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quinta-feira, 5 de março de 2015

Better Leave Town - Better Leave Town [2015]

As experiências ressoam em todos os passos que damos- os dramas, as despedidas, os desencontros. E de alguma forma maluca, ainda continuamos expostos aos mesmos machucados, como num loop onde as memórias são mais parecidas com fantasmas desdenhando de nossos erros (e acreditem, são muitos erros). Esses eventos que mexem muito conosco quando estamos nos vinte anos e temos certa tendência ao sentimentalismo. Naquela idade em que se percebe que nossa história passada é formada mais de rabiscos do que linhas concretas e que o que está por vir não deve ser tão diferente. Nós perdemos, mas continuamos. Um jogo cíclico e cínico de risadas, arrependimentos, discussões, indecisões. Como se a vida fosse sempre um teste que temos a certeza que está tudo armado e não vamos passar. Pensem nesse disco como uma catálise dessas sensações. Mas pensem também como uma pausa da experiência concreta com elas e um momento, no fim do dia, exaustos do trabalho, para pensar em tudo. Ou absolutamente nada.

É muito clichê falar em maturidade, até porque as canções depõem sobre incertezas que se enfrentam na vida. Mas nada no primeiro disco cheio da banda soa “fora de lugar”. Ao contrário, chega a ser ridículo a experiência que a gravação inteira exala. E que me remete muito as bandas dos anos 90. As emoções dos vocais variam desde linhas mais cadenciadas e aparentemente mais “sóbrias”, até partes em que as letras são praticamente faladas, como um desabafo. Os tempos difíceis se aproximam, e não sabemos se os caminhos que tomamos estão certos. Aliás, nem sabemos de fato porque ou como chegamos aqui. Não quero que pareça que esse disco se “resuma na incerteza”; é mais sobre a confusão dos dias, o turbilhão da memória, o futuro confuso e difuso. De fato todo álbum é uma jornada, e esse disco relata a perda do controle, especialmente quando vemos tudo que planejamos ruir. Home Drive, Long Night expressa essa introspecção, em constante movimento, mas sem ter a certeza de onde ir ou a origem de nossos caminhos.

São estruturas do cotidiano que fazem a banda passear por temas em que tantas interrogações figuram. Eles sabem que tudo é instável e que vamos envelhecer instáveis e que as contas vão chegar ao fim do mês. Mas, obviamente, é impossível remover as dificuldades e então é sempre como agimos nessas situações. Enquanto avançamos na gravação e escutamos consecutivas vezes, podemos notar os pontos focais em que as faixas se imanizam. É sempre um transe constante entre prisão/necessidade/ movimento contínuo.


O Better Leave Town opta por expressar as visões e a partir daí (dessas microssituações sempre específicas) discorrer sobre os temas diários que pesam sobre nossos ombros. Mais do que um extravaso, são reflexões sobre essa coisa estranha que chama passado e essa entidade estranha que por acaso tem um corpo. São determinações densas profundamente pessoais, no atrito constante entre o ritmo enérgico mais “cativante” e uma espécie de sobriedade introspectiva, onde os riffs altos soam exatamente essa ambiguidade. Tenho muita convicção de que se você costuma gostar das bandas voltadas ao “emo” que posto nesse blog, você vai sentir um compartilhamento com o BLT. Cada música gera um campo de análise e são analises empíricas, atravessadas e que se expressam na música para poder garantir uma existência, também. Se não captamos quem éramos anteriormente, então mudamos um pouco e o mundo girou. E é com a honestidade e crueza que encontramos nesse disco que podemos ter certeza que as coisas estão mudando. Para onde, não se sabe.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Obrigado, Dance Of Days ! O Melhor Tempo De Sua Vida (2014)

O melhor tempo de sua vida começa com um chamado ao grito, antecedido pelo baixo e bateria. Há tempos que Nene deixou o "lirismo" mais de lado, sendo o mais direto possível em sua mensagens, alguém que testemunhou várias reviravoltas de cenários em uma suposta cena, e que ainda persiste socando ponta de faca, entre gritos e melodias apaixonadas e furiosas, sempre passionais. A proposta é como um testemunho de quem também variou tanto quanto a movimentação faça você mesmo que eclodiu nos anos 90. As baterias noventistas, onde a produção é certamente de quem não busca correções eletrônicas. O Dance Of Days sabe muito bem sua capacidade musical. Se trata da relação de devoção pelos caminhos que já foram tomados, um salto em um terreno conhecido para revelações que ainda se fazem persistentes, principalmente quando confinados na histeria paulista e os micropoderes estabelecidos desde o lar até as ruas. É a própria contradição interna de se guiar por mapas socados em nossa mente. Por que se machucar com parâmetros internos e que são praticamente bizarros de tão sem propósito? Habita nesse EP aquela chama que não conseguimos nominar, aquela luz acesa que nunca se apaga, mas que é tão fluida e orgânica que tentamos de várias maneiras- palavras, sons, fotografias- registrar esse tipo de certeza tão fugidia. Por isso podemos encarar a primeira fase da obra do Dance Of Days (que tem seu ápice em Lírios Aos Anjos) como uma espécie de exceção ao novo caminho pavimentado pelos caras, mais estabelecido em nossas certezas.

