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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

a escavação vertical de Gnawed | as reminiscências vivas do Shimmer Crush

Gnawed :: Pestilence Beholden (Malignant)
Se boa parte da música que se convencionou a chamar de industrial e suas inúmeras variações tem um pé forte na performance, o início de Pestilence Beholden é poderoso neste aspecto; é como se a estética fosse as próprias ruminações do inicio. Não é bem uma introdução, não há tempo para introduções nesses simulacros de estrutura. A estética distópica, conturbada, obscura- ainda assim sintetizadores saturados prolongados que escavam o espaço. Pestilence Beholden é uma escavação vertical enquanto tudo que é deixado para trás é engolido por uma matéria seca; incrementada em abatimentos, formações disformes, aparições repentinas.

Se a base é uma performance e se a performance nasce através da experiência e se a experiência do Gnawed é puxar sonoridades árduas para um terreno de diálogo com o ouvinte e a partir daí estruturar os meios que Pestilence se desenvolve. As texturas massivas, os berros industrializados, os cânticos como plano de fundo- não é bem uma questão de "em que mundo estamos" mas como estamos habitando este inferno e ainda assim tirando algo disso? A isolação gritante na obra de Gnawed ( preferia referir como "isolacionismo", pena essa palavra não existir) é uma topologia que vai além de uma solidão admoestada; ela é uma solidão obcecada pelo controle caótico em um terreno organizado por rupturas poderosas. As gravações de campo e os vocais cheios de efeito são o transe da mesma obsessão. É como se o Gnawed quisesse representar não uma ambiência obscura que o envolve, mas como seu próprio estar-no-mundo (o acontecer de Hannibal) espalha certa nebulosidade. As tendências mais eletrônicas na música industrial não são para modernizar qualquer estética- elas são a forma de Gnawed tentar esboçar um não sufocar completo.

Ainda assim permitindo-se momentos de sonho em um pesadelo intermitente. Ainda assim há uma respiração que germina em toda a claustrofobia provocada por Pestilence Beholden. É como se a perseguição não seguisse qualquer rastro teu mas ela fosse intrínseca a qualquer forma que você assuma no mundo. Não há ser no mundo por tanto. Apenas um disfarce. E Gnawed reconhece que nestes trânsitos entre  o que há de mais densamente violento em neuroses modernas que encontra algum ar para respirar. E ele se recusa aos ares limpos. Ele se recusa ao idealismo.

Shimmer Crush - These Four Walls

Idealismo que nem entra em voga no cenário de reminiscências vivas que é These Four Walls. O álbum estabelece partículas (um fluxo constante de alterações de densidades sonoras, estranhamente continuadas, estranhamente insistentes) que envolvem o ouvinte numa arquitetura horizontal de possibilidades paralelas. É como se o glitch artificioso de Shimmer Crush celebrasse um enigma ao invés de tentar resolver qualquer coisa. Por isso, apesar de todos os elementos grosseiros que envolvem These Four Walls, Shimmer constrói sua identidade através do que ela não consegue capturar. Os layers, as vozes descontínuas e fragmentadas surgem numa rica textura que dimensiona a nostalgia. Ao contrário de Pestilence Beholden, Shimmer estimula uma visualização mais idílica com arte. Sem, com isso, emprestar qualquer inocência pueril que possa ameaçar a densidade do seu trabalho. As percussões ora manuais ora eletrônicas em um downtempo cortado por milhares de atravessamentos, a distância que a mesma nota tocada várias vezes provoca- é tudo muito extenso em  These Four Walls, estranhamente disperso.

Escapes entorpecidos com drones fraturados, cortes bruscos novamente, sessões harmônicas descontinuas, cânticos em completo desacordo com o ritmo. Os ruídos são modulados de maneira criativa; eles estranham o espaço mas se redistribuem nele; eles aceitam. É curioso que tudo pareça brotar de uma pulsação modular que tem como estratégia a busca de algo indefinido (talvez por isso a indecisão estética nítida no começo da maioria das faixas).

These Four Walls sai de qualquer conceito reducionista para expressar uma busca afetiva-racional que pelo menos elucida o caráter da apreensão- ou  tentativa dela. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Lost Salt Blood Purges - Only the Youngest Grave

The Voids We All Long For, disco antecessor do Lost Salt Blood Purges , encontrava uma espécie de sintonia própria. Musicalmente, levando em conta todos os elementos incorporados, é realmente incrível como aquele disco soa “estável”. Claramente longe de soar repetitivo, o Purges encontrou uma cativante mistura de drone, noise, Field recording e até de glitch. Aqui temos o projeto novamente apostando na sua “sujeira”, mas Only the Youngest Grave tem vida própria; a transição das faixas está mais natural, os vocais foram reduzidos e os elementos perturbadores estão acalmados (embora não percam sua agressão) em função do plano de fundo- o piano que sempre está lá, não importa o que aconteça.

Em menos de um ano surgir com outro projeto que exige atenção e que vai soar longo (o disco tem mais de cem minutos) para a maioria dos ouvintes requer muita coragem. O Purgens ainda está, essencialmente, no mesmo conceito enquanto opera com os elementos anteriores ampliando alguns aspectos e reduzindo outros. O projeto descreve um calmo lugar que é obscurecido por aparições repentinas. A sensação é de obscurecimento em todas as faixas e embora algumas soem intencionalmente antigas, muitos dos ruídos estão ligados com a influência pós-industrial do Purges. É uma afirmação clara da busca por tradições diferentes do senso comum, o que fazem o projeto utilizar desde elementos explícitos de harsh noise, violão acústico dedilhado até gravações de tribos nativas e trens que se movimentam praticamente tudo no mesmo instante, em justaposição. E toda essa formulação é divida em duas partes- Oneiric e Lethean, respectivamente. São músicas que provam que elementos tão estranhos (tanto na forma de soar quanto na forma de produção) podem sim convergir para o mesmo conceito. Isso é provado em vários momentos do disco; flautas, sons mecânicos e variações que lembram o jazz livre contemporâneo, coexistindo de forma obscura, quase palpável embora seu clima fúnebre. Deve-se acreditar nessas sonoridades porque o disco, uma vez explorado e se deixado levar por essa ambição, realmente nos conduz para coisas maravilhosas. Algumas outras coisas, no entanto, soam não apenas repetitivas (não tenho nenhum problema com isso), mas estáticas, e não tem nem o efeito intransponível de algumas das saturações, nem a capacidade de alguma modificação. Felizmente, isso acontece bem pouco e é relativamente normal para um lançamento tão longo.

