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quarta-feira, 11 de junho de 2014

A distância em Philippe Claudel- Antes do Inverno (Avant l'hiver, 2013)


Filmes dramáticos sobre pessoas de meia idade que não se encontram completamente felizes tendem a desequilibrar para algum lado. Talvez a segurança que um diretor deve ter para saber qual abordagem tomar, é derivada ou da mensagem moral ou da expressão estética que o corpo do filme transmite. Certo é que existe um nicho de encontro a essa temática, pessoas que evitam o gênero “comédia” quando leem em uma sinopse. Então, o que um filme assim pode trazer de novo? O que devemos admirar aqui é a própria fuga de lugares comuns para uma alçada nova, mesmo que tímida. Uma acurada percepção sobre certo de tipo de classe social que “envelhece sem sonhos”. A colocação das câmeras, ou quando acompanhamos de longe o início das ações, transmite a sensação de distância.

Sendo sua segunda obra como diretor, Philippe Claudel interage apenas um herói pouco mais velho que sua idade. O filme conta a história de Paul, um neurocirurgião de sessenta anos casado com Lucie- um dia, buquês de rosa começam a ser entregues de forma anônima na casa deles no mesmo momento em que Lou, uma jovem de 20 anos, não para de cruzar o caminho de Paul. Ai entra o jogo de identidade, de conhecer o próximo- uma essência caótica com a mesma execução discreta de um Teorema de Pasolini, exibindo a veia exposta, quando observamos nosso íntimo encontrando apenas confusão.

Interessante notar como um casal que convive há tanto tempo como Paul e Lucie construíram uma espécie de química cômoda, onde as palavras são silenciadas pelo mero pensamento de ter que se esforçar e discutir. Ao poucos, o clima de tensão e desconfiança vai se gerando tanto em Paul- relacionado a um suposto “perseguidor/admirador secreto” - como em Lucie, em relação à fidelidade do marido. Não basta uma desconfiança dupla, ainda há o caso do melhor amigo de Paul ser apaixonado por Lucie, e são todas situações não confirmadas em primeiro plano, ou seja, ninguém vai apontar dedos sem a prova definitiva. Paul quer algo que nunca teve em sua vida, uma espécie de “pequena aventura”. No fundo, ele deseja uma afirmação da validade de sua existência. Deveria ter se revoltado com o comodismo na adolescência, então agora canaliza sua frustração de outras maneiras.

É nesse contexto que Lou desperta o interesse de Paul. Muitas vezes, nas coversas entre ambos, ela diz sobre como quer vencer na vida de forma independente. Assim, quando ele a encontra no lugar de garotas de programas, surge o momento mais íntimo entre os dois, como se para nos expormos inteiramente aos outros precisássemos do acaso. Aqui, a dificuldade de Lou é relativizada e melhor compreendida pro não haver nada oficial que conecte ambos. A ética de Paul só existe por essa sorte, seu posicionamento só é completamente aberto à outra, pois não precisam estar juntos. Uma troca supostamente desinteressada em que o mundo da não necessidade curiosamente é o que cava profundo em respectivas intimidades. Do casamento monótono passa-se a um estilo de vida onde, embora não seja determinadamente plural, o desconhecido existe. Esquemas forjados para fugir do monstro da verdade, realidade, cotidiano.


O drama se desenvolve sempre nessa “possibilidade de acontecer”. São sensações que se confundem, melhor: simulacro de sensações que são rascunhados. Também por ser jovem, Lou aparenta estimular Paul sexualmente. É nesse contexto de espera que todas as insinuações parecem valer realmente mais do que as ações; uma espécie de lei tosca onde o sopro derruba mais que o vento. Os ciúmes de Lucie talvez mostram sua frustração pelo marido encontrar uma maneira de sair desse sistema falho. Quando pensa em explicitar algo, fica calada- soube que Paul estava se encontrando com uma mulher mais jovem e não disse nada, já está na engrenagem do silêncio.

Paul e sua esposa são dois amantes que nunca transam; uma espécie de opacidade onde não há atração nem aparente retração- nada se modifica mesmo quando ele abandona sua casa, os posicionamentos continuam os mesmos, a câmera permanece estática. No final do filme, onde retomamos a cena inicial (e nunca consigo não relacionar isso à T.S Elliot, que parece que tem se repetido com certa constância nesse blog) mesmo o choque de um suicídio foi incapaz de desestruturar o casamento. É como Paul, que conta um segredo para uma paciente polaca depois da remoção de um tumor desta- talvez só existam tempos calcados em experiências verbalizadas, e para isso ainda não há cirurgia possível.

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