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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

a escavação vertical de Gnawed | as reminiscências vivas do Shimmer Crush

Gnawed :: Pestilence Beholden (Malignant)
Se boa parte da música que se convencionou a chamar de industrial e suas inúmeras variações tem um pé forte na performance, o início de Pestilence Beholden é poderoso neste aspecto; é como se a estética fosse as próprias ruminações do inicio. Não é bem uma introdução, não há tempo para introduções nesses simulacros de estrutura. A estética distópica, conturbada, obscura- ainda assim sintetizadores saturados prolongados que escavam o espaço. Pestilence Beholden é uma escavação vertical enquanto tudo que é deixado para trás é engolido por uma matéria seca; incrementada em abatimentos, formações disformes, aparições repentinas.

Se a base é uma performance e se a performance nasce através da experiência e se a experiência do Gnawed é puxar sonoridades árduas para um terreno de diálogo com o ouvinte e a partir daí estruturar os meios que Pestilence se desenvolve. As texturas massivas, os berros industrializados, os cânticos como plano de fundo- não é bem uma questão de "em que mundo estamos" mas como estamos habitando este inferno e ainda assim tirando algo disso? A isolação gritante na obra de Gnawed ( preferia referir como "isolacionismo", pena essa palavra não existir) é uma topologia que vai além de uma solidão admoestada; ela é uma solidão obcecada pelo controle caótico em um terreno organizado por rupturas poderosas. As gravações de campo e os vocais cheios de efeito são o transe da mesma obsessão. É como se o Gnawed quisesse representar não uma ambiência obscura que o envolve, mas como seu próprio estar-no-mundo (o acontecer de Hannibal) espalha certa nebulosidade. As tendências mais eletrônicas na música industrial não são para modernizar qualquer estética- elas são a forma de Gnawed tentar esboçar um não sufocar completo.

Ainda assim permitindo-se momentos de sonho em um pesadelo intermitente. Ainda assim há uma respiração que germina em toda a claustrofobia provocada por Pestilence Beholden. É como se a perseguição não seguisse qualquer rastro teu mas ela fosse intrínseca a qualquer forma que você assuma no mundo. Não há ser no mundo por tanto. Apenas um disfarce. E Gnawed reconhece que nestes trânsitos entre  o que há de mais densamente violento em neuroses modernas que encontra algum ar para respirar. E ele se recusa aos ares limpos. Ele se recusa ao idealismo.

Shimmer Crush - These Four Walls

Idealismo que nem entra em voga no cenário de reminiscências vivas que é These Four Walls. O álbum estabelece partículas (um fluxo constante de alterações de densidades sonoras, estranhamente continuadas, estranhamente insistentes) que envolvem o ouvinte numa arquitetura horizontal de possibilidades paralelas. É como se o glitch artificioso de Shimmer Crush celebrasse um enigma ao invés de tentar resolver qualquer coisa. Por isso, apesar de todos os elementos grosseiros que envolvem These Four Walls, Shimmer constrói sua identidade através do que ela não consegue capturar. Os layers, as vozes descontínuas e fragmentadas surgem numa rica textura que dimensiona a nostalgia. Ao contrário de Pestilence Beholden, Shimmer estimula uma visualização mais idílica com arte. Sem, com isso, emprestar qualquer inocência pueril que possa ameaçar a densidade do seu trabalho. As percussões ora manuais ora eletrônicas em um downtempo cortado por milhares de atravessamentos, a distância que a mesma nota tocada várias vezes provoca- é tudo muito extenso em  These Four Walls, estranhamente disperso.

Escapes entorpecidos com drones fraturados, cortes bruscos novamente, sessões harmônicas descontinuas, cânticos em completo desacordo com o ritmo. Os ruídos são modulados de maneira criativa; eles estranham o espaço mas se redistribuem nele; eles aceitam. É curioso que tudo pareça brotar de uma pulsação modular que tem como estratégia a busca de algo indefinido (talvez por isso a indecisão estética nítida no começo da maioria das faixas).

These Four Walls sai de qualquer conceito reducionista para expressar uma busca afetiva-racional que pelo menos elucida o caráter da apreensão- ou  tentativa dela. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Steve Roach - Emotions Revealed

Um dos meus trabalhos favoritos de todos os tempos na música eletrônica é o Structures From Silence, disco no qual Steve Roach conseguia suspender toda sujeira sonora em áudios cristalinos em uma estética sensitivamente densa. Emotions Revealed se trata de duas peças compostas anteriormente à obra-prima de Reich e que felizmente puderam vir ao mundo no começo de 2016. Enquanto na primeira faixa podem-se sentir as influências de músicos notáveis e um Roach que ainda estava desenvolvendo uma personalidade, a relaxante segunda peça revela vislumbres da genialidade que o Structures From Silence viria a ser, com fortes influências dos primeiros lançamentos da Escola De Berlim.

Naquela época, os experimentos ainda estavam sendo feitos e muitos lançamentos seriam considerados anos depois como pioneiros em vários subgêneros da música eletrônica. Os próprios primeiros trabalhos de Roach se mostram um tanto quanto imaturos e genéricos, o que ele perderia já na elaboração de Emotions Revealed. Aqui temos um músico extremamente à vontade com suas ideias de repetição, em duas gigantes peças com uma textura onírica e sintetizadores que criam um espaço digno para exploração. Seria tolice afirmar que Roach foi um dos primeiros a trabalhar nessa linha, mas o talento revelado nesse disco não deixa dúvidas de que sua produção se divorciaria inevitavelmente de outras eletrônicas generalizadas.  Aliás, esse disco mostra meditações menos distorcidas do que os trabalhos posteriores de Roach e as orquestrações de cordas são o plano de fundo para a repetição de uma simples melodia que fica sempre em primeira instância e trabalha sentidos que conseguimos relacionar facilmente. Esse trabalho de associação imediata é importante porque na segunda parte do álbum Roach vai criar uma ambiente insistentemente mais obscuro e distorcido, se aproximando muito de algumas obras de Klaus Schulze.

A segunda peça se assemelha bastante a Structures From Silence; o tempo é devagar de forma gradativa, ou seja, cada momento soa mais lento que o próximo, assim como os detalhes vão ganhando mais relevância e a estética de Roach vai, aos poucos, se delineando- como um pequeno ato do cotidiano em ultra slow motion. A continuidade massiva de Firelight caracteriza uma instalação em que, aos poucos, pode-se mergulhar. Lentamente, as máscaras das influências de Roach vão se pulverizando para o movimento desgastado e repetidamente modificado exibir um artista com conceito próprio. Os sintetizadores criam uma estrutura etérea de eternos e lentos movimentos que se integram justamente pela instalação criada por Roach, sendo um exemplo das primeiras produções de música ambiente, executada por um jovem Steve que claramente ansiava não repetir suas influências.