Esse lançamento do Purges soa como uma trilha sonora distante que é capaz de evocar uma sensação fria durante toda a audição. A maneira que seu criador elabora planos detalhadíssimos sem cair em dramas fáceis pode dificultar um pouco o acesso para quem não gosta muito desses subgêneros. Como o disco passado, se trata de uma experiência sobre a solidão e a contemplação. Então, se você tem certa inclinação a esses estados, não deixe que toda a “dureza” inicial do álbum exclua a possibilidade de você ouvir tudo. Only the Youngest Grave foi elaborado muito cuidadosamente para primeiras impressões tão imediatistas renegarem tudo o que o álbum lentamente constrói. De alguma forma, eu acho muito difícil as pessoas não conseguirem sentir-se conectadas com nenhuma de suas facetas. Enquanto o desconhecido pode nos tomar,as maravilhas das incertezas e das fragilidades vão sendo construídas.


A composição paciente de Only the Youngest Grave lembra o seu ótimo antecessor, mas em sua última faixa temos uma espécie de reconexão com o mundo real que não havia em The Voids. Um processo árduo, acima de tudo (tanto para ouvinte quanto para compositor) que vai moldando formas e nos dando liberdade o suficiente para compartilharmos nossas experiências e memórias. Tudo que flutua em nossa mente e que constantemente nos esquecemos.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Cássio Figueiredo – Presença

Eu realmente ficaria feliz se os leitores, para chegar a Presença, ouvissem os três trabalhos anteriores de Cássio e suas relações explosivas com o instante. Cássio descreve lugares e como ele se sente neles. É a manifestação de uma ocupação. Mas Cássio descreve por impressões, por surgimentos abruptos; nesse tipo de estrutura em que “descrever” é um atravessamento de lugares. Ele descobre a “presença” indo além das formas; ele ouve os ruídos, as cordas do violão, a mesma risada; a presença é a insistência e o que se repete, mas também é o que morre ante mesmo de ganhar contornos definidos. Não podemos confiar na presença, como demonstra Cássio. Ela é pueril. Nem sempre o instante ganha formas e é exatamente aí que Cássio opera todo esse disco. Mas muito mais do que uma questão filosófica, a afirmação do músico e de sua existência passa por cada som que é vazado em Presença; existe muito mais do que pensamos, existe muito mais do que podemos definir.

Presença é um cuidadoso processo de catalogar instantes altos e monótonos que ganham muita importância quando são sentidos de outras maneiras; os barulhos constantes saem então do campo da simplicidade significante (as buzinas de carro) para se transformarem em símbolos dos multielementos que nem sempre ganham forma definida. Por isso que são encontrados monumentos em toda operação de Cássio; os sons saem da esfera cotidiana porque seus contornos não são limitados. O que Cássio faz é dar liberdade e vazamento para esse emaranhado de “lugares-comuns”. Ele musica esses lugares. Devolve a eles o formato artístico que eles são.

A intenção de Cássio fica evidente já na primeira peça, que tem participação de Cadu Tenório; uma imersão sensível em lugares que, através do processo de imersão e desconstrução, vão nos presentear essências sonoras que precedem a forma. Isso porque o músico é muito transparente em relação às suas ferramentas; a investigação contida em Presença também é uma exposição de alguém que foi passado por esses lugares. Suas ações são atitudes do dia-a-dia que se potencializam na música contida nessas peças justamente pela sensibilidade de Cássio; o lugar é indiferente a ele, mas é graças ao músico que esses lugares que se misturam em sua estética repetitivo-agressiva podem ganhar uma afirmação tão positiva, ainda assim que não estejam completamente definidos, que não estejam completamente dissociados uns dos outros. Ele releva as frestas do cotidiano, o quão explorador uma caminhada a dois pode ser, quando você está andando ao lado de alguém e as risadas dessa pessoa se misturam com uma melodia que você lembra, com o barulho dos metais da cidade.

Todo esse mistério é manifestado na maneira que ele manipula esses elementos, esses encontros aglutinados. Cássio é um observador de seu ambiente e suas percepções do que pode ser musicado são evidenciadas em faixas como Condução, em que a saturação extrema é cortada abruptamente, porque ele chegou a algum lugar, ou porque simplesmente ele decidiu parar. A quantidade de sentimentos que ele consegue demonstrar através de barulhos considerados não musicais refletem uma abertura do músico a esses lugares. Apesar da agressividade aparente de Presença, suas consecutivas ouvidas mostram quão sutis são os detalhes que Cássio explora. São deslocamentos frequentes, explosões imprevisíveis que interrompem uma frase, ainda assim continuam o clima ambiente. Porque Cássio não quer modificar as estruturas que o cercam, mas obviamente suas percepções são frágeis, constantemente incertas e, mesmo assim, ele quer evidenciar essa fragilidade. É sua única certeza.

Musicalmente, Presença representa uma tentativa de recolher o caos interno e externo e dar alguma ordem possível. A ordem escolhida é representada de forma caótica também, mas dessa vez Cássio recolhe essas impressões incertas e as cataloga de acordo com sua memória afetiva e seus laços, como o lindo final de “Dois”, em que as risadas fecham a peça. Essas memórias estritamente individuais também garantem para o músico um escape, porque muitas vezes o peso de Presença recolhem sentimentos mais monótonos, um afogamento lento em repetições que refletem um mundo que está se esgotando de si mesmo. O que fica evidente em “Caminhão de Lixo”, que tem a participação de Cadu Tenório e que se repete exaustivamente, insatisfeita com os destinos que uma grande volta pela cidade revela. “Condução” e seu corte final me soa como um símbolo da repetição extrema em que essa mesma cidade esgotada na faixa anterior revela para alguém; mas ela é mais nervosa e rápida, ela é a saturação de toda insinuação anterior. Parece que a presença da cidade nunca vai ceder, e que essa sensação na verdade vai se amplificando- desde as buzinas da primeira faixa até ter essa explosão agonizante. Mas se é a partir daí que Cássio prefere discursar, ele atesta sua vida na metrópole, todas as vibrações escondidas em Presença afirmam de algum modo a existência.


