Ninguém está em casa. As
lembranças se fundem e os signos externos são apropriados assim como o canto
dos pássaros; a noite passa lentamente, a observação transforma-se em absorção.
As músicas de Sketchquiet são esse processo de absorver e reordenar o mundo que
nos cerca de forma interna. Os versos de guitarra acolhedores de Seize The
Moment flui com umas palavras em seu plano de fundo; são memórias que preenchem
a vastidão do céu noturno e solidificam sensações como saudade e nostalgia. Mas
o que o Sketchquiet realiza não é uma celebração e/ou tristeza em cima do que
já passou, mas como Mário Alencar (ele é o Sketchquiet) é atravessado por essas
lembranças. Porque elas surgem, e se decidem ficar, não há como combater e aí
que músicas como as do Sketchquiet fazem todo o sentido. Elas existem não para
lutar contra os nossos sentimentos, mas para acolher e dar vazão para eles,
para estetizá-los de forma que eles também caracterizem uma presença. Sketchquiet
pinta um cenário que sentimentos paradoxos são possíveis, nenhum contorno é
simplesmente objetivo nessas duas canções. Todos os rabiscos são precisos e
necessários.
Amanheceu e pouca coisa ainda faz
sentido. Os versos de guitarra ainda são aquela mesma melodia da última noite,
mas tanta coisa mudou, meu humor é outro. Eles continuam acolhendo minhas
sensações. Na pausa de uma música para a outra, realidade se mostra existente,
rígida como um concreto. Nós podemos acordar todo dia na mesma hora, mas o céu
está sempre diferente. Indiferente a todos nós. O que eu sentia, ontem, na
primeira vez que ouvia essas músicas, eu não me lembro. Acho que assim eu posso
entender um pouco melhor a fragmentação da voz em The Nature Only Wants To
Please Itself. Afinal, nossas memórias só obedecem a si mesmas e suas ordens
malucas e caóticas. Elas são como os cantos dos pássaros; determinadas por suas
vontades.
Gosto de falar sobre discos,
aqui, “a partir” da percepção. Ou seja, como a música de tal artista realmente
me atravessa e a experiência que esta me propicia. Acredito que isso seja mais
honesto e não estou tão apto a falar de “gêneros” ou “tecnicismos”. Acredito
que isso cega a conversa e o diálogo/rombo que a arte pode causar. Digo isso
porque “tenha bons sonhos” perfurou minhas sensações desde a primeira audição.
“tenha bons sonhos” trata,
principalmente, de problemas grandes. Problemas enquanto indagações numa
escuridão profunda. Os signos que importavam tanto pra gente (o desmoronamento
de uma casa) se dissolvem em desilusões presentes, onde apenas restam rememorações
angustiantes do que se passou. São essas narrativas misteriosas e inconclusivas
que ambientam o disco. Relações entre o que “está submerso” e a estética, onde
expressar essas obscuridades se torna a complexidade do próprio discurso.
Trata-se de colisão, as mesmas memórias que nos formaram são nossas fraquezas,
e reparamos na nossa fragilidade, em afirmações tão simples ainda assim
essenciais (“porque tudo é em vão”). É trazida a nós uma lamentação profunda e
verdadeira de quem sente a vida (assim com suas fortalezas, sua segurança)
escorrer pelos dedos. O que podemos ver, depois de tudo que passamos? Nossos
sofrimentos e nossa tristeza não nos ensinaram nada?
O álbum é dividido em duas partes
e a segunda, conforme o próprio bandcamp do
projeto, é destinada para “relaxamento”. São duas longas faixas, que tratam de
impressão- a figura da mulher que some na escuridão noturna. Mas diferente
talvez da primeira metade do disco, há nessa segunda etapa uma “aceitação das
ilusões”. Tanto que a ambientação aqui se torna preponderante, como se o “eu
lírico” que habitava as canções anteriores fosse lançado para um local imerso
em “aparições”. A abordagem mais onírica contempla uma espécie de vazio, há um
deslocamento e não estamos mais em lugar algum, as indagações também não têm
mais tanta importância. Há uma espécie de deslumbramento nessa manifestação,
sua finalidade não é explicita- e sinceramente duvido que de fato tenha alguma “finalidade”.
