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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

a escavação vertical de Gnawed | as reminiscências vivas do Shimmer Crush

Gnawed :: Pestilence Beholden (Malignant)
Se boa parte da música que se convencionou a chamar de industrial e suas inúmeras variações tem um pé forte na performance, o início de Pestilence Beholden é poderoso neste aspecto; é como se a estética fosse as próprias ruminações do inicio. Não é bem uma introdução, não há tempo para introduções nesses simulacros de estrutura. A estética distópica, conturbada, obscura- ainda assim sintetizadores saturados prolongados que escavam o espaço. Pestilence Beholden é uma escavação vertical enquanto tudo que é deixado para trás é engolido por uma matéria seca; incrementada em abatimentos, formações disformes, aparições repentinas.

Se a base é uma performance e se a performance nasce através da experiência e se a experiência do Gnawed é puxar sonoridades árduas para um terreno de diálogo com o ouvinte e a partir daí estruturar os meios que Pestilence se desenvolve. As texturas massivas, os berros industrializados, os cânticos como plano de fundo- não é bem uma questão de "em que mundo estamos" mas como estamos habitando este inferno e ainda assim tirando algo disso? A isolação gritante na obra de Gnawed ( preferia referir como "isolacionismo", pena essa palavra não existir) é uma topologia que vai além de uma solidão admoestada; ela é uma solidão obcecada pelo controle caótico em um terreno organizado por rupturas poderosas. As gravações de campo e os vocais cheios de efeito são o transe da mesma obsessão. É como se o Gnawed quisesse representar não uma ambiência obscura que o envolve, mas como seu próprio estar-no-mundo (o acontecer de Hannibal) espalha certa nebulosidade. As tendências mais eletrônicas na música industrial não são para modernizar qualquer estética- elas são a forma de Gnawed tentar esboçar um não sufocar completo.

Ainda assim permitindo-se momentos de sonho em um pesadelo intermitente. Ainda assim há uma respiração que germina em toda a claustrofobia provocada por Pestilence Beholden. É como se a perseguição não seguisse qualquer rastro teu mas ela fosse intrínseca a qualquer forma que você assuma no mundo. Não há ser no mundo por tanto. Apenas um disfarce. E Gnawed reconhece que nestes trânsitos entre  o que há de mais densamente violento em neuroses modernas que encontra algum ar para respirar. E ele se recusa aos ares limpos. Ele se recusa ao idealismo.

Shimmer Crush - These Four Walls

Idealismo que nem entra em voga no cenário de reminiscências vivas que é These Four Walls. O álbum estabelece partículas (um fluxo constante de alterações de densidades sonoras, estranhamente continuadas, estranhamente insistentes) que envolvem o ouvinte numa arquitetura horizontal de possibilidades paralelas. É como se o glitch artificioso de Shimmer Crush celebrasse um enigma ao invés de tentar resolver qualquer coisa. Por isso, apesar de todos os elementos grosseiros que envolvem These Four Walls, Shimmer constrói sua identidade através do que ela não consegue capturar. Os layers, as vozes descontínuas e fragmentadas surgem numa rica textura que dimensiona a nostalgia. Ao contrário de Pestilence Beholden, Shimmer estimula uma visualização mais idílica com arte. Sem, com isso, emprestar qualquer inocência pueril que possa ameaçar a densidade do seu trabalho. As percussões ora manuais ora eletrônicas em um downtempo cortado por milhares de atravessamentos, a distância que a mesma nota tocada várias vezes provoca- é tudo muito extenso em  These Four Walls, estranhamente disperso.

Escapes entorpecidos com drones fraturados, cortes bruscos novamente, sessões harmônicas descontinuas, cânticos em completo desacordo com o ritmo. Os ruídos são modulados de maneira criativa; eles estranham o espaço mas se redistribuem nele; eles aceitam. É curioso que tudo pareça brotar de uma pulsação modular que tem como estratégia a busca de algo indefinido (talvez por isso a indecisão estética nítida no começo da maioria das faixas).

These Four Walls sai de qualquer conceito reducionista para expressar uma busca afetiva-racional que pelo menos elucida o caráter da apreensão- ou  tentativa dela. 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Shio-Z – Contagious

Do resplandecente nascer do sol em uma costa tropical que, sedutoramente, se transforma em uma pista de dança dos anos 1980, Shio-Z mergulha nessa estética para colorir com neon e sintetizadores nosso novo 2016. O material de busca é incrível e é nesses andamentos, com tanto material que realmente vale a pena ouvir, que Shio-Z cria uma pista de dança nostálgica e imageticamente impressionante.


Essa grande ênfase no estilo retro com ênfase futurista (revisitando a ideia dos próprios anos 1980 do que seria o futuro) constrói sua própria espécie de imersão e é assim como se as luzes de neon dançassem em nossa frente em uma lenta caminhada, que seguimos com Contagious. A camada “etérea” percorre todo o disco e aos poucos amplia a tensão que, na primeira faixa, parecia inexistente. A audição vai se transformando num desfile de apropriações (signos, “estilos visuais”) e fica a sensação de que apesar do clima relaxante e extremamente dançante,  há algo à espreita. Apesar da curta duração, o EPé realmente contagiante com melodias memoráveis (em especial a robótica Harbinger Down) e desde seu início mais lento (a introdução do piano) ele consegue fisgar tanto fãs do que se convencionou chamar de “synthwave” às pessoas que gostam de manipulações eletrônicas que envolvem sintetizadores e o tão chamado clima “smooth” (suave). O clima que lentamente vai se impondo com os sintetizadores de música pop é muito fácil de cair, à medida que o interesse talvez não fique sempre atento porque as estruturas (tanto as das cinco faixas como a transição dentro de cada uma) não têm grandes variações. Mas esse não é obviamente o ponto de Shio-Z e ele nos entrega o que prometeu desde o início. O valor de Contagious não reside apenas no resgate de certa estética, porque o EP é certamente uma representação do quão essa estética vem sendo revisitada e modificada. Muitas vezes, cai na mera usurpação. Felizmente não é o que acontece aqui.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Steve Roach - Emotions Revealed

Um dos meus trabalhos favoritos de todos os tempos na música eletrônica é o Structures From Silence, disco no qual Steve Roach conseguia suspender toda sujeira sonora em áudios cristalinos em uma estética sensitivamente densa. Emotions Revealed se trata de duas peças compostas anteriormente à obra-prima de Reich e que felizmente puderam vir ao mundo no começo de 2016. Enquanto na primeira faixa podem-se sentir as influências de músicos notáveis e um Roach que ainda estava desenvolvendo uma personalidade, a relaxante segunda peça revela vislumbres da genialidade que o Structures From Silence viria a ser, com fortes influências dos primeiros lançamentos da Escola De Berlim.

