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segunda-feira, 9 de março de 2015

Empate – Empate [2015]

É muito difícil falar desse EP e não me lembrar de 2007, quando um amigo mostrou a demo do Algernon Cadwallader. Naquela época, eu não estava muito por dentro do que acontecia com o “emo”, e continuava a ouvir as bandas antigas que eu adorava e continuo adorando. Naqueles dias, eu não sabia do “boom” que essa pequena derivação do hardcore/punk/indie (seja lá o que for), teria nos anos 10s e quantas bandas interessantes apareceriam. Então eu percebi que aquela nostalgia barata poderia ceder mais espaço a um bando de jovens que queria produzir músicas com enorme carga dramática e a margem dos caminhos do mercado. Se naquela época aquilo ainda só se esboçava, EP’s como esse do Embate surgem para confirmar que todas aquelas bandas dos anos 90 se esforçaram e que o resultado continua sendo gente muito empolgada em desabafar e exteriorizar tudo o que nos contamina nessa vida. Ouvir Empate, pra mim, é uma celebração de um passado que valeu a pena ser vivido e de um presente que, apesar das inúmeras merdas, merece ser comemorado.

Mas eu não quero dizer que a banda é uma mera “réplica” de outros grandes nomes no ‘”gênero”. Pode-se encontrar nesse EP uma interessante variação, tanto temática quanto instrumental. Num punk bem cativante, as guitarras dedilhadas interagem criando melodias intricadas e mudanças de tempo, contando com vocais empolgantes – às vezes, em coro. O vocal  de Cassio é realmente comovente, e embora ele se debruce sobre temas cansativos que implicam em desgaste, ele enxerga ações que, embora não derrotem de fato esse mal-estar que parece estar sempre presente, diagnostica em seus berros suas angústias. Em “E aí Doutor?”, a parte mais inquieta assalta e vai culminar em um coro de vozes, onde o eu lírico só quer “esquecer quem é”. É curioso, pois, na faixa seguinte, “De Escama”, ele é caçado por uma autoconsciência que reflete apenas cansaço. Às vezes, dá vontade mesmo de parar de tentar, porque é tudo muito estressante. Parece que ninguém nos ouve e ficamos muito esgotados para esboçar qualquer ação.

Ainda em “E aí Doutor?”, onde uma espécie de “mau exemplo” se insinua, na verdade há sede para se proceder de maneira mais própria, tentando se livrar dos dogmatismos estagnados socialmente. Já em “De Escama”, o desenvolvimento instrumental mais lento gera uma ambiente de reflexão um tanto quanto solitário, o que é evidenciado quando o vocal afirma que “quanta mais tenta, prefere ficar de escama”. No fundo, essa ânsia por autonomia e essa reflexão sobre “estar à margem” fundem-se e sinto que é a temática principal do disco, mesmo que às vezes mais cobertas com o humor. “Sr. Fernando” tem uma introdução interessantíssima, revelando uma batalha entre as coisas mais “básicas” da vida, envelhecer e amor.


Esse EP é o registro dessas bifurcações constantes entre desejo de distinção e de alegrias mais “simples” e imediatas, no momento que conhecemos como “agora” e a quantidade de dúvidas que tais aspirações causam. A gravação do disco opta pela “crueza” necessária para retirar vida da mesmice cotidiana, tendo como antídoto os gritos e os instrumentos tocados e a ânsia por serem ouvidos. É algo altamente pessoal, mas podemos compartilhar dessa percepção de escape. Mas não me refiro a uma escapada de tempo. Não! Eles sabem que essa medida já está morta, e querem doses e botar tudo pra fora e pronto! O Empate consegue nos atingir com o que se propõe a fazer e traz suas dúvidas assim como a convicção de que ganhar e perder faz parte, e sempre terá uma próxima batalha.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Better Leave Town - Better Leave Town [2015]

As experiências ressoam em todos os passos que damos- os dramas, as despedidas, os desencontros. E de alguma forma maluca, ainda continuamos expostos aos mesmos machucados, como num loop onde as memórias são mais parecidas com fantasmas desdenhando de nossos erros (e acreditem, são muitos erros). Esses eventos que mexem muito conosco quando estamos nos vinte anos e temos certa tendência ao sentimentalismo. Naquela idade em que se percebe que nossa história passada é formada mais de rabiscos do que linhas concretas e que o que está por vir não deve ser tão diferente. Nós perdemos, mas continuamos. Um jogo cíclico e cínico de risadas, arrependimentos, discussões, indecisões. Como se a vida fosse sempre um teste que temos a certeza que está tudo armado e não vamos passar. Pensem nesse disco como uma catálise dessas sensações. Mas pensem também como uma pausa da experiência concreta com elas e um momento, no fim do dia, exaustos do trabalho, para pensar em tudo. Ou absolutamente nada.

É muito clichê falar em maturidade, até porque as canções depõem sobre incertezas que se enfrentam na vida. Mas nada no primeiro disco cheio da banda soa “fora de lugar”. Ao contrário, chega a ser ridículo a experiência que a gravação inteira exala. E que me remete muito as bandas dos anos 90. As emoções dos vocais variam desde linhas mais cadenciadas e aparentemente mais “sóbrias”, até partes em que as letras são praticamente faladas, como um desabafo. Os tempos difíceis se aproximam, e não sabemos se os caminhos que tomamos estão certos. Aliás, nem sabemos de fato porque ou como chegamos aqui. Não quero que pareça que esse disco se “resuma na incerteza”; é mais sobre a confusão dos dias, o turbilhão da memória, o futuro confuso e difuso. De fato todo álbum é uma jornada, e esse disco relata a perda do controle, especialmente quando vemos tudo que planejamos ruir. Home Drive, Long Night expressa essa introspecção, em constante movimento, mas sem ter a certeza de onde ir ou a origem de nossos caminhos.

São estruturas do cotidiano que fazem a banda passear por temas em que tantas interrogações figuram. Eles sabem que tudo é instável e que vamos envelhecer instáveis e que as contas vão chegar ao fim do mês. Mas, obviamente, é impossível remover as dificuldades e então é sempre como agimos nessas situações. Enquanto avançamos na gravação e escutamos consecutivas vezes, podemos notar os pontos focais em que as faixas se imanizam. É sempre um transe constante entre prisão/necessidade/ movimento contínuo.