Inspirações como pessoas extremamente próximas se juntam na percepção de Cássio, e ao mesmo tempo em que as risadas dessas pessoas se desintegram e outros barulhos ganham mais vida, essas memórias, ainda que distorcidas e distantes, mostram alguém que ainda não se rendeu. Exatamente essas distorções podem ser encaradas como metáforas estetizadas das alterações constantes de humor do músico. Ele desconstrói suas memórias e é nesse processo que todo intervencionismo exterior se instala e se torna parte do processo também. Uma mente que está constantemente indo para frente e regredindo. E é essa movimentação que instaura uma Presença, ainda que obscuramente definida.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

LÊ ALMEIDA – PARALELOPLASMOS [2015]

As pessoas prometem, as pessoas tentam, as pessoas erram. Muito. Lê Almeida tem seus atos como pontos de partida para suas narrações, insistindo com o autoproclamado “roque de guitarra”. Tentativas; acertos e erros. Paraleloplasmos é um disco de tentativas também, embora sua estética se situe em algum terreno que fãs do Slanted and Enchanted certamente se reconheceriam. E, com certeza, iam sorrir ao ouvir uma música como Fuck The New School.

A voz intencionalmente baixa proclama verbos soltos. Parece que ela está destruída, mas assim, de alguma forma, precisa relatar algo. Parece que o coração do músico tenta ganhar sobrevida nesses cantos, na repetição dos riffs, nos efeitos. Eu já ouvi muita coisa do Lê, mas nunca tinha sentido uma relação urgente com a “sobrevivência após a destruição” que esse disco parece tratar. Pensamentos de dias mais dolorosos que tornam o presente mais árduo. É difícil sair dessa situação e “virar o jogo”. É muito árduo se levantar.

Trata-se de reconhecimento, também. São feridas nas quais podemos nos ver. Podemos pensar, “sim, tudo isso é uma desgraça, é tudo muito difícil”. Percebemos-nos no meio de um caos íntimo e com pensamentos que apropriam nossos recônditos; “por que daquele jeito? Por que eu fiz aquilo”. As linhas melódicas da guitarra, no entanto, tornam esse processo mais aceitável. Há a destruição, mas houve vitória. Mas o artista tem que se expressar. Ele tem que questionar os motivos e, se estes o atormentam, ele deve expor essa angústia. Lê está desestabilizado e ele não quer esconder isso. Toda música soa meio “à beira de uma queda”. Mas Almeida já sobreviveu às outras quedas. Ele vai escapar dessa.

É divertida a relação entre “voz x guitarra”. Ao tempo em que a voz de Lê é propositalmente monótona durante o disco, todas as variações são deixadas para a guitarra. É como se Almeida se expressasse com o corpo inteiro e os pontos que as letras não conseguem exprimir são deixados para a guitarra. Este instrumento é uma espécie de porto seguro que impede o “eu lírico” de cair diversas vezes durante o álbum. Talvez mais; seja a força que apresenta uma paisagem mais agradável para que o músico possa olhar pra frente, pois outros dias aguardam e neles mais histórias, mais músicas vão ser compostas, mais pessoas por quem se apaixonar.

Instrumentalmente, há mais variação que nos outros trabalhos. Embora o foco continue sendo a guitarra, esses outros instrumentos se “intromentem” criando uma ambientação sem a qual o disco soaria demasiadamente frágil. Embora “fragilidade” é um qualitativo que o álbum mereça. Ora, ele expõe uma instabilidade evidente desde a primeira canção, “eu tenho pensado / como é ruim sair só / eu tenho tentado / me adaptar a andar só”. Outra relação divertida; as letras que analisam por demais a intimidade do cantor e o instrumental que mira paisagens mais “externas”.


Eu hesitei em falar desse disco em uma esfera só, e apenas só, pessoal porque soaria demasiado piegas. Mas deixo a pieguice para o último parágrafo. Espero, de verdade, que as pessoas se reconheçam nesse álbum. Que elas virem amigas do artista dissipado que reside nesse disco. Precisamos de companheiros de travessia; qualquer forma, ser viva ou inanimada, que nos ajude. Porque, como em Paraleloplasmos, viver é um exercício de retornos frustrantes, partidas tristes- passar por um local sozinho em que você costumava ir com determinada pessoa. De repente, a ausência se torna pesadíssima. De repente, você se grudou tanto a outro que não reconhece sua carne, suas feridas, as marcas na sua pele. Eis o motivo de precisarmos de ajuda.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Gustavo Jobim - A New Life in a New Planet [2015]

É raro hoje em dia encontrar algum paralelo para o corpo sonoro poderoso que Gustavo vem construindo. Estranhamente pouco citado, eu sempre me pego surpreso com a capacidade de sua música me “deslocar”. São tentativas muito verdadeiras de moldar sons tão densos em uma estética que “narre” algo. De alguma maneira, A New Life in a New Planet me soa como um desbravamento- uma única longa canção de quarenta minutos que tenta localizar espaços menos óbvios, localidades ainda não pensadas.

É por isso que A New Life in a New Planet tem uma sonoridade fantástica. É impressionante como uma quantidade absurda de efeitos variados em um mesmo instante consegue estabilizar marcas. Tenho isso como cenas na minha cabeça; cenas de dificuldade enorme, pois poucas coisas são realmente agradáveis nesse álbum. Se em Inverno tínhamos um poderoso solo de guitarra para nos orientar durante a passagem em um terreno nada hospitaleiro, nesse disco tudo soa como extraterrestre. Sons alienígenas tão surpreendentes como improváveis que invadem sem aviso algum qualquer zona de conforto. É por isso que insisto; ouvir cada álbum de Jobim é se surpreender.

Em seu bandcamp, Gustavo informa que esse trabalho é diferente dos anteriores, pois tem mais camadas e efeitos digitais. Eu me pergunto como foi o processo de criação, me parece que A New Life in a New Planet objetiva uma chegada bem obscurecida, se não inexistente. Eu nunca precisei de temas para ouvir música. Acho que é por isso que credito tanto a esse álbum. Há algo na música de Jobim que “só” ele consegue fazer. Não me refiro a tecnicismos como “densidade sonora”, musicalidade ou produção. Quero dizer que há certa “ordem” que não consigo identificar propriamente que traz essa sensação de “transe” durante toda a audição. Cada variação invoca uma nova imagem, de modo que temos uma justaposição bem ruidosa de elementos que se encontram nesse clima realmente “estranho” que Gustavo imputa ao disco.