Naquela época, os experimentos ainda estavam sendo feitos e muitos lançamentos seriam considerados anos depois como pioneiros em vários subgêneros da música eletrônica. Os próprios primeiros trabalhos de Roach se mostram um tanto quanto imaturos e genéricos, o que ele perderia já na elaboração de Emotions Revealed. Aqui temos um músico extremamente à vontade com suas ideias de repetição, em duas gigantes peças com uma textura onírica e sintetizadores que criam um espaço digno para exploração. Seria tolice afirmar que Roach foi um dos primeiros a trabalhar nessa linha, mas o talento revelado nesse disco não deixa dúvidas de que sua produção se divorciaria inevitavelmente de outras eletrônicas generalizadas.  Aliás, esse disco mostra meditações menos distorcidas do que os trabalhos posteriores de Roach e as orquestrações de cordas são o plano de fundo para a repetição de uma simples melodia que fica sempre em primeira instância e trabalha sentidos que conseguimos relacionar facilmente. Esse trabalho de associação imediata é importante porque na segunda parte do álbum Roach vai criar uma ambiente insistentemente mais obscuro e distorcido, se aproximando muito de algumas obras de Klaus Schulze.

A segunda peça se assemelha bastante a Structures From Silence; o tempo é devagar de forma gradativa, ou seja, cada momento soa mais lento que o próximo, assim como os detalhes vão ganhando mais relevância e a estética de Roach vai, aos poucos, se delineando- como um pequeno ato do cotidiano em ultra slow motion. A continuidade massiva de Firelight caracteriza uma instalação em que, aos poucos, pode-se mergulhar. Lentamente, as máscaras das influências de Roach vão se pulverizando para o movimento desgastado e repetidamente modificado exibir um artista com conceito próprio. Os sintetizadores criam uma estrutura etérea de eternos e lentos movimentos que se integram justamente pela instalação criada por Roach, sendo um exemplo das primeiras produções de música ambiente, executada por um jovem Steve que claramente ansiava não repetir suas influências.


Toda a transformação artística que Roach exibiu ao longo dos anos evidencia um artista ligado às novas formas de produção, mas que ainda assim, nunca completamente se submeteu a elas. Nesse tempo, suas abordagens tem-se mostrado cada vez mais grandiosas e que necessitam de muitas análises para realmente compreendermos os detalhes dos álbuns; isso tudo é compactuado dentro de Emotions Revealed que revela um Steve muito mais acessível do que nos anos decorrentes. Esse disconão é apenas “material para fãs”, mas é objetivamente uma revisitada a um dos artistas mais importantes em sua área de atuação e que indica os rumos diversificados que sua obra de vida registraria. Ainda assim, Emotions Revealed não é uma peça de museu, é uma obra que claramente pulsa por sua vontade.

terça-feira, 26 de maio de 2015

AVA ROCHA – AVA PATRYA YNDIA YRACEMA (2015)

Depois da dissolução da banda Ava, Ava Rocha lança seu primeiro disco em projeto solo. Pode-se ver esse novo disco como uma série de evocações. Já que está em lançamento próprio, a cantora parece mais disposta a experimentar por diversos terrenos. As certezas estéticas se esvaem em múltiplas sonoridades, como se estivéssemos em um espaço totalmente livre e pudéssemos nos dirigir para onde bem entendêssemos.

Talvez essas voltas que, à primeira ouvida, parecem despreocupadas demais, denunciem uma artista demasiada compromissada com os detalhes. AVA PATRYA YNDIA YRACEMA é cheio deles. Essa liberdade vai muito além de meras reverências, porque a música de Ava pulsa numa tentativa de escapar de uma espécie de prisão, da solidão. Ela quer a liberdade de andar pela rua e se deslumbrar pelas possibilidades da caminhada. Parte-se desse “pensar que é” para olhares mais aguçado ao redor, numa tentativa de desconhecimento de fórmula simples. Como em “Transeunte Coração”, o amor de Rocha se localiza no deslumbramento do desconhecido. Ela foge de domesticações que muitas vezes esse tipo de música (popular) impõe para respirar num lugar mais brando que ela mesma não cessa de construir. Com a frase “não sou em quem você procura” ela já deixa bem clara suas intenções. Ainda que esse coração pulse, ele não trás os vestígios da imposição contemporânea de uma suposta “necessidade” de ser amado. Ele quer bater livremente. Essa definição de “si” pode parecer provocação, mas só quem pensaria nisso seria uma pessoa muito presa em conceitos ultrapassados.

Não deixa de ser surpreendente; estruturas que a rigor pareciam mais “comuns” transmutarem-se completamente durante as músicas- aderindo microfonias, chiados, etc. Mas a vastidão que AVA PATRYA YNDIA YRACEMA certamente cobre é toda direcionada pela intimidade de Ava. Mesmo com todos os escapes sonoros (e acreditem, eles são muitos), a voz de Rocha perdura em ambos os planos – no campo onde o experimentalismo avança, e nas transições relativamente mais simples (se comparadas com os momentos mais “porra-louca” do disco). Ela habita todos esses lugares, e com muita coragem ousa desbravar esses terrenos. Era de se esperar, no entanto, que as duas seções não soassem tão próximas. É exatamente o que não ocorre. Em “Mar Ao Fundo” temos uma explosão sonora absurda sobre um clima mais “inofensivo” que a canção construiu. Não se trata de “elementos surpresas”, mas de uma exploração corajosa, sem meias verdades. Vemos a intensidade ao mesmo momento em que a brandura existe, porque ambas as sensações têm a mesma matiz. A arte de Rocha, no caso.

Claro, se ela que canta, essas sensações obviamente teriam o mesmo ponto de partida. Contudo, repito, embora existam vários momentos que a progressão sonora se “dispersa” em ecos, microfonias, cordas soltas, a transição para essas catarses representam também o caos que os momentos mais calmos exprimiam. Não à toa, o movimento de transe hipnótica em “Mar Ao Fundo” cai positivamente em um violão e um assobio. O que acontece em todo o disco; os movimentos de “repulsa” e “atração” se sobrepõem, nunca existem individualmente. Estão amarrados na voz de Ava. Ao fundo de todos esses rompimentos e retornos a certo tipo de sobriedade, a mesma inquietação em doze canções que rompem significantes simples para estabelecer uma nova voz poderosíssima. A banda de roque da garagem, o livre improviso, litorais com luau, confusão urbana- Ava traz a cacofonia confusa do mundo contemporâneo justamente para celebrar uma imensa incerteza. O ponto é; percebe-se essa intensidade também nos momentos calmos. Ela é onipresente.


