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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

a natureza da imitação

Porque as dinâmicas são sempre estranhas que eu lamento ser o que sou e torço para o que disfarce na minha cara não entregue o que é pura nulidade. Com a natureza da imitação, eu pude estabelecer uma relação que considero justa: sou disfarce, não me esforço muito e evidencio para mim mesmo a falta de uma autobiografia. As trocas constantes de pessoas que aparecem como vulto protagonizam este anseio que só deixa mesmo de ser anseio se eu já estou bêbado ou passo a agir sem pensar (o que é cada vez mais difícil nos últimos anos). Os momentos de destaque sobrevivem como oásis que me surpreendem a partir de sorrisos instantâneos efemerizando expressões que eu desconheceria de outra forma. Em resumo, eles mostram que há um ponto a se atingir em que eu sou outra coisa e é sob a luz de ser outra coisa que eu caminho horas e horas em avenidas iluminadas sentindo os leves pingos que São Paulo sempre impôs.

Mas isso não significa que eles sejam didáticos; eles são muito rápidos e iluminados para deixar algum rascunho. Mesmo que eles sejam petulantes a ponto de rabiscar alguma promessa de importância dos dias por vir, eu cada vez mais tenho acreditado menos em sua distinção. Soam como momentos disruptivos que vão romper imediatamente quando se tentar acessá-los. É um paradoxo.

Em seu todo, a imitação se propaga como um mito moldando a matéria à indiferença no caos teatral. É uma insistência  que não descansa para um corpo muito cansado e acovardado para enfrentar tudo, todos os dias. Como um zumbido interminável numa Terra em que a música foi extinta, o corpo só quer aliar-se à origem com o menor trabalho possível. E é admirável este teatro rítmico que se propaga enquanto os zumbidos estalam convocando fantasmas e vislumbres a incorporarem um corpo alheio.


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

um refúgio para não precisar dizer a palavra humana.

Nós finalmente cavamos e é impressionante o quanto buscamos do que estava perdido em momentos em que uma tranquilidade alienígena toma conta do lugar. O tempo é uma máquina tal qual o corpo, arrebentado e à espera de uma medição humana para se apropriar de suas inutilidades, fazendo com que tudo seja prova de um exercício restrito às subjetividades. O fogo muito alto enquanto olhos azuis pediam para ir embora, perguntando quietamente para achar um lugar menos movimentado do que aquele.

Você não pareceu o mesmo sem aquela porção de pessoas ao seu redor para te proteger de ser você, para evitar que o desastre que é a eloquência do seu verbo interrompesse a tranquilidade de todos que só queriam existir, só queriam se divertir. Nas fotos, sorrindo, tentando comprovar que a existência era alimentada por tudo que movia a existência de todos, um esforço considerado genuíno de quem nunca soube respirar sem sentir tantas farpas. As companhias bonitas, as companhias tão sorridentes que eram um excesso, um devaneio- uma fantasia de quem ousou ingressar na Terra dos juízos perfeitos considerando-se inocente pela simples ato de ter nascido e falar a mesma língua que os outros.

Não esqueça quem te salvou quando os dias eram torrencialmente solitários, nas tarde em que você só conseguia ouvir música num quarto escuro, aguardando uma chegada e torcendo para que viesse antes da morte. Não esqueça quem fez os dias serem mais suportáveis, quem te fez tolerar o falatório enquanto você só queria dizer que estava enfeitiçado pelo movimento das folhas sacolejadas pelo vento e buscou nessa agonia um refúgio para não precisar dizer a palavra humana.

Você achou que conseguiria sustentar-se enquanto farsa de planos? Ou você achou que tudo quebraria como indubitavelmente quebrou? Sob o peso de ser você, e é estranho porque se alguém chegasse perguntando o que é "você?", você não saberia minimamente esboçar uma explicação, mas poderia fazer uma lista cansativa de momentos em que tudo quebrou e talvez você saiba apenas dizer :"sou uma conjugação pretérita numa Terra de devaneios". Quando você estava na ponte, cansado, olhando para uma metrópole cheia de turistas e pessoas sem teto, olhando para um rio poluído e pensando apenas em esboçar uma disciplina, um contexto em que você pudesse ser produtivo. Um vasto espaço vazio esperando para ser ocupado pelo delinear de todas as vidas, mas era impossível preencher alguma coisa quando qualquer ameaça de movimento era erradicada por pretensões covardes. Quando você partiu com pressa, sem ligar para quem ficou para trás, quando você partiu e estava convencido de que podia suportar a vida em outros ares. Sem um segundo para desperdiçar em locais que não lhe diziam mais nada, lugares habitados por fantasmas que surgem quando uma tranquilidade alienígena toma conta. Você tornou-se uma memória  congelada distante para todos e só é evocado em momentos muito esquisitos porque o mundo continuou a dar voltas e ninguém sentiu sua falta, ninguém lhe parabenizou por qualquer conquista. Você mesmo materializou sua invisibilidade. Quebrado por seus erros, sem lugar para morar, vivendo de favor e esperando salvação em poemas ridículos, em músicas para derrotados. Você achou que podia transitar ferindo tudo e todos, que podia agir egoistamente e que isso não lhe custaria nada? Queimar pontes torna impossível retornar e a dor de não ter direção materializa-se na cidade como um horizonte diluído. Os fragmentos do que você deixou têm mais vida do que você. Têm mais afetividade, mais amizades, enfim, são muito mais desenvolvidos e te superaram de maneira que você é menor do que qualquer um deles. Espalhados e perdidos no tempo, acessar qualquer fragmento é impossível. Restam os rostos cansados deteriorando-se na memória.