A discografia de Gustavo está cheia de discos “climáticos”, ou seja, álbuns que nos deslocam enquanto ouvintes. Suas múltiplas abordagens refletem um artista interessado em não se repetir, e embora nós encontrássemos aqui muitos elementos semelhantes ao Tsunami, por exemplo, estes soam completamente autênticos. Repito, Jobim é um músico interessado em terrenos que não foram totalmente explorados, por isso as consecutivas audições de sua obra nos revela desbravamentos incessantes de diversos ângulos. Alguma força reside oculta sobre a diversidade sonora de New Life in a New Planet, mas ela sempre está tangível, sempre a deriva- como uma paisagem que ainda não vemos, ou uma localidade escondida atrás das árvores na beira da estrada.


O maior trunfo desse álbum é também sua maior, digamos, “inconveniência”. É nitidamente um disco difícil, mas realmente divertido à medida que vamos avançado. Ele parece que fica menos “escandaloso”, mas aquela estranheza inicial permanece. Ora, tamanha monstruosidade não era provocada pelo volume do barulho e pela soma dos efeitos, mas principalmente pelos sons que estes emitiam- um contraste gritante com o que estamos acostumados a ouvir. Algo difícil de encontrar mesmo nos recônditos mais profundos, algo novo.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Saturndust – Saturndust [2015]

Nós somos poeira cósmica. O universo é infinito. Até ai, nada de essencialmente novo. O problema é que nós teorizamos tudo- o gelo, a rocha, até mesmo os anéis de Saturno. As estrelas servem de orientação para as pessoas que passam sua vida no mar, mesmo em uma época em que a tecnologia predomina (ou assim querem garantir as pessoas do Ocidente). Mas há uma áurea inviolável, há um laço secreto que cegamente determina a movimentação das entidades que habitam o universo. E olha que maravilha, não saber nada sobre isso, não saber nada sobre o universo que nos habita. “Não somos melhores do que o universo, somos parte do universo. Estamos no universo e o universo está em nós”, Neil deGrasse Tyson.

Essa noção de espaço se prende aferradamente em nosso cérebro durante a execução de Saturndust. As transições entre as canções, os riffs esticados, como a própria ideia de expansão do universo, assim como essa atmosfera de transmissões espaciais estimulada pelas distorções- todas essas ambiências causam um deslocamento, estabelecendo uma estranha orientação; sabemos que estamos em determinado ponto do infinito, mas exatamente onde?

Os solos de Hyperion refletem essa grandiloquência da banda. É tudo enorme em Saturndust, os ecos dos instrumentos, a extensão de canções que se modificam em detalhes que transformam suas estruturas sem que percebamos exatamente onde as coisas mudaram. Como encarar uma paisagem que vai perdendo sua iluminação da primeira manhã até, muito lentamente, ganhar a escuridão noturna.

Mas não se enganem com esse fenômeno que eu tento descrever. As coisas são pesadas nesse álbum- sessões longas e arrastadas, os riffs da guitarra que são épicos e em certos momentos atingem níveis comoventes e as paredes sonoras massivas, onde os sintetizadores, a bateria, o baixo e o vocal erguem certa unidade que parece muito, muito difícil de transpor. Ao longo do disco, esse peso que nos fascina também é capaz de nos levar ao distúrbio, à perdição. Como eu disse, esse álbum de certa forma nos localiza, mas nos localiza em um lugar não tão grato e não tão bem estabelecido, em um ponto de um universo infinito. Agonizando entre a poeira cósmica. São nesses momentos que a sonoridade nos atravessa e nos dá mesmo a impressão de que não vai sobrar absolutamente nada.

De forma brusca, podemos perceber o que as tremuladas da guitarra junto com o vocal berrante anunciam no início do disco; uma trilha para a poeira, uma trilha sob o espetáculo das estrelas e através dos perigos terrestres. Em teoria, essa absolutização (estender e arrastar o som de tal forma que parece, muitas vezes, sem fim) reivindica não uma forma monolítica, mas sim abre a nossa subjetividade para manifestação de tais fenômenos.


Esses 45 minutos que o Saturndust nos entrega parece muito mais. Parece a dissolução- entre toda a sonoridade decididamente suja- em um universo cuja poeira é a principal matéria. Matéria que nos faz vivo e vai continuar depois de nossa morte, inevitavelmente.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cássio Figueiredo - Dias [2015]

Há pouco menos de um mês eu falei sobre o primeiro EP que Cássio lançou esse ano, Dias, e de como me inquietava o que os músicos contemporâneos (principalmente os ligados ao noise e suas variações) tinham em mente quando criam suas obras, muitas vezes estas, o contrário de conceitos chulos e clichês como “música orgânica, fluída, sólida, etc.”. Se em Diário, Figueiredo já não se subordinava às execuções simples –inclusive “desobedecendo” a temporalidade suposta na nomeação das músicas- em Dias temos esse rompimento transcrito de forma concreta.

Os dias transcorrem mesmo de forma segregada, disparates que são impossíveis de “justificar”, “conceituar”. Isso seria domar o “tempo” e reduzir o poder iminente de cada momento. Por isso os cortes bruscos, a superfície inconstante e alta- é difícil situar com precisão, é complicado tentar encontrar a ligação que torna uma explicação real possível. Só há reminiscências do que entendemos por realidade e a forma que se pode absorvê-las para transformá-las em algo que ecoe. Não uma apreensão que tente copiar o que aconteceu- mas uma forma de massa sonora que seja consequência dos dias. Para isso Cássio utiliza memória e imaginação. E criatividade.

