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quinta-feira, 12 de março de 2015

Mount Eerie – Sauna [2015]

Phil Elverum observa seu ambiente, onde há flores caindo, uma vela no porão. A noção de realidade em Sauna é injetada de maneira sensorial- são abstrações que invadem o ar. Essas representações de injeções naturais em ambientes artificiais constroem uma identidade onde conceitos qualitativos são dispensáveis. Porque a madeira rangendo e a água fluindo implicam no sentido da existência, longe de confabulações morais/filosófico-religiosas. Temos a mística do fenômeno e da manifestação. Spring, a faixa mais longa, conta com um coro desalinhado e guitarras distorcidas com a voz melancólica de Phil, onde há uma celebração da expressão da primavera e como esta modifica a casa descrita. Os sintetizadores crescem e descem, a voz apenas registra os acontecimentos, enquanto a estação perpetua seu eco em microfonias. Algo está positivamente sendo sufocado- essa cosmogonia está nos trazendo para dentro de si- estamos sendo invadidos. O mundo não existe. Apenas esse porão, as flores não existem- apenas essas que estão caindo.

Só existem essas palavras e esses registros e esses sons. O resto é literatura e tarefa da imaginação. A repetição cria um ambiente intricado e as variações dentro dessa “repetição maior” nos orienta por sensações divergentes durante o disco. Não há determinada corrente que “guie” a performance, mas a constatação de iminências que rompem “gêneros” para erigir uma densidade que condena simplismos. Há as gravações em campo e essas vozes sussurradas ‘lo-fi’. ‘Books’, que segue Springs, investiga o lado mais intimista contando com um violão que não soa muito claro e relata o transporte que a imersão na leitura de algum livro pode causar para, digamos, o mar. E aqui não trato de imaginação nem literatura. É o que brota quando estamos tão concentrados em algo e mesmo que em algum lugar remoto, temos uma sensação de compartilhamento do mundo e manifestação das coisas. ‘This’ segue elétrica com distorções de guitarra para cair num drone, com vocais femininos, relatando as tentativas de capturar o momento. Podemos falar que Sauna é a aceitação do vazio, mas não em uma concepção oca- um vazio em que há sonhos, mares, loucura e canções- sem causa aparente, sem consequências previsíveis.

Essa construção em cima da repetição tem sido constante na discografia de Mount Eerie e em Sauna ele conta com dois grandes blocos musicais (as duas músicas de maior duração) e o desenvolvimento de suas adjacências nas outras canções. ‘Emptiness’ é construída em cima da tensão instável, enquanto o vocal frágil de Phil apresentando como as projeções externas estão dentro de sua mente e na origem repousa o vazio. Embora quase todas as músicas se baseiem na repetição, cada delas tem sua forma de repetir as estruturas. Alguns momentos são tão detalhistas e precisos que ficamos surpresos que estes momentos não retornam. É de uma sofisticação estética e um preciosismo enorme que isso ocorra. Em ‘Boat, de instrumental violento que brinca com as ideias do Black metal, percebe-se uma voz cristalina e tímida como a de Elverum. Isso garantiria doze músicas de muita qualidade, mas toda essa maravilhosa ideia é usada em menos de dois minutos e meio para, quem sabe, surgir em algum próximo disco. ‘Planet’ soa como uma extensão disfuncional de Boat, e temos os ecos com ruidosas guitarras ao fundo. Novamente, para durar apenas um minuto e meio. Como compositor, Phil quer manter conosco um dialogo rápido ao mesmo tempo que abusa de múltiplas estruturas para acumular informações em sua perseguição estética. ‘Pumpkin’ é construída em cima de ecos distorcidos do baixo e um vocal límpido. Mesmo contando com tantas visões e rompimentos sonoros, Sauna mantém um clima de intimidade que se destaca das outras gravações do estilo. A faixa-título nos localiza em um ponto de extensão, obviamente, mas a pergunta “onde é que exatamente estamos?” vai pairar em todas as ramificações desse disco.


Com todas essas interessantes variações e objetivos estilizados em rompimentos do convencional, a força maior ainda está localizada no empréstimo poético da voz/letras de Phil em uma troca constante com o ambiente externo. Se o pensamento nasce com o sujeito, Elverum está mais interessado no que precede esses conceitos. Ele não apresenta a futilidade de um mundo sem sentido e absurdo, mas a maravilha do vazio, onde as coisas podem se manifestar e, por sorte, podemos testemunhá-las.

segunda-feira, 9 de março de 2015

25 álbuns de 2015 que merecem ser ouvidos

25
Sauna

Mount Eerie

Sauna (2015)
 
24
Apex Predator - Easy Meat

Napalm Death

Apex Predator - Easy Meat (2015)
 
23
Ten Love Songs

Susanne Sundfør

Ten Love Songs (2015)
 
22
X

Schnellertollermeier

X (2015)
 
21
Draught, Suspicion

Discordian Community Ensemble

Draught, Suspicion (2015)
 
20
The Celestial Squid

Henry Kaiser & Ray Russell

The Celestial Squid (2015)
 
19
Hand. Cannot. Erase.

Steven Wilson

Hand. Cannot. Erase. (2015)
 