Todo o transe em AVA PATRYA YNDIA YRACEMA evoca um gosto pelos limites da vida, em que se pensar nos sentimentos doces canaliza lembranças que se convergem para uma expressão tão abrangente do presente. Mas Ava fornece esse aspecto a partir da sua intimidade, que se mostra profunda. E se tal análise se expressa por uma voz tão contundente como a dela, que nunca se debruça sobre a monotonia, melhor ainda.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Gustavo Jobim - A New Life in a New Planet [2015]

É raro hoje em dia encontrar algum paralelo para o corpo sonoro poderoso que Gustavo vem construindo. Estranhamente pouco citado, eu sempre me pego surpreso com a capacidade de sua música me “deslocar”. São tentativas muito verdadeiras de moldar sons tão densos em uma estética que “narre” algo. De alguma maneira, A New Life in a New Planet me soa como um desbravamento- uma única longa canção de quarenta minutos que tenta localizar espaços menos óbvios, localidades ainda não pensadas.

É por isso que A New Life in a New Planet tem uma sonoridade fantástica. É impressionante como uma quantidade absurda de efeitos variados em um mesmo instante consegue estabilizar marcas. Tenho isso como cenas na minha cabeça; cenas de dificuldade enorme, pois poucas coisas são realmente agradáveis nesse álbum. Se em Inverno tínhamos um poderoso solo de guitarra para nos orientar durante a passagem em um terreno nada hospitaleiro, nesse disco tudo soa como extraterrestre. Sons alienígenas tão surpreendentes como improváveis que invadem sem aviso algum qualquer zona de conforto. É por isso que insisto; ouvir cada álbum de Jobim é se surpreender.

Em seu bandcamp, Gustavo informa que esse trabalho é diferente dos anteriores, pois tem mais camadas e efeitos digitais. Eu me pergunto como foi o processo de criação, me parece que A New Life in a New Planet objetiva uma chegada bem obscurecida, se não inexistente. Eu nunca precisei de temas para ouvir música. Acho que é por isso que credito tanto a esse álbum. Há algo na música de Jobim que “só” ele consegue fazer. Não me refiro a tecnicismos como “densidade sonora”, musicalidade ou produção. Quero dizer que há certa “ordem” que não consigo identificar propriamente que traz essa sensação de “transe” durante toda a audição. Cada variação invoca uma nova imagem, de modo que temos uma justaposição bem ruidosa de elementos que se encontram nesse clima realmente “estranho” que Gustavo imputa ao disco.

A discografia de Gustavo está cheia de discos “climáticos”, ou seja, álbuns que nos deslocam enquanto ouvintes. Suas múltiplas abordagens refletem um artista interessado em não se repetir, e embora nós encontrássemos aqui muitos elementos semelhantes ao Tsunami, por exemplo, estes soam completamente autênticos. Repito, Jobim é um músico interessado em terrenos que não foram totalmente explorados, por isso as consecutivas audições de sua obra nos revela desbravamentos incessantes de diversos ângulos. Alguma força reside oculta sobre a diversidade sonora de New Life in a New Planet, mas ela sempre está tangível, sempre a deriva- como uma paisagem que ainda não vemos, ou uma localidade escondida atrás das árvores na beira da estrada.


O maior trunfo desse álbum é também sua maior, digamos, “inconveniência”. É nitidamente um disco difícil, mas realmente divertido à medida que vamos avançado. Ele parece que fica menos “escandaloso”, mas aquela estranheza inicial permanece. Ora, tamanha monstruosidade não era provocada pelo volume do barulho e pela soma dos efeitos, mas principalmente pelos sons que estes emitiam- um contraste gritante com o que estamos acostumados a ouvir. Algo difícil de encontrar mesmo nos recônditos mais profundos, algo novo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

hateyourmusic - tenha bons sonhos [2015]

Gosto de falar sobre discos, aqui, “a partir” da percepção. Ou seja, como a música de tal artista realmente me atravessa e a experiência que esta me propicia. Acredito que isso seja mais honesto e não estou tão apto a falar de “gêneros” ou “tecnicismos”. Acredito que isso cega a conversa e o diálogo/rombo que a arte pode causar. Digo isso porque “tenha bons sonhos” perfurou minhas sensações desde a primeira audição.

“tenha bons sonhos” trata, principalmente, de problemas grandes. Problemas enquanto indagações numa escuridão profunda. Os signos que importavam tanto pra gente (o desmoronamento de uma casa) se dissolvem em desilusões presentes, onde apenas restam rememorações angustiantes do que se passou. São essas narrativas misteriosas e inconclusivas que ambientam o disco. Relações entre o que “está submerso” e a estética, onde expressar essas obscuridades se torna a complexidade do próprio discurso. Trata-se de colisão, as mesmas memórias que nos formaram são nossas fraquezas, e reparamos na nossa fragilidade, em afirmações tão simples ainda assim essenciais (“porque tudo é em vão”). É trazida a nós uma lamentação profunda e verdadeira de quem sente a vida (assim com suas fortalezas, sua segurança) escorrer pelos dedos. O que podemos ver, depois de tudo que passamos? Nossos sofrimentos e nossa tristeza não nos ensinaram nada?

O álbum é dividido em duas partes e a segunda, conforme o próprio bandcamp do projeto, é destinada para “relaxamento”. São duas longas faixas, que tratam de impressão- a figura da mulher que some na escuridão noturna. Mas diferente talvez da primeira metade do disco, há nessa segunda etapa uma “aceitação das ilusões”. Tanto que a ambientação aqui se torna preponderante, como se o “eu lírico” que habitava as canções anteriores fosse lançado para um local imerso em “aparições”. A abordagem mais onírica contempla uma espécie de vazio, há um deslocamento e não estamos mais em lugar algum, as indagações também não têm mais tanta importância. Há uma espécie de deslumbramento nessa manifestação, sua finalidade não é explicita- e sinceramente duvido que de fato tenha alguma “finalidade”. É quase uma exposição do “nada”, as transições de um local “vazio” para outro. Não por acaso o álbum tem o nome de “tenha bons sonhos”, se dormir é um espaço de tempo onde objetivamente coisa algum acontece. Quase um ritual místico para o “sono”, para que a tristeza de toda a primeira parte possa ser -durante esse período- esquecida.

