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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Taunting Glaciers - Taunting Glaciers [2013]

Querer voltar no tempo e corrigir seus erros, desejar se sentir acolhido novamente, perceber-se sozinho. São temas que Roberto Lucena (compositor das letras) aborda com conhecimento empírico. Em seis canções, temos essas sensações exploradas sempre do ponto de vista de um ‘eu lírico’ nostálgico, confuso e sem propósito.

Variando entre frases mais certeiras e passagens mais poéticas, o clima do disco embaralha, de forma instrumental, a espécie de clausura que as letras passam. São ambiências extremamente íntimas criadas em tentativas- mais diretas, como os berros do vocal- e concretas de se reconectar a algo, de encontrar propósito onde tudo parece absolutamente vago e sem sentido. No entanto, não temos apenas a consumação própria em torno de reclamações superficiais, mas sim sempre uma tentativa de explorar a experiência para recuperar o vivido e estabelecer as sensações.

É a possibilidade sonora que emerge da combinação simples entre piano, guitarra, baixo e bateria. No fim, é sobre isso: os diversos cenários que podemos construir ao invés de olhar o passado e o sofrimento.


Trata-se, então, de construção. Mas nunca negar o dilaceramento presenciado ou aquele que ainda acontece. São emoções despejadas que não devem nada a bandas como Defeater e tantas outras. Um desempenho de testemunhas que não se ajoelham aos danos já feitos, porque estes vão nos influenciar a vida toda.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Campbell Trio e a importância de sonhar - The Campbell Trio Sings the Blues [2011]

"A vida é feita de medo. Algumas pessoas comem sopa  de medo três vezes por dia. Algumas pessoas comem sopa de medo em todas as refeições existentes. Eu como às vezes. Quando eles me trazem sopa de medo para comer, eu tento não comer, eu tento enviá-la de volta. Mas às vezes eu estou com muito medo e tenho que comer de qualquer jeito. "
― Martin Amis, Other People

Sings the Blues começa com uma importante nota sobre uma questão filosófica, seguido de um instrumental apurado e bem executado. Talvez o tema que sempre direciona uma espécie de nova “fé” na música, ou uma admissão da importância de sonhos, por mais infantis que possam ser.

Longe de ser música que opta por caminhos “fáceis”- bem afastado disso, na verdade. Temos uma sonoridade que oscila entre o que se convencionou chamar de “post-hardcore” e timbres experimentais. Não é exatamente difícil, mas requer força do ouvinte, um envolvimento e pró-atividade, nos convidando a sair da simples zona de conforto. São composições que arriscam e nada mais justo que o destinatário também dance e se exponha.

Então não vamos parar. Apesar das disparidades, dos empecilhos. Pode ser realmente óbvio que só podemos ir em frente, mas o Campbell Trio reverbera “não tenha medo!”. É uma queda livre de qualquer jeito, e se aborrecer com fobias,especialmente quando a maioria dessas são criadas por nós mesmos, não vale a pena. Apesar da nota inicial, a estética aqui não é de teorização, ao contrário: os rapazes fazem uma música de combate, sonhos versus preocupações.

E não podemos passar batido na referência ao Grim Fandango, jogo clássico do final dos anos 90. Onde nos deparamos com o Departamento Da Morte, e uma estranha conspiração (que não deveria nada à ficção de Thomas Pynchon), e um problema no paraíso. Paraíso que reflete também a citação de Milton. Essa obra do Campbell Trio então aborda a importância dos sonhos, estrutura um “sistema próprio” de combate para não sermos almas mortas que apenas vagam por aí.


O EP é literalmente uma pancada. É paulada atrás de pauladas onde a execução instrumental varia a todo instante e os gritos de desalento são praticamente uma convocação à essa guerra. A batalha de seguir em frente e encontrar o descanso merecido, os desafios de encontrar forças próprias na terra desolada que estamos- num tempo onde os sistemas de crenças já estão obviamente descredenciados. A estética da continuidade, onde os aparatos (e escapes!) têm que ser criados na marra.
E penso se seria possível atribuir qualquer espécie de etiqueta musical ao conjunto. Pois não são críticas fáceis formuladas por frases feitas ou sons puramente “agradáveis”. Não, a força da banda está justamente em desdobrar novos e inesperados caminhos nesse curto disquinho. Como uma espécie de fortalecimento de crenças internas e validação destas através de toda energia (que não é pouca!) dispostas nas canções.

A brincadeira com o jogo continua, e eles convidam Salvador Limones para fazer seu levante contra a perdição da alma em disparidades rasas do dia-a-dia. Já que estamos condenados- é o que o Campbell Trio parece ressaltar que passemos por essa curta estadia na Terra vivendo de pé e acreditando em ingenuidades próprias.

