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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pianos Become the Teeth e a solidez da dor

"Eu gostaria de enterrar algo precioso em todos os lugares onde eu estive feliz e então, quando eu estiver velho e feio e miserável, eu poderia voltar e desenterrá-lo e lembrar."
- Evelyn Waugh, Brideshead Revisited

I

Dois cavalos, árvores desgastadas, um campo deserto. Esse é o panorama da arte da capa de Old Pride. Quando ouvirmos a primeira canção, uma profusão de emoções vai se acender sobre nós.

Em Old Pride, nós temos uma banda que obviamente tem muito a mostrar. A natureza intensa e os gritos franzidos, embora algumas vezes percam a mão, mostram o grande talento da banda e um potencial enorme para um disco definitivo. Percebe-se que cada músico lidera com notável conhecimento seu instrumento.

Seria, de fato, um disco ainda melhor se tendesse mais  para “Cripples Can’t Shiver,” (belíssima história sobre um família destruída pela doença) do que Young Fire, que é um post-rock muito genérico. Mas, além disso, há histórias de micro deslocamentos remetendo ao cotidiano, colocando muito emoção nos momentos mais “comuns”. Transformações que modificam para sempre nossas vidas e que nem sempre são notadas. Implicando em angústia uma espécie de desespero pela urgência de melhorias. Fica em dúvida nossa capacidade de se recompor e lutar contra as adversidades. São trinta e seis minutos de screamo baseado basicamente na emoção. A produção é muito acertada, embora relativamente “polida”, consegue manter aquele climão de “show de porão”. Ainda que uma banda realmente orientada pelo “screamo”, é notável a influência de bandas como Thursday, por exemplo.


Old Pride pode conter certa dose de “falta de originalidade”, mas é muito inquestionável seu valor enquanto carga emotiva, catapultando o PBTT em uma das melhores bandas de screamo na época do lançamento de seu primeiro disco (ao lado do Touché Amoré e do Sed Non Satiata). Embora exista claramente uma tendência da influência post-rockeira em bandas desse tipo, a abordagem e atmosfera erguidas em Old Pride –suas pequenas histórias, a épica canção sobre deterioração- valem a ouvida. O que caracteriza o Pianos é a voracidade e momentos destruidores, empacotando em menos de quarenta minutos sinceras entregas emocionantes. Muita gente disse que era genérico; “repetição dos melhores”, mas os berros, “SIX HOURS, SIX HOURS”, certamente comprovam o contrário.
II

Se em Old Pride tínhamos uma banda ligeiramente perdida no seu grande leque de influências, The Lack Long After estabelece o conjunto em outro degrau. Embora seja inegável a influência de bandas como Heaven in Her Arms e Portraits of Past, o Pianos aqui sai da mera emulação para definitivamente lançar um álbum que dignifica a banda em uma categoria bem própria. Ainda temos a perspectiva da morte, de como nos comportamos perante isso, porém decididamente mais aprofundada e agonizante também. Claramente o “fim da vida” é a principal abertura que a banda encontra como expressão artística, assim como suas exaltações instrumentais e tristes passagens líricas. Deprimentes. Poucos álbuns me fizeram alguma vez chorar, mas a melodia fora do tom propositalmente na última faixa é simplesmente devastadora. É com certeza um disco mais “direto” ao ponto que o antecessor, e talvez não acuse tantas variações, mas isso se adapta surpreendentemente bem com o conceito proposto. Vale repetir: The Lack Long After é uma experiência pessoal extremamente emocional, com nuances de perdas e nossas fúteis tentativas de superá-las. Um dos meus discos de screamo favoritos e que causa devastação a cada escuta.

The Lack Long After aproveita mais os minutos de cada faixa (as conduções entre o fim de uma música e o início de outra “encaixam” o conceito), deixando o disco uma experiência mais profunda que o antecessor. Os relatos são passados em cenas que a memória irrompe como busca de explicações ou anestesia, em combate com os constantes arrependimentos do eu - lírico. Essa espécie de “não-discurso”, onde a banda fica atolada por problemas muito maiores do que ter que determinar uma estética própria, é o que valida todo o sofrimento que o álbum quer e consegue passar. Pela falta de um compromisso discursivo, acaba tudo soando mais genuíno e sincero possível.

Apesar de ele ser mais “direto” que o antecessor, The Lack Long After tem épicos momentos emocionais enquanto a banda simplesmente desmorona a cada canção. Os vocais limpos foram adicionados aqui e ali, e os berros ficaram mais intensos, quase inintelegíveis- as duas guitarras também encontram uma combinação melhor na troca de acordes. O que mudou realmente é que temos uma banda mais “comprometida” com a sonoridade e estética. Parece que eles deixaram para trás aquela idéia de “temos que unir post-rock e screamo, fazer crescendo na parte correta antes da tremulada, etc.” e deixaram-se guiar pelo que eles realmente intentavam revelar. A maior “transformação” foi decididamente a opção pelo som mais “pesado” e “obscuro”, tornando o disco uma seqüência de canções agonizantes que tem como tema principal predominantemente a morte. Muitos talvez pensem que optar de forma tão rígida em um tópico reduzisse o aproveitamento de assuntos tão pertinentes quanto, mas o Pianos ao se debruçar sobre a morte e revela nitidamente como todas nossas outras ações parecem girar exclusivamente em torno dela. O que normalmente é realizado quando bandas não sabem mais o que fazer- ou seja, optar por uma estética mais “pesada”- foi um acerto claro para o conjunto e sua capacidade de empacotar em menos de quarenta minutos, com uma abordagem curiosamente delicada (não caindo no melodramático) ainda assim sofrida. São sentimentos resultados diretamente do caos e da paixão, naquele ponto em que as explicações não são palpáveis, mas há uma larva interna que precisa ser exposta por esses registros.

