos ao ouvir um álbum é o que mais importa no fim das contas e tentativas de causar sensações não faltam para o Boogarins.

Esses são os riscos de discos tão pautados em subjetividades extremas como a intuição, ao mesmo tempo em que é o fator que propulsiona o Boogarins um álbum tão esperado pelos fãs. Não é sobre lealdade, mas sobre o aguardo de algo que eles possam se relacionar. Não há nada em “Manual [...]” que não foi utilizado no último disco- o mesmo clima de “sonho”, de contemplação e de imersão em signos espaciais. A libertação da áurea que eles mesmos criaram não acontece e não é como se eles buscassem isso.

Que o Boogarins tem grande capacidade com reverbs e estruturas psicodélicas eu não tinha dúvida, infelizmente, em “Manual [...]” não foi possível saber se eles caíram nesse conforto ou apenas são realmente estacionários nesse estilo. Sons tão parecidos demoram para se desvencilhar do lançamento anterior e o disco ser enxergado como uma unidade dentro da discografia da banda. Não acredito também em comparações que muitos fizeram com o Tame Impala que, embora talvez realmente tenha influenciado o Boogarins, tomou um rumo extremamente covarde no tocante à continuidade em sua discografia. Penso em “Manual [...]” como um disco exatamente igual (no conceito) ao primeiro.

E aqui eu devo me contradizer novamente e afirmar que quando se tem uma banda tão intuitiva como o Boogarins essa nivelação de conceito pouco importa. Sente-se a inclinação da banda em fazer música corporal, sensorial. Fala-se, nas letras, muito sobre “sentir”, sobre ultrapassar os prédios e isso por que o Boogarins deixa passar e esquecem “o tempo todo”. Essa junção onírica de sintetizadores e distorção forma um bloco sonoro que nos propulsiona inevitavelmente a algo. E essa é a invenção da banda, essas intuições que são demonstradas tão bem sonoramente. A banda quer algo que não é definitivamente claro; ela quer misturar tudo sem ver, ela quer passar esse ambiente que os cerca da maneira mais fiel possível dada a percepção do conjunto. Por isso, tal incompletude em “Manual [...]” não me soa como um espaço vazio não preenchido. Soa-me como o registro de uma busca contínua.


Até as repetições podem ser distorcidas, podem ser revisitadas e mostram que o passado se repete (em outras músicas) que o Boogarins lança seu segundo disco. É difícil mesmo de deixar uma impressão que não seja confusa sobre o último disco da banda. Ao mesmo tempo em que temos um disco muito parecido com o primeiro, é impossível negar o talento dos rapazes com os reverbs. Pode-se esperar que eles acrescentassem mais elementos em sua sonoridade nos futuros trabalhos, e que a recorrência da “estética psicodélica” seja outro bom escape deles e não apenas o único e principal. Seja o que for, “Manual[...]” ainda expõe uma banda  que realiza sons instigantes em sua zona de conforto.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Ya Ho Wa 13- I'm Gonna Take You Home (1974)

Ya Ho Wa 13 é o nome de uma tribo musical liderada pelo velho espiritual Guru Father Yod. Dominado por guitarras, encantações estranhas e baterias ritualísticas, a estética musical do Ya Ho Wa 13 é uma boa ilustração da constante fascinação do Father Yod pelo ocultismo e meditação sensual. I'm Gonna Take You Home é o segundo lançamento pela alcunha do nome Ya Ho Wa 13. Segue diretamente a abordagem estilística e musical antecipada na sua primeira obra-prima Penetration, An aquarian symphony. Essa aventura musical "tosca" começa com uma peça roqueira ácida cativante blues. Incluindo guitarra, pontuada bateria ritualística massiva pulsando por cânticos teatrais. Me lembra  Amon Duul II em seus momentos mais selvagens. Improvisação instrumental sexy psicodélica, incluindo partes cerimoniais e guitarras blues lesadas espaçadas. Isso fica no topo da atividade musical do Father Yod e um álbum altamente recomendado para aqueles que amam krautrock, obscuridades psicodélicas selvagens dos anos 60 e 70!

domingo, 11 de agosto de 2013

Pink Floyd- Wish You Were Here [1975]

Wish You Were Here é frequentemente negligenciado por muitas razões: o conjunto de apenas cinco faixas (cujas quais, no mínimo, duas são homéricas em tamanho e qualidade), comparações com Dark Side Of The Moon e The Wall, e outras fatores. Wish You Were Here é frequentemente deixado para trás quando colocado contra os outros álbuns clássicos do Pink Floyd, mas na minha opinião ele é simplesmente impecável! Eu diria que esse é o melhor álbum do Floyd, e quintessência no catálogo da banda. Um álbum absolutamente amável.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

The Jimi Hendrix Experience- Are You Experienced [1967]

Ao mesmo tempo que meu amor por  'Are You Experienced' possa soar um pouco exagerado, a genialidade musical e qualidade das faixas é qualquer coisa acima da média! Jimi Hendrix foi um homem criativo quem sucumbiu sua alma para a música que ouvia na cabeça (quantos tem os culhões de fazer isso !?). Seus tons foram sem precedentes, e sua maneira de tocar era divina. O lançamento de 'Are You Experienced'  conseguiu para Jimi a notoriedade de um dos músicos mais inovadores e majestosos de todos os tempos. E depois de ouvir sua estreia (recomendo ouvir um milhão de vezes), eu não poderia concordar mais com tais afirmações.