O Better Leave Town opta por expressar as visões e a partir daí (dessas microssituações sempre específicas) discorrer sobre os temas diários que pesam sobre nossos ombros. Mais do que um extravaso, são reflexões sobre essa coisa estranha que chama passado e essa entidade estranha que por acaso tem um corpo. São determinações densas profundamente pessoais, no atrito constante entre o ritmo enérgico mais “cativante” e uma espécie de sobriedade introspectiva, onde os riffs altos soam exatamente essa ambiguidade. Tenho muita convicção de que se você costuma gostar das bandas voltadas ao “emo” que posto nesse blog, você vai sentir um compartilhamento com o BLT. Cada música gera um campo de análise e são analises empíricas, atravessadas e que se expressam na música para poder garantir uma existência, também. Se não captamos quem éramos anteriormente, então mudamos um pouco e o mundo girou. E é com a honestidade e crueza que encontramos nesse disco que podemos ter certeza que as coisas estão mudando. Para onde, não se sabe.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Jovem Werther- EP [2014]

Não há controle possível quando tudo parece perdido. A casa fica mais vazia, sair do quarto parece impossível e nós ficamos horas e horas lembrando tudo. Parece que nada vai ser bom novamente. Então, (quando a gente cria força o suficiente) ficamos andando a toa por aí. Esse EP é para acompanhar essas caminhadas. É um companheiro de travessia. Quando não nos reconhecemos mais em signos externos, todos desintegrados. Canções abertas para a dor, para recolher os resquícios. E o Jovem Werther tenciona seus elementos com uma carga dramática crua. Se você teve alguma experiência similar que a banda aborda em suas canções (eu, com certeza, tive) vai haver um reconhecimento instantâneo, alguma amizade para reconhecer na escuridão.

Escuridão essa que não é um “mundo perdido” ou qualquer bizarrice do tipo. Eles tratam de um terreno em que a insegurança somada com a saudade, coordena uma sensação de não pertecimento- o fim está próximo. É como se esse EP existisse para revelar o subentendido, ou estimular sensações que as letras sugerem. São lembranças destroçadas pela memória e que teimam em surgir como assombrações, numa espécie de “desentendimento contínuo” com o passado e a forma bizarra que sua sucessão instiga em nossos comportamentos, em nossas andanças. Podemos concluir que essa soma de frustrações como os gritos, os acordes (mesmo que numa produção mais ‘lo-fi’) designam um terreno obtuso, difícil.

E, abordando esses discursos íntimos bem pesados e auto conflitantes, eles fazem um EP que não envergonharia um I Hate Myself. Há as partes mais “oníricas”, endossadas pelas guitarras distorcidas em uma “fragmentação” de texturas e as partes totalmente cruas, onde a discórdia dá o tom e se imprime na contradição entre “andamentos bonitos x letras e vocais sufocados”. É amplificada nesse sistema, então, a sensação de inospitalidade. Veja bem, não é que a banda não soe como uma “unidade”, mas os atritos que as músicas sugerem apontam para o embate inevitável de quem não se sente confortável nessa terra e é “perseguido” pelo passado, pelas confusões mentais. Como se a certeza de unidade fosse, ela própria, desafiada pela vida real- não a toa que o termo “desespero” caiba muito bem para esse EP. Em algum ponto, o vocal afirma, “não que eu esteja mal/ nem que seja o fim do mundo”, mas percebemos que ele está se enganando, percebemos sua confusão. É o fim do mundo! Aqui, o que “está dito” subentende o “revelado no dito”. Eles não querem ampliar uma “diversidade sonora” nessa transição de influências que se pode perceber; eles agrupam instantes claustrofóbicos em signos onde esse terror possa se expressar. Trata-se de confusão mesmo, perdição pura e que parece muito difícil de encontrar um caminho de “retorno”. O que se fazer quando tudo bom “ruiu”?


Esse EP é sobre períodos difíceis, sobre tentativas fracassadas, sobre derrotas. Períodos da existência que todos passam (alguns sofrem mais, outros menos). Essa gravação inclui muitas perguntas e poucas certezas, um tempo de questionamento e volta constante do que “já se passou” e como esses momentos continuam a nos caçar, troçando e esmagando qualquer possibilidade de expectativa futura.  “Último Farol” sugere um fim bem complicado e doloroso, um adeus a vida cujo único “paraíso” é a possibilidade de não se viver mais. Ninguém quer forçar respostas ou algo parecido, mas todos esses momentos que nos caçam foram impressos em uma história e caracterizam uma vida. “Último Farol” então pode ser vista como uma possibilidade, daquelas que pensamos quando tudo parece tão frágil. O curioso é que tudo é sim, demasiadamente frágil, ainda assim algumas coisas são tão amplas e abstraem a ponto de recorrermos a elas quase sempre; daí os “parques do bairro” representam uma história e também uma tormenta. Tudo junto, sem dicotomia simples. Porque nada é simples, os momentos se reproduzem e se dissipam, ainda assim, de alguma forma, estão lá. E vamos voltar a eles, querendo ou não.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

The Arms of Sleep - Chinese Houses [2014]

Acredito que, para muitos de vocês, a maior dificuldade hoje em dia é, “onde catalogar música boa e daí descobrir algo que realmente valha à pena”? Eu mesmo já segui e fui atrás de vários sites para “acompanhar”, até que dei um chega- pelo menos pra mim, que conheço uma quantidade relativa de gente cujo gosto eu considero “próprio”, as informações tem simplesmente chegado. Deste modo, surgem diferentes ritmos- um mais dissonante e maluco que o anterior- que caem no meu colo e descubro uma grata surpresa. Note-se que, obviamente, o primeiro lançamento do The Arms Of Sleep é um desses registros que surgem quando todas as listas de melhores discos já foram feitas e abala sua própria noção de música. Fico muito, muito contente com a capacidade sistêmica de a música me surpreender.