Porque eles sabem quem são os combatentes, eles sabem dos adolescentes solitários e perdidos que abraçam na música instantes raros de transcendência. Não há vergonha de converter essas sensações em "hinos" que são musicados em esperanças, no esquema tão comum de utilizar refrão em prol não de um rompimento com meras formas musicais, eles não querem isso, mas sim utilizar de terrenos e variações já conhecidas para explicitar que há outras formas de viver fora desse espaço confinado que nos ensinaram como realidade. Recorrer ao hardcore punk é completamente justificável, talvez porque apesar de tão esculhambado, ainda é uma pedra que insiste em ir contra o fluxo da corrente. O conceito de libertação, na visão do Dance, se passa sim por formas de expressão simples que abrigam uma complexidade íntima enorme, não em forma de estética, mas do exorcismo sentimental em forma de manifesto, assim como os stages dives, os sing along e toda essa porcaria que ainda amamos depois de todos esses anos. Ao notar que tantas coisas passaram na minha vida, tantas pessoas e tantas lembranças, me pego realmente surpreso por uma banda que eu amava há dez anos atrás ainda se fazer presente, e reparo que o Dance é como a luz do Morrissey e que, embora as vezes tão fraca e pouco constante em minha vida, permanece em algum canto recôndito para voltar com toda força. Então eu aumento o volume para tudo se resumir nessas músicas, onde o diálogo com os rostos suados dos shows ressurge como memórias involuntárias. Minha impressão é que voltar nessas canções sempre vai me dizer algo essencial para o momento que esteja passando.

E agora que escuto tão pouco o que se convencionou chamar de hardcore punk, a ética ensinada por bandas como o Dance Of Days se mostra como uma das coisas mais legais de minha vida, esse amor incondicional pela expressão, uma espécie de necessidade que urge a cada final do dia, enquanto volto do trabalho idiota e as nuvens carregadas e acinzentadas sinalizam desdém. Temos nossas armas para enfrentar os covardes do cotidiano e as músicas sempre me lembram do garoto que sonhava acordado ou que ficava sem ir pra rolês por um mês para ver shows de lançamento no hangar, em troca de quatro horas de suor e voltar rouco enquanto garoava em São Paulo. O maior mérito do Dance, então, continua sendo o mesmo de anos atrás, e isso ao invés de ser sinal de estagnação, é uma marca notável de um compromisso sério com a devoção dos fãs e ao estilo de vida escolhido, e por isso essa base sólida de seguidores. A figura de Holden...

São micro influencias que podemos notar todo dia, na forma com que me relaciono com pessoas queridas, ou nas dezenas de bandas que fazem som por ai, nas mais variadas movimentações, que foram impulsionadas por álbuns como A História Não Tem Fim. Os limites são instituídos e, uma vez lançados no mundo, só nos resta quebrá-los. E na minha trilha sonora de rompimentos, o Dance Of Days sempre se fez presente.


domingo, 9 de fevereiro de 2014

A ambição do Title Fight

Title Fight é uma das  minhas bandas favoritas. Sério, fica difícil imaginar como seriam meus últimos cinco anos sem a música desses rapazes estourando meus ouvidos. Abaixo, uma pequena análise da carreira da banda e de como eles evoluiram, absurdamente, nos últimos quatro, cinco anos.

The Last Thing You Forget [2009]


 

Pop punk sem a parte chata do negócio.

“I'm not hiding out, I'm far away.”

Title Fight é uma banda rara. Esse álbum é a prova disso. O conjunto não carrega o ritmo otimista tão comum das bandas do gênero. Ultimamente, a tendência tem sido coros empolgantes, som mais limpo. O que acarreta em um punhado de bandas parecidas. Canções com letras chicletes, condução hardcore melódico e pausas para o vocal cantar sozinho e tá tudo certo. Title Fight deu o primeiro passo para fugir da obviedade nessa compilação. Todas as canções fluem sem parecerem com aquelas fórmulas pré-estabelecidas e, coisa difícil no pop punk, não tem aqueles “breakdowns” irritantes no meio. Pegue a honestidade brutal emocional do Lifetime, e o Brand New nas situações limítrofes que propõe, temos o Title Fight.