18
Tweoxneam

Matthew Shaw

Tweoxneam (2015)
 
17
Viento

Lawrence English

Viento (2015) [EP]
 
16
Gefion

Jakob Bro, Thomas Morgan & Jon Christensen

Gefion (2015)
 
15
Tetsuo & Youth

Lupe Fiasco

Tetsuo & Youth (2015)
 
14
The Summoner

Kreng

The Summoner (2015)
 
13
Processo de purificação

Amargo

Processo de purificação (2015)
 
12

Astronauta Marinho

Menino Sereia (2015)
 
11
Better Leave Town

Better Leave Town

Better Leave Town (2015)
 
10
Vamos desistir do Brasil

Theoria

Vamos desistir do Brasil (2015)
 
9
Trovões a me atingir

Jair Naves

Trovões a me atingir (2015)
 
8
Viet Cong

Viet Cong

Viet Cong (2015)
 
7
Šlaǧ Tanz

Magma

Šlaǧ Tanz (2015)
 
6
Coin Coin Chapter Three: River Run Thee

Matana Roberts

Coin Coin Chapter Three: River Run Thee (2015)
 
5
Kokoro

Mobile Suit Belial

Kokoro (2015)
 
4
Diário

Cássio Figueiredo

Diário (2015) [EP]
 
3
Saravá Exu

Ricardo Donoso

Saravá Exu (2015)
 
2
Vulnicura

Björk

Vulnicura (2015)
 
1
Androginóforo

Kovtun

Androginóforo 

Empate – Empate [2015]

É muito difícil falar desse EP e não me lembrar de 2007, quando um amigo mostrou a demo do Algernon Cadwallader. Naquela época, eu não estava muito por dentro do que acontecia com o “emo”, e continuava a ouvir as bandas antigas que eu adorava e continuo adorando. Naqueles dias, eu não sabia do “boom” que essa pequena derivação do hardcore/punk/indie (seja lá o que for), teria nos anos 10s e quantas bandas interessantes apareceriam. Então eu percebi que aquela nostalgia barata poderia ceder mais espaço a um bando de jovens que queria produzir músicas com enorme carga dramática e a margem dos caminhos do mercado. Se naquela época aquilo ainda só se esboçava, EP’s como esse do Embate surgem para confirmar que todas aquelas bandas dos anos 90 se esforçaram e que o resultado continua sendo gente muito empolgada em desabafar e exteriorizar tudo o que nos contamina nessa vida. Ouvir Empate, pra mim, é uma celebração de um passado que valeu a pena ser vivido e de um presente que, apesar das inúmeras merdas, merece ser comemorado.

Mas eu não quero dizer que a banda é uma mera “réplica” de outros grandes nomes no ‘”gênero”. Pode-se encontrar nesse EP uma interessante variação, tanto temática quanto instrumental. Num punk bem cativante, as guitarras dedilhadas interagem criando melodias intricadas e mudanças de tempo, contando com vocais empolgantes – às vezes, em coro. O vocal  de Cassio é realmente comovente, e embora ele se debruce sobre temas cansativos que implicam em desgaste, ele enxerga ações que, embora não derrotem de fato esse mal-estar que parece estar sempre presente, diagnostica em seus berros suas angústias. Em “E aí Doutor?”, a parte mais inquieta assalta e vai culminar em um coro de vozes, onde o eu lírico só quer “esquecer quem é”. É curioso, pois, na faixa seguinte, “De Escama”, ele é caçado por uma autoconsciência que reflete apenas cansaço. Às vezes, dá vontade mesmo de parar de tentar, porque é tudo muito estressante. Parece que ninguém nos ouve e ficamos muito esgotados para esboçar qualquer ação.

Ainda em “E aí Doutor?”, onde uma espécie de “mau exemplo” se insinua, na verdade há sede para se proceder de maneira mais própria, tentando se livrar dos dogmatismos estagnados socialmente. Já em “De Escama”, o desenvolvimento instrumental mais lento gera uma ambiente de reflexão um tanto quanto solitário, o que é evidenciado quando o vocal afirma que “quanta mais tenta, prefere ficar de escama”. No fundo, essa ânsia por autonomia e essa reflexão sobre “estar à margem” fundem-se e sinto que é a temática principal do disco, mesmo que às vezes mais cobertas com o humor. “Sr. Fernando” tem uma introdução interessantíssima, revelando uma batalha entre as coisas mais “básicas” da vida, envelhecer e amor.