Ingenuidades que nos mantém de pé, no fim das contas. E é isso que precisamos nos nossos dias. Confiar em olhos amigos, se movimentar guiados por sons que transcendem a mera realidade instituída e apontam caminhos além do que aparentava ser possível. Porque é indiscutivelmente melhor prosseguir com intuições do que essas prisões diárias que abastecem nossa mente em paranoias como “se dar bem na vida”, “ter uma carreira de sucesso”.

Tudo isso, essa aglomeração de combate contra os sintomas mais claros da nossa Era de demência coletiva, me lembra dos riffs. São sonoridades que se entrecruzam para fazer frente ao Monstro Realidade, num espaço vazio em que conexões são possíveis justamente pelos sonhos. Pode soar ingênuo, mas talvez ingenuidade e devaneios sejam as características que mais faltam nesse mundo morto onde todos tem que ser fortes, realistas, competitivos.

O disco encerra com um clima “feel good demais” pro que ele vinha trabalhando. Talvez a interrupção bruta para começarmos a rítmica bem jazz seja para sinalizar que a tática para guerrilha estava lá.

No fim, Sings the Blues é um EP para seguir em frente apesar das fobias, porque embaixo do asfalto há sementes esperando.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Two Knights – ‘Shut Up’ [2014]


"Is the endless pit in my chest, that swells when I think of death, where I go when I cease to exist? And will all of me implode into myself until nothing is left and all evidence of my life is erased from this world? Probably."



O primeiro EP do Two Kinghts, Lot of Bad Things Happened, But We’re Still Here, é praticamente uma referência de como balancear o tão dito emo clássico com tendências modernas. E, seguindo a linha lo-fi math rock, essa mesma estética maníaca de gritar- e fazer acordes métricos e cantar muito baixo- dá as caras, mais aperfeiçoado, sem perder a explosão anterior.

A sensação de continuidade musical é apresentada na primeira faixa. Parker Lawson canta propositalmente fora do tom, enquanto sua guitarra maluca extrapola por versos calculados ou simples acordes punks, enquanto a bateria de Miles DeBruin administra e deixa as coisas mais “sérias”. Os berros e letras revelam desapontamentos, esperanças quebradas e descrevem situações desagradáveis.

E os berros tomam a maior parte dos vocais durante o álbum, com tons de guitarra mais espessos do que no lançamento antecessor. Mas não são gritos que tentam se mostrar com a rudez de bandas alfa de hardcore. Estes são berros crus de desabafo, um senso de autodepreciação enorme, coisas que têm que se postas para fora, da maneira mais árdua possível.

Os vocais emotivos de Lawson trabalham com letras que exibem uma fraqueza do eu lírico. São reflexões bem vindas; pois têm sido recorrentes escritores de bandas em tom confessional culparem os outros pela merda que se encontram. Isso ele faz por meio de palavras brutalmente diretas, às vezes incrementadas com palavrões, ou em canções sobre a importância de ter um objetivo na vida e trabalhar para que isso aconteça, mesmo que no resultado as coisas não saiam como planejado.

As mudanças de tempo contrastam com a frustração que o vocalista se encontra, variando entre melodias dolorosas e berros de ajuda. DeBruin bate nos seus pratos com precisão e muita raiva quando necessário. A angústia transversa nesses riffs que se moldam meio a contragosto do vocal, como se fosse uma batalha entre espaço/voz. Essas letras que destroem os tímidos castelos de areia, o balanço entre autodepreciação e melodia e os variados andamentos rítmicos são os destaques em um disco que varia surpreendentemente em sua meia hora.

Embora as canções não alterem muito respectivas ‘fórmulas’- a de alternância entre berros; acordes angulares e um andamento mais lento e melódico- poucas destas têm mais de um minuto e meio, o que não deixa nada cansativo. Por isso, passa longe de ser um disco chato, onde os principais pontos são alcançados: dois jovens expostos e que querem deixar isso bem claro em sua sonoridade.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Olive Drab - The Big Sleep [2014]




Em seu primeiro disco cheio, Olive Drab consegue ampliar as sensações positivas que já davam a cara no EP Girl. Convocando a tradição lo-fi, nomes como Titus Andronicus, Sonic Youth e coisas que estão ganhando mais espaço lá fora como Pity Sex e Krill.