Acho que devemos reservar um espaço para I’ll Get By, a última e melhor faixa do disco. Com os tons da guitarra decididamente mais baixos, o vocal de Durfey soa fraco, exposto e frágil. Enquanto o clímax da canção se desenvolve, esse sofrimento parece inabalável e continua- mesmo nos berros, parece que não há saída para essa debilidade- nas sensíveis alternâncias entre vocais gritados e limpos na mesma frase! (aliás, aceito sugestões de bandas que também fazem isso). Pode-se afirmar que o disco todo é escrito tão visceralmente quanto Filial, música que inaugura Old Pride, onde caos e beleza se encontram e são apresentados nos mesmos momentos. As abordagens continuam excelentes, sempre com uma propensão à tristeza e dor, sentimentos que a banda parece conhecer tão bem ao criar dois discos que basicamente retratam isso (Old Pride é um pouco mais “feliz”). O que caracteriza uma temática rígida da banda, mas que ganha “validade” ao evidenciar tamanha evolução entre os discos, deixando claramente a influência de outros grandes nomes do screamo para trás.

Em The Lack Long After, a banda destrói os “limites de gênero” que demarcavam Old Pride, para nos mostrar o quão impressionante esses manos são. Em última instância, temos uma experiência limítrofe e sentimentalmente desgastante, uma viagem de encontro à certeza do fim e da solidez da dor.

III

Ok. Não temos mais os gritos. As viradas incríveis na bateria. Nem mais aquele som abrasivo, construído sob uma potente tensão efêmera à base de crescendo. Ao invés disso, uma pequena, tranqüila e solitária chama melancólica que insiste em se fazer presente mesmo no terreno frio.  Um som minimalista que estimula uma atmosfera de aceitação, apesar da intrínseca tristeza revestida. O panorama dessa nova fórmula do Pianos não é mais de caos. Mas, sim, do que ficou registrado em nossos corpos e nossas mentes depois de períodos devastadores (e pelo dois discos anteriores, realmente devastadores). Aquela profusão sonora que teve seu ápice em The Lack Long After (especialmente na última faixa) é colocada toda de lado para uma abordagem totalmente intimista, próxima. Percebe-se que a banda já achou esgotada a interpelação anterior- o assunto não é mais trauma pós-morte, as guitarras não precisam competir com os berros do vocalista- e decidiu não falar sobre o aniquilamento, mas o que fazer a partir da morte de alguém próximo. Por isso as ondulações aquáticas brilhantes.
Os instrumentos vão, aos poucos, deixando rastros. Claramente, cada parte foi muito pensada antes de ser injetada na produção. Há momentos que esses “resquícios” (as músicas não são construídas especificamente em cima de acordes) se juntam para incorporar uma única entidade sonora que eu chego a pensar, “uou, é isso!”. Infelizmente, eles perdem a mão um pouco em algumas canções que são simplesmente monótonas, onde a bateria, por exemplo, poderia estar em algum disco do Capital Inicial ou Jota Quest que acharíamos a mesma coisa.

Com certeza, a maior mudança na estética sonora foi o vocal de Kyle. Agora mais do que a convicção da tristeza inerente à sua condição, temos registros cheios de dúvidas e indagações, frases que se contradizem. O problema é que, embora em canções como a que abre o disco, às vezes essa oralidade fica muito monótona, e algumas músicas simplesmente “passam” despercebidas. A sonoridade do Pianos se modificou não só nesses berros, mas em todas as outras dimensões instrumentais. Não podemos exigir que um conjunto não passe transformações e, considerando que eles tinham uma base de fãs relativamente sólida, é sim um mérito alterar radicalmente sua proposta sonora. Curioso o “símbolo” que estabelecemos para algumas bandas e, ao mesmo tempo em que exigimos para muitas delas se arriscarem, elas tem que ficar reféns de nossas próprias expectativas. Caso contrário, eles fariam algo como The Lack Long After sempre e pensaríamos “nossa, que foda”.Mas, e aí?

Mais uma vez, a faixa que encerra o disco é o grande destaque. “Say Nothing” representa tudo o que o álbum tem de melhor, delicadas frases de guitarra movimentando-se junto com vagarosas baterias, eclodindo com o vocal triste e angustioso de Kyle. Poderíamos afirmar que é praticamente “outra banda”, mas se pegarmos os aspectos erguidos por “Keep You” temos a mesma fissura e as mesmas incertezas. A diferença, agora, é que pelo menos há uma brecha em toda essa neblina.

Com certeza é um disco que não surgiu visceral como todos imaginavam. Ainda assim, o Pianos consegue nos intrigar com uma atmosfera redentora imanando aceitação (isso não tinha nos álbuns anteriores) e deixar um marco totalmente diferenciado em sua recente discografia. Em última instância, é uma banda que deixa para trás suas companheiras e se lança um futuro totalmente imprevisível. O perigo, claramente, é ressoar como as canções mais “sem graça” de Keep You. O perigo também vem de nunca mais ser tão feroz quanto antes, mas claramente é um conjunto que não se importa tanto em simplesmente agradar os fãs.

sábado, 22 de novembro de 2014

O horror em Concreto Morto - Viver-só [2014]

“Você acha que eu conto os dias? Há apenas um dia restante, sempre começando de novo: ele é dado para nós na madrugada e levado para longe de nós ao anoitecer.”
― Jean-Paul Sartre

Não há dúvidas de que a realidade é confusa e obscura. Às vezes, parece que há apenas uma reinante anarquia de acontecimentos sem sentido, impulsionados por forças tão abstratas quando um suposto “si - mesmo”. A construção sonora de Viver-só causa deslocamento perante essas disparidades tão obtusas e cruéis. O absurdo apaga o ser, fica a sensação de estar suspenso. Esse tipo de arte, para alguns, pode ser vista como um reconhecimento de ecos (muito gritados!) nessa espécie de limbo. Desde Mersault, a primeira música, a banda apresenta o ambiente conturbado que deseja sinalizar. Ficamos saturados em velocidade, agressão. Nós (os ouvintes) também temos que nos dedicar e tentar recolher as referências, reconhecer o terreno árido e (aparentemente) pouco convidativo.