Assim como o decorrer dos dias, os elementos aqui parecem dispersos. Reúnem-se, depois somem. Essas mesmas “aparições” foram realizadas em Diários, só que nesse EP os fragmentos estão mais dispostos e mais variáveis, até. E a imposição de tantos sons periféricos integram lembranças, reminiscências e certa aleatoriedade. É a vastidão interna que Cássio compõe- as contradições cognitivas que nos possuem no passar de uma medida (no caso, o tempo). Temos uma análise final, de qualquer forma; aquele terreno descentrado onde reconhecível e irreconhecível se convergem tanto que passamos mais a acreditar no que é imediato. Essas frequências acusam, então, uma confusão mental que Figueiredo espelha em forma de retratos sonoros e imagéticos- as ondas, as músicas, as vozes.

A não divisão em faixas torna ainda mais aberto ao ouvinte à transferência destravada de memórias que caracteriza Dias. Como a partir de um minuto e quarenta, onde uma imensa onda sonora surge vibrante, para depois se aquietar. É um fluxo de lembranças e esse fluxo tem suas marés. Isso torna o “surgimento” (em qualquer das suas formas; ruídos, distorções, melodias chiadas) a característica principal dos registros afetivos de Figueiredo. São portais da percepção que preenchem toda a escuta com “entradas” e “saídas” tão surpreendentes que não podemos constatar exatamente onde começa e onde termina. Confiar “apenas” no modelo intuitivo e suas deliberadas maneiras de criação- e ainda assim produzir texturas tão incisivas e intensificadas- garante uma liberdade cuja qual Cássio tem discursado em todas suas gravações.


Fala-se tanto sobre “interioridade” e “personalidade” na criação da música contemporânea, que muitos se esquecem de que o que realmente está em jogo é o que “suporta” conceitos tão poucos expressivos. Figueiredo utiliza sons para questionar sua própria construção como indivíduo e se baseia em mundo próprio que, às vezes, parece um exílio. A memória é usurpação também, não nos esquecemos. Dos outros e da nossa confabulação. O que resulta em uma dissonância que aperta a concepção de “entidade” contra a parede. Uma espécie de apropriação desorientada e, em certo ponto, mística.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Kovtun - Androginóforo [2015]

O Kovtun lançou um dos meus álbuns favoritos no ano passado, pela “desolação” e repetição de temas. Ocorre, em Androginóforo , o oposto. Aqui vemos uma obra mais aberta do que a saturação da antecessora, aqui temos mais desvios e inquietações- isso provavelmente em função de que cada uma das quatorze faixas tem participação especial. Aqui as medidas são destroçadas, pois cada movimento-canção é uma afirmação e negação da faixa antecessora. Afirmação porque reconhece sua unidade, negação porque busca outras expressões. Estamos, ao invés da uniformidade de Sleepwalking Land, em um local onde não há controle e cada imanência irrompe e se estrutura em suas próprias aflições, em seu próprio instrumental. Poderíamos pensar, “mas com essas divisões, não seria melhor ouvir o disco íntegro de cada participante? Como encontramos um núcleo criativo do próprio Kovtun?”. Mas não são objetivamente divisões, são blocos de um mural gigantesco (o disco tem uma hora e meia), e as próprias controvérsias dessa estrutura garantem a unidade de cada participante. O disco não seria o mesmo sem as aves e o barulho absurdo na colaboração com o Godpussy e assim por diante. A abertura, então, está na vastidão que o ouvinte tem que encarar, assim como na ambição do disco e suas múltiplas facetas- é mais difícil, assim tão recortado, e provavelmente mais recompensador.

As variações desafogam e trazem repentinas e interessantes mudanças de estrutura, talvez a única forma de criar um disco tão grande seja apostando tanto nas bifurcações de gêneros mais “densos”. Pois eles próprios são radicais às suas maneiras e demonstram alicerces mais dinâmicos do que a simplista nomeação de “barulho”. Com meu quarto devidamente fechado, são fascinantes os “empréstimos” imagéticos que as músicas me proporcionam, seja nas mais econômicas (ou a primeira parte, como imagino uma divisão estética) ou a segunda, que agride mais. Penso, porém, que elas se unem porque são como defuntos procurando um terreno mais hospitalar, e por isso tamanha difusão sônica e necessidade agressiva, o corpo já sabe que o mundo aparente, essa tal de “realidade”, não serve mais. Precisamos respirar em outros lugares. Nossa mente pode se atrever a isso se nos relacionamos com esse disco da forma que ele merece- sem uma “necessidade” anterior, porque as microestimulações vão jorrar com cada canção e terminar com elas também.

E ouçam isso alto. Pois há aqui uma espécie de “grito” anônimo que ecoa em cada base distorcida, cada repetição que aumenta e cada acidente que topamos. É um disco que versa sobre uma dor que é impossível de especificar, uma inquietação constante que fez com que Mandra (ele é o Kovtun) decidisse reunir esses nomes e nos oferecesse tamanho corpo que registra uma época bem importante de nossa música independente (aqui eu estou assumindo as motivações por trás do disco). O ambiente enclausura e rompe com uma organização mais “meditada”. Ao mesmo tempo em que temos aberturas instrumentais que nos deixam mais a vontade até mesmo para divagar, as pancadas dessa parede nos deixam estáticos. Não há uma limitação da experiência, apenas uma força própria que não permite titubeação. São músicas que exigem sim atenção e apresentam camadas que merecem ser ouvidas muitas vezes. Falei sobre a “possibilidade de divagação”, mas não quero diminuir nada. É um disco perturbador. São barulhos agressivos, são estruturas que nos confundem, na maioria das vezes.