Claro que esse esquecimento temporário não significa uma tentativa de fuga. Ao acordar vamos ter que confrontar com as mesmas merdas pendentes do dia seguinte, não há escapatória. Justamente por estarmos nessa prisão sem saídas, que devemos aproveitar ao máximo esses períodos “entre” os acontecimentos. A última faixa, “boa noite, punpun” é uma referência ao mangá Oyasumi Punpun, de Inio Asano, onde a personagem principal passa por uma série de situações que o força ser adulto, onde as pessoas tentam encontrar significado para sua existência, e no fim ninguém encontra um significado pleno. Aliás, “tenha bons sonhos” encaixa completamente no ambiente do mangá. As emoções que se contradizem, o ciclo que nossa vida se transforma e ainda sim uma realidade imutável, praticamente intransponível. Dessa morte inescapável, porém, surge a poesia, as iminências que atravessam nossas experiências e fazem brotar sensações que nos atinge na pele, potencializando nossas possibilidades, nossas angústias.


Toda essa sensação de prisão que perpetua a audição de “tenha bons sonhos” é de uma constatação de nossos limites físicos, sofrimentos psicológicos. Nós queremos morrer, nós queremos viver e é justamente essa diversidade (que muitas vezes nos esgota) que cava sentimentos mais profundos e sinceros. O hateyourmusic amplia seu espaço (o espaço “negativo”, o campo da “escuridão”) para valorizar as coisas que ficam retidas. Para evidenciar o massacre da realidade e se maravilhar com o vazio.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Theoria - Vamos Desistir do Brasil [2015]

Há algo de impressionante no aumento da quantidade de música eletrônica criada no Brasil nos últimos anos. Desde sonoridades que remetem mais a uma tentativa de desconstruir um indivíduo forjado às variações opressivas de ambientes enclausurados. Consequências musicais do tão chamado “pós-industrial”, enfatizando atmosferas sombrias em dissonâncias sônicas. Porém, os artistas que têm optado por essa veia estética não tem se condicionado à unicamente um ângulo nesses estilos eletrônicos mais densos. É estranho falar sobre como essa música realizada com tanta racionalidade faz surgir uma espécie de “asco” dentro da gente. Expurgatório sonoro.

Theoria diferencia-se no tocante à ironia, desde o nome do disco, ao nome das letras e a capa. Comicidade que é um contraponto às músicas ruidosas. Temos o “clássico” ambiente mais introspectivo, onde as digressões surgem como ondas misantrópicas, como se todos os sons estivessem ali para, determinadamente, “destruir” algo. O Theoria apresenta a disfunção, desconsertando-nos enquanto indivíduos estabelecidos. É de alguma maneira, um reajuste aos ângulos idealizados de se observar a existência e, consecutivamente, viver. Os impulsos apontam demolição, desconstrução- é difícil prever onde estaremos depois e se algo ainda será reconhecível.

O som basicamente é composto de distorções que podem agredir muito quem chega de primeira nas variantes da música industrial. Mas não temam. Essas diversas perspectivas ganham amplitude e densidade enquanto mais nos envolvemos com elas. Não é que não exista um “eixo” central ou “ritmo” que conduza as variantes, mas simplesmente não é entregado ao ouvinte uma linha simplista e metódica de progresso sonoro. Mais do que uma parede de distorções (e acredite, ela fica muito difícil de ser derrubada), há um agrupamento de elementos e uma ideia de composição por trás. Pelo menos eu ouço e avalio dessa maneira. São diversos níveis do “estado” humano, desde um embrutecimento superficial, até ao retorno à introspecção em faixas como Sorry Galera. ‘Vamos Desistir do Brasil’ é uma forma também de “aceitação” da babaquice humana e suas ramificações- os termos da internet, a música popular, o “cover” do Link Park.

Acima de tudo, acredito que se trata de um disco de colapso. Ele pode ter essa superfície de “humor” mais ácido, mas em consecutivas escutadas nós percebemos uma dissociação evidente entre a comédia sarcástica e uma música densa e de confronto. Infelizmente ficou uma merda, faixa que encerra o disco, é baseada na mixagem de músicas de sucesso com uma dissolução corrosiva que abocanha qualquer tentativa de escape. Vamos Desistir do Brasil é arquitetado em cima da perversão e atrito constante entre gestos repelentes de uma sociedade escrota. A faixa homônima, em menos de um minuto, anuncia uma aniquilação completa. As piadas e as tentativas de impeachments são jogadas no mesmo vazio ocioso após um minuto e cinquenta em que parece que nenhuma espécie de sintonia é possível. E ai podemos nos perguntar se as distorções dessa música (e de todas as mais “agressivas” que constituem o disco) expressam um pavor por estar cercado por quem estamos, uma sátira do nível de baixeza que temos que suportar todo dia, ou um simples asco de uma mediocridade em que também tomamos parte. Acredito que de tudo um pouco. Resta ser desagradável, então. Expor os fatos. Rir dos idiotas (mesmo que no fim estes sejam nós). Num Quarto Bolado, quinta faixa, é uma clausura paranoica em que se tenta vislumbrar saídas não tão sadias. São recortes que irrompem e fazem sangrar, para depois morrer novamente, constantemente e gradualmente. Essa intensificação tão contrabalanceada pelos nomes do título, então, não parece tão divergente e até mesmo podemos fazer uma associação. E fica confuso de saber quem é quem, quem se ofende com o que, e que espécie de mundo é esse.


Por sua própria natureza, é difícil fazer uma resenha de Vamos Desistir Do Brasil, porém para mim ficou um pouco inevitável uma vez que eu me peguei ouvindo muito o disco, que é um registro que anuncia a produção significativa de músicas do tipo no Brasil e que é um álbum capaz de estimular. É uma atmosfera opressiva contaminada em grandes doses de humor que também revelam um precipício que atingimos e que talvez tudo isso não tenha volta. Tanto que é árduo “entrar” no disco e suportar suas diversas dissonâncias. Não se trata de um “teatro” de agressividade, é mais complexo que isso. Estamos miseráveis em vários aspectos e o que vamos fazer? Nesse instante, a dor que o Theoria inflige parece ser a necessária para qualquer despertar. Um compadecimento que vamos ter que suportar, porque acordar nem sempre é agradável.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Mobile Suit Belial - Kokoro [2015]