Todos os sons que se entrecruzam num turbilhão que honra a tradição das melhores bandas de screamo (Orchid, Pg. 99, etc) se integram nessa totalidade disforme. Mas também acusam e apontam contra essa loucura! É como se o álbum, ao mesmo tempo em que representasse o transe psicótico da humanidade, dinamitasse (ou ao menos tentasse) as armadilhas da existência. Não é muito difícil, se você já caminhou pela rua numa dessas noites querendo sumir, reconhecer-se nos sentimentos de “auto-exílio” que as letras expõem. Sentimos o absurdo. Estamos inseridos nele! A realidade enlouquece. Não compreendemos muito bem o que sentimos, mas essas sensações primárias têm que, de algum modo, ficar registradas. Pelo menos eu trago tudo isso quando ouço Concreto Morto.


A concentração da desmotivação do Concreto Morto também mira em alvos e falácias capitalistas, como a ocupação urbana, por exemplo. Enquanto as músicas do disco são muitas vezes locomovidas pela mera sensação de “não pertencimento”, as revoltas sociais talvez indiquem um ponto de encontro com outros não pertencentes, mesmo que seja na sarjeta. A banda fala sobre os excluídos, claramente. Apagados do sistema pelos fatos confusos e ordens reinantes, Viver-só irrompe como um grito contra toda a opressão da besta que é a Vida, assim como seu sistema e meios de produção que desintegram qualquer esboço de humanidade. Mais do que “análises” políticas ou psicológicas, os gritos surgem como experimentados, dilacerados pelas instituições, em uma crise de ordem pessoal/social que parece não ter fim, conforme o tempo vai avançando. Fica a dúvida: existe alguma brecha para uma integração real entre pessoas reais? A diversidade de elementos dentro de um subgênero específico, as mudanças abruptas de tempo, em conjunto com uma bateria que não nos deixa respirar- são elementos que se revoltam e buscam por uma integração inaugural. A sinfonia do desolamento moderno. Um relato explícito das desigualdades, dirigido especificamente aos indivíduos “párias” da humanidade.

Viver-só é construído sob esses complexos. Porque a sensação de “estrangeiro” persiste onde nós percorremos, nos trabalhos idiotas que suportamos, aturando as conversas fiadas, quase como autômatos- nós personificamos Mersault, fazemos jus a criação de Camus e seu absurdo. A guitarra irrompe dilacerante, conduzindo uma avalanche de despejos, depois há uma recaída para pequenos momentos de pausa, curtíssimos interlúdios para o ressurgimento da pancadaria. A concentração da raiva se justifica nas letras, numa troca implorativa, que atenua sensações como aprisionamento, tormentas, destruição, desmoronamento e queda- como a torre na página 7 (do excelente trabalho de arte que acompanha o disco). Resultando no surgimento de impressões perceptivas pela lógica concreta- uma espécie de “leitura” de signos que antecipam um desastre imensurável conhecido como humano- que se ergue contra o estabelecido. Estamos ouvindo nossa ausência, nossa errância. Uma ruptura no enredo tecido de nossas seguranças. Alguém que sempre residiu ali, com um medo monstruoso de se manifestar. Por que o contexto que vivemos não tinha evidenciado ainda essa criatura? O álbum incita nossas partes quebradas e transtornadas a se expor.

Em Viver-só, ouço essas partes ocultas. Aqueles componentes de nós que ainda não é integrada ao todo arredio- por isso, mesmo com as claras referências à literatura e academicistas, o vocal irrompe em algum momento, “jogue fora seus livros!”. É por uma transformação de consciência, também- a vida cruel está aguardando lá fora e em algum momento vamos ter que sair para o embate. As citações podem sim nos estimular muito, mas nossas ações concretas que vão realmente dizer algo.

Fica a sensação de tempo suspenso, em contraponto à velocidade incessante das músicas. Por mais “estrangeira” que a banda afirma ser, há ecos e ressonância. Não há mais hora para comodismo. Não me refiro a um egoísmo apenas panfletário e ideológico, mas a certo modo de viver e encarar as situações cotidianas. Há uma espécie invisível de “mística urbana” (com as convicções instituídas) que nos oprime, como O Processo de Kafka.

Viver-só é um registro contra esse ciclo infinito. A expressão da desmotivação e descrença nos modelos de sistema vigente. A cada momento, nossa liberdade parece ser mais cerceada, sendo renegados a meros seres obedientes. Vivendo sob desígnios improváveis- deus, trabalho, livre mercado- a face humana fica coberta e impossível de ser revelada. Um jogo de sofrimento cínico e bastante cruel. Viver-só revela o futuro sombrio que nos aguarda, mas vamos simplesmente desistir? Mesmo com as centenas de coisas à nossa volta que tiram nossa vontade, se ficarmos estancados e indiferentes, aí sim, realmente, nada vai acontecer e a vida vai ser um período de espera eterno. Viver-só me desperta todas essas sensações, e é sem dúvida um levante contra a passividade. A realidade não se apresenta compatível com a vida que desejamos. Queremos “viver, e não só existir”. Por isso é importante o “dizer” do exílio. De quem não consegue “revelar” sua verdadeira forma para os outros, carregando a pressão de ser esmagado pela falta de “identidade”. Parece que tomaram nossa intimidade mais profunda. Por isso o tempo passado e futuro se bifurcam e tudo é confuso demais. O horror de não pertencer.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O fim do mundo do Gospel - The Moon Is a Dead World [2005]