Esse EP é o registro dessas bifurcações constantes entre desejo de distinção e de alegrias mais “simples” e imediatas, no momento que conhecemos como “agora” e a quantidade de dúvidas que tais aspirações causam. A gravação do disco opta pela “crueza” necessária para retirar vida da mesmice cotidiana, tendo como antídoto os gritos e os instrumentos tocados e a ânsia por serem ouvidos. É algo altamente pessoal, mas podemos compartilhar dessa percepção de escape. Mas não me refiro a uma escapada de tempo. Não! Eles sabem que essa medida já está morta, e querem doses e botar tudo pra fora e pronto! O Empate consegue nos atingir com o que se propõe a fazer e traz suas dúvidas assim como a convicção de que ganhar e perder faz parte, e sempre terá uma próxima batalha.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Better Leave Town - Better Leave Town [2015]

As experiências ressoam em todos os passos que damos- os dramas, as despedidas, os desencontros. E de alguma forma maluca, ainda continuamos expostos aos mesmos machucados, como num loop onde as memórias são mais parecidas com fantasmas desdenhando de nossos erros (e acreditem, são muitos erros). Esses eventos que mexem muito conosco quando estamos nos vinte anos e temos certa tendência ao sentimentalismo. Naquela idade em que se percebe que nossa história passada é formada mais de rabiscos do que linhas concretas e que o que está por vir não deve ser tão diferente. Nós perdemos, mas continuamos. Um jogo cíclico e cínico de risadas, arrependimentos, discussões, indecisões. Como se a vida fosse sempre um teste que temos a certeza que está tudo armado e não vamos passar. Pensem nesse disco como uma catálise dessas sensações. Mas pensem também como uma pausa da experiência concreta com elas e um momento, no fim do dia, exaustos do trabalho, para pensar em tudo. Ou absolutamente nada.

É muito clichê falar em maturidade, até porque as canções depõem sobre incertezas que se enfrentam na vida. Mas nada no primeiro disco cheio da banda soa “fora de lugar”. Ao contrário, chega a ser ridículo a experiência que a gravação inteira exala. E que me remete muito as bandas dos anos 90. As emoções dos vocais variam desde linhas mais cadenciadas e aparentemente mais “sóbrias”, até partes em que as letras são praticamente faladas, como um desabafo. Os tempos difíceis se aproximam, e não sabemos se os caminhos que tomamos estão certos. Aliás, nem sabemos de fato porque ou como chegamos aqui. Não quero que pareça que esse disco se “resuma na incerteza”; é mais sobre a confusão dos dias, o turbilhão da memória, o futuro confuso e difuso. De fato todo álbum é uma jornada, e esse disco relata a perda do controle, especialmente quando vemos tudo que planejamos ruir. Home Drive, Long Night expressa essa introspecção, em constante movimento, mas sem ter a certeza de onde ir ou a origem de nossos caminhos.

São estruturas do cotidiano que fazem a banda passear por temas em que tantas interrogações figuram. Eles sabem que tudo é instável e que vamos envelhecer instáveis e que as contas vão chegar ao fim do mês. Mas, obviamente, é impossível remover as dificuldades e então é sempre como agimos nessas situações. Enquanto avançamos na gravação e escutamos consecutivas vezes, podemos notar os pontos focais em que as faixas se imanizam. É sempre um transe constante entre prisão/necessidade/ movimento contínuo.


O Better Leave Town opta por expressar as visões e a partir daí (dessas microssituações sempre específicas) discorrer sobre os temas diários que pesam sobre nossos ombros. Mais do que um extravaso, são reflexões sobre essa coisa estranha que chama passado e essa entidade estranha que por acaso tem um corpo. São determinações densas profundamente pessoais, no atrito constante entre o ritmo enérgico mais “cativante” e uma espécie de sobriedade introspectiva, onde os riffs altos soam exatamente essa ambiguidade. Tenho muita convicção de que se você costuma gostar das bandas voltadas ao “emo” que posto nesse blog, você vai sentir um compartilhamento com o BLT. Cada música gera um campo de análise e são analises empíricas, atravessadas e que se expressam na música para poder garantir uma existência, também. Se não captamos quem éramos anteriormente, então mudamos um pouco e o mundo girou. E é com a honestidade e crueza que encontramos nesse disco que podemos ter certeza que as coisas estão mudando. Para onde, não se sabe.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Theoria - Vamos Desistir do Brasil [2015]

Há algo de impressionante no aumento da quantidade de música eletrônica criada no Brasil nos últimos anos. Desde sonoridades que remetem mais a uma tentativa de desconstruir um indivíduo forjado às variações opressivas de ambientes enclausurados. Consequências musicais do tão chamado “pós-industrial”, enfatizando atmosferas sombrias em dissonâncias sônicas. Porém, os artistas que têm optado por essa veia estética não tem se condicionado à unicamente um ângulo nesses estilos eletrônicos mais densos. É estranho falar sobre como essa música realizada com tanta racionalidade faz surgir uma espécie de “asco” dentro da gente. Expurgatório sonoro.

Theoria diferencia-se no tocante à ironia, desde o nome do disco, ao nome das letras e a capa. Comicidade que é um contraponto às músicas ruidosas. Temos o “clássico” ambiente mais introspectivo, onde as digressões surgem como ondas misantrópicas, como se todos os sons estivessem ali para, determinadamente, “destruir” algo. O Theoria apresenta a disfunção, desconsertando-nos enquanto indivíduos estabelecidos. É de alguma maneira, um reajuste aos ângulos idealizados de se observar a existência e, consecutivamente, viver. Os impulsos apontam demolição, desconstrução- é difícil prever onde estaremos depois e se algo ainda será reconhecível.

