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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Yarn/Wire – Currents Vol. 3 (2015)

O projeto musical Yarn/Wire se trata da bilateralidade (são dois pianos e duas percussões) e das simetrias e cortes que essa junção pode causar. Os frutos disso são construções que soam inaugurais e só por isso o conjunto já merece o louvor. Vol. 3 representa, obviamente, a terceira série no trabalho Currents que o grupo vem apresentando há alguns anos e exibe um “médium” inicial, cinco oscilações consecutivas, e a peça final que é a integração desses elementos. É um desempenho ao vivo que mantém o legado do conjunto na tentativa contínua de transitar entre terrenos novos, se aproveitando da injeção de elementos exteriores e teoricamente “estranhos” ao quarteto.

O grupo absorve essas teóricas excentricidades e as transformam em uma continuidade surpreendentemente estável e com firmeza conduzem as peças para os pontos mais macro que elas, inicialmente, não pareciam ter resistência para.


Os elementos eletrônicos interagem com um piano desatado em curiosos movimentos de conforto/retaliação. É uma convivência muito engraçada. Ao mesmo tempo em que a combinação dessas execuções vai crescendo, os cortes também vão soando mais severos e mais pontuais. Essas combinações que eu nunca tinha ouvido são só possíveis ao ligar elementos teoricamente mais tradicionais (piano e percussão) à tecnologia MIDI e uma investigação inventiva de quais caminhos isso pode tomar. O piano realiza, em paralelo, os ataques mais “delirantes” e também é responsável por trazer uma espécie de serenidade em alguns momentos. Currents Vol. 3 se trata, sobretudo, de um delírio em tempos que uma normalidade domina todos os charts de melhores discos do ano.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Kid Millions – The Sanguine Cadaver (2015)

Kid Millions é membro da corajosa banda Oneida que consiste em criar um ambiente enorme, urbano e repetitivo- como se caminhássemos no mesmo túnel infinitamente. É uma ambientação poderosa, com drones épicos e grooves bem colocados. O conceito de The Sanguine Cadaver é extremamente pautado nessa repetição; é um andamento lento e introspectivo em uma atmosfera que as diferenças são apenas insinuadas. Mas aqui Kid se mostra como compositor máximo e não apenas um exímio baterista, e percebe-se que as dissonâncias que o lavaram a criar um trabalho tão denso como The Sanguine Cadaver não seriam tão bem aproveitadas no Oneida. Porque enquanto a banda constrói esse ambiente enorme, as repetições de Kid são de enclausuramento.


Pegue os imprevistos “controlados” do Swans e os insiram em um ambiente diário e nada megalomaníaco. Kid reconhece nas variações que “surgem” a validação para se expressar; ele é um artista das brechas que, mesmo assim, consegue moldar uma massa sonora gigantesca com isso (a forma como ele usa as baterias eu nunca tinha ouvido). Não há um grande marco divisor em The Sanguine Cadaver, mas chega a ser constrangedor (para outros compositores) a maneira que Kid transita facilmente para uma explosão contida e abafada, uma interiorização de observações externas. As gravações de campo criam uma atmosfera, esse disco é uma afirmação do que quer que seja essa atmosfera íntima. Tudo isso é destruído na segunda parte. Temos uma intimidade mais objetiva, com Millions fazendo o que faz de melhor; improvisar na bateria. Pode-se enxergar toda a construção da primeira parte como uma pergunta. Felizmente, Millions tem uma resposta.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

John Luther Adams / Glenn Kotche – Ilimaq (2015)

Que a programação da música clássica não é mais é a mesma temos testemunhado ano após ano na realização do “faça você mesmo” nesse tipo de composição. Em seus últimos trabalhos, é notório o exame do compositor Adams nos intrincados padrões que conectam os organismos e os ambientes em que vivem. Além desses micros padrões, Adams busca por uma totalidade desses padrões e os macros sistemas que essa soma forma. Em busca de uma totalidade que fosse registrada de forma minimalista, Kotche é encarregado de todo o trabalho percussivo em Ilimaq.

Em Become Ocean, Adams criou uma peça que representava uma sobreposição de ondas, e nessa tentativa de imersão ecológica que ele foi além de uma romantização da natureza para expor um desastre de ordem natural. Esse ponto de vista ecológico desconsidera conceitos humanos como aquecimento global para refletir a grande indiferença da natureza perante todas nossas preocupações mundanas. Become Ocean foi muito premiada e se tornou uma linha divisória na abordagem ecológica que Adams criava sua música até então. A evocação de imagens que representava a correnteza marítima é a tentativa de totalizar o oceano explicando seus micros sistemas. A experimentação de Kotche no terreno da música clássica se baseou em sua carreira na manipulação eletrônica, sem uma abordagem tão “conceitual” quanto a de Adams. Isso além dos trabalhos colaborativos de Glenn, que além de ser membro de Wilco sempre trabalha com compositores importantes em terrenos radicais e que frequentemente apelam para o livre improviso.

Adam considera o ecossistema como uma rede de sistemas, uma multiplicidade complexa de elementos que funcionam juntos como um todo. Para ele, a essência da música não reside em padrões simples de harmonia, melodia, ritmo e timbre. É a totalidade sonora que configura a plenitude da música. Por ser extremamente conceitual e Kotche pautado muito na intuição, que Ilimaq é um momento de quebra de barreiras para ambos os artistas.

O título do disco se refere a uma jornada espiritual mas, conhecendo parte do trabalho teórico de Adams, acredito que o mais justo seja chamar de jornada ecológica. São múltiplos elementos que tentam se integrar em micro sistemas para formar uma totalidade- as gravações de campo, as manipulações eletrônicas, a percussão. É somente essa sobrecarga sonora que pode sintetizar uma unidade. Mais do que a estrutura calma visível, Adams compôs algo que confronta suas obras anteriores e tem numa espécie de “minimalismo totalista” a catarse para suas revindicações entre a suposta aproximação de música/ecologia.

Os movimentos que compõe Ilimaq se baseiam em vários níveis de velocidade e desaceleração- pode-se dizer que a ideia de integração de Adams é justamente nessa dissonância de velocidades. As oscilações de Kotche mostram-se importantíssimas para as ambições de Adams então; não há possibilidade de totalidade sem os imprevistos. Esse ambiente é frequentemente contaminado por interrupções eletrônicas e gravações naturais. A totalidade é imprevisível. Mesmo assim essas seções indeterminadas e esses encontros não catalogados constroem uma totalidade desinforme, onde o trabalho gradual de Kotche ao mesmo tempo, desestabiliza e constrói esse panorama. Tantos elementos que se encontram; é filtrada essa aproximação máxima à ecologia que Adams defende em seus ensaios.


Pode-se encarar Ilimaq como um rito, uma tentativa genuína de aproximação a um discurso que cubra todos os pontos de uma obra, e é justamente na espantosa técnica de Kotche que o disco destoa para um discurso vibrante. Adams exclama categoricamente seu conceito e aproveita do talento de Kotche para fazê-lo. Resultados esperados não é o foco de Adams, ao invés suas abordagens transgridem construções musicais comuns para mirar sempre em uma totalidade, mesmo que abstrata e/ou invisível.