É quase uma exposição do “nada”, as transições de um local “vazio” para outro. Não
por acaso o álbum tem o nome de “tenha bons sonhos”, se dormir é um espaço de
tempo onde objetivamente coisa algum acontece. Quase um ritual místico para o “sono”,
para que a tristeza de toda a primeira parte possa ser -durante esse período-
esquecida.
Claro que esse esquecimento
temporário não significa uma tentativa de fuga. Ao acordar vamos ter que
confrontar com as mesmas merdas pendentes do dia seguinte, não há escapatória.
Justamente por estarmos nessa prisão sem saídas, que devemos aproveitar ao
máximo esses períodos “entre” os acontecimentos. A última faixa, “boa noite, punpun” é uma referência ao
mangá Oyasumi Punpun, de Inio Asano, onde a personagem principal
passa por uma série de situações que o força ser adulto, onde as pessoas tentam
encontrar significado para sua existência, e no fim ninguém encontra um significado
pleno. Aliás, “tenha bons sonhos” encaixa completamente no ambiente do mangá.
As emoções que se contradizem, o ciclo que nossa vida se transforma e ainda sim
uma realidade imutável, praticamente intransponível. Dessa morte inescapável,
porém, surge a poesia, as iminências que atravessam nossas experiências e fazem
brotar sensações que nos atinge na pele, potencializando nossas possibilidades,
nossas angústias.
Toda essa sensação de prisão que
perpetua a audição de “tenha bons sonhos” é de uma constatação de nossos
limites físicos, sofrimentos psicológicos. Nós queremos morrer, nós queremos
viver e é justamente essa diversidade (que muitas vezes nos esgota) que cava
sentimentos mais profundos e sinceros. O hateyourmusic
amplia seu espaço (o espaço “negativo”, o campo da “escuridão”) para valorizar
as coisas que ficam retidas. Para evidenciar o massacre da realidade e se
maravilhar com o vazio.
O conceito de homúnculo talvez
seja muito hermético, mas basta lembrar-se daquelas criaturas extremamente
desproporcionais, cujas deformidades chamam a atenção, principalmente em um
mundo onde a aparência anda tão alinhada e restringida. Talvez essas imagens
nos orientem através dos três volumes de EP’s
lançados pelo Odradek. Tive a oportunidade
de ver uma apresentação desses caros, ano passado em Araçoiaba da Serra, e fiquei
de boca aberta. Lá eles já davam a cara com a variação rítmica, sensibilidade autêntica
e diversidade de timbres. As referências aqui também apontam algo; é impressionante
como em apenas três canções fica a sensação de que não há repetição, entre as
melodias vocais contradizendo com o instrumental feroz, a progressão sonora
estimula novas formulações cada vez que há uma troca de tempo, por exemplo.
Talvez esses surgimentos inesperados justifiquem o título.
O contraste entre o instrumental
evidentemente progressivo e os vocais melódicos, as letras inteligentes ( I accept the challenge/ Little did I know/
That satan flirts with shaved legs/ High heels, painted nails and nasty offers)
e a interação entre os instrumentos mantém uma dinâmica que não se desgasta. Ao
contrário, cada momento é valioso em Homúnculo Vol. 3 e direciona conexões
improváveis que ao se estabelecer desafiam noções “comuns” de música. Ao
decorrer das faixas, percebemos que eles não se assentam nas mesmas engrenagens
e que cada canção surge como um surto para surpreender o ouvinte. A bussola do Odradek não tem vergonha nenhuma de
mudar abruptamente, - norte ou sul, a mudança de caminho é como se fosse a
única “pré-exigência” da banda. Eu pensei, na primeira escutada, que as faixas,
apesar de boas, soavam incompletas. Depois de algumas outras, fica claro que a mutabilidade
de cada canção torna o processo de ouvir o disco repetidamente obrigatório-
pelo menos se você desejar aproveitá-lo em seu máximo; os grooves surpreendentes, as viradas na bateria.
A diversidade é realmente o ponto
forte do Odradek, e mais do que isso,
como as transformações sônicas do disco se passam de modo que não invalidam a
construção anterior e ainda assim tira o ouvinte de sua zona de conforto. Pense
bem, essa dinâmica de mudanças constantes pode muito bem dar errado e soar ruim
se não há uma vontade coletiva dos membros da banda.