O som basicamente é composto de distorções que podem agredir muito quem chega de primeira nas variantes da música industrial. Mas não temam. Essas diversas perspectivas ganham amplitude e densidade enquanto mais nos envolvemos com elas. Não é que não exista um “eixo” central ou “ritmo” que conduza as variantes, mas simplesmente não é entregado ao ouvinte uma linha simplista e metódica de progresso sonoro. Mais do que uma parede de distorções (e acredite, ela fica muito difícil de ser derrubada), há um agrupamento de elementos e uma ideia de composição por trás. Pelo menos eu ouço e avalio dessa maneira. São diversos níveis do “estado” humano, desde um embrutecimento superficial, até ao retorno à introspecção em faixas como Sorry Galera. ‘Vamos Desistir do Brasil’ é uma forma também de “aceitação” da babaquice humana e suas ramificações- os termos da internet, a música popular, o “cover” do Link Park.

Acima de tudo, acredito que se trata de um disco de colapso. Ele pode ter essa superfície de “humor” mais ácido, mas em consecutivas escutadas nós percebemos uma dissociação evidente entre a comédia sarcástica e uma música densa e de confronto. Infelizmente ficou uma merda, faixa que encerra o disco, é baseada na mixagem de músicas de sucesso com uma dissolução corrosiva que abocanha qualquer tentativa de escape. Vamos Desistir do Brasil é arquitetado em cima da perversão e atrito constante entre gestos repelentes de uma sociedade escrota. A faixa homônima, em menos de um minuto, anuncia uma aniquilação completa. As piadas e as tentativas de impeachments são jogadas no mesmo vazio ocioso após um minuto e cinquenta em que parece que nenhuma espécie de sintonia é possível. E ai podemos nos perguntar se as distorções dessa música (e de todas as mais “agressivas” que constituem o disco) expressam um pavor por estar cercado por quem estamos, uma sátira do nível de baixeza que temos que suportar todo dia, ou um simples asco de uma mediocridade em que também tomamos parte. Acredito que de tudo um pouco. Resta ser desagradável, então. Expor os fatos. Rir dos idiotas (mesmo que no fim estes sejam nós). Num Quarto Bolado, quinta faixa, é uma clausura paranoica em que se tenta vislumbrar saídas não tão sadias. São recortes que irrompem e fazem sangrar, para depois morrer novamente, constantemente e gradualmente. Essa intensificação tão contrabalanceada pelos nomes do título, então, não parece tão divergente e até mesmo podemos fazer uma associação. E fica confuso de saber quem é quem, quem se ofende com o que, e que espécie de mundo é esse.


Por sua própria natureza, é difícil fazer uma resenha de Vamos Desistir Do Brasil, porém para mim ficou um pouco inevitável uma vez que eu me peguei ouvindo muito o disco, que é um registro que anuncia a produção significativa de músicas do tipo no Brasil e que é um álbum capaz de estimular. É uma atmosfera opressiva contaminada em grandes doses de humor que também revelam um precipício que atingimos e que talvez tudo isso não tenha volta. Tanto que é árduo “entrar” no disco e suportar suas diversas dissonâncias. Não se trata de um “teatro” de agressividade, é mais complexo que isso. Estamos miseráveis em vários aspectos e o que vamos fazer? Nesse instante, a dor que o Theoria inflige parece ser a necessária para qualquer despertar. Um compadecimento que vamos ter que suportar, porque acordar nem sempre é agradável.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Jair Naves- Trovões a me atingir [2015]

Em alguns casos, como em todos os lançamentos de Jair Naves, fica difícil pra eu não levar para o lado pessoal e não lembrar aquele garoto fascinado com Ludovic, Joy Division e o The Cure. Falar sobre Jair Naves é falar sobre um cara cujas letras e melodias estiveram presentes desde o lançamento de Servil. Eu associo a “descoberta” do Ludovic como um período de imersão em pensamentos mais, digamos, “profundos” em que eu ainda não tinha me aventurado. Provavelmente foi coincidência, eu sei, mas foi um período em que a música se impôs e se tornou uma das cosias mais gratificantes do universo.

Daí a minha inevitável confusão ao falar sobre tudo isso. Ouvi muito falar sobre esse disco ser “mais do mesmo”, mas penso que não é exatamente assim. Ainda que Araguari seja o trabalho dele que mais me agrada, há uma divergência conceitual e sonora bem aparente nesse espaço de tempo.

E o impacto continua. Jair tem um comprometimento incrível com sua obra e essas canções comprovam muito suor e muito trabalho. São tentativas da construção, além da banalidade simplista que permeia muito a música contemporânea, onde os choques vividos e as cicatrizes que depõem. São essas dores que autorizam Jair a falar com a autonomia dos espaços atravessados. Sua habilidade enquanto letrista não seria tão verossímil se as letras fossem apenas mimeses. Elas são condicionamentos da existência, das brigas. São investimentos que não querem “descobrir” a causa, mas simplesmente deixar de sofrer e buscar situações mais frutíferas. Essa me parece a diferença gigante entre o Jair do Ludovic e o Jair de Trovões A Me Atingir. Enquanto Ludovic era a encarnação da dor, em Araguari temos uma documentação nostálgica sobre o vivido, E Você Se Sente Numa Cela Escura [...] a tentativa de buscar um lugar mais “puro”, Trovões A Me Atingir aponta as decisões, uma posicionamento mais definido.