Eu evitei ler qualquer coisa sobre o disco anteriormente porque queria deixar aqui somente minhas sensações, minha experimentação. Por exemplo, o nome das músicas, aparentemente científicos, o que querem dizer? Aqui eu volto à parte que questionei o porquê de um disco em que todos os faixas têm participação de outros artistas. Não há resposta, na verdade (para o nome das músicas). Eu poderia ter falado também sobre as variações e os “gêneros” que esse disco atravessa, mas imagino que tags reduziriam a inauguração que Androginóforo propõe. É através da escuridão que envolve todo o disco que, talvez, podemos encontrar algo mais simples, para podermos nos maravilhar com cada “surgimento” (e não começar a questionar o porquê do nome das músicas, ou o porquê das participações). Androginóforo é um experimento do Kovtun, mas também uma afirmação. Sem objetivo aparente, ele se ergue e exterioriza que uma música significativa sendo realizada no Brasil que não é demonstrada em charts, na Wire ou qualquer outro veículo. Mas que ela existe e é substancial. Que ela não hesita e que ela não se explica- ela só pode atravessar e ser atravessada. Espero que essas irrupções aconteçam com quer ouvir o disco. Comigo aconteceu.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Cássio Figueiredo- Diário [2015]

O “processo de criação artística” sempre foi algo que me fascinou quando eu comecei a ir atrás desse negócio que chamamos de arte. No entanto, desde que a Internet se mostrou (pelo menos para mim) como principal meio de transfusão de movimentos artísticos, esse mito foi se quebrando. Quero dizer, com essa emanação de artistas e músicas no sistema faça você mesmo, estabelecendo ruídos discrepantes com ambientações que anseiam por autenticidade, fica evidente que esse “processo” está cada vez mais voltado em uma manifestação estética interna. É isso que temos em Diário, EP que surpreende pelo seu movimento descontínuo e, de certa maneira, desconfortável.  O ouvinte cai em movimentos que se repetem, irrompem e se desintegram.

Esses movimentos ‘imperfeitos’ de desintegração atravessam estilhaços como espectros. São significados disseminados através de diferentes freqüências que evocam cada dia de Diário como um espanto- parecem dias longos, perpetuados pela manipulação de Figueiredo. Justamente essa percepção multiforme (os dias mudam, afinal) que destacam a singularidade desse lançamento do Cássio. Ele não insiste na saturação e extrapolação, mas desenvolve mini temáticas em cada faixa-dia. Dias rendidos em um diário.

Por essa questão de múltiplos atravessamentos que evito referir a esse EP como minimalista. Embora haja influências claras, cada dia aqui contém sua inquietação. Óbvio que se Figueiredo fosse fazer algo mais uniforme e fechado às mediações externas, ele lançaria uma ou duas longas faixas. Esse sistema completo que pode ser Diário indica a impossibilidade de um ciclo. Muitos ruídos se repetem aqui, mas o confinamento temporal em Diário é abandonado para a percepção afetiva de quem o redige. Diário é uma unidade na medida em que foi pensado pelo mesmo músico em um conceito e essa sensação de bloco único se desintegra enquanto avançamos nas faixas. A certeza de continuidade morre na audição e persiste no nome das músicas “Dia 1, Dia 2,...”. Eu posso estar interpretando isso completamente equivocadamente, mas a própria música reage contra sua pré-nomeação. Se não é um disco explicitamente de diversidades, suas recaídas e insinuações aplicam alterações abruptas nas sensações.

Não em um movimento convidativo, Figueiredo desafia o ouvinte a não ser só testemunha. Diferente, por exemplo, do que acontece em Disintegration Loops, que também é um processo de desintegração. A problemática de Diário se constrói com a mesma dificuldade que é passar pelos dias. Recaídas, explosões de blocos sonoros, uma melodia mais agradável que lentamente se transforma em uma espécie de sussurro fantasmagórico, alternações abruptas no volume. Em Dia 1, há uma mínima insinuação de desintegração na “melodia” que inicia a faixa. Em Dia 2, o bloco que terminou a faixa antecessora ganha mais vibração e continuidade. Os sons são descontínuos, outros ruídos são mais resistentes, o volume se altera novamente. O que faz um dia ser encarado como unidade, então?


Essa descontinuidade e incerteza que caracteriza Diário. Uma efemeridade enorme e sensações que não podem ser explícitas em medidas temporais. Temos um período, mas estranhamente, a música não trabalha para esse bloco de tempo. Ela revela outra coisa. Que tudo pode acontecer agora e que exatamente nada vai acontecer. Há a continuidade dos dias, mas uma inércia que justifica alterações abruptas e rompem esse conceito de linearidade. O anúncio de uma melodia pode morrer antes mesmo dela ganhar vida.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

J.-P. CARON – ST (2014)


Formas indefinidas e contornos labirínticos se alternam à medida que Momentum I adere minha percepção. Eu tento, de alguma forma, encontrar elos que se conectem, mas o direcionamento que os ruídos apontam é inesperado, no caos dos seus detalhes- sons que brotam sem aparente origem e impactam com vozes quebradas, sussurros silenciados pelas próprias contraposições oferecidas na peça.

O acúmulo de espectros divergentes promove outra sensação de atravessamento no tempo, onde a percepção de continuidade é diferente da “habitual”. Empregar termos é inútil frente ao impacto dos registros obscuros, uma espécie de “onde estamos?”, “como eu vim parar aqui?”. As nossas concepções, a maioria delas reducionistas, são postas em xeque, exatamente por isso o único modo de analisar essa peça é através da experiência, não como modelo teórico (embora tenha certeza que não faltem embasamentos desse tipo), mas deixar Caron te guiar por esse universo obscuro.

Como a estrutura varia, à maneira que somos tomados por inter-rompimentos bruscos, contrastes sonoros- a importância do espaço íntimo ao nos controlar pelas nuances, pelos desvios. Caron consegue a proeza de embutir uma angústia contínua à medida que a peça avança e se incorpora. Também a exploração de microdetalhes injetados na vastidão dessa espécie de “pesadelo” proporcionada- ficamos mudos enquanto diferentes imagens surgem e desaparecem. Sem dúvidas os estudos de Caron devem influenciar muito na sua criação, mas o que fica pra mim são repetições orientadas mais pela intuição, uma intromissão de outro espaço temporal na nossa noção de realidade.

Como está no release, 8² vem sendo manipulada por Caron desde 2008, e eu penso como um período relativamente tão grande pode influenciar e modular a mesma obra, óbvio que não vou saber a resposta porque ouço a peça pronta em pleno 2014, mas ainda assim me pergunto qual foi a orientação de Caron, pois talvez esse universo que em sua aparência é tão “ilógico” tome nossa intimidade por completa. Obviamente que fico desprovido de respostas, mas à medida que vamos avançando, surge dúvidas quanto à necessidade destas- são sensações que tocam mais que o aparente, mais do que os conceitos. Estamos em um ambiente de outro tempo. Fomos invadidos.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Cadu Tenório- “Cassettes” [2014]



Em meio ao impiedoso caminho que o carioca nos confina em uma tensão poderosa, sinto que não há formas de se libertar da perpetuação entre tantas sobreposições. Não se trata de um amontoado, pelo contrário- é um artista que evita obviedades para nos imergir em um espaço temporal completamente desconhecido.