Ver o passado da segurança da solidão dá aos arrependimentos um novo significado.

Arrepender-se não muda nada. É um crime sujo e mesquinho esconder-se neles para não habitar a província da insistência. É uma vergonha essas lamúrias, essas desculpas de que retornar é impossível. Como se não houvesse perdão, como se tudo o que existiu não tenha sido verdade. Ver o passado da segurança da solidão dá aos arrependimentos todo um novo significado. Dá aos arrependimentos uma possibilidade de despertarem e assombrarem a vida toda.

Flagelação de Piero della Francesca

quinta-feira, 5 de julho de 2018

discos favoritos - 1º Semestre, 2018

Bill $aber - Kill Everything



A produção onipresente do disco dualiza com os vocais ásperos, como se o que é criado dentro desse monstruoso ambiente fosse impossível de ser domado.
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Cities Aviv - "Raised for a Better View"



Raised for a Better View é construído como uma explosão de recortes, que figuram entre diferentes contextos subjetivos do Aviv para compor um todo disforme. Encontra-se um rapper falando sobre relacionamentos, depressão, fardos. É um disco  consciente sobre seu próprio discurso, mas em vez de frear ou minimizar os versos, essa consciência tem a noção expansiva necessária para bombardear quando preciso. Evidencia contextos diferentes de um mesmo artista e a presença constante de um "eu" abstrato que sempre desconfia das próprias impressões. Ouça andando em um dia cansativo de muito calor enquanto os sintetizadores destorcidos e os versos diretos inflamam seu imaginário, construindo um universo  difuso e, por isso, passional.
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Silvia Kastel - Air Lows



O quinto álbum da artista oferece um minimalismo misterioso, em que cada encadeamento, em vez de formar uma narrativa cronológica, surge como imanência sonora.
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Rhye - Blood



O quinto álbum de Rhye cria uma ambiguidade sonora que se relaciona com o ouvinte sempre de uma maneira diferente a cada audição.
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Kanye West - ye



É envolvendo-nos em suas contradições que o álbum consegue ser fidedigno das complexidades que a vida exige. Kanye West destina toda sua agressividade, redenção e empatia ao mesmo todo. Nessa tenuidade movediça que ele caminha e faz suas afirmações, sem tentar adentrar qualquer terreno específico. É uma performance musical em honra a pessoa que se é, a que se deseja ser e o eterno movimento de ruptura-reconciliação que isso envolve. O rap recontextualiza as predileções morais pra puxar o ser ao seus extremos e mostrar suas ações enquanto reflete sobre tudo sem parar de fazer o que está fazendo (de fato, almejar ser uma pessoa boa não impede alguém de dizer coisas idiotas. A Internet, meio em que o rapper mais se manifesta, é prova da contradição intrínseca ao fato de ser humano).
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Kink Gong - Dian Long: Soundscape China / Destruction of Chinese Pop



Dian Long apresenta uma relação de retratar a destruição de algo que se ama em prol de uma tentativa impossível de deixar sua essência viva enquanto se remodula sua fórmula.
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JPEGMAFIA - Veteran 



O segundo álbum do rapper é agressivo enquanto recria a cultura a que pertence de forma dissonante, estendendo as possibilidades sonoras até elas mesmas alinharem-se ao conceito maníaco do disco. Parece o ecletismo virtual invertido e evidenciado como contraponto para uma afirmação tanto individual quanto política, sem seguir agenda alguma.
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Remember - The City Is My Friend



O urbanismo encontra sua representação máxima. Sem nada além do prolongamento noturno, em que cada forma é indiscernível e por isso admirável: os brilhos de neon retraem, a distância interna cresce.
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Delroy Edwards - Rio Grande