E assim- para o pior e para o melhor- temos um artista que definitivamente sai dos “enquadramentos” a ele designados em suas obras anteriores. A catarse mais absoluta e imponente cede espaço às outras mediações. As cicatrizes ainda estão lá, mas menos nocivas, o peito pode se abrir de novo. Esse direcionamento musical mais “vasto” desapontou muita gente, mas decididamente Jair não quer se reter apenas naquelas explosões emocionais tão características do início de sua carreira. “O peso da decisão, da escolha definitiva cai sobre mim”, é mesmo um verso que implica maior aceitação.

Mas essa aceitação não significa, de maneira alguma, que não temos alguém completamente assustado e, mesmo que em menor grau, condenado em sentenças confusas que a vida propícia. Trem Descarrilhado, a última faixa, é talvez o mote do disco- um mundo que está ruindo e é nesse caos, atravessando as cicatrizes, que Jair tenta encontrar brechas e motivos pelos quais lutar, mesmo que a desordem já seja reinante e aparentemente não há muito que se fazer.


É sem um itinerário fixo que avança a obra de Jair Naves. Acompanhamos imagens que são formadas por angústia, sofrimento, amor, expectativas... Tornou-se rotina pra mim, desde que comecei com esse negócio de gostar muito de música, ter suas canções como abrigo para os diversos momentos. É que eu acredito em testemunhos tão entregues e tão intensos. As fraquezas versadas e expostas pressionam porque não queremos frustrar ninguém, não queremos produzir a dor. É desse ponto que Jair discursa e faz sua arte, do ponto de uma incerteza absoluta (pessoalmente, não esteticamente) em um mundo que parece nos bloquear a todo instante. É tudo tão repentino e não podermos prever os trovões que vão nos atingir. Mas se há receptáculo, há vida. E isso é o suficiente.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ricardo Donoso - Saravá Exu [2015]

Penso em Saravá Exu com um disco de retaliação. Um álbum que tem seus ambientes cuidadosamente estruturados para serem esmagados depois. Reduzidos em pó. Penso em cada renascimento e cada rompimento como poesia, como a aniquilação da estagnação. Nasce a beleza e o perverso absurdo. Uma histeria tensa que é produto de uma enorme inquietação por parte de Donoso, onde se especula ciclos que convivem com as pluralidades disformes que caracteriza a sonoridade.

As abrangências dos temas de Ricardo, e a sonoridade sofisticada, convergem para a sensação contínua de rompimento. Pensamos até que ponto ele consegue esticar esse elástico e experimentos, cada passagem como uma volúpia de desencontros. É um não reconhecimento de ambiente que, lentamente, se transforma numa abstração que é a única demonstração possível. Eu evito ler qualquer coisa sobre discos antes de ouvir e com esse não foi diferente. Aqui temos um distanciamento da pessoa Ricardo e tentativas árduas de uma conexão com uma espécie de vazio onisciente. O fenômeno das coisas. Fico com essa impressão porque é, indubitavelmente, um disco de persistência e perseguição. Mas a formulação que cada empreitada busca, em consequência de uma necessidade de continuação, soa incompleta. Não podemos deixar de relacionar o “ritual de busca” que é esse disco com os Exus e Pombagiras, que são as entidades da Quimbanda mais próximas aos humanos. E é nessa proximidade (onde elementos iminentes me remetem à sensação poética que falei no primeiro parágrafo) que reside a força maior do álbum- uma incessante busca, apesar de sua impossível conquista.

A ênfase em um “tema” em cada faixa, onde a repetição caracteriza esse vetor de busca incessante. Uma estratégia, porque cada faixa é o sintoma da condição que Donoso estigma esse disco- o ponto de bifurcação entre suas procuras enquanto “indivíduo perdido” com o mundo externo, sensorial e tangível. Assim como os Exus. Essas iterações ecoam abordagens mais radicais, em meio às manipulações eletrônicas que propositalmente rompem (utilizando ruídos, distorções, etc.) qualquer esboço de linearidade. É preciso dizer, por tantos avanços e recuos, que não há um “gênero” próprio que Donoso se ancora. Mas como qualquer artista que busca autenticidade, essas precipitações inclassificáveis que saturam a obra em devaneios, rompimentos e (des) encontros.

As mudanças bruscas de Saravá (como o processo de retaliação que mencionei no começo do disco. Aliás, esse processo é mais uma transcrição, uma realocação de um espaço fechado –mundo- para algum lugar menos árido) intensificam a sensação de desamparo. As alterações graduais de volume, os sons “primários”- esses métodos incomuns (que cada vez mais estão sendo utilizados) e, de certa forma, desconfortáveis, estimulam a perseguição. Caça essa que atinge o auge em Diluculum, onde uma imensa massa sonora coexiste com um ambiente convidativo. Sem dicotomias simples, essas variações são como o sistema nervoso que percorre a meditação de Donoso.


