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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sketchquiet - The Nature Only Wants To Please Itself // Seize The Moment

Ninguém está em casa. As lembranças se fundem e os signos externos são apropriados assim como o canto dos pássaros; a noite passa lentamente, a observação transforma-se em absorção. As músicas de Sketchquiet são esse processo de absorver e reordenar o mundo que nos cerca de forma interna. Os versos de guitarra acolhedores de Seize The Moment flui com umas palavras em seu plano de fundo; são memórias que preenchem a vastidão do céu noturno e solidificam sensações como saudade e nostalgia. Mas o que o Sketchquiet realiza não é uma celebração e/ou tristeza em cima do que já passou, mas como Mário Alencar (ele é o Sketchquiet) é atravessado por essas lembranças. Porque elas surgem, e se decidem ficar, não há como combater e aí que músicas como as do Sketchquiet fazem todo o sentido. Elas existem não para lutar contra os nossos sentimentos, mas para acolher e dar vazão para eles, para estetizá-los de forma que eles também caracterizem uma presença. Sketchquiet pinta um cenário que sentimentos paradoxos são possíveis, nenhum contorno é simplesmente objetivo nessas duas canções. Todos os rabiscos são precisos e necessários.


Amanheceu e pouca coisa ainda faz sentido. Os versos de guitarra ainda são aquela mesma melodia da última noite, mas tanta coisa mudou, meu humor é outro. Eles continuam acolhendo minhas sensações. Na pausa de uma música para a outra, realidade se mostra existente, rígida como um concreto. Nós podemos acordar todo dia na mesma hora, mas o céu está sempre diferente. Indiferente a todos nós. O que eu sentia, ontem, na primeira vez que ouvia essas músicas, eu não me lembro. Acho que assim eu posso entender um pouco melhor a fragmentação da voz em The Nature Only Wants To Please Itself. Afinal, nossas memórias só obedecem a si mesmas e suas ordens malucas e caóticas. Elas são como os cantos dos pássaros; determinadas por suas vontades.

quarta-feira, 26 de março de 2014

AGF - Source Voice [Line - 2013]


Os mesmo bicho que come nóis, come esses filhas da puta; lá embaixo, fio, é que se descobre que tudo mundo é igual”, Ferréz.

Ao contrário de grande corrente das gravadoras experimentais (algumas parecem se importar mais com o “nível de experimentação” do que a qualidade intrínseca do artista), o selo Line tem lançado coisas muito boas. Em visita a um canto pouco explorado em sua obra, como na capa em que a cor tenta sobressair à coloração monótona, temos a AGF. Nesse novo disco, Antye Greie-Ripatti retorna explorando bases ainda inéditas em seus trabalhos.

Em “Source Voice”, temos a supressão dos vocais tão característicos da artista, como em busca de uma identidade nova através de operações digitais. Encarnada em uma percepção alheia, “The Human Condition” abre o jogo com a voz diluída por elementos digitais, um prefácio perfeito para todo disco. O que vez a seguir, em “Breathing In Lines”, é exatamente o que o título sugere. Resistindo a um drone híbrido, a voz se apresenta como outra parte naufragada em um ambiente imerso em gelo. Ressuscita o trabalho mais intelectual da artista com uma simples e singela música ambiente. Passando todo o “Source Voice”, é uma luta entre a balança de teses acadêmicas e o que soa bonito e natural na desconstrução do principal instrumento da vocalista, sua voz. “Souce Voice” é, acima de tudo, a descaracterização de uma zona de conforto, como o noise-dub de “Voice Count”; minimalista e quieto. Povoado de ruídos manipulados, revelando que outra batalha também ocorre para AGF: até onde vai o limite da manipulação se ainda quer fazer música carnal e não somente cerebral? Seres parecem habitar “Digital Yolk”, outra música que passei pelo drone ambiente. Ou será que Anty só está tentando achar novas fórmulas para sua bela, poética voz? “Hum Pitch Play” fecha o disco da mesma maneira que começou, uma voz arrastada misturada a inúmeros elementos eletrônicos, o ciclo se fecha (ou recomeça).

Já nos últimos suspiros, saímos renovados de outro bom lançamento da Line. O que de melhor tem o álbum é a exploração de processamento digital e de fatores como manipulação de mecanismos do ouvinte, sem cair num elitismo acadêmico. No caminho: cores, a condição humana, respiração, vozes, digitalização da música, retorno. Ao final, embora seja um som denso e imerso, não é particularmente noise. O disco surpreende em seu formato de pesquisa; seria muito difícil, sem o título esclarecedor, saber que alguns sons na gravação são produzidos por vozes. O que torna tudo mais incrível; os sons mais belos produzidos em Source Voice nascem do vocal de Antye.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Dennis Johnson - - November (R. Andrew Lee, 2013)




Lembro-me de outros caminhos,/ logo perdidos/ na metamorfose da madrugada.// Nunca estou onde estou,/ fogem-me abraços,/ harmonias e desalinhos. (A cidade sonhada)”, Alexandre Marino.

Espero que você tenha algum tempo disponível para apreciar esse disco. E não me refiro a mera uma hora, pois isso é ¼ do tempo que você vai precisar para ouvir November completo, um clássico protominimalista escrito pelo lendário Dennis Johson, que jogava no mesmo time de compositores como Pandit Pran Nath, John Cale e Tim Parkinson.

Até a gravação épica completa do pianista R. Andrew Lee, o mundo nunca tinha sido brindado com uma versão inteira da obra, que aparentemente só foi executada pelo seu criador algumas vezes, e que foi de grande influência para o pianista La Monte Young.

Kyle Gann (crítico e compositor nova-iorquino) ficou obcecado com essa música quando escrevia a biografia de Young, este lhe deu uma demonstração em fita cassete contendo mais de 100 minutos do trabalho de Johnson, e assim que foi possível digitalizar esse cassete, Gann o fez.

O próprio Johson enviou a Kyle um manuscrito autorizado da composição, mas como ele estava com problemas de saúde não pode concluir toda a música, Kyle então decidiu presumir a partir da fita cassete e do manuscrito enviado por Dennis.

As anotações sobre composição da peça variam a ponto de parte ser escrita na década de 70 e outra em meados dos anos 80. Gann tinha ouvido que a ideia inicial de Johnson era November ter cerca de seis horas, o que foi fundamental para Kyle elaborar variações a partir do manuscrito original, pois tal obra comporta inúmeras estruturas, mesmo que mínimas.

Ele estreou com sua amiga pianista, Sarah Cahill, uma apresentação da peça, onde ambos se revezavam no piano a cada hora. R. Andrew Lee era uma das dezenove pessoas da audiência, ficou extremamente tocado com a música e decidiu que ela precisaria de uma gravação à altura, para ressaltar toda técnica minimalista criativa dessa obra já antiga.

O épico então estava prestes a tomar a proporção do corpo que se tem ao ouvir a gravação. O que totaliza quase cinco horas de ecos silenciosos e como o mudo se desloca enquanto som ao ser marcado por um piano melancólico, como se cada nota tocada por Lee e criada por Johnson finalizasse um vazio insuportável.