Toda a transformação artística que Roach exibiu ao longo dos anos evidencia um artista ligado às novas formas de produção, mas que ainda assim, nunca completamente se submeteu a elas. Nesse tempo, suas abordagens tem-se mostrado cada vez mais grandiosas e que necessitam de muitas análises para realmente compreendermos os detalhes dos álbuns; isso tudo é compactuado dentro de Emotions Revealed que revela um Steve muito mais acessível do que nos anos decorrentes. Esse disconão é apenas “material para fãs”, mas é objetivamente uma revisitada a um dos artistas mais importantes em sua área de atuação e que indica os rumos diversificados que sua obra de vida registraria. Ainda assim, Emotions Revealed não é uma peça de museu, é uma obra que claramente pulsa por sua vontade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sketchquiet - The Nature Only Wants To Please Itself // Seize The Moment

Ninguém está em casa. As lembranças se fundem e os signos externos são apropriados assim como o canto dos pássaros; a noite passa lentamente, a observação transforma-se em absorção. As músicas de Sketchquiet são esse processo de absorver e reordenar o mundo que nos cerca de forma interna. Os versos de guitarra acolhedores de Seize The Moment flui com umas palavras em seu plano de fundo; são memórias que preenchem a vastidão do céu noturno e solidificam sensações como saudade e nostalgia. Mas o que o Sketchquiet realiza não é uma celebração e/ou tristeza em cima do que já passou, mas como Mário Alencar (ele é o Sketchquiet) é atravessado por essas lembranças. Porque elas surgem, e se decidem ficar, não há como combater e aí que músicas como as do Sketchquiet fazem todo o sentido. Elas existem não para lutar contra os nossos sentimentos, mas para acolher e dar vazão para eles, para estetizá-los de forma que eles também caracterizem uma presença. Sketchquiet pinta um cenário que sentimentos paradoxos são possíveis, nenhum contorno é simplesmente objetivo nessas duas canções. Todos os rabiscos são precisos e necessários.


Amanheceu e pouca coisa ainda faz sentido. Os versos de guitarra ainda são aquela mesma melodia da última noite, mas tanta coisa mudou, meu humor é outro. Eles continuam acolhendo minhas sensações. Na pausa de uma música para a outra, realidade se mostra existente, rígida como um concreto. Nós podemos acordar todo dia na mesma hora, mas o céu está sempre diferente. Indiferente a todos nós. O que eu sentia, ontem, na primeira vez que ouvia essas músicas, eu não me lembro. Acho que assim eu posso entender um pouco melhor a fragmentação da voz em The Nature Only Wants To Please Itself. Afinal, nossas memórias só obedecem a si mesmas e suas ordens malucas e caóticas. Elas são como os cantos dos pássaros; determinadas por suas vontades.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Cássio Figueiredo – Presença

Eu realmente ficaria feliz se os leitores, para chegar a Presença, ouvissem os três trabalhos anteriores de Cássio e suas relações explosivas com o instante. Cássio descreve lugares e como ele se sente neles. É a manifestação de uma ocupação. Mas Cássio descreve por impressões, por surgimentos abruptos; nesse tipo de estrutura em que “descrever” é um atravessamento de lugares. Ele descobre a “presença” indo além das formas; ele ouve os ruídos, as cordas do violão, a mesma risada; a presença é a insistência e o que se repete, mas também é o que morre ante mesmo de ganhar contornos definidos. Não podemos confiar na presença, como demonstra Cássio. Ela é pueril. Nem sempre o instante ganha formas e é exatamente aí que Cássio opera todo esse disco. Mas muito mais do que uma questão filosófica, a afirmação do músico e de sua existência passa por cada som que é vazado em Presença; existe muito mais do que pensamos, existe muito mais do que podemos definir.

Presença é um cuidadoso processo de catalogar instantes altos e monótonos que ganham muita importância quando são sentidos de outras maneiras; os barulhos constantes saem então do campo da simplicidade significante (as buzinas de carro) para se transformarem em símbolos dos multielementos que nem sempre ganham forma definida. Por isso que são encontrados monumentos em toda operação de Cássio; os sons saem da esfera cotidiana porque seus contornos não são limitados. O que Cássio faz é dar liberdade e vazamento para esse emaranhado de “lugares-comuns”. Ele musica esses lugares. Devolve a eles o formato artístico que eles são.

A intenção de Cássio fica evidente já na primeira peça, que tem participação de Cadu Tenório; uma imersão sensível em lugares que, através do processo de imersão e desconstrução, vão nos presentear essências sonoras que precedem a forma. Isso porque o músico é muito transparente em relação às suas ferramentas; a investigação contida em Presença também é uma exposição de alguém que foi passado por esses lugares. Suas ações são atitudes do dia-a-dia que se potencializam na música contida nessas peças justamente pela sensibilidade de Cássio; o lugar é indiferente a ele, mas é graças ao músico que esses lugares que se misturam em sua estética repetitivo-agressiva podem ganhar uma afirmação tão positiva, ainda assim que não estejam completamente definidos, que não estejam completamente dissociados uns dos outros. Ele releva as frestas do cotidiano, o quão explorador uma caminhada a dois pode ser, quando você está andando ao lado de alguém e as risadas dessa pessoa se misturam com uma melodia que você lembra, com o barulho dos metais da cidade.

Todo esse mistério é manifestado na maneira que ele manipula esses elementos, esses encontros aglutinados. Cássio é um observador de seu ambiente e suas percepções do que pode ser musicado são evidenciadas em faixas como Condução, em que a saturação extrema é cortada abruptamente, porque ele chegou a algum lugar, ou porque simplesmente ele decidiu parar. A quantidade de sentimentos que ele consegue demonstrar através de barulhos considerados não musicais refletem uma abertura do músico a esses lugares. Apesar da agressividade aparente de Presença, suas consecutivas ouvidas mostram quão sutis são os detalhes que Cássio explora. São deslocamentos frequentes, explosões imprevisíveis que interrompem uma frase, ainda assim continuam o clima ambiente. Porque Cássio não quer modificar as estruturas que o cercam, mas obviamente suas percepções são frágeis, constantemente incertas e, mesmo assim, ele quer evidenciar essa fragilidade. É sua única certeza.

Musicalmente, Presença representa uma tentativa de recolher o caos interno e externo e dar alguma ordem possível. A ordem escolhida é representada de forma caótica também, mas dessa vez Cássio recolhe essas impressões incertas e as cataloga de acordo com sua memória afetiva e seus laços, como o lindo final de “Dois”, em que as risadas fecham a peça. Essas memórias estritamente individuais também garantem para o músico um escape, porque muitas vezes o peso de Presença recolhem sentimentos mais monótonos, um afogamento lento em repetições que refletem um mundo que está se esgotando de si mesmo. O que fica evidente em “Caminhão de Lixo”, que tem a participação de Cadu Tenório e que se repete exaustivamente, insatisfeita com os destinos que uma grande volta pela cidade revela. “Condução” e seu corte final me soa como um símbolo da repetição extrema em que essa mesma cidade esgotada na faixa anterior revela para alguém; mas ela é mais nervosa e rápida, ela é a saturação de toda insinuação anterior. Parece que a presença da cidade nunca vai ceder, e que essa sensação na verdade vai se amplificando- desde as buzinas da primeira faixa até ter essa explosão agonizante. Mas se é a partir daí que Cássio prefere discursar, ele atesta sua vida na metrópole, todas as vibrações escondidas em Presença afirmam de algum modo a existência.


