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terça-feira, 28 de abril de 2015

BIXIGA 70 - BIXIGA 70 [2015]

Para qualquer um introduzido na música africana, as primeiras notas de Ventania já soarão como umas boas-vindas calorosas.  E aqui eu quero lembrar outro disco que surgiu com uma sonoridade que também remetia a certa localização e à certo período, o último álbum do Cidadão Instigado. O que eu gosto em Fortaleza, é o retorno que o conjunto desenvolve, assim estabelecendo perspectivas novas para o presente. É como se eles formulassem o passado, mais do que reverenciando, aceitando e dialogando com estruturas que possibilitam novas abordagens. Reverenciar é algo perigoso na música.

O que não falta no terceiro disco do Bixiga 70 é o humor. Em todas as faixas, por mais que elas ressoem articuladas e seriamente desenvolvidas (claramente assim foram), a particularidade do Bixiga está na descontração inerente às variações sonoras. Há muita instrumentação variada e os caminhos que as músicas seguem são sim inesperados, ainda que sempre mantendo o entretenimento e uma espécie de “swing”. “Até onde eles vão?”, é o que pensamos sobre um disco que remete (ainda que não tão diretamente) às coisas mais essenciais do Moacir Santos e das batidas africanas. O catálogo que influenciou a banda na criação desse álbum deve ser de uma importância histórica incrível, onde essa difusão de gêneros que se encontram e se desencontram estabelece uma espécie de busca que pode ser creditada em toda discografia do Bixiga 70.

Tendo como premissa de que a música é essa exploração de terrenos latinos e africanos- onde percussão, guitarras e metais “dançam” conforme as diversidades rítmicas que o álbum oferece- as canções cumprem e saem vencedoras praticamente todas as vezes. Poderíamos questionar se não falta mais coragem para tentar cavar por diferentes propostas, mas é muito evidente o propósito do Bixiga 70. Não se deve pedir mais porque seu compromisso com essa sonoridade é algo intrínseco. Essa é a razão da banda e vai ser tão forte enquanto eles formarem trabalharem enquanto conjunto. Lógico que a produção é impecável e podemos imagianr os shows cheios de suor e cerveja gelada. É engraçado como uma busca tão respeitosa com mestres de tão variadas vertentes consegue soar sinceramente divertida apesar da rigidez dessas influências. Talvez a marca maior do Bixiga 70 é trazer toda essa alegria que às vezes queremos deixar de fora da música por “problemas conceituais”. O conceito também é o mote do conjunto, mas eles conseguem trabalhar isso sem nos fechar num espaço inóspito de mera contemplação.

Não há drama na música do Bixiga 70 porque ela não pode ser assim. Não, ela aperfeiçoa espaços muito bem trabalhados por predecessores em seus pontos mais fortes. Una isso com os excelentes músicos que os membros da banda são. Eu tenho muita dúvida do que podemos chamar de música contemporânea ou mera reverência, mas o ponto focal desse álbum não é uma locação histórica sobre possíveis evoluções/desconstruções. É o interesse espontâneo que cada faixa traz consigo e como elas são objetivamente divertidas e dançantes. Realmente uma trilha sonora que te impulsiona a sair de casa, enfrentar a claridade que esse outono brasileiro tem nos sufocado. Nada é fora de foco no terceiro trabalho do conjunto porque eles já estabeleceram qual alvo mirar e trabalhá-lo com o máximo de esmero e respeito.


A relevância que essa produção oferece hoje é mais do que clara. E principalmente, é muito importante que as memórias de cada investigação musical que o Bixiga 70 realiza sejam trazidas a tona e celebradas. E eles celebram bastante, lembrando que sua discografia é uma paleta de comemorações.

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