The Last Thing You Forget é uma compilação entre um EP do Title Fight e um Split. Há também algumas músicas novas. Todas as canções dispostas de forma que não vão te entediar. Symmetry abre o jogo, e já introduz rapidamente o som geral da banda. Dois vocais alternados- um mais berrado; outro mais limpo- punk rock acelerado. Embora isso seja o que marque todo o álbum, os caras são grandes músicos e criativos letristas. O que fatalmente vai te deixar querendo mais ao término do disco. Angústia adolescente desabafada da forma mais honesta possível. A simples ideia de solidão é o que assusta o eu lírico. Algo que obviamente faz o ouvinte se relacionar diretamente.

The Last Thing You Forget é uma bela estreia! Mal posso acreditar que verei essa banda ao vivo. Cria uma conexão muito forte, dessas de berrar as músicas mentalmente enquanto está entediado num trabalho chato. Você vai querer ouvir mais Title Fight.

“I'm burning down all of these memories
Throw the ashes out to sea”

Shed (2011)  



O Title Fight melhorou muito e avançou para direções digamos, hum,mais adultas. A banda mereceu uma nova chance mesmo para os que não gostaram dos lançamentos anteriores, pois a fase hardcore/pop-punk aos poucos era deixada como mais uma ferramenta sonora.  No primeiro álbum cheio, o conjunto decidiu por canções mais arrastadas, volumosas, impressionando de fato desde a primeira ouvida.

A banda acertou em cheio ao somar influências punk rock de bandas como The Draft, o emo do The Casket Lottery e a melodia do Make Do and Mend. Na verdade, se pegarmos os álbuns dessas três bandas, e fizermos uma seleção de melhores momentos, teremos o Shed. O acerto foi aí, saber fazer a transferência do som mais acelerado e melódico para as guitarras e vocais dilacerantes.

Lógico, não podemos esquecer-nos de citar “27”, que é uma das músicas mais comoventes que ouvi na vida. A variação entre as canções no Shed atinge certa constância, o que é um grande mérito para uma estreia, a ordem das músicas torna tudo mais legal, com meio-tempo, canções arrastadas e as mais aceleradas.

Title Fight acertou em cheio ao se juntar com a gravadora  SideOneDummy, que já vinha lançando algumas bandas promissoras. O que vale uns parabéns para a gravadora, também, por enxergar numa banda ainda em fase inicial um potencial que talvez seus lançamentos antecessores não demonstrassem. Uma das maiores surpresas musicais, com certeza! Para fãs do que se convencionou chamar “post-hardcore” se debruçarem e berrar em plenos pulmões (enquanto mosham!).


 Floral Green [2012]  



Se em Shed é constatada a fase da mudança, da transição para uma suposta vida adulta, em Floral Green nos é mostrado o espanto em se perceber paralisado no mesmo lugar.

Os anos 90 desfilam entre as músicas, passando por nomes mais “discretos” como Christie Front Drive e Lifetime, ou os ruídos do Mudhoney e Sebadoh. A banda funde essas influências externas com sua própria proposta para novamente lançar um álbum que se destaca dos outros. As composições e estrutura musical atingem o topo em comparação ao que haviam feito e experimentado; arrastando, explodindo.

As letras falam de incertezas, fracassos pessoais, como em Numb, Nut I Still Feel It: “I held my breath through every title/ I wish I could get over this feeling of slipping under/ I never get that far”. Vale notar a maneira que Ned Russin cresceu liricamente e como vocalista. Pode-se conferir exatamente a mesma sensação de fracasso em Leaf: “Pull down the shades/ Rather stay inside all day/ My own thoughts are in my way/ Rather sleep than have to stay”.

Jamie Rhoden opta por seus vocais mais baixos, embora permaneçam certeiros e passando certa sensação de cansaço do eu lírico. Rhoden divide os trabalhos de guitarra com Moran, e estas muitas vezes se difundem pelo disco, caóticas; afogando-nos numa poderosa imersão sonora. As letras cabem perfeitamente nos vocais mais lentos, bem feitas para serem cantadas junto. Veja bem, o formato Title Fight é muito mais punk rock do que hardcore nesse disco, certas canções contem simplicidade e profundidade tremendas.