Inspirações como pessoas extremamente próximas se juntam na percepção de Cássio, e ao mesmo tempo em que as risadas dessas pessoas se desintegram e outros barulhos ganham mais vida, essas memórias, ainda que distorcidas e distantes, mostram alguém que ainda não se rendeu. Exatamente essas distorções podem ser encaradas como metáforas estetizadas das alterações constantes de humor do músico. Ele desconstrói suas memórias e é nesse processo que todo intervencionismo exterior se instala e se torna parte do processo também. Uma mente que está constantemente indo para frente e regredindo. E é essa movimentação que instaura uma Presença, ainda que obscuramente definida.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

John Luther Adams / Glenn Kotche – Ilimaq (2015)

Que a programação da música clássica não é mais é a mesma temos testemunhado ano após ano na realização do “faça você mesmo” nesse tipo de composição. Em seus últimos trabalhos, é notório o exame do compositor Adams nos intrincados padrões que conectam os organismos e os ambientes em que vivem. Além desses micros padrões, Adams busca por uma totalidade desses padrões e os macros sistemas que essa soma forma. Em busca de uma totalidade que fosse registrada de forma minimalista, Kotche é encarregado de todo o trabalho percussivo em Ilimaq.

Em Become Ocean, Adams criou uma peça que representava uma sobreposição de ondas, e nessa tentativa de imersão ecológica que ele foi além de uma romantização da natureza para expor um desastre de ordem natural. Esse ponto de vista ecológico desconsidera conceitos humanos como aquecimento global para refletir a grande indiferença da natureza perante todas nossas preocupações mundanas. Become Ocean foi muito premiada e se tornou uma linha divisória na abordagem ecológica que Adams criava sua música até então. A evocação de imagens que representava a correnteza marítima é a tentativa de totalizar o oceano explicando seus micros sistemas. A experimentação de Kotche no terreno da música clássica se baseou em sua carreira na manipulação eletrônica, sem uma abordagem tão “conceitual” quanto a de Adams. Isso além dos trabalhos colaborativos de Glenn, que além de ser membro de Wilco sempre trabalha com compositores importantes em terrenos radicais e que frequentemente apelam para o livre improviso.

Adam considera o ecossistema como uma rede de sistemas, uma multiplicidade complexa de elementos que funcionam juntos como um todo. Para ele, a essência da música não reside em padrões simples de harmonia, melodia, ritmo e timbre. É a totalidade sonora que configura a plenitude da música. Por ser extremamente conceitual e Kotche pautado muito na intuição, que Ilimaq é um momento de quebra de barreiras para ambos os artistas.

O título do disco se refere a uma jornada espiritual mas, conhecendo parte do trabalho teórico de Adams, acredito que o mais justo seja chamar de jornada ecológica. São múltiplos elementos que tentam se integrar em micro sistemas para formar uma totalidade- as gravações de campo, as manipulações eletrônicas, a percussão. É somente essa sobrecarga sonora que pode sintetizar uma unidade. Mais do que a estrutura calma visível, Adams compôs algo que confronta suas obras anteriores e tem numa espécie de “minimalismo totalista” a catarse para suas revindicações entre a suposta aproximação de música/ecologia.

Os movimentos que compõe Ilimaq se baseiam em vários níveis de velocidade e desaceleração- pode-se dizer que a ideia de integração de Adams é justamente nessa dissonância de velocidades. As oscilações de Kotche mostram-se importantíssimas para as ambições de Adams então; não há possibilidade de totalidade sem os imprevistos. Esse ambiente é frequentemente contaminado por interrupções eletrônicas e gravações naturais. A totalidade é imprevisível. Mesmo assim essas seções indeterminadas e esses encontros não catalogados constroem uma totalidade desinforme, onde o trabalho gradual de Kotche ao mesmo tempo, desestabiliza e constrói esse panorama. Tantos elementos que se encontram; é filtrada essa aproximação máxima à ecologia que Adams defende em seus ensaios.


Pode-se encarar Ilimaq como um rito, uma tentativa genuína de aproximação a um discurso que cubra todos os pontos de uma obra, e é justamente na espantosa técnica de Kotche que o disco destoa para um discurso vibrante. Adams exclama categoricamente seu conceito e aproveita do talento de Kotche para fazê-lo. Resultados esperados não é o foco de Adams, ao invés suas abordagens transgridem construções musicais comuns para mirar sempre em uma totalidade, mesmo que abstrata e/ou invisível.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Gustavo Jobim - A New Life in a New Planet [2015]

É raro hoje em dia encontrar algum paralelo para o corpo sonoro poderoso que Gustavo vem construindo. Estranhamente pouco citado, eu sempre me pego surpreso com a capacidade de sua música me “deslocar”. São tentativas muito verdadeiras de moldar sons tão densos em uma estética que “narre” algo. De alguma maneira, A New Life in a New Planet me soa como um desbravamento- uma única longa canção de quarenta minutos que tenta localizar espaços menos óbvios, localidades ainda não pensadas.

É por isso que A New Life in a New Planet tem uma sonoridade fantástica. É impressionante como uma quantidade absurda de efeitos variados em um mesmo instante consegue estabilizar marcas. Tenho isso como cenas na minha cabeça; cenas de dificuldade enorme, pois poucas coisas são realmente agradáveis nesse álbum. Se em Inverno tínhamos um poderoso solo de guitarra para nos orientar durante a passagem em um terreno nada hospitaleiro, nesse disco tudo soa como extraterrestre. Sons alienígenas tão surpreendentes como improváveis que invadem sem aviso algum qualquer zona de conforto. É por isso que insisto; ouvir cada álbum de Jobim é se surpreender.

Em seu bandcamp, Gustavo informa que esse trabalho é diferente dos anteriores, pois tem mais camadas e efeitos digitais. Eu me pergunto como foi o processo de criação, me parece que A New Life in a New Planet objetiva uma chegada bem obscurecida, se não inexistente. Eu nunca precisei de temas para ouvir música. Acho que é por isso que credito tanto a esse álbum. Há algo na música de Jobim que “só” ele consegue fazer. Não me refiro a tecnicismos como “densidade sonora”, musicalidade ou produção. Quero dizer que há certa “ordem” que não consigo identificar propriamente que traz essa sensação de “transe” durante toda a audição. Cada variação invoca uma nova imagem, de modo que temos uma justaposição bem ruidosa de elementos que se encontram nesse clima realmente “estranho” que Gustavo imputa ao disco.

A discografia de Gustavo está cheia de discos “climáticos”, ou seja, álbuns que nos deslocam enquanto ouvintes. Suas múltiplas abordagens refletem um artista interessado em não se repetir, e embora nós encontrássemos aqui muitos elementos semelhantes ao Tsunami, por exemplo, estes soam completamente autênticos. Repito, Jobim é um músico interessado em terrenos que não foram totalmente explorados, por isso as consecutivas audições de sua obra nos revela desbravamentos incessantes de diversos ângulos. Alguma força reside oculta sobre a diversidade sonora de New Life in a New Planet, mas ela sempre está tangível, sempre a deriva- como uma paisagem que ainda não vemos, ou uma localidade escondida atrás das árvores na beira da estrada.


O maior trunfo desse álbum é também sua maior, digamos, “inconveniência”. É nitidamente um disco difícil, mas realmente divertido à medida que vamos avançado. Ele parece que fica menos “escandaloso”, mas aquela estranheza inicial permanece. Ora, tamanha monstruosidade não era provocada pelo volume do barulho e pela soma dos efeitos, mas principalmente pelos sons que estes emitiam- um contraste gritante com o que estamos acostumados a ouvir. Algo difícil de encontrar mesmo nos recônditos mais profundos, algo novo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

hateyourmusic - tenha bons sonhos [2015]

Gosto de falar sobre discos, aqui, “a partir” da percepção. Ou seja, como a música de tal artista realmente me atravessa e a experiência que esta me propicia. Acredito que isso seja mais honesto e não estou tão apto a falar de “gêneros” ou “tecnicismos”. Acredito que isso cega a conversa e o diálogo/rombo que a arte pode causar. Digo isso porque “tenha bons sonhos” perfurou minhas sensações desde a primeira audição.