"Cada pessoa estranha no mundo está no meu comprimento de onda."
- Thomas Pynchon

Não é nada incomum bandas de hardcore usarem (e muito bem! Como no caso do Touché Amoré, por exemplo) a bateria como instrumento que lidera e conduz o ritmo dos outros aparelhos. Porém, eu nunca tinha ouvido uma bateria tão brilhante e impecável como a gravada em The Moon Is a Dead World. Tamanho “radicalismo” entre tempos extremamente diferentes exige tanto técnica quanto criatividade. O conhecimento aplicado de diversos andamentos para intercalar uma música essencialmente “torta”. E esses momentos com diferentes perspectivas têm seu brilho próprio, a ponto de cada seção ser extremamente importante não para sua sucessora, mas sim para o momento que ela representa. A determinação não é prévia, a construção baseia-se na efemeridade de cada compasso, onde a execução suga a atenção específica de cada minuto.

Estamos em um apocalipse abstrato. Onde berros encontram solilóquios, declamações e diálogos parecem ser colhidos do mar composto de todas nossas pequenas lamúrias. Um mundo de hostilidade suja para nos debruçarmos. Nesse ambiente totalmente aberto construído pelo Gospel, as inquietações são tão divergentes entre si quanto à tonalidade da guitarra, suas distorções sujas. Esta que parece ter horror a monotonia, tanto que muda suas cadências a todo instante, aposta na microfonia porque está perplexa com a uniformidade das coisas. Essa não é uma banda que sabe lidar com clichês, decididamente. O ouvinte não está de todo errado se tomar como um ataque à sua pessoa. É ofensivo em essência, não precisa do amuleto de palavrões, é um contra-ataque ao pop de massa que nos enche após cada capítulo de The Voice. É certamente uma experiência única, um deserto que parece impossível de atravessar. O objetivo então é alcançado, uma música que nasce do instinto (somado obviamente com a técnica adquirida), largando mão de praticamente todas as convenções estéticas.


Acredito que todo aspirante a baterista deveria ouvir isso. São consecutivas “quebras de expectativa”, que compõe um cenário completamente instável e caótico. Mas há uma diferença da bateria de Sean para as que são “apenas” virtuosas. Seu estilo fragmentado imputa um valor todo próprio às marcações de tempo já desfiguradas do Gospel. Concentre-se em suas viradas e como elas “preenchem” o panorama sonoro, sem descanso nenhum. É revelada aqui a expressão genuína de emoções através de um instrumento, e não apenas mero acompanhamento para as supostas sensibilidades das letras. Em certo ponto, pensamos, “nossa, mas até onde esse rapaz vai e como ele tem tanto fôlego?”. Pelo andamento do disco, seus pratos sempre soam descentrados, puxando uma música que já nasce extrema aos limites quase do impossível. A cada música duvidamos se ele vai superar seu desempenho na anterior e o nível não cai nunca. São múltiplas batidas que evocam percepções sonoras que talvez nós não soubéssemos possuir.

Mesmo na hora de construir seu “épico apocalipse”, o Gospel evita caminhos já trilhados e busca uma autenticidade. Que diga os vocais, ao contrário de quase todas as bandas de screamo, não soam “nervosos” ou “tristes”. Mas simplesmente insanos, onde a cada minuto acompanha os ruídos atraentes e repulsivos (ao mesmo tempo!) de uma guitarra que deseja apenas queimar. Mesmo usando elementos muitos distintos de bandas como A Silver Mt. Zion fica aquela impressão do céu enegrecendo enquanto as sombras vão tirando toda cor e vida do solo. Uma tempestade em que as rajadas são imprevisíveis, surgindo dos pontos mais excêntricos, ainda assim extremamente criativo e sofisticado à sua maneira. Não temos uma revolta panfletária, ou uma denúncia do tecnicismo. É a pura demência representada no envolvimento de três cabeças loucas o suficiente para querer levar adiante tamanha catarse em forma de música.

Embora os clássicos elementos de screamo e post-hardccore que eu avisei; este álbum simplesmente deveria ser ouvido por qualquer um interessado em música desafiadora. Com certeza fica no hall dos discos mais singulares da história disso que se convencionou chamar hardcore. Mas que em nenhum momento se limita, baseando toda sua força no talento extremo dos músicos. Onde a diversidade não soa esquisita ou forçada, mas como mais um elemento para puxar os limites da criação. Integrando a estética violenta e emotiva com passagens totalmente experimentais com ritmos dissonantes. A radicalização de um gênero, a ampliação da certeza do fim.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A ambição do Touché Amoré

"Oh Cristo, o esgotamento de não saber nada. É tão cansativo e difícil para os nervos. Isso realmente te esgota, não saber de nada. Lhe dão a comédia e você perde todas as piadas. Cada hora você fica mais fraco. Às vezes, quando me sento sozinho no meu apartamento em Londres e olho para a janela, eu descubro como lúgubre é, como é pesado, assistir a chuva e não saber por que ela cai. "
 - Martin Amis, Grana.

I

Não gosto muito de ficar “embaralhando” e citando gêneros apenas para mostrar que sei um pouquinho disso ou daquilo, mas no caso do Touché não tem como falar outra coisa. O primeiro lançamento cheio do conjunto se baseia no screamo dos anos 90, elementos de “transição” utilizados no que se convencionou chamar de hardcore moderno (as mudanças de tempo, as dedilhadas, os “punch” do post-rock) e muita melodia de bandas como Dag Nasty. Tudo isso tira a banda de qualquer “nicho” para abraçar as mais diversas correntes de consumidores de música por aí- tanto que configura desde sites mais “enraizados” como o dyingscene aos mais “hypes” tipo Pitchfork ou o canal de resenhas do Athony Fantano.