A integração dos sons compõe sistemas de conceitos que não sabíamos que habitavam em nós- calma, tranqüilidade, relaxamento e paz. Mesmo nos seus instantes mais tensos e fragmentados, Chinese Houses se estabelece como uma proposta fixa de que, no fim, há uma espécie inflexível de calma. Mais do que isso, todos os sons “paralelos” às melodias principais intensificam essa sensação. Tudo isso se envolve numa obra que, quando visitada de uma só vez, corporifica em seu fim tudo o que esperávamos desde seus primeiros versos. Não é como simples “fim, inicio e começo”, não! Mas uma continuidade que vai resistir mesmo quando o disco acabar. As melodias são eficientes ao ponto do instrumental resistir ao mundo externo. Cole Weiche (que é o The Arms Of Sleep) influência nossa percepção sensorial a esse ponto.

O contexto em que vivemos- um amontoado urbano cacofônico, trágico, perturbardor- necessita de pausas tão serenas e meditativas como The Arms Of Sleep. Para nossas perspectivas não persistirem tão depressivas e amparadas em um estado inerte de melancolia. Outras perspectivas merecem serem erguidas e construídas como “esperanças”- porque ao existir uma esperança, existe um momento de espera. O momento de espera é sagrado à medida que este providencia transcendências apesar da realidade.


Embora tenha lá seus clímaces, Chinese Houses é construído sobre um sistema de pensamento decididamente sereno. Um sistema de pensamento que planeja rotas de fuga da velocidade opressiva do mundo. Um período para fechar os olhos e respirar fundo. Não tem uma finalidade porque vamos precisar de instantes assim a todo o momento. Chinese Houses é o presente que merece ser desfrutado, esquecido por preocupações mundanas e temporais. No entanto, há vários “cortes” que desconstroem a música- como para lembrar o fim da efemeridade. Chinese Houses se torna ele próprio um paradigma de suas esperanças. Se repararmos bem, seu interior está cheio de “desconstruções”. Isso porque Cole sabe bem que música não é utopia. Na falta de construções objetivas- temos a esperança. É um disco que clama por nossa relação com ele. É um disco que, de certa forma, nos compreende. Um ponto para fugir. Um ponto no meio do caos.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pianos Become the Teeth e a solidez da dor

"Eu gostaria de enterrar algo precioso em todos os lugares onde eu estive feliz e então, quando eu estiver velho e feio e miserável, eu poderia voltar e desenterrá-lo e lembrar."
- Evelyn Waugh, Brideshead Revisited

I

Dois cavalos, árvores desgastadas, um campo deserto. Esse é o panorama da arte da capa de Old Pride. Quando ouvirmos a primeira canção, uma profusão de emoções vai se acender sobre nós.

Em Old Pride, nós temos uma banda que obviamente tem muito a mostrar. A natureza intensa e os gritos franzidos, embora algumas vezes percam a mão, mostram o grande talento da banda e um potencial enorme para um disco definitivo. Percebe-se que cada músico lidera com notável conhecimento seu instrumento.

Seria, de fato, um disco ainda melhor se tendesse mais  para “Cripples Can’t Shiver,” (belíssima história sobre um família destruída pela doença) do que Young Fire, que é um post-rock muito genérico. Mas, além disso, há histórias de micro deslocamentos remetendo ao cotidiano, colocando muito emoção nos momentos mais “comuns”. Transformações que modificam para sempre nossas vidas e que nem sempre são notadas. Implicando em angústia uma espécie de desespero pela urgência de melhorias. Fica em dúvida nossa capacidade de se recompor e lutar contra as adversidades. São trinta e seis minutos de screamo baseado basicamente na emoção. A produção é muito acertada, embora relativamente “polida”, consegue manter aquele climão de “show de porão”. Ainda que uma banda realmente orientada pelo “screamo”, é notável a influência de bandas como Thursday, por exemplo.


Old Pride pode conter certa dose de “falta de originalidade”, mas é muito inquestionável seu valor enquanto carga emotiva, catapultando o PBTT em uma das melhores bandas de screamo na época do lançamento de seu primeiro disco (ao lado do Touché Amoré e do Sed Non Satiata). Embora exista claramente uma tendência da influência post-rockeira em bandas desse tipo, a abordagem e atmosfera erguidas em Old Pride –suas pequenas histórias, a épica canção sobre deterioração- valem a ouvida. O que caracteriza o Pianos é a voracidade e momentos destruidores, empacotando em menos de quarenta minutos sinceras entregas emocionantes. Muita gente disse que era genérico; “repetição dos melhores”, mas os berros, “SIX HOURS, SIX HOURS”, certamente comprovam o contrário.
II

Se em Old Pride tínhamos uma banda ligeiramente perdida no seu grande leque de influências, The Lack Long After estabelece o conjunto em outro degrau. Embora seja inegável a influência de bandas como Heaven in Her Arms e Portraits of Past, o Pianos aqui sai da mera emulação para definitivamente lançar um álbum que dignifica a banda em uma categoria bem própria. Ainda temos a perspectiva da morte, de como nos comportamos perante isso, porém decididamente mais aprofundada e agonizante também. Claramente o “fim da vida” é a principal abertura que a banda encontra como expressão artística, assim como suas exaltações instrumentais e tristes passagens líricas. Deprimentes. Poucos álbuns me fizeram alguma vez chorar, mas a melodia fora do tom propositalmente na última faixa é simplesmente devastadora. É com certeza um disco mais “direto” ao ponto que o antecessor, e talvez não acuse tantas variações, mas isso se adapta surpreendentemente bem com o conceito proposto. Vale repetir: The Lack Long After é uma experiência pessoal extremamente emocional, com nuances de perdas e nossas fúteis tentativas de superá-las. Um dos meus discos de screamo favoritos e que causa devastação a cada escuta.

The Lack Long After aproveita mais os minutos de cada faixa (as conduções entre o fim de uma música e o início de outra “encaixam” o conceito), deixando o disco uma experiência mais profunda que o antecessor. Os relatos são passados em cenas que a memória irrompe como busca de explicações ou anestesia, em combate com os constantes arrependimentos do eu - lírico. Essa espécie de “não-discurso”, onde a banda fica atolada por problemas muito maiores do que ter que determinar uma estética própria, é o que valida todo o sofrimento que o álbum quer e consegue passar. Pela falta de um compromisso discursivo, acaba tudo soando mais genuíno e sincero possível.