É nessa tensão que vibram as possibilidades, nas diversas inversões que formulam um ciclo de, basicamente, erros. Não há a exclusão entre “ser” e “mundo”, e é em manifestações como as de Saravá Exu que há uma espécie de compartilhamento (e aí o exilado, após anos de perambulação e reflexões, pode se maravilhar com a simples existência das coisas). Em uma época que os assujeitamentos  e padrões instituídos ameaçam a simplicidade e beleza do exílio, Saravá Exu é uma indagação necessária e urgente. Ricardo Donoso não banca uma busca com  perspectiva definida, mas a esperança para que ainda exista uma perspectiva. Os Exus procuram, então, um retorno a uma humanidade essencial. Esse álbum é o terreno de chegada, o momento de espera num período de uniformização e sepultamento do alheio e do disperso, onde as técnicas e resultados que determinam o jogo. Já é muito esquisito fazer uma metáfora de jogo, então é melhor se amigar desses demônios e expurgar essa compulsiva devoção à claridade.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cássio Figueiredo - Dias [2015]

Há pouco menos de um mês eu falei sobre o primeiro EP que Cássio lançou esse ano, Dias, e de como me inquietava o que os músicos contemporâneos (principalmente os ligados ao noise e suas variações) tinham em mente quando criam suas obras, muitas vezes estas, o contrário de conceitos chulos e clichês como “música orgânica, fluída, sólida, etc.”. Se em Diário, Figueiredo já não se subordinava às execuções simples –inclusive “desobedecendo” a temporalidade suposta na nomeação das músicas- em Dias temos esse rompimento transcrito de forma concreta.

Os dias transcorrem mesmo de forma segregada, disparates que são impossíveis de “justificar”, “conceituar”. Isso seria domar o “tempo” e reduzir o poder iminente de cada momento. Por isso os cortes bruscos, a superfície inconstante e alta- é difícil situar com precisão, é complicado tentar encontrar a ligação que torna uma explicação real possível. Só há reminiscências do que entendemos por realidade e a forma que se pode absorvê-las para transformá-las em algo que ecoe. Não uma apreensão que tente copiar o que aconteceu- mas uma forma de massa sonora que seja consequência dos dias. Para isso Cássio utiliza memória e imaginação. E criatividade.

Assim como o decorrer dos dias, os elementos aqui parecem dispersos. Reúnem-se, depois somem. Essas mesmas “aparições” foram realizadas em Diários, só que nesse EP os fragmentos estão mais dispostos e mais variáveis, até. E a imposição de tantos sons periféricos integram lembranças, reminiscências e certa aleatoriedade. É a vastidão interna que Cássio compõe- as contradições cognitivas que nos possuem no passar de uma medida (no caso, o tempo). Temos uma análise final, de qualquer forma; aquele terreno descentrado onde reconhecível e irreconhecível se convergem tanto que passamos mais a acreditar no que é imediato. Essas frequências acusam, então, uma confusão mental que Figueiredo espelha em forma de retratos sonoros e imagéticos- as ondas, as músicas, as vozes.

A não divisão em faixas torna ainda mais aberto ao ouvinte à transferência destravada de memórias que caracteriza Dias. Como a partir de um minuto e quarenta, onde uma imensa onda sonora surge vibrante, para depois se aquietar. É um fluxo de lembranças e esse fluxo tem suas marés. Isso torna o “surgimento” (em qualquer das suas formas; ruídos, distorções, melodias chiadas) a característica principal dos registros afetivos de Figueiredo. São portais da percepção que preenchem toda a escuta com “entradas” e “saídas” tão surpreendentes que não podemos constatar exatamente onde começa e onde termina. Confiar “apenas” no modelo intuitivo e suas deliberadas maneiras de criação- e ainda assim produzir texturas tão incisivas e intensificadas- garante uma liberdade cuja qual Cássio tem discursado em todas suas gravações.


Fala-se tanto sobre “interioridade” e “personalidade” na criação da música contemporânea, que muitos se esquecem de que o que realmente está em jogo é o que “suporta” conceitos tão poucos expressivos. Figueiredo utiliza sons para questionar sua própria construção como indivíduo e se baseia em mundo próprio que, às vezes, parece um exílio. A memória é usurpação também, não nos esquecemos. Dos outros e da nossa confabulação. O que resulta em uma dissonância que aperta a concepção de “entidade” contra a parede. Uma espécie de apropriação desorientada e, em certo ponto, mística.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Nós vamos eventualmente ser esquecidos, um atravessamento de You Will Eventually Be Forgotten,[ Empire! Empire! (I Was a Lonely Estate),2014]

Eu poderia passar horas falando sobre como o Empire tem sido uma das bandas mais importantes pra mim desde 2009. Mas eu prefiro voltar pra lá e tentar discursar a partir daquela fenda, sem ordem cronológica- apenas através da consanguinidade que eu tenho com essa banda. Desde sua criação, 2006, a banda tem sido muito prolífica em termos de lançamentos, porém demorou cinco anos para lançar esse disco cheio. E o que não se construiu na minha cabeça sobre as possibilidades desse novo disco. As letras de Keith sempre tangeram a autobiografia e pareceu falar sobre espaços ainda “não cicatrizados”, elevando sua voz em tons que faziam um dueto com as delicadas frases da guitarra. Aliás, Empire nunca teve medo de se expor, expor a fragilidade de um eu lírico impugnado em um mundo de duvidas. You Will Eventually Be Forgotten teve muitas críticas na época do seu lançamento, mas todas ditas do conceito (“o emo revival é um saco”, etc) e eu até entendo. Mas não é sobre conceitos que eu quero falar. É tudo pessoal demais.