A voz de Jeremy, apesar dos berros, é compreensível e exalam um eu - lírico que está coberto em agonia e angústia. Como ele diria quatro anos depois, no Is Survived By, está totalmente exposto para todos observarem. Essa é a ponta para a conexão com o ouvinte que esse tipo de música tem talvez como mérito maior. O encontro ocorre no compartilhamento de fracassos ou na percepção da tristeza. Somos saturados com sons elípticos e andamentos que se desencontram, aprofundando a sensação de aflição, ao mesmo tempo em que há uma luta constante para sair dessa merda. O ouvinte fornece seu tempo e a banda nos entrega com muita honestidade suas percepções de mundo. Funciona.


A banda coloca muita emoção em apenas vinte minutos. E nesse pacote temos guitarras mudando tons, uma bateria incrível que é violenta e precisa. Nos momentos em que toda atenção teoricamente deveria se voltar aos gritos, a percussão surge precisa e as guitarras ficam num pano de fundo repetitivo como um ciclo muito difícil de se libertar. Em uma experiência de menos de meia-hora, é muito custoso encontrar bandas que conseguem empacotar tamanha entrega e surpreendente variabilidades em um gênero cuja estética sempre se destacou pelo simplismo. O objetivo do álbum é cumprido porque eles conseguem nos enfeitiçar nessa atmosfera de lamúrias e desilusões. Os diferentes andamentos rítmicos das músicas se encontram nesse ponto em comum e conseguem algo relativamente árduo: em tão pouca duração, apresentar propostas diversas que se encaixam nessa dinâmica de “angústia”. A percepção de velocidade e efemeridade se ajusta em nossa relação com o disco cada vez que ouvimos, e seu ciclo de isolamento está completo porque logo menos estaremos cantando as mesmas frustrações.
...To the Beat of a Dead Horse [2009]
I'm losing friends.
I've got a love/hate/love with the city i'm in.
I'll count the hours, having just one wish.
If i'm doing fine, there's no point to this.

Embora possa soar muito “simples” em alguns pontos,  ...To the Beat of a Dead Horse nos captura em quase todos os momentos. Uma sensação de agonia amarrada com desabafos que precisam ser expostos. Nesse sentido, talvez, não nos sentiremos melhores- mas teremos uma companhia para as longas horas em que a insônia se faz presente.

II

Se antes, “sobrava” agonia, em Parting The Sea Between Brightness And Me temos muita energia. Não há elementos novos aqui, segue mais ou menos o que os contemporâneos como Pianos Become the Teeth ou Dangers fazem, isso é: linhas que são relativamente parecidas com a progressão de metal e uma influência interessante do emo dos anos 90. Nada mal. Mais do que isso, são bandas, ao lado do La Dispute, Defeater e até do próprio Title Fight (que está muito longe dessa estética screamo), que buscam dentro dos recursos disponibilizados no “faça você mesmo” abraçar um conceito e não apenas “lançar” músicas. Mérito artístico.

Mais uma vez, a condensação talvez seja o que mais agrada no conjunto. Muitas bandas demoram demais para construir os climas e algumas partes soam chatas e repetitivas. Bem, não é o caso desses meninos, que, por exemplo, nas três primeiras músicas conseguem nos colocar no clímax pancada após pancada, variando entre o minimalismo ao épico em questão de muito pouco tempo. Assim, temos uma proposta que articula suas variações sem se perder em nenhum momento.

O que traz um problema, obviamente. Tanta dinâmica e compreensão ficam legais nas primeiras ouvidas, mas depois a homogeneidade aparente da audição primária perde-se em algo que aposto que eles queriam evitar, a repetição. Esse processo talvez perca o sentido quando a banda intenta só, e somente só, isso. Ao ponto que depois dessas três primeiras canções (e não me levem a mal, elas talvez contem pelo disco todo) percebemos que na quarta temos praticamente a mesma fórmula, e assim por diante. Num certo sentido, é um jogo perigoso o desses rapazes, afinal, se é um conjunto que aposta praticamente todas suas cartas na emoção que as músicas suscitam em nós, os sentimentos deles são tão reduzidos a ponto de sempre serem revelados em menos de três minutos?
Parting The Sea Between Brightness And Me [2011]
O Touché Amoré, em Parting The Sea Between Brightness And Me, provou que eles podem fazer um disco de hardcore bom pra caralho. E aqui todas as variações que o gênero permite: os berros, as dedilhadas, os vocais épicos.  Mas eles claramente têm vocação para fazer algo mais do que essa barreira que eles criaram. É como se a obra que vêm ambicionando ficasse presa no mesmo empecilho que no álbum anterior se destacou. Emoção conta sim, e muito, mas pedir criatividade nunca é demais.

III

Aparentemente o conjunto entendeu isso quando entraram no estúdio para a gravação de seu último disco cheio, Is Survived By. Pense em todos os limites que foram uma barreira em Parting The Sea Between Brightness And Me, eles foram colocados de lado para variações rítmicas polissômicas, em um instrumental complexo que acompanha as letras, estas adquirindo peso filosófico, onde questões sobre mortalidade e legacia pós-vida são aprofundadas. Não ficamos mais saturados com a compreensão de todos os elementos obviamente bons do hardcore, estes parecem mais flexíveis e bem distribuídos, sem atropelamento. A raiva e angústia continuam, mas a banda percebeu que há mais caminhos para explorar e não evitaram fazê-lo.