“tenha bons sonhos” trata, principalmente, de problemas grandes. Problemas enquanto indagações numa escuridão profunda. Os signos que importavam tanto pra gente (o desmoronamento de uma casa) se dissolvem em desilusões presentes, onde apenas restam rememorações angustiantes do que se passou. São essas narrativas misteriosas e inconclusivas que ambientam o disco. Relações entre o que “está submerso” e a estética, onde expressar essas obscuridades se torna a complexidade do próprio discurso. Trata-se de colisão, as mesmas memórias que nos formaram são nossas fraquezas, e reparamos na nossa fragilidade, em afirmações tão simples ainda assim essenciais (“porque tudo é em vão”). É trazida a nós uma lamentação profunda e verdadeira de quem sente a vida (assim com suas fortalezas, sua segurança) escorrer pelos dedos. O que podemos ver, depois de tudo que passamos? Nossos sofrimentos e nossa tristeza não nos ensinaram nada?

O álbum é dividido em duas partes e a segunda, conforme o próprio bandcamp do projeto, é destinada para “relaxamento”. São duas longas faixas, que tratam de impressão- a figura da mulher que some na escuridão noturna. Mas diferente talvez da primeira metade do disco, há nessa segunda etapa uma “aceitação das ilusões”. Tanto que a ambientação aqui se torna preponderante, como se o “eu lírico” que habitava as canções anteriores fosse lançado para um local imerso em “aparições”. A abordagem mais onírica contempla uma espécie de vazio, há um deslocamento e não estamos mais em lugar algum, as indagações também não têm mais tanta importância. Há uma espécie de deslumbramento nessa manifestação, sua finalidade não é explicita- e sinceramente duvido que de fato tenha alguma “finalidade”. É quase uma exposição do “nada”, as transições de um local “vazio” para outro. Não por acaso o álbum tem o nome de “tenha bons sonhos”, se dormir é um espaço de tempo onde objetivamente coisa algum acontece. Quase um ritual místico para o “sono”, para que a tristeza de toda a primeira parte possa ser -durante esse período- esquecida.

Claro que esse esquecimento temporário não significa uma tentativa de fuga. Ao acordar vamos ter que confrontar com as mesmas merdas pendentes do dia seguinte, não há escapatória. Justamente por estarmos nessa prisão sem saídas, que devemos aproveitar ao máximo esses períodos “entre” os acontecimentos. A última faixa, “boa noite, punpun” é uma referência ao mangá Oyasumi Punpun, de Inio Asano, onde a personagem principal passa por uma série de situações que o força ser adulto, onde as pessoas tentam encontrar significado para sua existência, e no fim ninguém encontra um significado pleno. Aliás, “tenha bons sonhos” encaixa completamente no ambiente do mangá. As emoções que se contradizem, o ciclo que nossa vida se transforma e ainda sim uma realidade imutável, praticamente intransponível. Dessa morte inescapável, porém, surge a poesia, as iminências que atravessam nossas experiências e fazem brotar sensações que nos atinge na pele, potencializando nossas possibilidades, nossas angústias.


Toda essa sensação de prisão que perpetua a audição de “tenha bons sonhos” é de uma constatação de nossos limites físicos, sofrimentos psicológicos. Nós queremos morrer, nós queremos viver e é justamente essa diversidade (que muitas vezes nos esgota) que cava sentimentos mais profundos e sinceros. O hateyourmusic amplia seu espaço (o espaço “negativo”, o campo da “escuridão”) para valorizar as coisas que ficam retidas. Para evidenciar o massacre da realidade e se maravilhar com o vazio.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Michel Banabila & Oene van Geel – Music for Viola and Electronics II [2015]

Ouvir trabalhos como Music for Viola and Electronics  II é algo recompensador. A interação entre Michel e Oene, que se conheceram na Cloud Ensemble, entusiasma pela dificuldade dos temas propostos e como estes são tratados com a densidade necessária. O tempo é estendido e seu andamento lento provoca suspense, pela repetição dos sons eletrônicos, um verdadeiro drone, para inserções pontuais do violino que, mesmo tentando evadir essa estrutura inicialmente rígida, constrói em sua “prisão” versos verdadeiramente bonitos. A relação é expressa cuidadosamente, em uma lenta comunhão que muitas vezes se extravai para além da percepção conceitual. É um tipo de música que trabalha intensamente com conceitos, mas está primariamente fundada no que essa imersão extracorporal realiza com nossas percepções. Até a “entrada” na parte mais sinistra do disco, que se inicia na segunda faixa, é uma transição de modo que o último período da música se estenda para outra- estamos claramente falando de prolongamentos.

Os eletrônicos densos e meditativos de Michel são perfurados quando combinados para a viola, mas não que um tenha necessariamente função oposta ao outro. Muitas vezes a viola cria o ambiente também enquanto a parte de Michel soa alto, revelando influências do dito dark ambient e do noise. De alguma maneira, é como se toda a potência de ambos os espectros tentasse ocupar o espaço do outro, não em forma de disputa, mas uma compreensão de possibilidades e o que tais atritos podem efetivamente criar. É certamente algo que soa além da simples soma entre sons mais “clássicos” dessas diferentes abordagens. Provavelmente releva um espaço novo sempre que tal atrito é criado, e por desconhecermos (e só estarmos dispostos a compreender o que nos viciou), foge de nossa apreensão.

Banabila disse recentemente que essa é apenas uma evolução natural de sua música, mas é engraçado como um músico de seu gabarito, que desde 1986 vem produzindo um corpo sonoro muito importante para a música eletroacústica, considera “evolução natural”. Obviamente mais minimalista que suas outras obras e menos seletivo (nesse álbum, por exemplo, não há inserção de nem um sample), também abdicou de uma espécie de multi etnicismo para algo que se aproxima às relações de causa-consequência.

Esse minimalismo focal, porém, cede muitas vezes espaços para construções cinematográficas. A última faixa lembra muito ambientes interioranos, e Oene nos apreende com violino e viola, onde as cordas variam entre o livre improviso e música clássica contemporânea. Essa música é exemplo da dualidade e confiança da dupla- nela, ambos os espectros realizam o livre improviso e uma construção mais metódica. Não consigo capturar o conceito de Music for Viola and Electronics II, talvez pelo que mencionei no primeiro parágrafo; a dificuldade em reconhecer novos territórios quando uma arte de vanguarda aponta elementos tão limítrofes. Curiosamente, quando os músicos convidados são introduzidos, que toda essa elaboração fica mais assimilável.