As duas músicas que abrem o disco falam sobre acidentes de carro. Eu passei por dois acidentes e um eu não lembro (nele minha irmã morreu) e no outro, o segundo, minha vida também não passou pelos meus olhos. Não houve flashback. Nada de filme de um segundo. Só um sangue escorrendo da minha mão, a tentativa de sair pela porta do passageiro. Eu sempre penso que tudo seria diferente, caso... O casal que forma o Empire (e que também é protagonista dessas duas primeiras faixas), Keith e  Cathy Latinen, também são donos de uma gravadora responsável por lançar coisas muito legais no tocante ao indie/emo (e o bando de órfãs de Mineral, Penfold, etc). É incrível ver esse trabalho faça você mesmo, envolvendo uma enorme quantidade de bandas honestas. Impossível, também, não relacionar ao trabalho que alguns selos brasileiros tem tanto se esforçado, e (para citar uma nesse gênero), não posso deixar de falar da Bichano Records. Existe por aí certa irmandade envolvendo pessoas que estão muito entusiasmadas (recomendo ouvir o catálogo da Bichano, fuçar as gravadoras irmãs, etc).


Eu penso nisso de “quase” morrer e o que altera na sua vida? Eu continuo me sentindo desconfortável a maioria das vezes, com a mesma timidez que me impede de dizer coisas legais para pessoas importantes. Se o disco antecessor era mais “progressivo”, na medida em que suas variações eram mais aprofundadas, em You Will Eventually Be Forgotten temos versões mais direcionadas, que não exploram tanto em termos de densidades, pois seus temas são bem focados. Então, como é dito na segunda faixa, a banda quer aproveitar seu tempo e, ao invés de prosseguir no clamor de seu álbum de estreia, reduz a variedade e oferece um exame maior do “todo” do que no antecessor, que tínhamos análises mais “individuais”.

É estranho se formos ver os dois vocalistas convidados para esse disco. Ainda me surpreende muito como a audiência daquele pequeno e tímido gênero que emergiu nos anos 90 continua leal. Mais do que apenas “amizades”, Mineral e Braid significaram muita coisa pra uma porção de gente, e ambas voltaram (o Braid, inclusive, com disco novo!) o que realmente alegrou essa porção órfã dessas bandas. Não há como não sorrir, então, com a participação de Bob Nanna e Chris Simpson, sério. A lembrança que cada uma dessas vozes evoca me suspende na temporalidade- me lembra das tardes sozinho ouvindo Mineral e das mixtapes que eu montava, colocando as energéticas músicas do Braid para abrir. Tenho certeza que a convocação de Keith para respectivas participações tem mais a ver com a conjuração daquelas vertigens, ainda tão presentes em nós. Eu, pelo menos, gosto de pensar assim. Talvez nós nos reconhecêssemos aí, talvez Keith represente cada adolescente que sonhava em cantar com eles. Triunfamos, pelo menos nisso.

E são essas aparentes lembranças que me separam e me fazem ser aquele garoto ao mesmo tempo. Eu gostaria de falar que sou melhor que aquilo, mas continuo desajeitado, continuo confuso e com uma inclinação à introspecção. A abordagem do Empire de como a memória irrompe no presente, sem objetividade cronológica, sem nada muito pensado- ela aparece em uma paisagem que nos faz lembrar nosso irmão ou dos nossos parentes mortos. A aventura do disco é do cotidiano, dos pequenos fragmentos que dizem tanto sobre nós. A casa lotada, os feriados em família, a solidão que sentíamos depois, os ídolos da infância que agora parecem estranhos, como nossos próprios pais, como nossa imagem no espelho.