O equilíbrio entre os vocais do Jeremy e a parte instrumental está melhor do que nunca. Ao mesmo tempo em que ele se dedica com os vocais emocionantes já conhecidos anteriormente, há espaço para a melhor utilização das guitarras e o notável trabalho de bateria do Elliot, que alterna entre ritmos muito rápidos tão característicos do punk rock com seções meio tempo nos momentos mais imprevisíveis. Com as letras mantendo a qualidade e a sempre marcante entrega de Bolm nos vocais, essas novas variações instrumentais só acrescentaram, moldando para além da fórmula que foi tão agradável no primeiro disco e nem tanto no segundo. Essa espécie de “reajuste” tira o Touché Amoré duma limbo que eu temia que eles caíssem: a de bandas que são realmente boas, mas totalmente previsíveis. Fica muito difícil arriscar como vai ser o próximo disco da banda depois de Is Survived By. É algo muito mais ambicioso do que eles fizeram anteriormente, e que sempre que ouço me traz uma comparação com To Bring Our Own End, do qual certamente a banda foi influenciada.
Is Survived By [2013]
E todo esse “espaço” que a banda permitiu para variações instrumentais, indo rapidamente entre acordes diretos para uma seção jam, não tira de maneira nenhuma a honestidade que sentíamos anteriormente. A paixão doentia continua lá, só melhor distribuída e sem querer ser evidenciada a todo instante. Num certo sentido, embora as músicas, como afirmei, tenham mais horizontes onde são desenvolvidas, depois da audição, sentimos que percorremos uma espécie de atmosfera construída por todas essas divergências. Estranho que um álbum decididamente mais variado nos ofereça uma impressão de “conceito”, maior do que nos lançamentos anteriores. É como se todas essas múltiplas faces que o Touché decidiu exibir integrassem as dúvidas profundas que são erguidas durante o disco. Não há a saturação como em Parting The Sea Between Brightness And Me, pelo contrário, ouvir Is Survived By repetidas vezes vai oferecer pontos anteriormente não encontrados.

Is Survived By é construído por uma banda que parece estar completamente confortável com sua sonoridade, um Jeremy menos “contraído” do que no disco anterior (ainda que relativamente monótono). Talvez os fãs do primeiro trabalho estranhem o som muito mais polido, mas aqui isto não parece mero esmero como em Parting The Sea Between Brightness And Me, pois esse álbum justifica essa superprodução em seus micros detalhes, as passagens que se completam. É engraçado como uma banda consegue se renovar sem ir muito além do que fez anteriormente, apenas contando com idéias diferentes e mais vontade do que apenas “empacotar” músicas extremamente emotivas em menos de três minutos. Em algum ponto, Jeremy diz “há sempre uma chance de recair e voltar a ser a pessoa que eu ainda temo estar ali”. Como artistas, o Touché Amoré deu um passo a frente e fez essa queda parecer muito improvável.

This is survived by a love. This is survived by a cause; that you aren’t the only who remembers what it was. This is survived by a love. This is survived by a wish; that you won’t let down who has attached themselves to it.”

quinta-feira, 3 de abril de 2014

La Dispute- Rooms of the House [2014]

Era uma casa nada engraçada.

Nas pequenas cidades, os habitantes que ali residem tem que combater diariamente a carga da honra. A perseguição ocorre desde os tempos de criança, e se você, por alguma acaso, fez algo errado mesmo nos primeiros momentos de consciência como pessoa, isso irá te perseguir. Apesar de você ter mudado, apesar de você ter melhorado, parece que a poça é muito pequena para qualquer quantidade de água não transbordar. Dentre todas essas coisas da vida, provar quem você é, e porque merece ser tratado bem, exige enorme esforço. O habitante nas letras do La Dispute é essa típica pessoa, oriunda de uma pequena cidade e que ter que lidar continuamente com o problema de reputação. O que ficou claro em Somewhere at the Bottom of the River..., onde esse típico não estereotipado e demasiado real sobressaia-se na lírica e nos vocais explosivos. Já em Rooms of The House, embora a “população” ainda seja possivelmente da mesma vizinhança, há uma variação temática muito maior para o vocalista Jordan Dreye se debruçar.

A banda ficou muito mais interessante quando parou de fazer poemas demasiado românticos (o que talvez explique a baixa popularidade das letras atuais entre a galera teen). Sonoramente, Rooms of the House é uma melhora continua do que foi o Wildlife. O foco aqui são os pequenos momentos e como eles ficam documentados no narrador lírico. A banda parece afirmar que a história é uma sucessão de equívocos eternizados em nosso consciente. Se Somewhere..., continha àqueles momentos épicos, talvez até demais, Dreyer aprendeu a centralizar também em situações aparentemente mais tranquilas. Como pinturas cotidianas, reflete a construção diária fora do apenas melodramático que ele desenvolvia tão bem. Ser instrumentista no La Dispute não deve ser fácil, as letras exigem demais e sua entonação completamente não musical não alivia em nada. Mas eles não sucumbem e criam beleza a partir da progressão dos acordes entre versos calmos e partes pesadas. O vocal de Dreyer, em alguns momentos, exerce o que poderíamos chamar de cantar, é exatamente aí que a banda foca em um tema completamente cativante. Em alguns momentos, em algumas canções, Dreyer teria certamente berrado até seus pulmões, aqui não, ele opta pelo mais difícil, o que talvez cause algum estranhamento para fãs dos discos anteriores.

Em um ano que bandas emo tem optado por falar sobre “coisas pequenas” e assuntos familiares- vale lembrar o último disco do Hotelier- Dreyer demonstra que ele ainda lidera quando o assunto é a capacidade de relatar dramas domésticos. Sinceramente não entendo o problema do pessoal falando que suas canções são sempre, em última análise, austeras, defender tanto a perspectiva de como a arte deve ser exprimida e optar incessantemente por uma abordagem, sem deixar o nível cair nunca, é um baita mérito. A experiência de anos em temáticas que se aproximam (não que se repitam) deixa clara a evolução do La Dispute, álbum pós-álbum. O problema é que já existe um ferrete cravado na pele da banda, o de ter que fechar a janela e deixar tudo escuro pois haverá chumbo grosso. Essa reputação pode afastar muitos ouvintes, mas com certeza alavanca a banda que nunca olha para trás, em nome de um comprometimento com a arte sem muitas comparações por aí.