Em Cassetes, não há propriamente uma lógica clara, embora deva existir uma espécie de coerência artística interna, onde Tenório transita entre diversos terrenos experimentando sempre. Não sei bem as especificidades eleitas pelo músico, mas cada uma das quatro faixas se manifesta evidentemente diferente das outras.

Já com quinze segundos de Prematuro, a primeira faixa, estamos deslocados na extensão dissonante fragmentada, onde há instrumentos de corda, vozes ao fundo e elementos eletrônicos que tentam se comportar como unidade, em meio a disparidades. Descobrimos-nos frente uma parede sonora, que parece sempre repetir o caminho. Como lógica não é o ponto, as transições mais naturais são cortadas por ecos. E tudo é parte da peça: os ruídos, vozes e elementos harmônicos crescem, diminuem outros sons- um coletivo flutuante disseminado.

Para acalmar à sua própria maneira a catarse que é ‘Prematuro’, as próximas duas faixas são mais simples, ainda assim envoltas em múltiplos elementos. Ambas são injunções de barulhos domésticos, e você vai provavelmente ter que aumentar o volume para entender melhor respectivos mecanismos. A experiência fica baseada justamente na modulação e manipulação de Cadu, que interrompe o processo para nos lançar em outro ambiente. Estamos, então, em outro tom mais harmonioso e aconchegante.

‘Ventre’ fecha o ciclo, recuperando parte do encanto de Prematuro, embora a estrutura aqui seja mais fragmentada pertencente a capacidade de apreensão do ouvinte. Nem as referências claras a outros trabalhos tiram sua força própria- na imersão abstrata hipnótica.

E o que nos liga entre os recortes propostos por Cadu, mesmo que as interrupções surjam a todo o momento, é um ambiente contínuo que se estabelece por não tão claras conexões melódicas. Cassetes é um espaço vazio para as colagens, que revelam um músico distante de uma autoconstrução racionalizada, em meio a reflexões múltiplas que contemplam uma obra carregada e sombria.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Entrevista com Cadu Tenório


Aparentemente incansável, assinando em diversos projetos como Ceticências, Gruta, Santa Rosa’s Family Tree, Sobre a Máquina e VICTIM!, em 2014 Cadu Tenório decidiu marcar seu próprio nome em uma obra. Certamente um artista inquieto, cuja música exige muita reflexão e aponta diversas fragmentações em nosso próprio modo de apreensão artística, ele foi muito gentil e aceitou responder algumas perguntas:

*Eu me confundi nas datas de lançamento, Branco (do Ceticências) foi lançado antes de Cassettes.
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Como o Rio de Janeiro influência sua música, a maneira que você compõe, cria?

O Rio de Janeiro influencia meu trabalho da mesma forma que acho que qualquer grande metrópole influenciaria. O dia a dia, o trânsito, toda essa paisagem sonora caótica que além de influenciar serve também como matéria prima pra grande parte dos meus trabalhos por meio de gravações de campo.

Quanto você mudou como artista e pessoa desde que gravou ‘Decompor’ para ‘Branco’ ?

No caso depois do “Branco” já tivemos o “Cassettes” e hoje o “1987/1990”. 
Esse ano faz exatos cinco anos que comecei a gravar o “Decompor”. Eu mudei muito, o mundo ao meu redor mudou muito. Ainda estava numa espécie de "limbo-do-fim-da-adolescência" quando comecei a gravar as demos para o “Decompor” isso talvez mantenha todo o valor que ele tem pra mim. 
Não sei você, mas eu consigo ver similaridades, pequenos links do “Decompor” com os trabalhos mais atuais. Pra mim soa como um desenvolvimento natural. 
Hoje com certeza o leque de influências é muito maior, tanto musicais quanto conceituais. Aprendi muito nesse período, aprendi a organizar minhas idéias e a expressá-las melhor. Considero meu gosto pra timbres mais apurado e condizente com minhas intenções. Acho que também melhorei muito como músico e como produtor logicamente. Os trabalhos têm apresentações bem superiores em termos de som, gravação etc.
Apesar de tudo quando ouço o Decompor ele ainda me dá frio na barriga, ainda fico muito orgulhoso que ele consiga carregar o peso da época que foi composto. É um disco que tenho orgulho de ter feito, gosto muito dele. Foi difícil demais de fazer, não sabíamos direito como fazer um disco de forma totalmente independente naquela época, foi a primeira vez que fizemos. Tudo. Gravamos tudo, mixamos e masterizamos. Tudo isso em madrugadas pós-trabalho. 
Parando pra pensar, assusta um pouco perceber que já se passou tanto tempo, alguns podem dizer que não é muito tempo, cinco anos, mas lembro de tudo que aconteceu em torno desse trabalho, na minha vida, e parece mesmo muito tempo, sinto uma longa distância. Talvez pelo fato desse meu processo criativo e de pesquisa ser diário. E por me encontrar em uma posição totalmente diferente,  morando sozinho. 

Decompor, primeiro lançamento do Sobre a Máquina


Ao ler críticas online em relação ao drone/noise/etc, são citados muitos ensaios acadêmicos, conceitos, isso afasta o suposto ouvinte “médio”? Como artista, você acha que a crítica ainda é relevante? Você lê críticas?

Pode ser que afaste, sim. Mas acho uma bobagem das pessoas deixar que afaste. 
Esse tipo de leitura me ajudou muito a saber o que eu quero e a complementar minhas idéias. Acho que uma crítica ou resenha pode sim ser relevante. Além de despertar interesse em um suposto novo ouvinte ela pode enriquecer bastante a audição se tiver o que falar sobre o disco que vá além de limitações como “bom” e “ruim”. 
As melhores resenhas pra mim são as que consigo perceber que houve um trabalho de pesquisa. Às vezes tenho a impressão de que pra boa parte das pessoas que se dispõem a escrever sobre música falte bagagem cultural - ler mais sobre música e talvez até ouvir mais, ouvir melhor, não apenas dentro do ônibus em fones duvidosos - e uma visão menos unilateral também que se baseie menos no próprio gosto/ego. Mas sim, eu leio críticas sempre. Tem gente que escreve muito bem aqui no Brasil.