Passando por toda a obra Banabila (onde Spherics talvez seja a mudança completa de rumo) temos contrariedades inerentes à visão complexa que um artista tem da música. Onde as expectativas possíveis se equivocam a cada lançamento. Mas repito, é um corpo sonoro poderoso. Eu indicaria Spherics como o melhor ponto de inserção, porque os direcionamentos de seus discos nos deixa sempre a sensação de algo realmente “grande”. Onde meros “formatos” são dissolvidos em prol de um caráter mais honesto em um lugar que as sensações ficam em primeiro plano. Ou seja, um compromisso radical com sua visão de vida, que indubitavelmente está em cada segundo de suas músicas.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Disasterpeace - It Follows [2015]

Podem-se adentrar diversas temporalidades na trilha sonora que o Disasterpeace criou para o filme It Follows. Talvez porque é uma trilha sonora, mas o funcionamento de ambiências instantâneas e abruptas, que nos alçam a um clímax que nem poderíamos desejar, é uma espécie de terror verdadeiro. Nossas bases são fracas e serão corroídas por instantes mínimos que destroem tudo o que tínhamos por seguro. Então é gerado um atrito entre a realidade aparente (essa objetividade demasiada que ilumina o mundo) e uma movimentação interna que se relaciona com nossos demônios independente da posição do sol. O tempo da expressão em It Follows é talvez mais fidedigno a essa realidade interna indiferente às posições astrais. Ele pode sim ser escravo de uma subjetividade, mas é a expressão que se constrói sem esperar nada alheio. Talvez isso nem seja possível para Rich (Disasterpeace é seu alter ego).

Rich Vreeland cria seus ambientes para destroçá-los. E aqui tudo pode ser usado- percussão, vento, drones, guitarra, instrumentos de sopro, áudio de bits. A representação do terror é otimizada na maior possibilidade das vertentes, desde uma composição clássica a sons residuais que podem causar distúrbio. Assim, as surpresas são maiores também. A curta duração das faixas possibilita maiores abordagens e rasgos, de modo que pouca coisa realmente perdura em It Follows. Fica então a certeza da fragilidade, da queda iminente. Como em uma estação noturna, onde os faróis altos de um automóvel irrompem o ambiente para sumir em seguida, as elipses sonoras promovidas por Vreeland seguem a lógica de se estabelecer por pouco tempo. Não somos capazes de memorizar esses sons, mas a sensação deles fica registrada nas audições. Lembramos-nos do arrepio, da intensidade- mas não lembramos propriamente como essas ambientações foram construídas.

As faces do terror então desfilam pela grande expressividade que essa única sensação pode causar. Como se fosse uma metamorfose insana, a flexibilidade com que o Caos se adapta no decorrer do disco como uma coisa anômala sem identidade única. A monstruosidade não tem uma face apenas, então é necessário que suas diversas vertentes (mesmo que sejam paradoxais em alguns pontos, como música oriental tranquila/abordagem eletrônica insana) funcionem como engrenagens distintas nesse Sistema de medo, como uma maleabilidade perpétua. Em todos os instantes de “modificação” em It Follows, somos confrontados com o desconhecido, e é nessa manifestação que o álbum adquire maior intensidade e nos centraliza no cerne dessa condição monstruosa implacável.

Uma das maiores surpresas em It Follows, é como as abordagens que nos parecem conhecida e até certo ponto amigáveis, transforma-se rapidamente em criaturas bizarras. Como uma extensão mais “grotesca” dos trabalhos antecessores do Rich Vreeland, ainda temos aqueles ambientes mais meditativos, mas os efeitos escondidos (como em Pool, onde parece que há uma goteira na música) sempre trazem uma função mais “anômala” para a audição. Esse diálogo com a música ambiente contemporânea serve tanto para o objetivo principal desta, ou seja, nos “situar” em algum lugar, assim como meios para implodi-la em terror e desdobrar suas vertentes mais sinistras. É sério, é incrível como algo tão meticuloso transforma-se sem fissuras num harsh noise pesadíssimo! E essa progressão e consequente transformação, ainda que embalada em sons agonizantes, não perde a mão em drama e construção de clímax. Rich obviamente não consegue enxergar um universo tão simplista.


Com consecutivas audições, todo esse “caos” vai se determinando em um bloco bem planejado de “diversas expressividades” do Caos. Problemas mais profundos que um “horror superficial” emerge; identidade, localização, reconhecimento. Ouçam em um quarto escuro, para que todos os signos sejam mais “essenciais” e mesmo em seu inferno, mais belos.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Stereocilia - Slow Motion [2015]

Erosão: As estruturas estão sendo destruídas. O desgaste é nítido. Estamos sendo transportados, vagarosamente, para um terreno desconhecido. Os guias são essas linhas distorcidas, que promovem ecos, são tomadas por eles. A guitarra sozinha, seus versos simples.

Sombras: Se há sombras, há uma projeção. Mas o que fazer quando as projeções são desconhecidas também? É possível existir a sombra do que não existe? Mas o que, então, se nossos atos passados, nossas frustrações irreparáveis. Nós mudamos tanto e, mesmo assim, não reconhecemos nossas formas. É como estranhar a própria mão. É como se a repetição desses sons fosse a única orientação em um vazio enorme. Mas há espaço aqui. Isso as repetições sugerem! Há terreno bastante para construções. Queremos tanto sair do determinismo histórico e quando essa possibilidade surge... As sombras são companheiras de travessias, nômades de erros distantes também. Vestígios esquecidos que se unem ao nosso imenso desconhecimento.

Refrações: Mudanças de direções, as sombras sofrem erosões também. Atravessa-se o espelho e de repente somos outros. Outros caminhos.

Corrente Submarina: Seriam as sombras projeções do que está submerso? Os sintetizadores ocupam o espaço, a guitarra que já versava sozinha na primeira faixa está envolta em repetições. A solidão é uma repetição. Um hábito que gera mais hábitos sem os quais nos deformamos e estamos dispersos. Engraçado como a solidão evoca nossos passos como se eles fossem uma espécie de origem. Engraçado como não nos lembramos do fluxo, mas a água continua correndo. A água quente, as névoas que a sobrepõem. Tudo é frágil e consequência e acaso.


Diferente do cinema, a lentidão na música é o próprio movimento (e a recusa/aceitação da ideia convencional de movimentação). Em Slow Motion, somos introduzidos a uma temporalidade formada entre forças opostas que estabelecem um enigma. Não se pode “perceber” nada nesse EP, apenas ter impressões. O que forma a impressão de lentidão? O que liga uma música a uma medida temporal? As coisas se movimentam e nós percebemos de outro modo, nada é exato. Pensamos não um passado, mas uma interpretação atual do que cremos que um dia existiu. Nossos passos, uma borboleta voando, as ondas se quebrando. A vida é uma formulação de quadros antigos se renovando por olhos cegos apreendendo pouco porque insistem em ver o mundo ainda com medidas. Não quero dizer que Stereocilia aponte um mundo inaugural e sem medidas. Mas que seu ato criativo insere uma rachadura na ideia de tempo e pode infiltrar uma visão para olhar além das concepções básicas. Não é uma recusa ao modo de construir as coisas, mas sim uma tentativa honesta de elaborar uma visão menos domesticada. Sem negar em instante algum que esta é influenciada. Mas, também, sem se aquietar em nenhum momento, porque há sempre algo fluindo.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Mount Eerie – Sauna [2015]

Phil Elverum observa seu ambiente, onde há flores caindo, uma vela no porão. A noção de realidade em Sauna é injetada de maneira sensorial- são abstrações que invadem o ar. Essas representações de injeções naturais em ambientes artificiais constroem uma identidade onde conceitos qualitativos são dispensáveis. Porque a madeira rangendo e a água fluindo implicam no sentido da existência, longe de confabulações morais/filosófico-religiosas. Temos a mística do fenômeno e da manifestação. Spring, a faixa mais longa, conta com um coro desalinhado e guitarras distorcidas com a voz melancólica de Phil, onde há uma celebração da expressão da primavera e como esta modifica a casa descrita. Os sintetizadores crescem e descem, a voz apenas registra os acontecimentos, enquanto a estação perpetua seu eco em microfonias. Algo está positivamente sendo sufocado- essa cosmogonia está nos trazendo para dentro de si- estamos sendo invadidos. O mundo não existe. Apenas esse porão, as flores não existem- apenas essas que estão caindo.