É verão e eu não gosto disso nenhum pouco. É verão e eu queria estar no frio calmo do inverno, morando em outro lugar e trabalhando em outra coisa. Eu sempre enumero uma centena de acontecimentos e torço pelo verão passar rápido e deixar seus trinta graus atrás. Eu sempre enumero as pessoas que se cansaram de mim e torço para que pessoas mais incríveis surjam e deixar os vestígios daquelas para trás. As letras de Keith são questionamentos sobre sua própria condição de mortal, homem e artista. Keith não deixa de reconhecer que coisas maravilhosas têm acontecido na sua vida, mas também não deixa de ponderar quantas coisas boas poderiam ter acontecido. Não é uma nostalgia simplista, mas questionamentos que posicionam o cantor em uma condição ambulante de dúvida constante. As músicas não têm estrutura convencional e abordam histórias, micro contos que situam o ouvinte em algum lugar específico justamente para evidenciar que as dúvidas de outra época sempre nos acompanharão. São narrações bucólicas sobre afeto, cumplicidade, adolescência e comprometimento. Após algumas escutadas, sentimos que as personagens que rondam essas histórias são conhecidas. Ou melhor, relacionamos estas às pessoas importantes de nossas vidas. Sabe quando você começa a namorar alguém e pode passar a noite inteira falando com essa pessoa, contando histórias da sua vida até que, de repente, já deu seis horas da manhã, o sol nasceu- um tem que trabalhar e o outro ir pra faculdade?
As letras altamente pessoais de Keith distanciaram-se das metáforas e imagens em que se amputavam no disco antecessor para relatar casos da sua vida e das pessoas que o cercam. A própria existência é substrato o suficiente para a criação artística. Os títulos das músicas sugerem também que os grandes momentos tornam os posteriores muito difíceis, quase impossíveis de suportar. Na décima faixa, temos a história da avó do cantor que morre e de como seu avô fica dois anos como um morto-vivo, com memórias de sua falecida. É um disco de perdas, e são muitas; pessoas, infância, orgulho. A comparação da morte com imagens como árvore e outros elementos da natureza evocam seu curso natural. Mas como dói. Uma quantidade significativa aqui discursa sobre a perda ou a possibilidade dela; quando o casal se casa, mas não consegue encontrar a mão um do outro. Nesses vislumbres de perdição Keith se debruça e começa a retratar sua história, que é obviamente nossa história. Não é só uma constatação do óbvio, mas uma pergunta radical, “vale a pena passar por tudo isso?”.

O disco começa com essa frase “eu quase te perdi no dia do nosso casamento”, é sempre um “quase”, uma proximidade enorme com o grande rompimento que a perda causa. Estamos próximos disso sempre. Eu me aterrorizo quando essas coisas acontecem com alguém querido. Adivinhem como começa a segunda faixa? “Eu quase morri com vinte e um anos”. Ninguém está a salvo. Deixem-me retratar. Não é um disco sobre a perda. Mas sobre sua monstruosa proximidade. Quando estamos dirigindo para algum lugar, enquanto ouvimos nossa canção favorita- ela nos ronda, nos aflige. Então, essa enorme honestidade de Keith também é uma afirmação de sua vida. Não existem separações simples. Quando sua mulher quase morreu, ele casou com ela. Morte e casamento, tudo tão próximo. Os grandes, os piores momentos. Não à toa, choramos muito quando brigamos com alguém querido. E não existem truques, estamos expostos. Somos analfabetos sentimentais, nós tentamos fazer que tudo isso não seja um desastre, tentamos o melhor e com alguma sorte, isso será o suficiente. É um drama que embora simples (viver depois morrer) nos cansa sempre e sempre. A intimidade que o Empire oferece pode ser vista como uma confiança no ouvinte.

(Estamos em algum lugar legal, com pessoas queridas. O mundo exterior parece algo completamente alheio. Parece que somos os únicos vivos. Sentimos uma mão, um toque, uma fala baixa perto do ouvido, nós ouvimos nossas canções favoritas, lembramos-nos daquela vez que alguém disse uma besteira e rimos sem parar. Intensamente, tentando reviver quem éramos naquele momento ou tentando nos transformar em quem éramos naquele momento. Nós podemos ir e voltar, ficar na rua até mais tarde. As fotografias forçando acontecimentos, as memórias que não vão se apagar por seus retratos físicos. Sem simbolismos. Sem determinações. Passar o tempo fazendo nada com as pessoas queridas. Uma pausa disso tudo que é a vida. Um respiro, um rosto conhecido próximo. Seus lábios próximos. A gente esquece nossas carreiras, os estudos e o trabalho).

E como aquilo tudo parece distante. Como narramos com pesar na voz. Um pesar mais grave, reforçado pela sensação de fracasso. Pelo temor da perda. Ou como queremos ver no rosto do outro que ele reconhece nossa existência. Absolvendo-nos do desaparecimento. Poucos álbuns têm canções tão amarradas em uma finalidade como You Will Eventually Be Forgotten. Onde cada desdobrar- as vacilações instrumentais, as narrativas detalhistas- estimula questões importantes e fundamentais e que, infelizmente, vão apenas pairar no ar. Não há respostas. Não há métodos para se combater essas coisas. Não existe epifania e é sobre esse terreno que o Empire se debruça. O que podemos tirar disso tudo? Ficam os soluços de dor, os retratos tentando comprovar felicidade, as lembranças que irrompem bruscamente quando passamos por algum lugar que foi importante, a saudade das mãos e das palavras carinhosas. Tudo se dissolve, é estranho como fica pairando no ar, às vezes volta pra gente como um empréstimo do universo. Para depois se dissolver novamente.
E como tirar respostas? Os momentos estão fixos lá e mistificamos mil hipóteses. E os momentos continuam exatamente os mesmos. Assim como suas consequências. Mas, também, como não olhar para trás? Como não pensar que tudo poderia ter sido melhor? Isso não adianta, eu sei. Mas como? Mas não sejamos estúpidos. Olhem que, mesmo nas canções tristes e sobre a morte, há uma quantidade significativa de afeto que cobre todo o disco. São riscos porque não dá pra viver sem isso e ficamos mal porque sentimos. Não somos números! Somos pessoas! E fica a promessa de que a vida prossegue não importa quão ruim sejam nossas perdas.