As transições são dissonantes, ruidosas; o que tem muita a ver com a forte influencia de bandas da Dischord. Essas partes mais arrastadas e angustiadas resumem-se perfeitamente em Head In The Ceiling Fan, onde a letra abstrata casa com o clima delongado. Competente também são as partes em que Rhoden e Russin dividem os vocais, em canções viscerais, bem rock’n’roll. O interessante é como os estilos e tons se diferem, embora a temática seja sempre introvertida, essa oscilação ajuda o álbum a não cair na monotonia.

A parte “experimental” da banda é mais bem aproveitada em Lefty, aonde uma bateria torta conduz a música, enquanto Rhoden não hesita em desafinar propositalmente. Com certeza uma influencia de bandas como Hole, nos componentes elétricos mais lentos.

Floral Green é um álbum que precisa ser ouvido diversas vezes para ser “digerido”. Com certeza não tem o impacto inicial de Shed, mas em contrapartida, é repleto de detalhes e não soa enjoativo. O desenvolvimento desses garotos eclodiu em uma verdadeira ode às guitarras, com letras introspectivas.

Spring Songs [2013]  



Embora o cenário punk em Kingston seja cheio de nomes locais realmente poderosos, requer muito trabalho para uma banda, além de tentar romper com preconceitos sonoros dentro do gênero, se tornar um sucesso internacional. É claro que você precisa de canções brilhantes, e isso o Title Fight tinha um punhado. O problema é que, mesmo Floral Green rompendo a com as tradições musicais da banda, as canções ali tinham mais ou menos o mesmo esquema. A banda é produtiva, respeita suas referências Straigh Edges, fazem turnês com bandas menores da cena. Eles não largam tempo, como exemplo inusitado, a conta da banda no twitter tem milhares de seguidores, enquanto o conjunto não segue ninguém.

Muita gente que não acompanhava a banda chamou esse EP de “ambicioso”, deixando claro que não conhecia a música. Para mim, fica claro a invasão de suas influências como Kid Dynamite, Jets To Brazil e The Get Up Kids no tão chamado indie rock. Vale chamar atenção para que o Title Fight acabou de ultrapassar a adolescência. E como nos últimos lançamentos da banda tinham progredido muito qualitativamente entre um e outro, podia se esperar muito desse EP. Spring Songs reveste, novamente, o som do conjunto, mostra quão ambiciosos são.

São quatro canções, duas cantadas por Ned Russin e duas por Jamie Rhoden. Alguns vocais são ouvidos na base da produção analógica, outros maravilhosamente hiperproduzidos em cima de várias texturas de guitarra. Isso só mostra as pequenas mudanças que eles realizam para se renovar e atingir uma nova estética. Em “Be A Toy”, Rhoden conduz a música que pega influencias claras de Lifetime e o Superchunk no início de 90. Essa é uma música que o vocal cuidadoso de Jamie, meio desleixado, arrastado, contrasta com a música mais “animada”. Já Rhoden, o baixista, canta com pura explosão, algo entre Mudhoney e o punk rock melódico que emergiu em 94.

Pode-se afirmar que esse é o lançamento menos “característico” do Title Fight. Pelo tamanho das músicas –elas seriam as mais longas se estivessem nos últimos dois álbuns- e pela falta de estrutura punk na sonoridade. O que as letras não perdem são o foco direto. Os tópicos continuam tendo letras “focadas”, ao mesmo tempo em que vagas o suficiente para relacionar o ouvinte. Com muito comedimento nas letras, Russin entrega a quem escuta toda a parte dramática das canções no vocal, fica tudo subentendido. Os temas, aliás, são muito parecidos e até recorrentes de Floral Green. Talvez o único pecado de Spring Songs seja esse, como a banda é muito ansiosa a respeito de novos lançamentos, os assuntos acabam reaparecendo com certa recorrência.

Com certeza Spring Songs é outro passo importante e distinto para a banda, que deixa na cabeça de muita gente a seguinte pergunta “como será o próximo lançamento deles?”. Muito legal ver que TiItle Fight embora faça um som decididamente mais abrangente, ainda tem uma postura muito “faça você mesmo”. Uma coisa que tenho comentado com amigos recentemente é como é estranho ver a dificuldade da galera que gosta mais de rock de guitarra anos 90, demorar e até ter uma resistência a bandas como Title Fight, que ainda é ligada ao hardcore punk muito mais pela postura e pela sua base de fãs do que o som em si. Com certeza, se pedimos para eles ouvirem sem essa pré-rotulação que às vezes beira a idiotice, vão ver o real Title Fight: uma banda tão nova quanto ambiciosa.