Só existem essas palavras e esses registros e esses sons. O resto é literatura e tarefa da imaginação. A repetição cria um ambiente intricado e as variações dentro dessa “repetição maior” nos orienta por sensações divergentes durante o disco. Não há determinada corrente que “guie” a performance, mas a constatação de iminências que rompem “gêneros” para erigir uma densidade que condena simplismos. Há as gravações em campo e essas vozes sussurradas ‘lo-fi’. ‘Books’, que segue Springs, investiga o lado mais intimista contando com um violão que não soa muito claro e relata o transporte que a imersão na leitura de algum livro pode causar para, digamos, o mar. E aqui não trato de imaginação nem literatura. É o que brota quando estamos tão concentrados em algo e mesmo que em algum lugar remoto, temos uma sensação de compartilhamento do mundo e manifestação das coisas. ‘This’ segue elétrica com distorções de guitarra para cair num drone, com vocais femininos, relatando as tentativas de capturar o momento. Podemos falar que Sauna é a aceitação do vazio, mas não em uma concepção oca- um vazio em que há sonhos, mares, loucura e canções- sem causa aparente, sem consequências previsíveis.

Essa construção em cima da repetição tem sido constante na discografia de Mount Eerie e em Sauna ele conta com dois grandes blocos musicais (as duas músicas de maior duração) e o desenvolvimento de suas adjacências nas outras canções. ‘Emptiness’ é construída em cima da tensão instável, enquanto o vocal frágil de Phil apresentando como as projeções externas estão dentro de sua mente e na origem repousa o vazio. Embora quase todas as músicas se baseiem na repetição, cada delas tem sua forma de repetir as estruturas. Alguns momentos são tão detalhistas e precisos que ficamos surpresos que estes momentos não retornam. É de uma sofisticação estética e um preciosismo enorme que isso ocorra. Em ‘Boat, de instrumental violento que brinca com as ideias do Black metal, percebe-se uma voz cristalina e tímida como a de Elverum. Isso garantiria doze músicas de muita qualidade, mas toda essa maravilhosa ideia é usada em menos de dois minutos e meio para, quem sabe, surgir em algum próximo disco. ‘Planet’ soa como uma extensão disfuncional de Boat, e temos os ecos com ruidosas guitarras ao fundo. Novamente, para durar apenas um minuto e meio. Como compositor, Phil quer manter conosco um dialogo rápido ao mesmo tempo que abusa de múltiplas estruturas para acumular informações em sua perseguição estética. ‘Pumpkin’ é construída em cima de ecos distorcidos do baixo e um vocal límpido. Mesmo contando com tantas visões e rompimentos sonoros, Sauna mantém um clima de intimidade que se destaca das outras gravações do estilo. A faixa-título nos localiza em um ponto de extensão, obviamente, mas a pergunta “onde é que exatamente estamos?” vai pairar em todas as ramificações desse disco.


Com todas essas interessantes variações e objetivos estilizados em rompimentos do convencional, a força maior ainda está localizada no empréstimo poético da voz/letras de Phil em uma troca constante com o ambiente externo. Se o pensamento nasce com o sujeito, Elverum está mais interessado no que precede esses conceitos. Ele não apresenta a futilidade de um mundo sem sentido e absurdo, mas a maravilha do vazio, onde as coisas podem se manifestar e, por sorte, podemos testemunhá-las.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cássio Figueiredo - Dias [2015]

Há pouco menos de um mês eu falei sobre o primeiro EP que Cássio lançou esse ano, Dias, e de como me inquietava o que os músicos contemporâneos (principalmente os ligados ao noise e suas variações) tinham em mente quando criam suas obras, muitas vezes estas, o contrário de conceitos chulos e clichês como “música orgânica, fluída, sólida, etc.”. Se em Diário, Figueiredo já não se subordinava às execuções simples –inclusive “desobedecendo” a temporalidade suposta na nomeação das músicas- em Dias temos esse rompimento transcrito de forma concreta.

Os dias transcorrem mesmo de forma segregada, disparates que são impossíveis de “justificar”, “conceituar”. Isso seria domar o “tempo” e reduzir o poder iminente de cada momento. Por isso os cortes bruscos, a superfície inconstante e alta- é difícil situar com precisão, é complicado tentar encontrar a ligação que torna uma explicação real possível. Só há reminiscências do que entendemos por realidade e a forma que se pode absorvê-las para transformá-las em algo que ecoe. Não uma apreensão que tente copiar o que aconteceu- mas uma forma de massa sonora que seja consequência dos dias. Para isso Cássio utiliza memória e imaginação. E criatividade.

Assim como o decorrer dos dias, os elementos aqui parecem dispersos. Reúnem-se, depois somem. Essas mesmas “aparições” foram realizadas em Diários, só que nesse EP os fragmentos estão mais dispostos e mais variáveis, até. E a imposição de tantos sons periféricos integram lembranças, reminiscências e certa aleatoriedade. É a vastidão interna que Cássio compõe- as contradições cognitivas que nos possuem no passar de uma medida (no caso, o tempo). Temos uma análise final, de qualquer forma; aquele terreno descentrado onde reconhecível e irreconhecível se convergem tanto que passamos mais a acreditar no que é imediato. Essas frequências acusam, então, uma confusão mental que Figueiredo espelha em forma de retratos sonoros e imagéticos- as ondas, as músicas, as vozes.

A não divisão em faixas torna ainda mais aberto ao ouvinte à transferência destravada de memórias que caracteriza Dias. Como a partir de um minuto e quarenta, onde uma imensa onda sonora surge vibrante, para depois se aquietar. É um fluxo de lembranças e esse fluxo tem suas marés. Isso torna o “surgimento” (em qualquer das suas formas; ruídos, distorções, melodias chiadas) a característica principal dos registros afetivos de Figueiredo. São portais da percepção que preenchem toda a escuta com “entradas” e “saídas” tão surpreendentes que não podemos constatar exatamente onde começa e onde termina. Confiar “apenas” no modelo intuitivo e suas deliberadas maneiras de criação- e ainda assim produzir texturas tão incisivas e intensificadas- garante uma liberdade cuja qual Cássio tem discursado em todas suas gravações.


Fala-se tanto sobre “interioridade” e “personalidade” na criação da música contemporânea, que muitos se esquecem de que o que realmente está em jogo é o que “suporta” conceitos tão poucos expressivos. Figueiredo utiliza sons para questionar sua própria construção como indivíduo e se baseia em mundo próprio que, às vezes, parece um exílio. A memória é usurpação também, não nos esquecemos. Dos outros e da nossa confabulação. O que resulta em uma dissonância que aperta a concepção de “entidade” contra a parede. Uma espécie de apropriação desorientada e, em certo ponto, mística.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cássio Figueiredo- Diário [2015]

O “processo de criação artística” sempre foi algo que me fascinou quando eu comecei a ir atrás desse negócio que chamamos de arte. No entanto, desde que a Internet se mostrou (pelo menos para mim) como principal meio de transfusão de movimentos artísticos, esse mito foi se quebrando. Quero dizer, com essa emanação de artistas e músicas no sistema faça você mesmo, estabelecendo ruídos discrepantes com ambientações que anseiam por autenticidade, fica evidente que esse “processo” está cada vez mais voltado em uma manifestação estética interna. É isso que temos em Diário, EP que surpreende pelo seu movimento descontínuo e, de certa maneira, desconfortável.  O ouvinte cai em movimentos que se repetem, irrompem e se desintegram.