Como foram as sessões de gravação de ‘Branco’? O que mudou na dinâmica entre a dupla no tocante ao desenvolvimento mais rápido das faixas?

Foram sessões rápidas, são quase encontros românticos, rs. Marco com o Sávio um dia de folga que possamos nos encontrar, comemos, conversamos e no fim ligamos os equipamentos na sala de estúdio para tocar. 
Assim como no “Lua”, o “Branco” foi gravado ao vivo, mas com a intenção de mexermos mais na pós-produção. Coisa que combinamos que não iria acontecer no “Lua” que também contou com uma extensa pré-produção. Selecionamos previamente todos os timbres, conversamos sobre as intenções, mas gravamos ao vivo com o compromisso de não fazer nenhum overdub e não mexer em quase nada na pós.
No “Branco” foram gravados overdubs. Nele existiu a intenção de explorar mais as reverberações, os “vazios”. Acho que essa questão das durações ficarem menores não foi intencional. Saiu dessa forma.

Para especificamente seu som e as variáveis em todos seus projetos, você percebeu algum aumento em relação ao público? Ou a tendência do noise, drone, etc, é permanecer em um público mais filtrado?

Parece que o público aumenta a cada dia que passa. Os shows estão cheios - quando não chove. Gente nova interessada. As coisas parecem estar acontecendo, apesar de em baixa velocidade. Mas acho que isso é bom, dessa forma, devagar e sempre, parece que cresce sólido, sabe?
Do meu ponto de vista, que com certeza difere do de muitos conhecidos meus, o espaço parece ter crescido um pouco pra música experimental nos últimos anos.

Como ocorreu a seleção de quem iria tocar no II Festival de Ruído?

J.-P. Caron e eu começamos a trocar idéia de nomes que gostaríamos de ter na segunda edição que, obviamente, não estiveram na primeira. E assim fomos montando o line-up. Nossa referência é o extinto Plano B/Lapa, então queríamos chamar mais gente que fez shows memoráveis por lá. Como falhamos em trazer dois projetos quase que em cima da hora - projetos esses que vamos tentar de novo na terceira edição - resolvemos colocar nós mesmos pra tocar de novo pra completar.

A literatura influencia sua música? Quais são seus autores favoritos?
Sim, não só a literatura, mas o cinema e a as artes plásticas também, muito. Com certeza vou me arrepender de não ter falado mais nomes, mas vamos lá, pra ser rápido, citarei quatro autores que me instigam muito,  Kafka,  Jorge Luis Borges, William Gibson e Lovecraft.

Você é muito produtivo. Tantos lançamentos. Às vezes, você tem bloqueio criativo?

Sim, às vezes. Trabalhar em projetos com outras pessoas ajuda nessa questão, é como respirar outros ares. Não estar sempre sozinho.
Costumo trabalhar com pessoas que também me inspiram. É o caso do Sobre a Máquina com Alex e Emygdio e o Ceticências com o Sávio de Queiroz e em minhas outras colaborações. Quase sempre estou trabalhando ou colaborando com pessoas que me inspiram de alguma forma.

Quais músicos são seus remédios?

Remédios? Hm, bem. Isso varia um pouco dependendo da época, do clima, rs.
Desde 2012 tenho ouvido muito um grupo britânico chamado Aufgehoben, é incrível o que eles fazem, é forte, extremo.
Aaron Dilloway é um cara que ando sempre voltando a ouvir, vejo uma sensibilidade grande nos ruídos que ele produz.
Ultimamente tenho retornado muito aos discos da Okkyung Lee, ela tem trabalhos muito bonitos.
Também ando re-escutando trabalhos do Arto Lindsay, em principal o “Noon Chill” que nesses tempos tenho ouvido bastante.
O Otomo Yoshihide voltou com tudo nos falantes aqui também, os trabalhos dele com turntable são incríveis.
Ah, Masonna que sempre me impressionou, além de ouvir trabalhos em disco, estou sempre assistindo performances dele em vídeo,  é sempre impactante, quero muito ter a oportunidade de vê-lo ao vivo um dia.



Você ainda ouve os discos que ouvia quando começou a gostar de música?

De tempos em tempos acabamos sempre voltando a algo não é? Mesmo sem querer acabo voltando a algo que não faz mais parte do meu dia a dia. 
Tem uns discos que são recorrentes, ainda os considero incríveis, posso citar o “Slip It In” do Black Flag e o Downward Spiral do Nine Inch Nails e o In Utero do Nirvana ou o Spiderland do Slint como exemplos. 
Outras coisas já não tem o mesmo impacto, não consigo ouvir um disco inteiro, mas guardam muito significado, trazem todo um clima e uma época junto ao som tipo Duran Duran, rs. Põe pra tocar Save a Prayer que talvez você entenda (ou não haha), tocava muito em casa quando eu era criança.

Há uma influência do que se convencionou chamar de IDM na sua música. Quando você descobriu a manipulação com sons eletrônicos e pensou “isso pode realmente ser muito bom”?

Curioso que IDM é um termo que considero meio bobo, mas me ajudou a conhecer alguns dos artistas que mais respeito desde bem novo. 
Descobri a manipulação com sons eletrônicos quando ganhei meu primeiro computador. Se bem me lembro, um velho amigo me mandou alguns freewares péssimos onde eu poderia, com um microfone daqueles bem baratos ligado a placa onboard do pc, gravar sons e processa-los com os efeitos horríveis que na época pareciam funcionar graças ao meu entendimento limitado. 
Fui me interessando mais, ouvindo mais, lendo, estudando mesmo, baixando outras coisas, até que fui conseguindo ter acesso a sintetizadores e outros instrumentos além do meu violão velho com buracos tapados por durepox - ainda tenho ele, tem um som bem peculiar, rs -.  E, claro, devagarzinho juntando as migalhas fui conseguindo montar a pequena estrutura que tenho para gravar hoje, um bom computador, uma boa placa de som e todos os meus instrumentos e apetrechos que me possibilitaram resultados melhores.
Foi um processo legal que começou no inicio da adolescência, de descobrimento/auto-conhecimento mesmo. 


É engraçado lembrar disso tudo.

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Para ouvir seus projetos: