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sábado, 12 de dezembro de 2015

Banana Scrait - Giostra [2015]


Os sussurros de Andrea encontram uma guitarra vibrante de plano de fundo. A combinação instrumental do Banana oferece essa áurea psicodélica que projeta estados intermediários, entre sonho e realidade. O pop do Banana consegue invocar tantas coisas e passar por tantos terrenos musicalmente que se pode ver que são músicos extremamente preocupados com os arranjos e resgatar certo tipo de música ao mesmo tempo em que exibem procedimentos de gravação extremamente modernos. Tudo soa vasto e ambicioso nesse disco, enquanto o contraponto intimista torna cada audição importante. Importante porque a música do Banana é célebre; ela tem uma variação impressionante ao mesmo tempo em que mantém certa ordem (criativa). A faixa título poderia facilmente estar na trilha sonora de Twin Peaks, e ela introduz o tema da viagem que Nepomuceno (o disco tem quatro revisitações do compositor) compôs com Galeno.

Se Voo me fez diagnosticar a validade no que já passou, a imersão que Giostra provoca leva o ouvinte às introspecções que transbordam questionamentos. As canções poetizam momentos de aguardo, de pensamentos sobre o “que vai acontecer” e o que já “aconteceu”. As histórias presentes em Giostra flagram um mundo de desejos simples, porém extremamente importantes para a psique da narradora que reflete constantemente sobre os espaços, tanto psicológicos quanto físicos, que ela percorreu. Eu não sei o que de fato levou os integrantes do Banana a homenagear a obra de Nepomuceno e suas parcerias, mas a banda conseguiu sonorizar as constantes indagações que o compositor realizou ao lado de escritores como Galeno. Como todo disco que respeita o ouvinte, Giostra é aberto o suficiente para que as impressões do ouvinte possam ser injetadas em sua vasta paisagem sonora.

Acolhimento. Maneira de receber ou ser acolhido; recepção, consideração. É possível encontrar tudo isso nesse disco, mas não da maneira mais “usual”. As canções revelam choro, decepções, reflexões melancólicas e são capazes de espelhar sensações semelhantes que o ouvinte possa ter. Os andamentos lentos, os sonhos que nos tomam de assalto em uma caminhada matutina; há mil possibilidades que enchem a cabeça e mostram que a calma não necessariamente é preenchida com paz. A sonoridade da gravação é extremamente límpida e essa produção lapidada se contrapõe à inquietação interna que a narradora enfrenta durante as seis canções que compõem o disco, marcando principalmente o belo andamento dos instrumentos de sopro que pintam a paisagem sonora. Os vocais de Andrea mostram-se límpidos nos momentos cruciais; é como se ela emergisse desse ambiente para finalizar a poética das músicas.

A sensação pop que percorre o álbum evitam o imediatismo; é preciso ter paciência para ouvir Giostra porque suas construções são lentas, calmas. Apesar da ambientação em que distorção e sintetizadores constroem uma ambiente onírico, a profundidade estética do Banana se baseia no todo (tanto como na arte do disco, que evidencia um ambiente rico em cores mas minimalista, solitário). O discurso do Banana, que resgata obras tão importantes pára a arte brasileira, é de que esse resgate não é usual; há uma semelhança poderosa entre os temas das canções e as releituras instrumentais/vocais que a banda realizou; um cenário íntimo onde as folhas que deitam na terra enchem “todo o ser” da narradora. Não há caminhos fáceis para o andamento instrumental de Giostra e as bifurcações sonoras erguidas aqui revelam um ambiente rico ainda assim, em esfera pessoal, sempre há a sensação triste de que “falta algo”.


Todas essas variações se unem para elaborar o principal atributo de Giostra, o intimismo que precede todas as técnicas. O ambiente é frequentemente tomado por grandes divagações instrumentais (os instrumentos de sopro, os sintetizadores, as guitarradas), estas que em nenhum momento suprem o intimismo que é o ponto maior do disco (a arte do álbum revela uma espécie de “intimismo-desolado”)- pelo contrário, elas o tornam muito mais respeitável. Com repetidas audições, parece que a narradora vai derrubando sua “máscara” de artista e se tornando abissalmente humana. Isso que passamos pelos mesmos estados, isso porque a poesia de Giostra é um firmamento do isolamento, da reflexão e das saudades que a vida invariavelmente nos causa. Giostra abraça a calma para revelar as inquietações em terrenos sonoros vastos, que não conseguem excluir (ao invés disso otimizam) a sensação de distância e, ao mesmo tempo, deixam-na tão querida.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Banana Scrait – Voo [2015]

Cantar é ser, cantar é celebração. Cantar é passar o tempo expressando o cotidiano, as singularidades e minúcias que constituem o dia-a-dia. Cantar é uma necessidade, um chamado. Uma manifestação. Cantar é negar o futuro, é afirmar o presente- um combate onde emerge partes perdidas, significados ocultos. Não quero dizer que cantar é um ato puro em si, porque ele vem das mazelas da existência, também. É uma caminhada às vezes dolorosa, difícil e o que sai da voz pode ser confundido com dor, desespero. Reconhecer uma melodia, abrigar em sua manifestação como um lugar seguro- trêmulo e compulsivo, mas seguro. Ser singular em uma tradição de muitas, muitas cantoras boas, em um mundo com muitas cantoras excelentes e, ainda assim, ter a coragem de se expor, se ariscar, querer gravar. Impor-se.

Banana Scrait nos oferece um passeio. Não me refiro a uma caminhada contemplativa num domingo ontológico, mas um método aplicado (empírico, como queiram) de descobrir sonoridades, pequenas manifestações. Voo ecoa o universo musical dos componentes. É um disco, portanto, de distribuições, de diferentes espaços em uma estética que segue certa coerência. Há um espaço que a música ocupa- um núcleo refletido por outros olhares. Cada música é um olhar. Tem  o francês, o inglês e, é claro, o português. A faixa-título expressa bem essa ideia de “diversos olhares para um mesmo núcleo”, a música é cantada em português e francês. Podemos pensar em pluralidades e conceitos descentrados, mas eu retorno ao “passeio” que mencionei anteriormente, não vejo esse disco como uma obrigação. Voo é o oposto de “obrigação” e impressiona, justamente por isso, em como sua “simplicidade” (estética, não técnica) pode resultar em um descanso merecido.

Voo é, obviamente, a variável mais otimizada do conjunto. É um espaço que as estrelas são contadas através de leves melodias pop. Variáveis apresentadas em mais de uma língua, uma diferença ligeira no arranjo entre as partes- pois os passeios variam. Se não na paisagem, mas à maneira que andamos, gesticulamos e observamos. Andamos para ver o mar, para testemunhar que o esforço valeu. Passear é envelhecer, mas também é seguir em frente, e todas as “jam” do disco não perdem tempo, prosseguem- não duram muito, o suficiente para deixar sua marca e depois continuar na próxima canção. Passeamos, pois vamos repousar e continuamos porque amamos uma vez e vamos amar novamente.

Depois da instrumental Giostra, que abre o disco (e podemos perceber alguma das interessantes variações instrumentais que vão acompanhar todo o disco), temos uma música que simplesmente fala sobre acabar com a solidão, andar por aí. Então esse disco não tem um norte específico, mas são suas variações e temas relativamente menos densos que aplicam algum tipo de conceito. Nada é determinado em Voo. Apesar de tudo; o mar e as estrelas. Apesar do mundo, Voo. Essa é sua força. Não é uma recusa de “enfrentar a realidade nua e crua”, mas indicar outra forma de realidade, outra forma de vivência que podemos encarar estando no mundo. As metáforas talvez nem sejam metáforas. Em Pra Ver O Mar, estamos falando do mar e das estrelas, enquanto entidades individuais, específicas. Eu posso ver e cantar o mar e as estrelas então é isso o que eu vou fazer.


Falei sobre cantar no começo e aqui retorno ao canto de Andrea como terreno em que o “passeio” passará a começar. Se ela é o começo, ou a palavra (como quer o evangelho de João), as diferentes transformações da banda são o espaço para a caminhada. Andrea não encontraria onde dar a confirmação de sua presença, não fosse a banda. Caminhar é estar no mundo e não só contemplá-lo, é sentir as transformações do ambiente e reproduzi-las em seus atos. Assim é cantar, assim é tocar, assim é fazer música. Tudo se dissipa e nada fica registrado- ficam as declarações, a vontade de dizer tudo sobre alguém, as músicas que não foram gravadas. Fica quase tudo para trás, mas algum dia nós andamos por aqueles lugares, ouvimos aquelas canções, conhecemos aquelas pessoas.