Parte também da alquimia é a
troca entre o idioma das letras, de inglês a português. Esses eventos que preenchem
o universo de Homúnculo não servem apenas para mera contemplação dos ouvintes,
mas muitas vezes essas inversões forçam uma ruptura entre o “esperado” e o que “surge”.
A banda claramente está “dando forma” a um produto que parece muito longe do
seu fim. Tenho a impressão de que, embora obviamente muito ensaiado, esse EP
não surgiu de contornos pré-estabelecidos, mas sua modulação foi se
transformando e ganhando corpo a muito custo, muitas ideias desperdiçadas e
outras tanto aproveitadas.
O Odradek tem a moral de não “repetir” mesmos seus instantes áureos porque
sabe que a construção que eles optaram é sempre de uma novidade surpreendente.
Homúnculo traz acima de tudo uma tensão e tudo que pode envolver ambientes
tensos- a guitarra fritando, o cinismo de alguma das letras, as jams que progridem e transmutam de forma
implacável, as viradas loucas da bateria. Tocando o que esses rapazes tocam,
eles podiam cair no limbo do mero “exibicionismo”, mas a construção desse EP
implica em um não ostracismo evidente. Falei da tensão, mas a tensão de Homúnculo
é aquele de que “sempre algo vai acontecer” e isso devido ao mérito da banda
adicionar mudanças constantes em uma dinâmica estrutural que surge sempre algo “novo”.
Novidade que nem sempre é tão aceita num mundo que todos ouvem “apenas o que
gostam”, mas é um desafio que merece ser encarado.
O Kovtun lançou um dos meus álbuns favoritos no ano passado, pela “desolação”
e repetição de temas. Ocorre, em Androginóforo
, o oposto. Aqui vemos uma obra mais aberta do que a saturação da antecessora,
aqui temos mais desvios e inquietações- isso provavelmente em função de que
cada uma das quatorze faixas tem participação especial. Aqui as medidas são
destroçadas, pois cada movimento-canção é uma afirmação e negação da faixa
antecessora. Afirmação porque reconhece sua unidade, negação porque busca
outras expressões. Estamos, ao invés da uniformidade de Sleepwalking Land, em um local onde não há controle e cada imanência
irrompe e se estrutura em suas próprias aflições, em seu próprio instrumental.
Poderíamos pensar, “mas com essas divisões, não seria melhor ouvir o disco
íntegro de cada participante? Como encontramos um núcleo criativo do próprio Kovtun?”. Mas não são objetivamente
divisões, são blocos de um mural gigantesco (o disco tem uma hora e meia), e as
próprias controvérsias dessa estrutura garantem a unidade de cada participante.
O disco não seria o mesmo sem as aves e o barulho absurdo na colaboração com o
Godpussy e assim por diante. A abertura, então, está na vastidão que o ouvinte
tem que encarar, assim como na ambição do disco e suas múltiplas facetas- é
mais difícil, assim tão recortado, e provavelmente mais recompensador.
As variações desafogam e trazem
repentinas e interessantes mudanças de estrutura, talvez a única forma de criar
um disco tão grande seja apostando tanto nas bifurcações de gêneros mais “densos”.
Pois eles próprios são radicais às suas maneiras e demonstram alicerces mais
dinâmicos do que a simplista nomeação de “barulho”. Com meu quarto devidamente
fechado, são fascinantes os “empréstimos” imagéticos que as músicas me
proporcionam, seja nas mais econômicas (ou a primeira parte, como imagino uma
divisão estética) ou a segunda, que agride mais. Penso, porém, que elas se unem
porque são como defuntos procurando um terreno mais hospitalar, e por isso
tamanha difusão sônica e necessidade agressiva, o corpo já sabe que o mundo
aparente, essa tal de “realidade”, não serve mais. Precisamos respirar em
outros lugares. Nossa mente pode se atrever a isso se nos relacionamos com esse
disco da forma que ele merece- sem uma “necessidade” anterior, porque as microestimulações
vão jorrar com cada canção e terminar com elas também.