Apesar de ele ser mais “direto” que o antecessor, The Lack Long After tem épicos momentos emocionais enquanto a banda simplesmente desmorona a cada canção. Os vocais limpos foram adicionados aqui e ali, e os berros ficaram mais intensos, quase inintelegíveis- as duas guitarras também encontram uma combinação melhor na troca de acordes. O que mudou realmente é que temos uma banda mais “comprometida” com a sonoridade e estética. Parece que eles deixaram para trás aquela idéia de “temos que unir post-rock e screamo, fazer crescendo na parte correta antes da tremulada, etc.” e deixaram-se guiar pelo que eles realmente intentavam revelar. A maior “transformação” foi decididamente a opção pelo som mais “pesado” e “obscuro”, tornando o disco uma seqüência de canções agonizantes que tem como tema principal predominantemente a morte. Muitos talvez pensem que optar de forma tão rígida em um tópico reduzisse o aproveitamento de assuntos tão pertinentes quanto, mas o Pianos ao se debruçar sobre a morte e revela nitidamente como todas nossas outras ações parecem girar exclusivamente em torno dela. O que normalmente é realizado quando bandas não sabem mais o que fazer- ou seja, optar por uma estética mais “pesada”- foi um acerto claro para o conjunto e sua capacidade de empacotar em menos de quarenta minutos, com uma abordagem curiosamente delicada (não caindo no melodramático) ainda assim sofrida. São sentimentos resultados diretamente do caos e da paixão, naquele ponto em que as explicações não são palpáveis, mas há uma larva interna que precisa ser exposta por esses registros.

Acho que devemos reservar um espaço para I’ll Get By, a última e melhor faixa do disco. Com os tons da guitarra decididamente mais baixos, o vocal de Durfey soa fraco, exposto e frágil. Enquanto o clímax da canção se desenvolve, esse sofrimento parece inabalável e continua- mesmo nos berros, parece que não há saída para essa debilidade- nas sensíveis alternâncias entre vocais gritados e limpos na mesma frase! (aliás, aceito sugestões de bandas que também fazem isso). Pode-se afirmar que o disco todo é escrito tão visceralmente quanto Filial, música que inaugura Old Pride, onde caos e beleza se encontram e são apresentados nos mesmos momentos. As abordagens continuam excelentes, sempre com uma propensão à tristeza e dor, sentimentos que a banda parece conhecer tão bem ao criar dois discos que basicamente retratam isso (Old Pride é um pouco mais “feliz”). O que caracteriza uma temática rígida da banda, mas que ganha “validade” ao evidenciar tamanha evolução entre os discos, deixando claramente a influência de outros grandes nomes do screamo para trás.

Em The Lack Long After, a banda destrói os “limites de gênero” que demarcavam Old Pride, para nos mostrar o quão impressionante esses manos são. Em última instância, temos uma experiência limítrofe e sentimentalmente desgastante, uma viagem de encontro à certeza do fim e da solidez da dor.

III

Ok. Não temos mais os gritos. As viradas incríveis na bateria. Nem mais aquele som abrasivo, construído sob uma potente tensão efêmera à base de crescendo. Ao invés disso, uma pequena, tranqüila e solitária chama melancólica que insiste em se fazer presente mesmo no terreno frio.  Um som minimalista que estimula uma atmosfera de aceitação, apesar da intrínseca tristeza revestida. O panorama dessa nova fórmula do Pianos não é mais de caos. Mas, sim, do que ficou registrado em nossos corpos e nossas mentes depois de períodos devastadores (e pelo dois discos anteriores, realmente devastadores). Aquela profusão sonora que teve seu ápice em The Lack Long After (especialmente na última faixa) é colocada toda de lado para uma abordagem totalmente intimista, próxima. Percebe-se que a banda já achou esgotada a interpelação anterior- o assunto não é mais trauma pós-morte, as guitarras não precisam competir com os berros do vocalista- e decidiu não falar sobre o aniquilamento, mas o que fazer a partir da morte de alguém próximo. Por isso as ondulações aquáticas brilhantes.
Os instrumentos vão, aos poucos, deixando rastros. Claramente, cada parte foi muito pensada antes de ser injetada na produção. Há momentos que esses “resquícios” (as músicas não são construídas especificamente em cima de acordes) se juntam para incorporar uma única entidade sonora que eu chego a pensar, “uou, é isso!”. Infelizmente, eles perdem a mão um pouco em algumas canções que são simplesmente monótonas, onde a bateria, por exemplo, poderia estar em algum disco do Capital Inicial ou Jota Quest que acharíamos a mesma coisa.

Com certeza, a maior mudança na estética sonora foi o vocal de Kyle. Agora mais do que a convicção da tristeza inerente à sua condição, temos registros cheios de dúvidas e indagações, frases que se contradizem. O problema é que, embora em canções como a que abre o disco, às vezes essa oralidade fica muito monótona, e algumas músicas simplesmente “passam” despercebidas. A sonoridade do Pianos se modificou não só nesses berros, mas em todas as outras dimensões instrumentais. Não podemos exigir que um conjunto não passe transformações e, considerando que eles tinham uma base de fãs relativamente sólida, é sim um mérito alterar radicalmente sua proposta sonora. Curioso o “símbolo” que estabelecemos para algumas bandas e, ao mesmo tempo em que exigimos para muitas delas se arriscarem, elas tem que ficar reféns de nossas próprias expectativas. Caso contrário, eles fariam algo como The Lack Long After sempre e pensaríamos “nossa, que foda”.Mas, e aí?

Mais uma vez, a faixa que encerra o disco é o grande destaque. “Say Nothing” representa tudo o que o álbum tem de melhor, delicadas frases de guitarra movimentando-se junto com vagarosas baterias, eclodindo com o vocal triste e angustioso de Kyle. Poderíamos afirmar que é praticamente “outra banda”, mas se pegarmos os aspectos erguidos por “Keep You” temos a mesma fissura e as mesmas incertezas. A diferença, agora, é que pelo menos há uma brecha em toda essa neblina.