Esses movimentos ‘imperfeitos’ de desintegração atravessam estilhaços como espectros. São significados disseminados através de diferentes freqüências que evocam cada dia de Diário como um espanto- parecem dias longos, perpetuados pela manipulação de Figueiredo. Justamente essa percepção multiforme (os dias mudam, afinal) que destacam a singularidade desse lançamento do Cássio. Ele não insiste na saturação e extrapolação, mas desenvolve mini temáticas em cada faixa-dia. Dias rendidos em um diário.

Por essa questão de múltiplos atravessamentos que evito referir a esse EP como minimalista. Embora haja influências claras, cada dia aqui contém sua inquietação. Óbvio que se Figueiredo fosse fazer algo mais uniforme e fechado às mediações externas, ele lançaria uma ou duas longas faixas. Esse sistema completo que pode ser Diário indica a impossibilidade de um ciclo. Muitos ruídos se repetem aqui, mas o confinamento temporal em Diário é abandonado para a percepção afetiva de quem o redige. Diário é uma unidade na medida em que foi pensado pelo mesmo músico em um conceito e essa sensação de bloco único se desintegra enquanto avançamos nas faixas. A certeza de continuidade morre na audição e persiste no nome das músicas “Dia 1, Dia 2,...”. Eu posso estar interpretando isso completamente equivocadamente, mas a própria música reage contra sua pré-nomeação. Se não é um disco explicitamente de diversidades, suas recaídas e insinuações aplicam alterações abruptas nas sensações.

Não em um movimento convidativo, Figueiredo desafia o ouvinte a não ser só testemunha. Diferente, por exemplo, do que acontece em Disintegration Loops, que também é um processo de desintegração. A problemática de Diário se constrói com a mesma dificuldade que é passar pelos dias. Recaídas, explosões de blocos sonoros, uma melodia mais agradável que lentamente se transforma em uma espécie de sussurro fantasmagórico, alternações abruptas no volume. Em Dia 1, há uma mínima insinuação de desintegração na “melodia” que inicia a faixa. Em Dia 2, o bloco que terminou a faixa antecessora ganha mais vibração e continuidade. Os sons são descontínuos, outros ruídos são mais resistentes, o volume se altera novamente. O que faz um dia ser encarado como unidade, então?


Essa descontinuidade e incerteza que caracteriza Diário. Uma efemeridade enorme e sensações que não podem ser explícitas em medidas temporais. Temos um período, mas estranhamente, a música não trabalha para esse bloco de tempo. Ela revela outra coisa. Que tudo pode acontecer agora e que exatamente nada vai acontecer. Há a continuidade dos dias, mas uma inércia que justifica alterações abruptas e rompem esse conceito de linearidade. O anúncio de uma melodia pode morrer antes mesmo dela ganhar vida.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

The Arms of Sleep - Chinese Houses [2014]

Acredito que, para muitos de vocês, a maior dificuldade hoje em dia é, “onde catalogar música boa e daí descobrir algo que realmente valha à pena”? Eu mesmo já segui e fui atrás de vários sites para “acompanhar”, até que dei um chega- pelo menos pra mim, que conheço uma quantidade relativa de gente cujo gosto eu considero “próprio”, as informações tem simplesmente chegado. Deste modo, surgem diferentes ritmos- um mais dissonante e maluco que o anterior- que caem no meu colo e descubro uma grata surpresa. Note-se que, obviamente, o primeiro lançamento do The Arms Of Sleep é um desses registros que surgem quando todas as listas de melhores discos já foram feitas e abala sua própria noção de música. Fico muito, muito contente com a capacidade sistêmica de a música me surpreender.

A integração dos sons compõe sistemas de conceitos que não sabíamos que habitavam em nós- calma, tranqüilidade, relaxamento e paz. Mesmo nos seus instantes mais tensos e fragmentados, Chinese Houses se estabelece como uma proposta fixa de que, no fim, há uma espécie inflexível de calma. Mais do que isso, todos os sons “paralelos” às melodias principais intensificam essa sensação. Tudo isso se envolve numa obra que, quando visitada de uma só vez, corporifica em seu fim tudo o que esperávamos desde seus primeiros versos. Não é como simples “fim, inicio e começo”, não! Mas uma continuidade que vai resistir mesmo quando o disco acabar. As melodias são eficientes ao ponto do instrumental resistir ao mundo externo. Cole Weiche (que é o The Arms Of Sleep) influência nossa percepção sensorial a esse ponto.

O contexto em que vivemos- um amontoado urbano cacofônico, trágico, perturbardor- necessita de pausas tão serenas e meditativas como The Arms Of Sleep. Para nossas perspectivas não persistirem tão depressivas e amparadas em um estado inerte de melancolia. Outras perspectivas merecem serem erguidas e construídas como “esperanças”- porque ao existir uma esperança, existe um momento de espera. O momento de espera é sagrado à medida que este providencia transcendências apesar da realidade.


Embora tenha lá seus clímaces, Chinese Houses é construído sobre um sistema de pensamento decididamente sereno. Um sistema de pensamento que planeja rotas de fuga da velocidade opressiva do mundo. Um período para fechar os olhos e respirar fundo. Não tem uma finalidade porque vamos precisar de instantes assim a todo o momento. Chinese Houses é o presente que merece ser desfrutado, esquecido por preocupações mundanas e temporais. No entanto, há vários “cortes” que desconstroem a música- como para lembrar o fim da efemeridade. Chinese Houses se torna ele próprio um paradigma de suas esperanças. Se repararmos bem, seu interior está cheio de “desconstruções”. Isso porque Cole sabe bem que música não é utopia. Na falta de construções objetivas- temos a esperança. É um disco que clama por nossa relação com ele. É um disco que, de certa forma, nos compreende. Um ponto para fugir. Um ponto no meio do caos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Taunting Glaciers - Taunting Glaciers [2013]

Querer voltar no tempo e corrigir seus erros, desejar se sentir acolhido novamente, perceber-se sozinho. São temas que Roberto Lucena (compositor das letras) aborda com conhecimento empírico. Em seis canções, temos essas sensações exploradas sempre do ponto de vista de um ‘eu lírico’ nostálgico, confuso e sem propósito.

Variando entre frases mais certeiras e passagens mais poéticas, o clima do disco embaralha, de forma instrumental, a espécie de clausura que as letras passam. São ambiências extremamente íntimas criadas em tentativas- mais diretas, como os berros do vocal- e concretas de se reconectar a algo, de encontrar propósito onde tudo parece absolutamente vago e sem sentido. No entanto, não temos apenas a consumação própria em torno de reclamações superficiais, mas sim sempre uma tentativa de explorar a experiência para recuperar o vivido e estabelecer as sensações.

É a possibilidade sonora que emerge da combinação simples entre piano, guitarra, baixo e bateria. No fim, é sobre isso: os diversos cenários que podemos construir ao invés de olhar o passado e o sofrimento.