E ouçam isso alto. Pois há aqui
uma espécie de “grito” anônimo que ecoa em cada base distorcida, cada repetição
que aumenta e cada acidente que topamos. É um disco que versa sobre uma dor que
é impossível de especificar, uma inquietação constante que fez com que Mandra (ele é o Kovtun) decidisse reunir esses nomes e nos oferecesse tamanho corpo
que registra uma época bem importante de nossa música independente (aqui eu
estou assumindo as motivações por trás do disco). O ambiente enclausura e rompe
com uma organização mais “meditada”. Ao mesmo tempo em que temos aberturas instrumentais
que nos deixam mais a vontade até mesmo para divagar, as pancadas dessa parede
nos deixam estáticos. Não há uma limitação da experiência, apenas uma força
própria que não permite titubeação. São músicas que exigem sim atenção e
apresentam camadas que merecem ser ouvidas muitas vezes. Falei sobre a “possibilidade
de divagação”, mas não quero diminuir nada. É um disco perturbador. São
barulhos agressivos, são estruturas que nos confundem, na maioria das vezes.
Eu evitei ler qualquer coisa
sobre o disco anteriormente porque queria deixar aqui somente minhas sensações,
minha experimentação. Por exemplo, o nome das músicas, aparentemente
científicos, o que querem dizer? Aqui eu volto à parte que questionei o porquê
de um disco em que todos os faixas têm participação de outros artistas. Não há
resposta, na verdade (para o nome das músicas). Eu poderia ter falado também
sobre as variações e os “gêneros” que esse disco atravessa, mas imagino que tags reduziriam a inauguração que
Androginóforo propõe. É através da escuridão que envolve todo o disco que,
talvez, podemos encontrar algo mais simples, para podermos nos maravilhar com
cada “surgimento” (e não começar a questionar o porquê do nome das músicas, ou
o porquê das participações). Androginóforo é um experimento do Kovtun, mas também uma afirmação. Sem
objetivo aparente, ele se ergue e exterioriza que há uma música significativa sendo realizada no Brasil que não é
demonstrada em charts, na Wire ou qualquer outro veículo. Mas que
ela existe e é substancial. Que ela não hesita e que ela não se explica- ela só
pode atravessar e ser atravessada. Espero que essas irrupções aconteçam com
quer ouvir o disco. Comigo aconteceu.
Nosso corpo é o contrário de
utopia. Enquanto nossa mente pode elaborar as teorias mais interessantes,
viajar aos lugares mais deslumbrantes, nosso corpo permanece estático e limita
muito as possibilidades de nossa vida. Aplicamos, então, segmentações que
transcendem a realidade para criar algum afeto nesse terreno árido. Mas o que
há além da realidade?
Muitos dizem que a explosão do que
se convencionou chamar de pós-rock se baseia em “texturas que programam o
lúdico”. Talvez, de fato, seja isso. Mas estou absolutamente convencido de que
não. Quero dizer, ouçam a introdução de Janela Aberta, com suas ligeiras
interrupções da bateria e uma distorção, contrastando com os versos limpos de
guitarra. Mais do que “construir um ambiente”, o EATNMPTD faz um
atravessamento. Não se trata de “música contemplativa”, mas de uma
experimentação. Com certeza, essa tal de janela que está aberta deve ter muita
importância para esses manos e é justamente por ter sentido isso (o bafo quente
de um dia de verão? O vento frio do inverno? Uma árvore do outro lado?) que
eles têm uma espécie de autorização para expor musicalmente as feridas que os
atravessaram. Não se trata, então, de “contemplação”. Mas de algo mais forte e
mais vivido também.
Se o EP de 2013 tratava de temas
como saudade, nostalgia e decepções; Vazio aborda um limbo em que um vácuo
ambulante coabita com nossa existência. O vácuo que aprisiona o corpo. Ai,
desse vácuo, eu entendo abordar os discursos sobre “contemplação” no post-rock. Mas não de o ponto de vista
mesmo narrativo ou de ambientação- mas quando nos sentimos tão fracos e
imóveis- quando parecer que se mover é muito, extremamente difícil. É uma amostra
não só do registro dessas sensações, mas também um companheiro para suportar
essas horas. Eu mesmo, quando colo em algum show deles, fico todo sentimental.
É tudo tão intenso e barulhento que meu coração parece querer pular do peito.
São apresentações assim que nos motivam em uma semana ruim, quando ficamos
distante de quem gostamos ou quando não nos sentimos queridos por ninguém.