Com certeza é um disco que não surgiu visceral como todos imaginavam. Ainda assim, o Pianos consegue nos intrigar com uma atmosfera redentora imanando aceitação (isso não tinha nos álbuns anteriores) e deixar um marco totalmente diferenciado em sua recente discografia. Em última instância, é uma banda que deixa para trás suas companheiras e se lança um futuro totalmente imprevisível. O perigo, claramente, é ressoar como as canções mais “sem graça” de Keep You. O perigo também vem de nunca mais ser tão feroz quanto antes, mas claramente é um conjunto que não se importa tanto em simplesmente agradar os fãs.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Obrigado, Dance Of Days ! O Melhor Tempo De Sua Vida (2014)

O melhor tempo de sua vida começa com um chamado ao grito, antecedido pelo baixo e bateria. Há tempos que Nene deixou o "lirismo" mais de lado, sendo o mais direto possível em sua mensagens, alguém que testemunhou várias reviravoltas de cenários em uma suposta cena, e que ainda persiste socando ponta de faca, entre gritos e melodias apaixonadas e furiosas, sempre passionais. A proposta é como um testemunho de quem também variou tanto quanto a movimentação faça você mesmo que eclodiu nos anos 90. As baterias noventistas, onde a produção é certamente de quem não busca correções eletrônicas. O Dance Of Days sabe muito bem sua capacidade musical. Se trata da relação de devoção pelos caminhos que já foram tomados, um salto em um terreno conhecido para revelações que ainda se fazem persistentes, principalmente quando confinados na histeria paulista e os micropoderes estabelecidos desde o lar até as ruas. É a própria contradição interna de se guiar por mapas socados em nossa mente. Por que se machucar com parâmetros internos e que são praticamente bizarros de tão sem propósito? Habita nesse EP aquela chama que não conseguimos nominar, aquela luz acesa que nunca se apaga, mas que é tão fluida e orgânica que tentamos de várias maneiras- palavras, sons, fotografias- registrar esse tipo de certeza tão fugidia. Por isso podemos encarar a primeira fase da obra do Dance Of Days (que tem seu ápice em Lírios Aos Anjos) como uma espécie de exceção ao novo caminho pavimentado pelos caras, mais estabelecido em nossas certezas.

Porque eles sabem quem são os combatentes, eles sabem dos adolescentes solitários e perdidos que abraçam na música instantes raros de transcendência. Não há vergonha de converter essas sensações em "hinos" que são musicados em esperanças, no esquema tão comum de utilizar refrão em prol não de um rompimento com meras formas musicais, eles não querem isso, mas sim utilizar de terrenos e variações já conhecidas para explicitar que há outras formas de viver fora desse espaço confinado que nos ensinaram como realidade. Recorrer ao hardcore punk é completamente justificável, talvez porque apesar de tão esculhambado, ainda é uma pedra que insiste em ir contra o fluxo da corrente. O conceito de libertação, na visão do Dance, se passa sim por formas de expressão simples que abrigam uma complexidade íntima enorme, não em forma de estética, mas do exorcismo sentimental em forma de manifesto, assim como os stages dives, os sing along e toda essa porcaria que ainda amamos depois de todos esses anos. Ao notar que tantas coisas passaram na minha vida, tantas pessoas e tantas lembranças, me pego realmente surpreso por uma banda que eu amava há dez anos atrás ainda se fazer presente, e reparo que o Dance é como a luz do Morrissey e que, embora as vezes tão fraca e pouco constante em minha vida, permanece em algum canto recôndito para voltar com toda força. Então eu aumento o volume para tudo se resumir nessas músicas, onde o diálogo com os rostos suados dos shows ressurge como memórias involuntárias. Minha impressão é que voltar nessas canções sempre vai me dizer algo essencial para o momento que esteja passando.

E agora que escuto tão pouco o que se convencionou chamar de hardcore punk, a ética ensinada por bandas como o Dance Of Days se mostra como uma das coisas mais legais de minha vida, esse amor incondicional pela expressão, uma espécie de necessidade que urge a cada final do dia, enquanto volto do trabalho idiota e as nuvens carregadas e acinzentadas sinalizam desdém. Temos nossas armas para enfrentar os covardes do cotidiano e as músicas sempre me lembram do garoto que sonhava acordado ou que ficava sem ir pra rolês por um mês para ver shows de lançamento no hangar, em troca de quatro horas de suor e voltar rouco enquanto garoava em São Paulo. O maior mérito do Dance, então, continua sendo o mesmo de anos atrás, e isso ao invés de ser sinal de estagnação, é uma marca notável de um compromisso sério com a devoção dos fãs e ao estilo de vida escolhido, e por isso essa base sólida de seguidores. A figura de Holden...

São micro influencias que podemos notar todo dia, na forma com que me relaciono com pessoas queridas, ou nas dezenas de bandas que fazem som por ai, nas mais variadas movimentações, que foram impulsionadas por álbuns como A História Não Tem Fim. Os limites são instituídos e, uma vez lançados no mundo, só nos resta quebrá-los. E na minha trilha sonora de rompimentos, o Dance Of Days sempre se fez presente.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

A exposição em Owen: a intimidade explícita de Mike Kinsella.

"O amor é um substantivo abstrato, algo nebuloso. E ainda assim o amor acaba por ser a única parte de nós que é sólida, à medida que o mundo vira de cabeça para baixo e a tela fica preta."
- Martin Amis.

I



Mike Kinsella compartilha opiniões divergentes, porém seu legado para a música não pode ser negado, seja para o bando de adolescentes que se transformaram em adultos tendo como boa parte de sua música como trilha sonora para os conflitos emocionais de cada dia, seja pela insistência em praticamente o mesmo modus operandi que tem mantido desde 2001. Uma operação que opta por um caráter intimista. Boa parte do pensamento do que é o rock independente hoje nos EUA passa pela produção artística dele, sempre orientada no espírito “faça você mesmo”. Essa tendência em fazer as coisas do seu jeito, mas esteticamente muito diferente da cena punk, é o que faz render boas e boas horas de conversa sobre praticamente toda sua obra, ou seja, é inegável que a assinatura de MK é algo que conta sim- mais do que em veículos especializados, mas para quem absorve uma quantidade significativa de música todos os dias. O afeto à exposição completa em todos seus discos, porém, não significa em nada certa antipatia frente às grandes mídias, certo receio da pessoa ser mais analisada do que sua produção, o que não me incomoda realmente, é verdade- não há muita necessidade de palavras porque suas músicas portam tudo.

Nós precisamos perceber que a compulsão criativa de MK em 2001 estava a toda, e que essa continuidade tem se prolongado até os dias de hoje. Antes do álbum homônimo, porém, não se sabia qual o rumo que o compositor iria tomar. Mas sobre tudo havia uma expectativa relativamente grande pós American Football- iria continuar cantando numa nova banda ou tocar bateria para os projetos independentes de Chicago? A música, evidentemente, era impossível de largar. Aliás, todos nós sabemos de seu poder libertador da imersão temporal, e poucas pessoas produzem um universo tão particular como esse homem. Eis que ele decidiu se emancipar e partir para um projeto solo.

Há uma familiaridade com o nome Kinsella . Sua produção musical tem sido parte de nomes de bandas seminais como Cap’n’ Jazz, Joan Of Arc, Owls e principalmente no American Football, todos acontecendo em um período relativamente curto. Como disse antes, isso encaminhou em 2001 para grandes expectativas relacionadas ao seu projeto solo: o que ele poderia fazer sozinho?

Atenta-se para que a primeira vez que tocou como Owen foi abrindo para o Rainer Maria. Em seu primeiro esforço solo, Mike toca todos os instrumentos e ele nos oferece temáticas abordando morte, viagem, lugares- enfim, reflexões meditadas sobre um semiacústico, continuidade clara da estética de sua banda antecessora, American Football, o que, obviamente, agradou fãs antigos. Há erros e acertos, se pensarmos em uma concepção mais lógica, mas são músicas extremamente pessoais que resaltam mais as fraquezas dos seres humanos do que qualquer outro assunto, então parece ligeiramente natural que as partes “não tão boas assim” surjam, uma vez que é um trabalho totalmente faça você mesmo, onde o único músico participante tem cem por cento de controle criativo.

Owen [2001]
 A música aqui cai naquela ponte “entre” dream pop e um suave indie rock acústico, com melodias doces, melancólicas- Kinsella é especialista nessas coisas, seu pano de fundo musical informa isso. Ele se expressa em um tempo realmente lento, às vezes suspirando, deixando frases por continuar (o que acontece no título da segunda faixa, também), as guitarras são praticamente anuladas em função de todo desenvolvimento acústico e a estruturação de acordes que fogem do óbvio. É um tipo de sonoridade tão delicada que talvez seja uma ousadia classificá-la como ‘rock’. E não acho que Kinsella veria problema algum nisso, a imposição de sua música é realmente cativante em seu próprio molde. Uma melancolia da constatação do tempo, do que ocorre sempre em movimento.


Fica difícil não se apegar às melodias reconfortantes de Kinsella, a uma espécie de contemplação de pequenos instantes do cotidiano. Ficamos hipnotizados pela “fragilidade” das faixas. O álbum flui praticamente no mesmo tempo, com inegável apelo a uma estrutura decididamente pop, as vozes hora sussurrando, hora apostando mais em melodias lentas e reflexivas. Foge de lugares comuns nas suas vertentes, não há ritmo fácil, ou uma áurea “feel good”, são melodias elegantes e altamente autorais, desenhadas principalmente em conjunto com o violão, como se ambos interdependessem, abraçados para não romper a tênue delicadeza das músicas.Alguém poderia perguntar: “mas o que há de bom em músicas delicadas e frágeis, isso não é intrinsecamente ruim?” Obviamente que é um estilo autoefetivo se arquitetado por gente que sabe. Não que não contenha suas falhas (falo sobre isso no parágrafo abaixo), mas mirar em uma estética tão específica e detalhá-la de modo claramente milimétrico é uma coisa que o Mike pode se gabar. Não precisamos interpretar muito a fundo, toda sua carreira é prova disso- o uso estratégico de modulações catalisa essa sensação.

O problema do disco é que, embora ele atinja seu objetivo específico com êxito, há uma espécie de uniformidade abundante, abusando de passagens repetidas para tentar nos colocar em uma contemplação que na verdade já estamos. Não há problemas pelo fato de Kinsella desejar evitar um álbum mais múltiplo. Sua subjetividade e imposição pessoal devem sim prevalecer quando se trata de uma intimidade tão exposta, mas talvez ele devesse ter pensado em fazer o disco como uma grande e única faixa, ou diversos capítulos em torno do mesmo eixo temático.

A música expressa. Sua consciência está em representar signos nas pessoas, que consecutivamente se apegarão às mentalidades musicais mais próximas. As letras, em Owen, são o que mais ajudam a desenvolver uma espécie de afeto- para a parte instrumental, fica o onírico. “Passamos por tantas coisas difíceis de recuperar, ficamos tanto tempo tentando entender (pelo menos eu tento) as coisas que fizemos para hoje estar uma merda. E sofremos por não compreender”. O dia-a-dia é uma incompreensão. Essa espécie de vitimização (sem o elemento negativo aqui) é o que preenche as músicas de Kinsella. E quem consegue superar essas coisas assim, facilmente?

 A estreia do Owen não é perfeita- porém poucos discos realmente são. Mas podemos dizer que é um belo estudo sobre momentos bem específicos da vida. Entre idas e vindas, nos deparamos com elementos que surpreendem por dizer tanto sobre nós, sobre nossa história. Kinsella pôde sair por debaixo da aba tradicional do indie rock e se entregar à uma espécie de pop sem muito apelo comercial (quase nulo, na verdade). Autodidata, se estabelece como alguém com capacidade quantitativa de criar ótimas canções. Não é uma música panorâmica, mas tem um apelo interno enorme. E é dentro de nós mesmos que identificamos todos os temas que o álbum passa, uma variedade interessante que comprova com somos plurais e in- significantes (no sentido de signos não serem o suficiente). Se fizermos uma genealogia, pouco dirá sobre porque agimos da maneira que agimos. E é com esse espírito, de tão pouca sabedoria, mas ainda assim uma necessidade enorme de expressão, que a estreia do Owen impõe.