PS: Nem preciso falar que pra mim é o disco do ano, até agora.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Queimando pontes com American Memories

Não se engane com a foto acima, embora represente realmente o espírito "faça você mesmo", trazendo nas costas a ética provavelmente mais importante do punk rock, o American Memories não canta sobre bebedeiras fodidas ou atritos na rua (pelo menos não por enquanto).

O vazio e sua tristeza proveniente é o que embala as temáticas da banda. Letras depressivas  sobre lares despedaçados, estar sozinho, dão o tom. Esse lado muito pouco glamouroso da vida, que nos faz ficar à espreita e torcer por um futuro hipotético menos dolorido.

AS influências ficam evidentes desde as primeiras notas de Free Big D, do EP deles lançado ano passado (disponível para download gratuito no bandcamp abaixo). As famosas dedilhadas na guitarra, tão recorrentes no que se convencionou chamar de midwest emo, contrastam com um vocal que, embora melódico, é gritado a plenas gargantas.

No fim, a sensação é de que o American Memories lida com fantasmas. Memórias como fantasmas, fantasmas da tradição imputada de uma juventude dolorosa. Mas nem tudo está perdido, afinal, como na entrevista abaixo, há uísque e Breaking Bad.

Para acessar o bandcamp da banda, clique aqui: American Memories
Para acessar o facebook oficial da banda, clique aqui: American Memoires Facebook

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Vocês estudam ou algo do tipo? E isso tem algum impacto na sua música?

Rich: Bem, nós não realmente estudamos; ambos não vamos à faculdade e acho que você poderia dizer que ambos estudamos cinema que é outra área em que estamos interessados. Para mim, estudar filme impacta na minha música, mais no passado do que no presente. Eu costumava escrever muitas canções baseadas em emoções de filmes ou emoções que eu sentia quando os atravessava, mas hoje em dia eu meio que escrevo as canções baseadas no que experimentei ou como eu reagiria em situações hipotéticas.

Trey: Não, eu não estudo, se eu tivesse que dizer algo seria as pessoas, eu estudo as reações das pessoas em certas situações onde coisas acontecem. Eu sempre tive um pouco de interesse em psicologia, não um grande interesse, só me fascina ver como as pessoas agem e pensam. Eu também estudo outros músicos em outros shows, eu acho que assisto intensamente. Enquanto as pessoas estão correndo por aí e moshando e se divertindo, eu fico no canto observando os músicos e tentando descobrir como eles fazem certas coisas, e quais equipamentos eles usam.

O que vocês fazem para sobreviver na sua cidade?

Rich: Eu trabalho no cinema local e às vezes filmo vídeos pequenos para negócios ou casamentos.

Trey: Eu trabalho em uma loja de comida saudável numa cidade próxima, e também faço alguns trabalhos de fotografias/vídeos paralelamente.

Eu sou do Brasil e encontrei sua música na internet. É claro, isso seria impossível se estivéssemos na Era pré internet. Quais são as coisas boas do Bandcamp e todo o negócio de download? Que bandas vocês encontram recentemente por causa disso?

Rich: Eu acho o bandcamp e todo o negócio de downloads de graça na internet fantásticos, isso realmente ajuda e bandas novatas ficam mais fáceis de serem encontradas. Especialmente o bandcamp cujo qual sou um grande apoiador por causa de suas tags, eu sempre estou encontrando bandas lá que depois me apaixono, eu meio que tenho uma rotina semanal de pesquisar as tags:  screamo, emo e post-rock. Recentemente encontrei Sadie Hawkins, Running Shoes, e Flowers Taped to Pens (com quem nós vamos gravar um split muito em breve).

Trey: Eu amo demais o bandcamp, e eu amo música grátis. Metade do meu ipod está cheio de música que baixei do bandcamp, o Jovem Rich disse praticamente tudo que eu teria dito. Algumas bandas que encontrei recentemente são Pet symmetry, Greyscale, Marseille, Troubled Minds.

O EP de vocês do ano passado é tão poderoso e frenético. A produção crua, grandes letras pessoais e gritos poderosos com certeza marcam o ouvinte. Como foi o processo de gravação?

Rich: Primeiramente, obrigado pelas palavras elogiosas, eu acho que vou começar do inicio. Um longo tempo atrás Trey e eu iniciamos uma banda chamada South End Projects. Nós estávamos com muito tédio então escrevíamos e gravávamos em loco. Então ele se mudou para Seatle e eu permaneci na California, mas nós sempre planejamos começar uma banda quando ele voltasse, então quando ele voltou nós iniciamos o American Memories e eventualmente nosso amigo Mark se juntou para tocar baixo e fazer alguns vocais e foi mais ou menos assim que começamos. Para mim, que toco guitarra e escrevo as letras, criar as composições foi difícil, quero dizer, as letras são todas secretas em alguns pontos, mas no final elas revelam como eu me sentia no momento, eu penso nas canções desse EP quase como um jornal de 2012 para mim, muitas vezes escrevi músicas no trabalho quando atravessava o ponto mais baixo da minha vida, outras vezes escrevi pensando muito introspectivamente na minha vida e as coisas que eu relembrava e como me sentia em relação à elas. Empty Houses e Bridges são as maiores para mim pessoalmente. As letras saíram muito mais pessoais no álbum do que eu desejaria escrever.