É clichê falar sobre
amadurecimento, mas em Vazio os temas apresentados são mais duros do que no
primeiro trabalho da banda. As mudanças no tempo ficaram mais dinâmicas também.
O que demonstra o trompete que encerra o disco. A audição acabou, mas as
dúvidas permanecem. O repeat é
necessário. Com certeza as respostas não vão surgir, já falei sobre o primeiro
EP deles e de como é uma música baseada na incerteza. Obviamente, não incerteza
artística ou sonora. Não, mas as dúvidas pulsam nas distorções e é essa
sensação “o que vai acontecer” que Vazio, assim como o antecessor, transmite.
Vazio confirma o EATNMPTD como um
das bandas mais criativas nesse país. Em um ano com lançamentos tão ruidosos e
importantes como This Lonely Crowd, Lupe
de Lupe, Huey e ruído/mm, o EATNMPTD consegue não ficar atrás e lançar um
discurso muito próprio sobre o desguarnecido, livre de proteções fáceis. Aliás,
se expor não é problema para nenhum desses caras.
Acredito que, para muitos de vocês,
a maior dificuldade hoje em dia é, “onde catalogar música boa e daí descobrir
algo que realmente valha à pena”? Eu mesmo já segui e fui atrás de vários sites
para “acompanhar”, até que dei um chega- pelo menos pra mim, que conheço uma
quantidade relativa de gente cujo gosto eu considero “próprio”, as informações
tem simplesmente chegado. Deste modo, surgem diferentes ritmos- um mais
dissonante e maluco que o anterior- que caem no meu colo e descubro uma grata
surpresa. Note-se que, obviamente, o primeiro lançamento do The Arms Of Sleep é um desses registros
que surgem quando todas as listas de melhores discos já foram feitas e abala
sua própria noção de música. Fico muito, muito contente com a capacidade
sistêmica de a música me surpreender.
A integração dos sons compõe
sistemas de conceitos que não sabíamos que habitavam em nós- calma, tranqüilidade,
relaxamento e paz. Mesmo nos seus instantes mais tensos e fragmentados, Chinese Houses se estabelece como uma proposta
fixa de que, no fim, há uma espécie inflexível de calma. Mais do que isso,
todos os sons “paralelos” às melodias principais intensificam essa sensação.
Tudo isso se envolve numa obra que, quando visitada de uma só vez, corporifica
em seu fim tudo o que esperávamos desde seus primeiros versos. Não é como
simples “fim, inicio e começo”, não! Mas uma continuidade que vai resistir
mesmo quando o disco acabar. As melodias são eficientes ao ponto do instrumental
resistir ao mundo externo. Cole Weiche
(que é o The Arms Of Sleep)
influência nossa percepção sensorial a esse ponto.
O contexto em que vivemos- um
amontoado urbano cacofônico, trágico,
perturbardor- necessita de pausas tão serenas e meditativas como The Arms Of Sleep. Para nossas perspectivas
não persistirem tão depressivas e amparadas em um estado inerte de melancolia.
Outras perspectivas merecem serem erguidas e construídas como “esperanças”-
porque ao existir uma esperança, existe um momento de espera. O momento de
espera é sagrado à medida que este providencia transcendências apesar da realidade.
Embora tenha lá seus clímaces, Chinese Houses é construído sobre um
sistema de pensamento decididamente sereno. Um sistema de pensamento que
planeja rotas de fuga da velocidade opressiva do mundo. Um período para fechar
os olhos e respirar fundo. Não tem uma finalidade porque vamos precisar de
instantes assim a todo o momento. Chinese
Houses é o presente que merece ser desfrutado, esquecido por preocupações
mundanas e temporais. No entanto, há vários “cortes” que desconstroem a música-
como para lembrar o fim da efemeridade. Chinese
Houses se torna ele próprio um paradigma de suas esperanças. Se repararmos
bem, seu interior está cheio de “desconstruções”. Isso porque Cole sabe bem que
música não é utopia. Na falta de construções objetivas- temos a esperança. É um
disco que clama por nossa relação com ele. É um disco que, de certa forma, nos compreende.
Um ponto para fugir. Um ponto no meio do caos.