O que realmente se destaca aqui é a conexão das faixas, o que deixa uma sensação de continuidade ao ouvir o disco. As músicas são sobre temas comuns como: se apaixonar e se desiludir, descansar, buscar as soluções para os aborrecimentos, lamentações e almejar ser uma criatura melhor. Essas ondulações temáticas se encaixam como uma história que nos entretém até o fim. Lógico, esses temas comuns dão abertura para os ouvintes relacionarem as camadas musicais à suas próprias experiências subjetivas. Letras que cutucam diretamente a ferida, ainda assim não sendo puramente pessoais, abertas à diferentes interpretações.

As músicas aqui estão mais atenuadas e menos agressivas que no EP de estreia. Mas o que mais cativa é a construção melhor elaborada não reduzir nada a potência dos pedais, em faixas cheias e barulhentas.  Ótimas guitarras acompanham a banda em um crescendo, tudo ao redor de riffs principais que seguram a sonoridade. A precisão das baterias auxilia nesse convívio quieto-barulhento que a banda propõe, alternando velocidades e agressividade.

Os interlúdios que separam as canções são pausas bem pensadas para todo o barulho que ouvíamos anteriormente. Essas partes mais lentas dão maior coerência e foco nas fases mais rápidas, como se fossem ótimos contos curtos variando com romances mais aprofundados.

Uma banda que cresceu bem nos últimos dois anos, tanto em termos sonoros quanto escolhas estéticas para um disco cheio, que parece estar de fora da prisão de gêneros e se sente bem confortável tocando no porão- de preferência bem alto!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Nai Harvest – “Hold Open My Head” [2014]




Com o inverno se aproximando, esse duo- com uma sonoridade surpreendentemente cheia e completa para uma dupla- se mostra uma ótima trilha sonora. Apesar de ser claramente influenciado pelo indie emo na transição do último século, Nai Harvest foge da simples cópia para adicionar elementos muito interessantes em seu universo estético.

Mas eles não tocam apenas “alto” para compensar uma suposta falta de adições e detalhes. Há uma junção de elementos sonoros diversos que se unem para dar peso à coisa toda. Como uma banda de garagem quando se propõe a tocar os riffs, mas também confiando no emo “preguiçoso”, arrastado como algumas coisas do grunge.

O álbum é praticamente simétrico no tocante à divisão das faixas, duas mais arrastadas e duas mais “garagem”. Do entrecruzamento “lo-fi”, indie e não tão especificamente emo, nasce Rush. As duas faixas que seguem, são mais densas, conturbadas, com aparente difícil desenvolvimento até, já na porção final, ocorrer uma junção de distorções e viradas na bateria.

Alternâncias que trazem graça e até uma suspeita de que tal som seja realmente conduzido por uma dupla. Letras que lidam com aflição, aniquilamento e sentimentos opressivos, enquanto a ação instrumental vai direto ao ponto. No final, a seção rítmica funciona com mais harmonia, ouvirmos cantaroladas- tranquilidade, fim de tudo? Com certeza uma espécie de zona de conforto encontrada depois de algumas andanças.

Penso num entrecruzamento do The Movielife com Further Seems Forever, onde as cadências são sobrepostas por guitarras altas e a velocidade da bateria é contrastada com o vocal arrastado. Um ambiente distorcido e conturbado, onde um modelo que raramente dimana realça a característica da banda- ou seja, quem procurar guitarras e bateria de garagem e letras sentimentais tem aqui o pacote todo.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

I Kill Giants- No One Will Ever Leave You [7-inch] (2014)




As coisas que eu ouvi (quando esse disquinho foi lançado) eram mais ou menos isso: “nossa, que cedo para um lançamento” (o disco, se bem me lembro, foi lançado na primeira semana do ano). O que não impossibilita o fato do I Kill Giants (IKG) explodir tua cabeça com acordes métricos mais quentes que esses dias de outono que estamos suportando. O que No One Will Ever Leave You afirma é que tudo realizado no primeiro disco cheio não foi por sorte. Como eles aprimoraram tanto seu som e realmente evoluiu, a palavra “hiatus” soa um pouco triste.

Ainda em uma mistura sonora certeira que cruza elementos do indie com o math rock em andamentos estimulantes, riffs impetuosos e contrariedade constante. As guitarras batalham enquanto os vocais de Dylan Hanwright e Chris Lee, os dois guitarristas, revezam-se adicionando dinâmica nas canções. No entanto, não fica nada desarrumado ou fora do lugar, ao contrário, a sensação é um pouco “pop”. Como é o último lançamento deles em algum tempo, as duas canções do meio dão a sensação de estarem lá por obrigatoriedade de serem lançadas. É engraçado como embora ambas sejam essencialmente rápidas- nenhuma dessas duas tem mais que um minuto- encontramos diversos elementos como garagem punk, screamo e os tão famosos riffs métricos que resultam em uma dinâmica extremamente interativa. Mas toda essa pré-formulação não impede a banda de forma alguma de experimentar e realizar divertidas sessões de jam.