II


A vida de Mike Kinsella, por negar muitas entrevistas, seria um mistério se não fossem suas músicas com abordagem totalmente explícita. O artista representa a emergência da cena independente na década de 90 em Chicago e fez parte de bandas seminais; Cap’n Jazz, Owls, American Football- o engraçado aqui é como os trabalhos encabeçados por ele são muito diferentes dos quais cujo ele é “apenas um integrante”.

A primeira sinalização disso foi seu excelente trabalho no American Football. Owen é um uma continuação óbvia disso. Como numa isolação criativa, todos os instrumentos são tocados por Mike. Por isso, ao se habituar a preferências estéticas, as conexões entre letras, nomes das músicas, nos sentimos confortáveis quando colocamos sua música- como numa conversa com um velho amigo acompanhada de algumas bebidas.

Não apelando a uma espécie de “purismo nas letras”, mas há muitos, demasiados “fucks” nesse disco e parece que, embora uma de suas letras mais lindas esteja aqui (Everyone Feeels Like You), amaldiçoar outras pessoas pelos seus fracassos tornou-se mais importante do que a capacidade de histórias ainda assim abstratas e reflexivas e densas. A mistura entre música independente, construções acústicas, letras emotivas e um rock ambientado o pontua, no entanto, como alguém que sabe muito bem o que está fazendo- quer gostemos ou não. Como eu-lírico, Mike destrói a imagem de herói- não há coitadismo algum!

No Good for No One Now [2002]
 Ouvindo isso, no inverno de 2014, tento pensar porque essa espécie de “mudança” no formato das letras, mas sabem; eu não preciso saber disso, é um álbum que soa reconfortante com a insistência no bom e velho “indie rock” suave. São pequenos espectros poéticos alinhados a uma sonoridade muito pessoal e íntima. Uma espécie de sistema de avaliação interna rendido a uma força maior: a necessidade de expressão.

III

O medo do abandono, a necessidade de reconforto, repetir os mesmos erros- todos são elementos encontrados no coração da obra de Kinsella, e aqui longe de relatar tudo com autopena e comiseração, temos a antecipação do conflito, uma cruel honestidade acerca de nossas motivações mesquinhas. O elo com I Do Perceive vai se familiarizar após consecutivas e despreocupadas ouvidas, onde suavemente os vocais de apoio –sussurrados- vão se formular em seu subconsciente, deixando cada vez mais o disco melhor aproveitado.

Em I Do Perceive, eu encontro um companheiro, não numa espécie de “compreensão” da vida ao qual há muito desisti de procurar, mas uma forma de aceitação do que é imposto, entre bons e maus momentos, reflexões isoladas ou um dia cheio de sorrisos com pessoas que você gosta- tudo isso em uma roda de situações que parecem nos por a teste sempre, tendo que provar aos outros e a nós mesmos (muito mais a nós mesmos) que merecemos momentos felizes. No decorrer do álbum, passamos por essas múltiplas localizações- afetos banais, terrenos, alcoolizados- onde a intensidade do nosso pequeno universo que chamamos de mundo, da pressão que é viver, formata músicas propícias aos questionamentos, aos pensamentos, ou quando não queremos nos incomodar.

Algumas das canções aqui têm um poder devastador- seja nas transições entre o acústico, o elétrico e as passagens ambientadas por sintetizadores- as letras situam uma compreensão amarga do indesejado, o reconhecimento de esforços patéticos para deixar essa merda um pouco mais suportável, e por isso, justamente por abranger sensações que pulsam em nosso íntimo, que esse disco pode ser considerado apropriado para qualquer estação- mas saiba que você vai lidar com densidade, lembranças não tão boas, “por que eu fiz isso, por que fiz aquilo?” e também pequenos oásis reconfortantes, tranquilos e prazerosos. Saímos sabemos mais de nós mesmos- se nos conhecemos melhor, é outra coisa.

I Do Perceive [2004]
Essas são percepções de um homem que decidiu aceitar a vida- um sim às implicações invariavelmente trágicas que formulam um ser humano, a noção do lugar que ocupa e sua pequena importância no “esquema das coisas”- e suas realizações cotidianas, a importância de pequenos acontecimentos. É a pós-experiência convergida em música. O que passou precisa ser analisado, revivido para ser modulado em uma linguagem bem própria.

IV


A vida musical de Mike Kinsella consiste muito em sua aposta nas letras brutalmente honestas, composições instrumentais complexas e reconfortantes. Seu talento sempre me magnífica e surpreende- não nos esqueçamos de que aos doze anos ele já estava tocando no lendário e seminal Cap’n Jazz- e com o passar de sua carreira, criou uma sofisticada ambiência própria, que repercute suas inquietações mais íntimas.

O caminho que tomamos aqui é simplesmente imprevisível, a variação entre os instrumentos de corda, o violão dedilhado, os interlúdios do piano, a cada momento temos uma nova abordagem de diferentes perspectivas musicais sobre o tema que a música se debruça, revelando uma angústia melancólica de um Mike que parece mais um velho conhecido, algum vizinho reflexivo ou um irmão mais velho, relatando suas decepções, pensamentos. São concepções que mais indagam do que afirmam, coisas como autoimagem, automotivação, amor, perdas, frustração, aceitação.

As letras são simples, porém tão profundas e pessoais, criando imagens deslumbrantes onde acompanhamos Mike como um andarilho em um terreno ligado às suas palavras e emoções, uma entrega incrível de alguém que discorre sobre temas cujo quais claramente se debruçam ao longo de muitas e muitas horas solitárias pensando sobre. Acumula-se essa “sinceridade brutal” citada anteriormente com um som depurado, minimalista e sofisticado, temos essa elegante paisagem.

É um caminho onde as experiências são potencializadas quanto assim pedem; variações sempre acompanhadas do instrumental relaxante e calmo, ainda assim muitas vezes triste e melancólico. O lar descrito no título abriga todas essas disparidades, como uma família, passa por transtornos, tempestades- uma estrada que analisada enquanto linguagem estética é bonita por explorar cada canto desse lar, qualquer nuance íntima.