Eu já descrevi aqui como fiquei empolgado pelo EP lançado ano passado pelo "E a terra nunca me pareceu tão distante". Bem, imaginem o show dos caras, que é sem dúvidas mais intenso e explosivo e sem dúvidas, muito, muito alto.
É uma das bandas de SP que mais dá gosto acompanhar. Sempre barato os rolês, dá pra tomar uma cerveja gelada, conversar com as pessoas. Enfim, o Lucas Theodoro, que é guitarrista da banda (também formada pelo Marcelo Terreiro no baixo, Luden Viana na guitarra e Rafael Jonke Buriti na bateria), topou responder algumas perguntas. Ele fala sobre uma série de fatores, sobre como é criar música, a "cena", suas bandas favoritas, etc:
-
[A.A] Você cresceu ouvindo que
tipo de música? Como foi acabar no post-rock?
[Lucas] Acho que esse tipo de “crescer” é bem relativo,
meio que vem em fases. Lembro de ouvir sertanejo de raiz com meu pai quando era
pequeno (Almir Sater, Renato Teixera e afins).
Daí veio o Nirvana na minha vida, que foi quando comecei
a tocar violão e guitarra. Logo depois disso o Punk e Hardcore mudaram a
concepção que eu tinha de música e de mundo.
O Post-rock chegou lá por 2005, na fase que aprendi a me
abrir pra qualquer tipo de musica. Era quando ouvia desde um disco da Adriana
Calcanhoto que achei na casa dos meus pais até umas bandas desconhecidas de
gritaria que achava pelo Orkut haha.
No meio de tudo isso me interessei muito pela geração de
bandas emo dos anos 90 (mineral, penfold, cap’n jazz, american football, texas
is the reason, etc...).Daí nessa época
já comecei a ouvir bandas como explosions in the sky e mogwai, que me davam o
mesmo tipo de emoção e intensidade dessas bandas dos anos 90 , mas sem usar uma
palavra cantada. Isso me impressionou muito.
Mas tem dois discos que me fizeram sonhar em um dia ter
uma banda que fosse parecida com aquilo: Easily
Misunderstood do Samuel Jackson Five e o Split do At The Drive-in com o The
Aasee Lake.
“The Aasee Lake” é uma banda de Louisville, Kentucky que
nunca chegou a lançar um disco fora esse split, mas que com certeza me mudou.
Alguém colocou no myspace as demos do disco “Amazing Stories” que eles iriam
lançar algum dia. Acho que é o Post-Rock sem delay mais incrível que já existiu
haha.
[A.A] Como a experiência de ter
tocado em outras bandas influência na dinâmica do EATNMPTD?
[L] Eu toco com o Marcelo na “Doppelgangers!”(dpplgngrs.bandcamp.com) faz 7 anos já.
O Luden toca com o Rafa em bandas desde sempre também, talvez há uns 10 anos.
Isso é muito bom por que quanto mais tempo passa você acaba ficando mais focado
no tipo de coisa que vale a pena fazer como banda ou não.
No caso meu e do Mama, como sempre estivemos envolvidos
mais em uma cena de punk, hardcore e afins, o do-it-yourself acaba sendo uma
coisa muito intrínseca. Marcar os próprios shows, fazer as próprias camisetas,
gravar os próprios CDs em casa e dobrar a capinha com a arte para embalar...
Enfim, acho que simplesmente não sabemos fazer de outro jeito.
Isso com certeza influenciou na visão que temos com a
EATNMPTD.
O Rafa e o Luden compartilham bastante dessas idéias
também. Sempre procuramos fazer as coisas do jeito mais acessível possível.
Seja vendendo nosso ep e camisetas a um preço honesto, disponibilizando nossas
músicas de graça para download ou até mesmo negociando horários e preços de
show com quem marca um show nosso.
Não queremos privar as pessoas de ver um show nosso
porque a entrada custa mais de 10 reais ou simplesmente porquê o horário não
permite voltar de transporte público. Isso é o tipo de coisa que nós realmente
nos importamos.
[A.A] Como ocorrem as composições das músicas?
[L] É difícil de dizer porquê varia muito, mas posso dar
exemplos:
O Luden tinha 2 dos temas que estão no EP bem definidos
desde que começamos a tocar. Daí começamos a estruturá-los como música a partir
de jams em ensaios.