O que é original já não tem importância. E nem sei se algum dia teve. E nem sei o que é originalidade. Passo dias vasculhando bandcamps e soundclouds para encontrar algo que eu gosto. Não tem que dizer nada. Não precisa dizer nada. Tem que me agradar. Tem que desafiar meu senso comum e causar um deslocamento. Não me refiro às originalidades, portanto. Refiro-me a deslocamentos. Enquanto ouvinte, enquanto arte. Meu quarto é uma discoteca. Meu quarto é uma discoteca de música pop e experimental. Meu quarto é tudo entre esses polos. Os sons saem das caixas, meu senso comum é agredido. Meu quarto é uma máquina que recepta divergentes estéticas e as reproduz sem nenhum fim específico a não ser causar o deslocamento que falei. Falo sobre deslocamentos parado, digitando, num mundo onde as supostas “pós-modernidades” irrompem como confusão. São muitos conceitos, são muitas tags, é um excesso que reverbera a não pertença. É um excesso que excluí, mas também paradoxalmente é o único excesso que pode me recuperar. Sem excesso não há mundo possível e passaríamos a existência como Kasper House. É um excesso que permite descobertas. Descobertas como Kokoro, como a tão nomeada vaporwave,ou qualquer designação que se encaixe nesse mundo. “Nunca antes na história da humanidade houve tanta apropriação cultural”, disse Neo. Tudo é possível. “Remixar não é criar”. “Arte não é cópia”. Mas quais as definições de criar? Minha mente é um complexo de conceitos, minha mente recepta e redistribui. A internet é uma plataforma. Não há uma raiz. Estamos complexados e bêbados nessas estruturas- estamos bem, então.

Assim, temos tecnologias dispostas o suficiente para proliferar diversos remixes, estes podem ser analisados a partir da criação através da percepção e sensação artísticas do criador, ou para um conceito sólido e objetivo, ou para esferas mais abstratas e subjetivas e tudo entre esses opostos. Diversos gêneros vão contribuir na criação de uma nova ambientação que pode até discordar radicalmente da estética que eles eram a priori, isso tornam o próprio meio nocivo e distorcido, intencionalmente desvirtuado e uma reintegração à reapresentação sonora de quem pesquisa. O que se torna interessante no Mobile Suit Belial é a forma fluída que diversos elementos das mais variadas culturas no Brasil, o funk internacional, junto com animes japoneses, se integram e refletem que apesar de praticamente incompatíveis em primeira instância, seus significados primários são violentamente trucidados por quem os redistribuí (isso é, obviamente, mais uma homenagem e um atravessamento do que qualquer espécie boba de “destruição”).

O material de origem em discos “vaporwave” é o elemento principal para apresentação do desenvolvimento estético- os barulhos escondidos no alto-falante, as vozes computadorizadas, os sons indefinidos que surgem atrás das melodias mais claras, os sintetizadores- é como se todos esses sons definissem certa perspectiva, ou melhor, a perspectiva é apresentada ela mesma na distorção dos materiais originais e na integração desses resquícios. É como se os complexos pudessem criar uma nova estética. Talvez ai nós podemos a começar a encontrar um pouco mais de encaminhamento e evitar os discursos prontos de “vaporwave” não faz sentido”. Vejam bem, pessoas que insistem em dizer isso caem, sem saber, no próprio discurso torto desses artistas, essas pessoas já estão contaminadas pelas relações de consequência, necessitam de uma falsa ideia conceitual e dizem “esquisito”, e se esquivam da discussão. A distorção dos samples é a reflexão dos eventos que se passam com a pessoa que faz a remix, e sua simples aplicação já deveria garantir esse tal de “conceito” que tantos exigem.

A saturação do Mobile, no entanto, foge à exploração mais comum na ‘vaporwave’ e utilizada métodos semelhantes aos outros nomes no estilo, mais notoriamente Saint Pepsi eマクロスMACROSS 82-99, ou seja, o favorecimento de algo mais orientado pelo funk (dos anos 70 e o brasileiro) como elementos mais clássicos no estilo, como as vozes, especificamente Joel Santana falando seu inglês, o PRONA em inglês, o surgimento do Cassiano. Para quem exigia conceito anteriormente, essa percepção e a música que ela produz já deveria se garantir por si só. São modulações que registram um estado e até onde sei, registros desse tipo é o que chamamos de arte. É uma noção mais radical do que “a música que sucede é necessariamente um desenvolvimento da antecessora”. Não é bem assim; a música que sucede é um reflexo da percepção sonora adquirida pelo artista e todas as fraturas, feridas e também alívio e bem estar que com ela surgiu. O sample se tornando o instrumento em si.


Mobile Suit Belial foge então de conceitos mais “subentendidos” do gênero para, com sua depuração e orientação de certo refinamento, mixando os samples com as diversas possibilidades da manipulação eletrônica, entregar um produto final que é, realmente, menos ofensivo e mais “agradável”. Kokoro é uma obra que se insere e se apropria das várias técnicas coaguladas e possibilita uma audição própria, não “apropriada”. As canções originais são fantásticas, disso ninguém duvida, mas Guilherme Miranda estabeleceu seu ponto de vista, exacerbando as possibilidades. No fundo, o disco é isso. Possibilidades. É um dialogo entre discrepâncias que talvez a própria inauguração dessa conversa sugira a redenção possível. Não se trata de uma resolução para elementos que não interagem, mas como a própria interação é um reflexo de quem analisa. Com Kokoro, o Mobile realiza o que muitos detratores apontariam o dedo sem pensar duas vezes. Curiosamente, suas armas são os que estes mais repudiam. Não há tempo para recuar e pensar duas vezes. As remixes vulgares estão ai para ofender quem tem que ficar ofendido, mas Kokoro transcende a mera usurpação e escava um buraco ele próprio. E escavar buracos é o que entendo como arte, pelo menos a arte necessária, aquela aberta e sem defesas. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

SŎNAX - SŎNAX [2015, Seminal Records/2008, Creative Sources Recordings]

Se música é essencialmente representação, eu não consigo de forma alguma encontrar a essência do representado no SŎNAX. Obviamente que nada é tão simples, e nessa gravação temos uma estética que flui em micro dissonâncias onde a abordagem da experiência pode nos auxiliar a verificar essa falta de “núcleo” no som, podemos encontrar referências concretas mais que uma mimética, mas atravessamentos. Podemos encarar (apesar de certa “concentração” em instrumentos bem específicos) como uma justaposição de “elementos concentradores”- ao menos é o que parece “jardim dos seres e não seres”, onde há uma variação considerável de elementos que se intercalam e se justapõem. Ainda nesses surgimentos efêmeros de uma suposta “ordem”, não há determinação. Como nada é determinado, cada instante é crucial como uma palavra na poesia. É um espaço convidativo ao ouvinte, que tem suas perspectivas potencialmente ramificadas e talvez no fim ele se questione o que condicionou certa perspectiva.

São tradições paralelas que coabitam o mesmo espaço que o SŎNAX oferece- como nossa percepção recebe essas manifestações e como ela encara isso ao que referimos como “conceito sonoro”? Parece uma distribuição de sensações e desenvolvimentos tão característicos que rejeitaram sua matriz. Tudo precisa ser escutado, mas também tudo é insinuação de espírito, de intelecto. O SŎNAX não agride nossa intimidade, mas desloca em uma frequência e vemos como ela é frágil, equivocada. Tudo não precisa ser escutado, ainda assim continuamos.

E como ressoar, da forma mais honesta possível, esses atravessamentos? O próprio Takemitsu falava sobre transcender o corpo para permitir o surgimento da música. Mas a maneira ocidental de técnicas está pulverizada e é difícil encontrar o que não seja mera mimese de intelecto, ao mesmo tempo, “estudo para uma improvisação sem desenvolvimento” estimula uma reação espontânea, inédita. O desenvolvimento então não passa por uma “disciplina” e os ouvintes também são premiados por essa inauguração- o que acontece é um ambiente determinado a todo instante, aniquilando o antecessor, estabelecendo o seguinte, sem pausas. A noção de unidade é algo notoriamente mais estilhaçado, é algo que pode ganhar corpo quando as justaposições se iniciam e é algo que é dissolvido no isolamento de elementos sonoros. É um balanço sensível entre o desenvolvimento enquanto conceito e do isolamento enquanto liberdade. Nem todos “desenvolvimentos” são naturais, muitos poucos, aliás, então o campo se ramifica nessa pretensão- de respirar, de revelar expressões pessoais sem “intermédio” de algo que legitima o discurso. A fragmentação não é esse intermédio, mas ela própria a linguagem. A música não nos diz nada, ela não é nada, mas ela nos convida através desse espaço vazio.


SŎNAX é um período que sugere dilacerações com o espaço presente. É um espaço que necessita do ouvinte para qualquer coisa- significado, essência, ou o que raios sejam. As faixas têm o nome de “estudo” muitas vezes, mas, especificamente, não é nesse terreno que eu gosto de me debruçar e prefiro encarar “estudo” como um terreno de preparação para descobrir o que o som pode revelar. Para que os espaços vazios não carecessem de seres que não os habitem e não os celebrem. O compositor é o criador, mas diferente de meras convenções, ele não é um criador que estabelece significados- dele, “apenas” ocorre a distribuição do som no tempo e no espaço. O som é a expressão humana que irrompe essas medidas, ele é a desmedida. O objetivo de uma composição não tem que necessariamente ser claro, ele fica mutilado em rastros e experimentos, ele é dissolvido em avalanches instrumentais, ele também não é nada sem um ouvinte. Talvez o maior objetivo do SŎNAX seja forçar o ouvinte a criar um espaço ativo. Uma alquimia. O ouvinte tem que participar além da contemplação, essa contemplação tem que se tornar força. Não é como se eles não criassem nada. Eles criam um convite. Um gesto inaugural.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Gustavo Jobim – Inverno [2014]

"Eu me pergunto se a neve ama as árvores e os campos, que os beija com tanta delicadeza? E, então, os cobre confortavelmente, você sabe, com uma colcha branca; e, talvez, ela diz: "Vão dormir, queridos, até que o verão venha outra vez."
-Lewis Carroll

Frozen Lake é a faixa que abre o disco Inverno (meu álbum favorito de tudo o que ouvi do Gustavo até agora). Já fico arrebentado pela fragmentação que ela insunua- elementos densos e verdadeiramente ameaçadores! Sinto-me preso e sem saída, não há uma fresta possível. Jobim, aqui, não manipula seu som nos “convidando” a participar, é peso atrás de peso e dissonâncias que nos tonteiam, nos deslocam. Se Zone Of Silence é até que um refresco, embora continue cultuando a obscuridade que permeia todo o disco, Ice Age Coming e Permafrost (essa última com ventos muito, muito gelados) nos ratifica a sensação de imobilidade.

Penso muito num atravessamento de Vikernes e do Schulze, como se as feridas destes fossem também as de Gustavo e os três deram- cada qual a seu modo- um testemunho do lugar frio onde passaram. E pode ter certeza que é uma área bem inóspita. Assim que chegamos a Winter Song, porém, temos a certeza de que tudo iria se projetar nisso. Em seus vinte minutos, temos um relato trêmulo da passagem. Não sei se Jobim quis, de fato, inserir um contexto narrativo no andamento das faixas. O fascínio dessa música é que ela mantém aquela inevitável sensação de imobilidade das anteriores, mas apresenta possibilidades com uma melodia relativamente regular de pano de fundo. É nela que devemos seguir ou é apenas um oásis? Sussurros surgem atrás, sons cavernosos que se sobrepõem trazendo aspereza limítrofe. (Sério, tentem ouvir isso em casa com os headphones bem altos, parece que a redenção nunca vai ser possível).

Parece que toda essa ambientação quer nos engolir. A sobreposição e a invasão dos sintetizadores intrigam, nos balançam. É uma entrega passional o que testemunhamos. Um espaço farto de dissonâncias que exploram nossa capacidade e realizam a estética álgida. O que nós temos a oferecer a não ser essa integração impossível? Fica uma sensação de desmineralização dos encantamentos, onde só o que resta são fagulhas reminiscentes de algum outro plano menos congelado, talvez. A existência é rígida e Gustavo nos lembra disso. Em cada investida de Inverno, temos uma rigorosa catarse que se seguirmos sem pudor, levar-nos-á ao que menos suportável podemos encarar. Se eu vejo Inverno como um disco essencialmente negativo, não estabeleço uma negação primária de destruição ou qualquer besteira dessas. Falo sobre o atravessamento de uma espécie de satanismo da luz. Onde tudo tem que ser modulado e conforme o instituído- é uma obra dessas, com sua instabilidade total, que pode trazer o atrito necessário para perfurar esses elementos tão concretos, tão reais.


Esqueçam o inverno escandinavo. O frio ao qual esse disco que me arremessa é de tudo o que encaro todo dia. Inverno surge para lembrar que esse terreno inóspito, sem medidas e especificamente rigoroso, é uma abertura de tudo o que essencialmente existe. Os sintetizadores ampliam e nos apontam caminhos. Mais difíceis e mais puros. Para onde o vento sopra mais forte. Um mundo com muitas quedas que parece ser eterno. Onde qualquer amanhã é devidamente arrancado da esfera das possibilidades, curiosamente pela grande alternância de elementos que Gustavo coloca em sua música. O futuro é esse frio e esse vento. Essa agitação constante onde tudo ficará inerte.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

The Arms of Sleep - Chinese Houses [2014]

Acredito que, para muitos de vocês, a maior dificuldade hoje em dia é, “onde catalogar música boa e daí descobrir algo que realmente valha à pena”? Eu mesmo já segui e fui atrás de vários sites para “acompanhar”, até que dei um chega- pelo menos pra mim, que conheço uma quantidade relativa de gente cujo gosto eu considero “próprio”, as informações tem simplesmente chegado. Deste modo, surgem diferentes ritmos- um mais dissonante e maluco que o anterior- que caem no meu colo e descubro uma grata surpresa. Note-se que, obviamente, o primeiro lançamento do The Arms Of Sleep é um desses registros que surgem quando todas as listas de melhores discos já foram feitas e abala sua própria noção de música. Fico muito, muito contente com a capacidade sistêmica de a música me surpreender.

A integração dos sons compõe sistemas de conceitos que não sabíamos que habitavam em nós- calma, tranqüilidade, relaxamento e paz. Mesmo nos seus instantes mais tensos e fragmentados, Chinese Houses se estabelece como uma proposta fixa de que, no fim, há uma espécie inflexível de calma. Mais do que isso, todos os sons “paralelos” às melodias principais intensificam essa sensação. Tudo isso se envolve numa obra que, quando visitada de uma só vez, corporifica em seu fim tudo o que esperávamos desde seus primeiros versos. Não é como simples “fim, inicio e começo”, não! Mas uma continuidade que vai resistir mesmo quando o disco acabar. As melodias são eficientes ao ponto do instrumental resistir ao mundo externo. Cole Weiche (que é o The Arms Of Sleep) influência nossa percepção sensorial a esse ponto.

O contexto em que vivemos- um amontoado urbano cacofônico, trágico, perturbardor- necessita de pausas tão serenas e meditativas como The Arms Of Sleep. Para nossas perspectivas não persistirem tão depressivas e amparadas em um estado inerte de melancolia. Outras perspectivas merecem serem erguidas e construídas como “esperanças”- porque ao existir uma esperança, existe um momento de espera. O momento de espera é sagrado à medida que este providencia transcendências apesar da realidade.


Embora tenha lá seus clímaces, Chinese Houses é construído sobre um sistema de pensamento decididamente sereno. Um sistema de pensamento que planeja rotas de fuga da velocidade opressiva do mundo. Um período para fechar os olhos e respirar fundo. Não tem uma finalidade porque vamos precisar de instantes assim a todo o momento. Chinese Houses é o presente que merece ser desfrutado, esquecido por preocupações mundanas e temporais. No entanto, há vários “cortes” que desconstroem a música- como para lembrar o fim da efemeridade. Chinese Houses se torna ele próprio um paradigma de suas esperanças. Se repararmos bem, seu interior está cheio de “desconstruções”. Isso porque Cole sabe bem que música não é utopia. Na falta de construções objetivas- temos a esperança. É um disco que clama por nossa relação com ele. É um disco que, de certa forma, nos compreende. Um ponto para fugir. Um ponto no meio do caos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Gustavo Jobim- Tsunami [2014]

Gostaria de lembrar que, segundo seu bandcamp, Gustavo Jobim encerrou 2014 com sete trabalhos lançados. O que já é fascinante por si, mas ao analisar vários desses trabalhos (uma pena que não consegui resenhar todos, pois merecem) percebe-se que o compositor carioca aplica uma abordagem, sutil ou bruscamente, distante em suas obras. Isso impressiona mais ainda, pois (creio) que os instrumentos com o qual ele viabiliza sua música são basicamente os mesmos. Podemos começar lembrando que o excelente Inverno, lançado no primeiro dia de 2014, tem uma estética rigorosa e relativamente divergente de Tsunami- se em Inverno temos uma ambientação fria e desolada, em Tsunami temos sobreposições que atingem proporções bem ruidosas. Os momentos mais “quietos” simbolizam uma ameaça. Como uma ponte que lentamente vai se deteriorando, até os estalidos se juntarem compreendidos em uma massa sonora. Talvez seja um tipo de música que resida no nosso medo. Certamente, por um desconhecido retumbante que vai se formando visualmente enquanto ouvimos.

A criação de Jobim implica no mistério. Uma admiração que não se fundamenta na técnica. Como se fossem formas abandonadas que reclamam por sua existência em um mundo que não é tão nítido. É uma música que não cria seus parâmetros em medidas regulares. Como se fosse uma espécie de deboche, “suas medidas valem do que, hein?”. O “eletrônico progressivo” em que seu corpo musical se insere, claramente não caminha ao lado do “progresso” da cena musical contemporânea. Creio que Gustavo Jobim não se importa com isso. Embora ele tenha suas preferências musicais, o que vemos ao longo desse ano de lançamento é uma criação cada vez mais individualizada, singular. Jobim acredita em seu trabalho e isso basta.

Todos os sons que integram as duas faixas parecem com desencontros que “tem” de estar no mesmo bloco. É como se os blocos sonoros ruidosos fossem simplesmente inevitáveis. Por isso a espera antes da “junção”, os micro sons se organizam e merecem existir tanto quanto quaisquer outros. Quase no encerramento de Atlantis, percebemos uma melodia. Uma melodia que segue certo “esquema” e também reclama sua existência. Essa melodia seguida de uma espécie de microfonia que vai encerrar a obra. Tudo isso é música! Os blocos sonoros, a “ambientação” quase muda.


Gustavo Jobim manteve ao longo desse ano um corpo sonoro sóbrio que se recusou a ir por caminhos fáceis. Uma obra que dá espaço para diversos segmentos, obviamente dentro de uma espécie de “ética de criação”. Percebe-se que ele tem essa necessidade imensa de criação. Preservando uma inquietação que traduz em suas modulações, sempre sob a casta de algum “mistério”. Se me perguntarem seu “papel” na música brasileira, certamente não vou ter respostas. Talvez a melhor resposta seja; “entregar”, simplesmente assim.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Gustavo Jobim & Visszajáró – Arrival [2014]

A abertura que os sintetizadores em Visitor (uma das melhores músicas do ano) propõem, pode resumir bem todo o conceito de mais um disco lançado pelo Gustavo Jobim, dessa vez com a dupla sérvia Visszajáró.

Embora ainda haja muitos sons na mesma freqüência, parece que Jobim decidiu expandir seus temas e os contra-pontos são desenvolvidos com mais “espaçamento”, enquanto ainda nos deparamos com as passagens tão habituais de signos sonoros que não conseguimos identificar claramente, uma espécie de aparição. Mesmo sendo decididamente experimental, há certos espectros sonoros que se fixam em nossa mente, apesar do minimalismo dominante. Curioso que certo “radicalismo” estético interaja com essas projeções e tanta coisa floresça daí.