Pode ser engraçado falar que é um disco para “se aventurar”, mas é isso mesmo que exige; calma e contemplação seja qual for a situação, temos que nos perder no bosque para encontrar a cachoeira, invariavelmente, podemos nos desencontrar para sempre. A dinâmica de expor o que experimentou legitima a música de Kinsella. Nesses termos, é uma jornada onde os passos são imprevisíveis, mas o que não é?

At Home With Owen [2006]
V

Dividindo a glória de suas delicadas dedilhadas com vastos panoramas sonoros, inserção de piano, cordas e sopros, o refinamento e a evolução do Owen desde o primeiro álbum, que é muito mais íntimo, para um som mais completo, ainda assim dirigido por um único homem, revela Mike totalmente confortável e consciente de sua capacidade enquanto compositor. Deixando clara sua importante contribuição para o movimento independente.

O intervalo de três anos do lançamento do último disco se deve ao fato dele ter se casado ao nascimento da filha, implicações que estão claras no desenvolvimento das letras, mas Mike não perde o senso de cinismo autodepreciativo que é sua marca desde o início desse projeto, lamento sobre noites solitárias e como ele sempre acaba ferrando com tudo. Essas concepções que marcaram sua obra aparecem aqui com a mesma sinceridade com a qual nos acostumamos.

Se no fim do disco surge a dúvida sobre o suposto fim da carreira de Mike (dois anos depois, saberíamos que não), pois este reclama dos idiotas que pagam para vê-lo tocar e só cospem em sua face, parece realmente óbvio sua nova direção em não criar ambientações tão longas, e que ele ama realmente fazer música. São canções que invocam nostalgia. Sobre estar cansado em reiterar os mesmos caminhos, ao mesmo tempo surpreso com a quantidade de coisas significativas que colhemos nele.

VI


Com as dúvidas deixadas em New Leaves (Mike continuaria mantendo o nível, após estar casado e ter uma filha, e depois de ter praticamente se derramado em Curtain Call, onde falava que estava cansado de tocar?); muitos fãs pensaram que o Owen estava em uma espiral decrescente, mas o que ocorreu foi o contrário, Mike soube manter a elegância e a alta categoria tão características em sua sonoridade.

A grande variedade de instrumentos continua- inclusive os contrastes talvez estejam mais nítidos, por exemplo, o som obscuro do violoncelo em uma música, os violinos mais tranquilizantes na outra, o piano para acompanhar os delicados vocais harmônicos, um canto em coro. Em termos gerais, não é muito diferente dos outros álbuns, mas vale notar o que esses registros compartilham em comum: a construção muito detalhada para cada canção, onde a criatividade autoral de Mike fica evidente.

Ghost Town [2011]
Kinsella tem amplo domínio do conteúdo lírico do álbum, o que não é nenhuma surpresa desde American Football- aqui, ele questiona a existência de deus, conta histórias e continua exibindo sua intimidade. Sua discografia está abarrotada de letras emocionais e com um senso de localização ínfima no mundo. A mistura das mais diversas influências pode ser notada em cada arranjo, onde a orientação rítmica nos leva a lugares contemplativos, e a meditação de nossos atos reverbera em nossa mente. Cada palavra e cada acorde são substanciais na construção desse disco.

Embora o clima de “seriedade” seja o que chame mais a atenção no disco, Kinsella é um rapaz realmente engraçado e se permite, mesmo nas canções mais densas com temas profundos, tirar sarro- o que desvia sua música de lugares comuns. Recorrendo as diversas facetas que de fato exibimos. Parece que o conceito de “contemplação total” é o muro que muitos compositores esbarram às vezes, esquecendo-se de quem são para formular uma música “ideal”, e que talvez cause uma redução não somente para as potencialidades da criação, mas também para interpretação. A ausência de uma necessidade (a não ser a de se expressão com uma sinceridade brutal, como já foi dito), é o que guia as melodias de Mike, seus lugares são tão incertos como suas sensações. Não há diferença entre falar sobre sua filha que acaba de nascer ou sobre suas noites de bebedeira. Porque simplesmente isso é vida, sem o olhar da medida que domina a música contemporânea, temos um espaço mais livre, onde a necessidade de registrar é mais forte. As armadilhas do Owen são os instrumentais “sonhadores”, no lugar em que a textura delicada nos imerge em diferentes estados quase palpáveis, para, depois, Kinsella utilizar sua habilidade como escritor para nos manter em suspensão. Fica difícil não se identificar. E é justamente a existência dessas disparidades, desse mundo tão violento e delicado, complexo e superficial, que brota a música do Owen, porque todas essas coisas precisam ser evidenciadas.

Parece que o avanço da idade não consegue rivalizar com a progressão musical de Kinsella, e embora os outros álbuns possam ser seu favorito, no seu sexto lançamento Mike mantém o nível de qualidade lá em cima, mostrando que com sinceridade e sentimento já dá pra fazer muita coisa. Podemos perceber como a música irremediavelmente sólida é criada e levada a sério, potencializada pelos momentos díspares da vida- uma espécie de desenvolvimento que, quando olhamos para trás, nunca sabemos como realmente melhoramos. Prefiro continuar acreditando nos rastros.

VII

L'Ami du Peuple [2013]

Assim como Mike (que na época do lançamento do disco já morava com seus dois filhos, numa típica casa suburbana norte-americana, e estava casado) parece que a música do Owen encontrou sua zona de conforto e não tem nenhuma razão especifica para sair dali, o projeto mais pessoal de Kinsella (afinal o rapaz coordena tudo) completou doze anos com absoluta clareza de onde pode chegar e qual lugar consegue ocupar.

Porém, em L’Ami, Kinsella conseguiu reunir diferentes estilos, e tomar posse de uma quantidade significativa de instrumentos, no que ainda claramente é o Owen, e nessa “festa”, visualizamos sua enorme noção de música- os pianos ragtime, a puxada mais country em Bad blood, as lindas sessões de cordas- elementos díspares que se congregam para estilizar a visão que Mike tem das coisas que o cercam.

Nesse decurso de corporificar partes alheias de gêneros, Mike não nos deixa esquecer que estamos tratando de Owen, o que não é nada ruim- L’Ami Du Peuple ainda é uma coleção de canções do Kinsella, onde ele se debruça em suas bases acústicas, sendo muito coerente com seu trabalho musical anterior.