No One Will Ever Leave You é uma continuação do primeiro disco cheio, contendo sarcasmo representando os elementos debochados que surgem nos fragmentos de cada canção. As quatro faixas somam apenas oito minutos, o que daria uma boa prévia de futuros trabalhos. Em “Butcher...” temos um prenúncio de músicas que poderiam facilmente virar o hino da galera de subúrbios norte-americanos durante o verão. A junção de elementos indies com viradas muito características fecha o álbum com classe. A recomendação fica para quem gosta de Adventures e Dads. Nesse disco, temos tranquilidade, descanso e uma atmosfera ampla (juro que não é um anúncio de imóvel no Morumbi).

Como um monstro banqueiro desesperado para ganhar dinheiro e fechar negócios em pequenas ou grandes quantidades, o I Kill Giants atingiu seu alvo estético. Como sempre. Seria muito pedir para todas as poucas e lindas pessoas que leem esse blog mandar uma carta- ou ligar ou fazer um baixo assinado- para essa banda não acabar?

quinta-feira, 3 de abril de 2014

La Dispute- Rooms of the House [2014]

Era uma casa nada engraçada.

Nas pequenas cidades, os habitantes que ali residem tem que combater diariamente a carga da honra. A perseguição ocorre desde os tempos de criança, e se você, por alguma acaso, fez algo errado mesmo nos primeiros momentos de consciência como pessoa, isso irá te perseguir. Apesar de você ter mudado, apesar de você ter melhorado, parece que a poça é muito pequena para qualquer quantidade de água não transbordar. Dentre todas essas coisas da vida, provar quem você é, e porque merece ser tratado bem, exige enorme esforço. O habitante nas letras do La Dispute é essa típica pessoa, oriunda de uma pequena cidade e que ter que lidar continuamente com o problema de reputação. O que ficou claro em Somewhere at the Bottom of the River..., onde esse típico não estereotipado e demasiado real sobressaia-se na lírica e nos vocais explosivos. Já em Rooms of The House, embora a “população” ainda seja possivelmente da mesma vizinhança, há uma variação temática muito maior para o vocalista Jordan Dreye se debruçar.

A banda ficou muito mais interessante quando parou de fazer poemas demasiado românticos (o que talvez explique a baixa popularidade das letras atuais entre a galera teen). Sonoramente, Rooms of the House é uma melhora continua do que foi o Wildlife. O foco aqui são os pequenos momentos e como eles ficam documentados no narrador lírico. A banda parece afirmar que a história é uma sucessão de equívocos eternizados em nosso consciente. Se Somewhere..., continha àqueles momentos épicos, talvez até demais, Dreyer aprendeu a centralizar também em situações aparentemente mais tranquilas. Como pinturas cotidianas, reflete a construção diária fora do apenas melodramático que ele desenvolvia tão bem. Ser instrumentista no La Dispute não deve ser fácil, as letras exigem demais e sua entonação completamente não musical não alivia em nada. Mas eles não sucumbem e criam beleza a partir da progressão dos acordes entre versos calmos e partes pesadas. O vocal de Dreyer, em alguns momentos, exerce o que poderíamos chamar de cantar, é exatamente aí que a banda foca em um tema completamente cativante. Em alguns momentos, em algumas canções, Dreyer teria certamente berrado até seus pulmões, aqui não, ele opta pelo mais difícil, o que talvez cause algum estranhamento para fãs dos discos anteriores.

Em um ano que bandas emo tem optado por falar sobre “coisas pequenas” e assuntos familiares- vale lembrar o último disco do Hotelier- Dreyer demonstra que ele ainda lidera quando o assunto é a capacidade de relatar dramas domésticos. Sinceramente não entendo o problema do pessoal falando que suas canções são sempre, em última análise, austeras, defender tanto a perspectiva de como a arte deve ser exprimida e optar incessantemente por uma abordagem, sem deixar o nível cair nunca, é um baita mérito. A experiência de anos em temáticas que se aproximam (não que se repitam) deixa clara a evolução do La Dispute, álbum pós-álbum. O problema é que já existe um ferrete cravado na pele da banda, o de ter que fechar a janela e deixar tudo escuro pois haverá chumbo grosso. Essa reputação pode afastar muitos ouvintes, mas com certeza alavanca a banda que nunca olha para trás, em nome de um comprometimento com a arte sem muitas comparações por aí.

PS: Nem preciso falar que pra mim é o disco do ano, até agora.