Trata-se, então, de construção. Mas nunca negar o dilaceramento presenciado ou aquele que ainda acontece. São emoções despejadas que não devem nada a bandas como Defeater e tantas outras. Um desempenho de testemunhas que não se ajoelham aos danos já feitos, porque estes vão nos influenciar a vida toda.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Entrevista com North Atlantic Drift


Os dias chuvosos podem ter uma trilha sonora, retratando suas diferentes nuances, o North Atlantic Drift captura desses diferentes tons apresentando-nos com melodias suaves, melancólicas e cavernosas, cruzando caminhos com impressões artísticas e sensações,que instigam nosso intelecto em razões muito mais fortes do que o diálogo simples ou conceitos estéticos, trazendo o que a música ambiente deve essencialmente ter: uma investigação sensorial quase palpável do universo que nos cerca, bem como as suas diferentes variáveis ​​dispersas em notas formando uma melodia.

Fiquei muito feliz quando Brad Deschamps concordou em responder algumas perguntas sobre a dupla:
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Descreva a cena de música “ambiente” em Toronto.

Não há uma cena grande em Toronto, nós encontramos alguns artistas que pensam como nós, cujo trabalho realmente gosto. A falta de uma cena aqui foi uma das razões pelas quais decidimos começar nosso próprio selo - Polar Seas Recordings – com a esperança de reunir alguns desses artistas. Desde isso nos conectamos com Orbit Over Luna e Northumbria, que ambos são daqui e é claro que fizemos alguns lançamentos com eles através de nossa gravadora. Existem alguns outros artistas de música ambiente fazendo um grande trabalho em Toronto- The Gateless Gate e Oswego são outros artistas que lançaram alguns grandes discos recentemente.

Dorian do Northumbria e eu costumávamos tocar em bandas semelhantes orientadas no post-rock e tocamos alguns shows juntos cinco ou seis anos atrás, há uma pequena cena para esse tipo de música também. Mas eu não acho que é qualquer coisa como a cena ambient/drone/post rock na Europa ou em outro lugar, apesar disso, nós trazemos os artistas ocasionais de turismo aqui e há alguns grandes espaços! Realmente, parece que Toronto é mais uma cidade para indie rock, há definitivamente uma grande cena para isso aqui.

Como é que Toronto influencia a sua música, a maneira de escrever, criar?

Eu não tenho certeza de que realmente há uma enorme influência de "Toronto" em nossa música. Temos a sorte de viver em uma cidade grande, porém, e nós definitivamente incorporamos alguns dos sons da cidade nas gravações de campo em nossas músicas. Eu acho que é uma justaposição interessante, a natureza relativamente calma da nossa música e do caos da vida da cidade.

As capas dos seus álbuns são muito bonitas. Como você seleciona as imagens?

A maioria das imagens para as capas são fotografias tiradas por Mike- Canvas, Monuments, e Resolven são todas suas fotografias. A capa do split recém-lançado com Northumbria foi realmente concebida por Scott M2 (scottm2.com) que também é um músico ambiente. Logo que o Dorian do Northumbria enviou as imagens que o Scott criou nós ficamos excitados! Estamos muito felizes com o imaginário do lançamento, ele realmente combina com o tom do álbum.

Como foram as sessões de gravação do novo Split com o Northumbria?

Abordamos as músicas para o split com o Northumbria praticamente da mesma forma que fizemos todos os nossos registros, nós concordamos para o álbum como uma espécie de trilha sonora para a vida no ártico. Então, nesse sentido nós definitivamente estávamos indo para um tom específico com essas músicas, por isso foi um pouco mais estruturado do que a maneira que normalmente compomos. Foi um processo um pouco diferente, mas também se acabou uma trilha sonora para o filme da minha esposa (Shaleen Sangha) “Nayan and the Evil Eye” e eu diria que foi definitivamente mais um desafio!



Como você descobriu "ambient,drone,etc”, e pensou “isso é realmente bom”?

Eu sou provavelmente como um monte de pessoas em que uma das primeiras bandas que ouvi que me introduziu a esse tipo de música era Mogwai. Teria sido por volta da época que o Rock Action foi lançado, eu estava no colégio, e ainda é um dos meus discos favoritos. De lá eu descobri um monte de música muito interessante, obviamente alguma coisa que é um pouco mais suave e mais minimalista.

Como estão as suas apresentações ao vivo?

Nós realmente ainda não tocamos ao vivo! Nós dois tocamos com outras bandas no passado, mas até agora North Atlantic Drift é apenas um projeto de estúdio. Eu acho que isso se relaciona com a falta de uma cena ambiente aqui em Toronto, eu quero dizer, a maioria de nossas vendas de CDs está no exterior, então eu não tenho realmente certeza de que há uma demanda real para o nosso show ao vivo aqui no momento!

Vocês têm bloqueios criativos?

Parece que temos fases em que nós estamos realmente produtivos, eu acho que quando nós trabalhamos no Monuments e, em seguida, Resolven, ficamos muito felizes com a maioria das coisas que nós estávamos gravando, e nós fizemos os registros em um período muito curto de tempo. Mas nós definitivamente temos momentos em que nos reunimos para trabalhar em música e nada realmente vem deles. Eu acho que é natural- às vezes você precisa se inspirar, ou quando você pega algumas para um álbum, o resto vem junto mais fácil.

Quais músicas são seus remédios?

Há definitivamente alguns artistas que eu volto voltar regularmente. Em relação à música ambiente: Max Richter, Grouper, Rafael Anton Irisarri, Windy & Carl, Benoit Pioulard, etc. Eu também ouço regularmente  Marissa Nadler, Pernice Brothers, Wilco, Low, e, ultimamente, “Diamond Mine” – o álbum que King Creosote e Jon Hopkins fizeram juntos uns anos atrás. É lindo.

 
Você ainda ouve os músicos que você estava ouvindo quando começou na música?

Realmente não, eu passei por um monte de fases, quando eu era mais jovem, ouvia muito punk e hardcore quando eu era adolescente, mas tem algumas bandas da escola às quais eu ainda retorno. Mas em geral, as únicas coisas que eu ainda ouço são as músicas que meus pais tocavam muito quando eu era criança - the Beach Boys, Beatles, the Zombies, etc..

Quais foram as principais mudanças de Resolven para seu novo split?

Eu não acho que há uma grande mudança no som do Resolven para esse novo lançamento, mas eu acho que as músicas que fizemos para o split são um pouco mais obscuras porque esse era o estado de espírito que estávamos. Eu acho que a produção melhorou um pouco, que é principalmente crédito de Mike!

Como artistas, vocês acham que a crítica ainda é relevante?

Nós realmente lemos crítica musical. Nós definitivamente lemos cada comentário para os nossos lançamentos e eu acho que isso é relevante. Como um artista, isso ajuda a torná-lo mais consciente do que você está fazendo, e eu acho que alguns desses pedaços de crítica podem escoar para o processo de composição, pode inspirar você a tentar algo diferente ou tentar criar algo único. Eu leio um monte de resenhas de álbuns de outros artistas também, e, em muitos casos, é útil na determinação de quais álbuns eu deveria conferir.

Quais outras artes influenciam sua música?

Acho que o clima de um grande filme pode definitivamente influenciar o processo de composição, alguns dos filmes nos últimos anos que realmente se destacaram para mim (em termos de recursos visuais e de som) são filmes como O Abrigo, Os Suspeitos, Amor Bandido, Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum. Geralmente filmes realmente muito lentos!