Trey: Basicamente o Rich escreve todas as letras, eu sou um saco para escrever letras, quando escrevo algo normalmente acabo jogando fora. Então eu me foco mais no instrumental e na bateria. O EP que lançamos ano passado foi uma experiência incrível, trabalhar com Rich e gravar é tipo a coisa mais divertida de todas. Eu amo gravar. Eu gravei todo nosso EP e também todo o pequeno EP Past Mistakes. Eu tenho gravado e trabalhado com engenharia de som desde os 16 anos, eu trabalhava em um estúdio em Seattle chamado Mirror sound Studios, Washignton, foi onde eu aprendi principalmente como gravar. Tudo que gravávamos normalmente fica na primeira tomada, raramente voltamos atrás e consertamos. Nós queremos que seja tão cru e real quanto possível. Nós queremos fazer soar quase tão perto quanto soa quando estamos ao vivo. Nós podemos escorregar aqui ou ali, mas é isso mesmo. Eu tenho um grando problema inconsciente com bandas que são polidas nos álbuns, e quando tocam não soam nada como nas gravações.

Vocês se apresentam com alguma frequência? Nesse exato momento, qual o melhor lugar dos EUA para se estar com uma banda independente?

Rich: Eu queria me apresentar mais, tristemente as bandas na nossa área fazem parte da cena que copiam o Killers, country, ou metalcore, então é muito difícil fazer apresentações. Há algumas cidades de distância há uma cena punk mais movimentada então nós estamos tentando entrar em contato com ela. Mas eu acho que para uma banda com nosso estilo, a Filadélfia é o local para estar, isso ou o Reino Unido. Muito talento e bandas fantásticas que eu amo são dessas áreas e parecem que estão indo muito bem e que há uma cena que aceitou e se adaptou a esse tipo de música.

Trey: Nós não nos apresentamos em merda nenhuma. Não por falta de tentativas, assim como o Rich disse, ou você tem uma merda de banda de reggae, banda de country, uma cópia do The killers.Nossa área, Costa Central, está tão morta, que só podemos tocar em bares, ou locais que te cobram pra tocar.Eu diria que Los Angeles é o melhor lugar para música, mas não é, ao menos que você seja o Bieber ou o estúpido skrillex. A maior parte das bandas que nós ouvimos e o estilo que tocamos se encontra na Costa Leste, e no Reino Unido está a nata da cena? É o que me falaram.

O que vocês têm ouvido ultimamente?

Rich: Bomb the Music Industry, The Whoopass GIrls, Flowers Taped to Pens, e Head .

Trey: Into it, Over it, Brave bird, This Town Needs guns, The World Is A Beautiful Place & I Am No Longer Afraid To Die, I Kill Giants.

Quais são suas maiores influências?
Rich: As minhas são Bruce Springsteen, Old Gray, Taking Back Sunday, Dads, Into It. Over It., e Dad Punchers.

Trey: Há muita coisa pra listar, mas eu diria que primeiramente meus pais e minha avó, eles sempre apoiaram que eu tocasse música. No tocante à bateria, John bradley do Dads, o baterista original do  "Norma jean" Daniel Davison e uma bagunça completa de bateristas, e musicalmente eu diria The Beatles, Bruce Springsteen, Daft punk, Snowing, johnny Cash, Norma Jean, At The Gates, Mewithoutyou, The Misfits.

Se vocês pudessem escolher qualquer música para fazer um cover (por aspectos afetivos), qual seria?

Rich: Provavelmente canções populares, eu costumava tocá-las muito e é muito divertido.

Trey: Eu diria que qualquer canção popular, ou hit das rádios dos anos 90, eu sou uma criança dos anos 90 então eu amo música de baixa qualidade dos anos 90. Talvez um cover punk de uma canção do Roy Orbison, ou cover de uma canção de um gangsta rapper batendo em alguém?

As letras como as de Bridges são muito tristes. A tristeza é a força matiz para criá-las?

Rich: Eu creio que sim, especialmente com Bridges. Eu acho que devo começar dizendo que as letras em todo EP (excluindo Free Big D porque Mark escreveu a letra) são todas sobre tentar seguir em frente com sua vida. Mas com Bridges especialmente. Eu acho que se pode dizer que a canção é mais ou menos o que eu sinto sobre o lugar que eu cresci, há muitos velhos amigos que eu me sinto alienado por não vê-los mais, e quando nos vemos é sempre muito embaraçoso por nós todos nos tornamos pessoas diferentes, metade isso e metade sobre como é difícil encontrar alguém no sentido romântico; especialmente as poucas mulheres por quem eu tive algum sentimento são realmente grandes amigas e nada, além disso, daria certo, então é essa a parte onde “morrer aqui, morrer sozinho aqui” se encaixa. A segunda canção pessoal baseada em tristeza completa é “Empty Houses”, porque essa canção diz muito sobre a relação com meus pais e como isso me afetou, e como seguir em frente com a minha vida quando todos já tinham feito isso.

Qual é a sua canção favorita da sua própria banda?

Rich: Merda, essa é difícil, eu realmente amo tocar nossas novas canções; especialmente “Our Past, My Life”, mas eu acho que minha favorita absoluta é “Empty Houses” que é a porra de uma explosão quando tocada e toda vez que a gente toca, as letras significam muito mais para mim. É realmente uma canção muito pessoal sobre meus amigos, meus pais e meu futuro.

Trey: “"Driving all night"”, porque Rich odeia tocar essa. “Empty Houses” também é foda.

Digam qualquer coisa, é a última questão. Façam piadas, salvem o mundo, etc. Realmente agradecido.

Rich: Lana Del Rey está com tudo, Breakin Bad está acabando em breve então isso é um saco, mas é incrível. Vinho e cerveja são bons, mas o rei de tudo é do Uisque. Ser triste não é apenas uma mania tumblr e apoiem sua cena local.

Trey: Emo é uma família, garotas são um saco, no entanto me arrumem uma namorada. Coma quanto queijo puder; bata nos atletas da escola; fiquem espertos para algum possível LP do American Memories, e também há um split que virá em breve com outras bandas. Também urinem nas calças, todas as crianças legais fazem isso.