Uma noite dessas lembro de ouvir a demo de “Essa deveria
ter seu nome...” que ele gravou sozinho com guitarra em casa para nos mostrar.
Foi engraçado ouvir essa demo tanto tempo depois, porque na concepção ela já
era basicamente 80% do que a musica é hoje.
O tema de “Pequenas expectativas, menores decepções” é um
riff que carrego comigo desde 2005, mas a construímos tocando juntos.
Enfim, a gente sempre acaba escrevendo em casa algumas
coisas e tentando estruturar gravando demos e tudo mais. Mas as músicas só
ganham força e ficam vivas mesmo quando as tocamos os 4 juntos nos ensaios.
Algumas acabam saindo inesperadamente fáceis, outras são mais difíceis.
Por exemplo: tem uma música que tocamos em shows desde o
ano passado e que cada vez sai de um jeito, e uma outra que tem poucos meses
mas que já se estruturou praticamente desde a primeira vez que a tocamos.
[A.A] Talvez não seja o melhor
dos cenários, mas muitas pessoas de outros estados reconhecem que há um suporte
maior para música independente em São Paulo. Você concorda com isso e como você
sente a cena paulista?
[L] É difícil comparar porquê não vivi a cena de muitos
lugares no Brasil. Mas o que eu vi que rola em cidades próximas como Campinas e
Sorocaba são lugares que as pessoas vão independente de quem estiver tocando. E
não só vão pelo rolê, como assistem as bandas e compram CDs e camisetas. Enfim,
saem de casa pra assistir uma banda que nunca ouviram falar. Aqui em São Paulo
vejo muito pouco esse tipo de público que sai de casa pra ver algo que não seja
uma banda que já conhece ou a banda de um amigo/amiga. Acho que com exceção de
shows de SESCs e CCSPs da vida.
Mas não dá pra jogar essa culpa no público quando são
poucos os lugares que te dão estrutura também. Seja de organização,
equipamentos ou até mesmo honestidade com as bandas.
É um cenário complexo. Talvez São Paulo seja um lugar de
maior visibilidade e de público em potencial, mas não é fácil.
[A.A] Em termos de
expressividade, quais são os benefícios e desafios de se ter uma banda
instrumental?
[L] Acho que acabamos nos preocupando mais com a duração
e repetição de compassos e temas. Por mais que às vezes seja legal tocar no
improviso variações da mesma coisa, a gente fica constantemente lapidando as
músicas pra que elas tenham o melhor tempo onde consigam construir e
desconstruir uma narrativa e lógica interna.
Quando tocamos com o All People e com a Lisabi mês
passado em São Paulo eu tentei falar no show sobre o quão maluco é saber que no
último ano nós conhecemos várias pessoas incríveis e nossa musica chegou muito
mais longe do que esperávamos, sendo que o máximo de palavras que usamos são os
títulos das musicas. A gente vive uma experiência muito única nos shows e é
realmente incrível ver as pessoas suspendendo um pouco a vida durante aqueles
minutos de musicas.
Uma vez um cara em Campinas disse pra nós depois do show
“obrigado por fazer do mundo um lugar menos horrível enquanto vocês tocam”.
Acho que foi uma das coisas mais impactantes que alguém já me disse na vida.
É muito surreal conseguir tocar as pessoas desse jeito
sem ter um refrão que elas possam cantar junto, saca?
[A.A] Embora post-rock, é
perceptível a composição das músicas variando entre alguns outros estilos. Como
balancear essas diversas influências?
[L] Acabou se tornando bem natural pra nós, na verdade.
Acho que “post-rock” é um termo mais fácil para as pessoas assimilarem o som e
entender o que podem esperar de nós antes de ouvir as musicas. Mas é
provavelmente o tipo de musica que menos ouvimos em nosso dia-a-dia.
Aí acabamos nem pensando muito nisso da hora de tocar.
Nunca deixamos de tocar algo de um certo jeito por não ser “pós rock o
suficiente”, sabe? hahaha
[A.A] Como você se sente sobre a diferença
entre gravar em estúdio e tocar ao vivo?
[L] Ao vivo eu sempre me machuco muito mais hahaha.
Na real, nosso disco foi gravado com nós tocando ao vivo.
Poucas coisas foram adicionadas depois ou gravadas por cima.