Essa ambiência “obscura” criada pelos artistas, porém, abriga elementos eletrônicos que podem até ser considerados “dançantes”. Talvez Jobim não aumente sua base de fãs em função desse lançamento, e sinceramente duvido que esse seja o principal objetivo. Já estamos no ponto de afirmar que é algo “típico” de Jobim, o que certamente significa uma construção de uma obra muito prolífica. Certamente, em progresso.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

GUSTAVO JOBIM – Retrospect 2013 (2014)

Talvez a melhor introdução para a produtiva obra do Gustavo Jobim seja esse retrospecto de 2013. Coletânea que reúne faixas de seus quatro lançamentos de 2013. E talvez porque não foi um lançamento planejado como “conjunto” ou “conceitual”, temos diversos pontos de vista em uma aposta que, mesmo tangendo o minimalismo, se mostra surpreendentemente ampla.

Em suma, essa coletânea funciona como um guia do que podemos encontrar nos estudos de Jobim, e também para ouvintes mais antigos, o desenvolvimento de sua obra e em que pontos nós encontramos semelhanças e disparidades.

A composição se mostra bastante abrangente, variando entre as estruturas mais simples e outras faixas com desenvolvimento completamente inesperado. São grandes momentos de inspiração e manipulação eletrônica que me lembram de Mike Oldfield ou mesmo a organização de Klaus Schulze.

Meditações que não se limitam em formas, um instrumental eletrônico variado que com certeza encontra apoio em estruturas oriundas do rock progressivo e da música clássica. Temos sempre a impressão de estar de frente a uma face nova, onde a repetição é modulada de encontro a elementos que surgem para uma combinação implicitamente distinta.


Embora possa soar muito diverso sonoramente para ser encarado como um álbum, à medida que vamos ouvindo mais cuidadosamente encontramos elementos que se intercalam, evidenciando que há uma base sólida que opta por estéticas não confortáveis, mas realizações extremamente autorais. Componentes distintos que formulam a obra (em andamento) de Jobim.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Entrevista com Coti ( Costantino Kiriakos)

O último trabalho de Costantino Kiriakos, como Coti, é praticamente indispensável, vale a pena conferir  cada segundo. Ele está envolvido com o experimentalismo eletrônico desde os anos 80 e tem outros projetos que também merecem uma checada. Fiquei muito feliz quando ele concordou em responder a algumas perguntas:
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[Anthem Albums] Como você se envolveu com a cena musical de Atenas?

[Coti] Eu nasci em Milão, na Itália, mas eu me mudei com minha família para Atenas quando eu tinha cinco anos. Comecei a me interessar por música muito tarde para uma criança, por volta dos quinze anos, e eu comecei imediatamente a fazer a minha própria música. A partir daí, foi uma simples questão de tocar e tocar e conhecer outros músicos no processo.

[A.A] O que você mais aprecia em você como músico?

[C] Acho que o que eu mais valorizo é a minha abertura para o que é música.

[A.A] Você é muito produtivo, muitos lançamentos nos últimos anos. Você às vezes tem bloqueios criativos?

[C] Sim, eu tenho bloqueios criativos, minha maneira de evitá-los é deixar o projeto que eu estava trabalhando e passar para algum outro que poderia ser mais inspirador no momento.

[A.A] Você pode descrever a cena musical de Atenas?

[C] Atenas no momento é um lugar muito interessante para estar por causa de toda a crise acontecendo aqui. Há um número muito grande de bandas e outros projetos musicais acontecendo. São tempos muito difíceis, mas interessantes ao mesmo tempo.

[A.A] Como é que Atenas influencia a sua música, a maneira de escrever, criar?

[C] Eu tenho que dizer que meu lugar musical não é Atenas, provavelmente muito barulhento para mim me concentrar, eu escrevo principalmente na ilha de Tinos, onde tenho uma casinha.

[A.A] Como rolou a gravação de Solesulsuolo?

[C] Solesulsuolo foi composto e gravado em Estocolmo. Eu fiquei na Suécia por alguns meses, verificando se eu gostaria de viver lá (eu não). Um bom amigo me deu acesso ao seu local de ensaio e então eu fui lá para tocar com o meu novo instrumento que eu tinha acabado de construir, o Oniscus Harmonicus. Os tempos eram muito difíceis em um nível pessoal, mas escondido no estúdio só gravando e tocando foi ótimo, também ao lado havia a melhor pastelaria em Estocolmo.



[A.A] Como são suas apresentações ao vivo?

[C] Eu não me apresento sozinho muitas vezes, eu toco ao vivo na maior parte com Mohammad (um trio que temos com Nikos Veliotis e ILIOS). Ultimamente eu comecei a tocar com o meu projeto musical, The Man from Managra.

[A.A] Quais músicos são seus remédios?

[C] Compositores como Lee Hazlewood, L.Cohen e Eno.

[A.A] Você ainda ouve os músicos que você estava ouvindo quando você começou na música?

[C] Às vezes eu ouço, eu estava ouvindo Go Betweens semana passada.

[A.A] Quais são as principais mudanças de “Onda” para “Solesulsuolo”?

[C] “Onda” é gravado apenas com um contrabaixo, e o Solesulsuolo com o Oniscus. Onda foi escrito em uma ilha do Mediterrâneo, no verão, enquanto Solesulsuolo foi escrito no norte da Europa, desejando estar na ilha. Então Solesulsuolo é muito mais obscuro para mim.

[A.A] Como artista, você acha que a crítica ainda é relevante? Você lê críticas?

[C] Sim, eu leio, todos os músicos se preocupam com o que as outras pessoas pensam de sua música, alguns simplesmente não vão admitir isso. Claro que uma má crítica pode estragar o seu dia, mas é um risco que você tem que tomar.



[A.A] Como outras formas de artes influenciam a sua música?

[C] Eu sempre penso na música de uma maneira visual. No momento que ouço a música eu imagino linhas, pontos, etc.

[A.A] Quais outros projetos você está envolvido agora?

[C] Acabamos de lançar Zo Rél Do, quarto lançamento do Mohammad (confiram aqui www.mohammad.gr) e estamos organizando uma pequena turnê europeia para outubro.
Com o The Man From Managra (www.themanfrommmanagra.com) estamos tocando em algumas casas de show aqui em Atenas, e eu também estou tentando ver se consigo alguma forma de promovê-lo fora da Grécia.
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