Nosso querido amigo Norton Bell (que gravou e mixou o ep)
conseguiu armar uma estrutura pra que cada amplificador e a bateria ficassem em
salas diferentes. Também gravamos sem metrônomo para que as musicas tivessem
seu próprio respiro e abertura para eventuais “falhas”. Acho que tudo isso nos
ajudou no processo de tentar deixar mais humana a experiência de gravar/ouvir o
disco.
Mas a experiência do show é muito mais legal pra todo
mundo. Pra quem assiste tem um impacto muito maior, e pra nós é emocionalmente
muito mais forte.
[A.A] Nessa loucura de ter
praticamente todo quanto tipo de música disponível, enquanto ouvinte, como você
“separa” o que vai ouvir?
[L] Acho que acabo fazendo de 3 jeitos.
-Um é na loucura de ouvir no computador em casa enquanto
faço outras coisas. Daí isso é aberto a qualquer coisa desde vídeos
relacionados de youtube, bandcamp de bandas e gravadoras, shuffle all da
biblioteca do iTunes... Enfim, é o jeito que ouço o maior volume de coisas e
acho isso maravilhoso. Esse é o jeito menos peneirado de fazer a coisa, mas
mais aberto também. O ruim é que na maioria das vezes é meio disperso enquanto
faço outras coisas.
-Na rua com fone de ouvido é uma coisa que sempre fiz.
Relacionar certos lugares e momentos de vida com certos discos é inevitável.
Acho essa relação de musica e cidade algo incrível.
-Mas pra ouvir com atenção é no vinil, não tem jeito.
Confesso que muitas vezes já me atrasei porquê simplesmente não dá pra sair de
casa enquanto o lado do disco não termina haha.
Ultimamente tenho feito a mesma coisa com CDs. É algo que
meio que te força a ouvir o álbum todo na ordem até o final. Faz bem.
[A.A] Quais músicos mais te
influenciam na maneira de criar música e conduzir o instrumento?
[L] Guy Picciotto
(Fugazi e Rites of Spring) e Jim Ward (At The Drive-in e Sparta).
Acho que Fugazi de uma forma geral é o que me inspira a
manter as coisas simples na guitarra, sou meio da política de colocar a nota
certa na hora certa ao invés de complicar tudo fazendo mil coisas e arranjos.
E o At The Drive-in é a intensidade de tocar musica ao
vivo com coração. Claro que isso te faz errar, sangrar, se machucar e suar
muito mais. Mas , de verdade, acho que não consigo fazer de outro jeito.
[A.A] Quais os próximos planos da
banda?
[L] Gravar nossopróximo EP. Provavelmente em Setembro.
Enquanto isso, queremos tocar no máximo de lugares pelo
Brasil.
[A.A] A capa do álbum é muito legal.
Como rolou?
[L] Valeu! Passei o ano novo de 2012/2013 na praia. Daí
no primeiro dia do ano tirei essa foto com o celular mesmo. Tinha um valor
muito pessoal pra mim, por ser uma fase meio ruim que tava começando a passar.
Mas, quando virou a capa, se transformou totalmente.
Toda a parte gráfica do disco é do nosso querido amigo (e
quase irmão pra mim) Vitor Fiacadori.
[A.A] Vocês têm bloqueios criativos?
[L] Temos ensaios ruins as vezes. Mas sempre acaba
ajudando a motivar.
É bom lembrar que nem sempre as coisas serão boas e que isso é normal.
[A.A] Quais outras artes
influenciam sua música?
[L] Tudo influencia nossa música. Os filmes, os livros,
os quadros, a cidade, nossas casas, nossas famílias, amigos, relacionamentos...
Acho que não só influenciam, como muitas vezes são justamente os motivos pelo
qual nós fazemos musica.
[A.A] Valeu! Se quiser, deixa ai
um recado pra quem leu.
[L] Ah, acho legal reforçar que todas as respostas são bem
pessoais minhas e que possivelmente cada um da banda responderia algumas
perguntas de jeitos diferentes.
Tocar essas musicas tem feito um bem danado nas nossas
vidas e a resposta que as pessoas tem dado em relação ao nós é ainda mais incrível.
Esperamos tocar
muito mais. E acho que é isso haha.
Valeu Henrique pela grande força nos dando esse espaço
pra falar um pouco sobre a banda.