São notícias de um emissário próximo que, quando encontra um cômodo pra repouso, decide despejar tudo pelo que passou em sua viagem até aquele local. Como se o horror da travessia fosse apenas outro instrumento, ele conta com certa comicidade as paisagens que viu e as dificuldades que enfrentou. Mas isso nunca seria possível sem imaginação, fragmentação narrativa e aceitação de que muito se perde quando se chega em algum lugar. Ainda assim, ele diz as coisas sorrindo. Suas menções à club music denotam que é possível chegar ao caminho já trilhado através de outras origens (aliás, isso é o que explica alguém do interior de Minas Gerais ficar tão empolgado com esse registro). O mundo, especialmente o da dance music, é apresentado como uma fronteira cuja expansão é sempre possível.
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Christina Vantzou  - Nº4



Nº 4 é obscuro na medida em que ele sempre se revela. Não permite que você afunde na sombra, em vez disso ele se habitua à uma convivência espaçada com os espectros próprios e externos.
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Noah Creshevsky - Reanimator



Pra entender como chegamos aqui, é necessário jamais excluir a capacidade de achar algo estranho e interagir com a estranheza sem predileções em troca. A proposta de Noah Creshvsky é de que a música pode espelhar o mundo não através das obviedades, mas através de uma reformulação constante que nunca se fixa propriamente em um conceito rígido. A análise de Creshvsky é uma recusa à automatização e que, através dessa negação, a música pode ser recebida como uma elemento surpreendente, instigando ouvintes, criadores e críticos. “Reanimator” faz jus a seu nome à medida que se apropria de fiapos de experiências, satirizando-as também, pra reconduzir o ouvinte a acessos impossíveis. Pra Creshvsky, a música tem sempre de subverter a imagem formada pelo criador e também cooptar os sons escondidos atrás da padronização cultural. Mas, veja bem, isso não significa, em medida alguma, abandonar os sons do mundo. Talvez seja através de um processo em que destruição e criação ficam indefinidos que seja possível narrar os sons de onde se vive.
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SOPHIE - Oil of Every Pearl's Un-Insides



Mas depois do processo de diferenciação extremo, surge um futurismo que potencializa coparticipações ativas na formação de uma nova maneira de ouvir música e ser transformado pelos sons. Oil of Every Pearl's Un-Insides, de SOPHIE, é uma crítica ao medo e à covardia da constante transformação proporcionada pela contemporaneidade.

Ser nostálgico não transforma a matéria, mas a paixão pela transformação possibilita outros modos de estar no mundo.
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Pendant - Make Me Know You Sweet



Um mar de harmonias que ondulam e convivem e coabitam e lembram que a vida segue em frente com o atrito contínuo do inesperado.
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Keiji Haino + SUMAC - アメリカドル紙幣よ そのまま横を向いたままでいてくれ 正面からは見られたもんじゃないから



Para esse disco de improvisação, em que a dissonância é o estático -ou seja, tudo tremula sempre-, a caracterização da localização mundana é dada pela emissão de desconformidades, em que uma presença é construída através da sua força magnética contrária à harmonia e ao planejado. Capturados neste caos, os sons ampliam o ambiente, como se a mediação humana otimizasse as possibilidades do espaço. Durante mais de uma hora, o peso se mostra como força-motora que motiva a banda e o músico japonês: parar num mundo, em constante transformação, é impossível; aceita-se o movimento-contínuo para espelhar os ruídos deste local.
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The Voidz - Virtue



O segundo disco da banda é uma transmutação eclética de localizar o "fora" ou o "outro" dentro de uma estrutura objetivamente determinada. Como se as falhas residuais, o que é possível, fosse o conteúdo real do álbum.
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Niño de Elche - Antología del cante flamenco heterodoxo



Eu fiquei encantado em como a inovação formal deste disco é carregada de um expressionismo político combativo, rememorando traumas e batalhas históricas para contar a história de um povo e de indivíduos massacrados e resistentes. Antología é um disco cujas variadas formas de sons (tradicionais e aventureiros) se desdobram para construir um painel sócio-político.
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Michael Pisaro - Étant donnés



Comparando o álbum com as obras ready made, as colagens do músico ambientam o ouvinte em um espaço em que tudo parece protocolar. Eu acho que estou andando num museu burocrata e o objetivo do disco é avisar que não há inovação estilística neste espaço. Étant donnés pode exibir as frestas que permitem o abandono em tal relação midiatizada com a forma de consumo artístico. No entanto, faz questão de referenciar às próprias obras inaugurais que agora se tornaram, também, domadas pelo consumo. Eu espero que Pisaro continue desdobrando-se, como tem feito.
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Nine Inch Nails - Bad Witch



Alguém lembra como era o mundo antes dos Muppets? Alguém lembra quem era o Walter? O fato é que foi ele quem os salvou. Eu lembro que os vilões eram os donos do petróleo. Enquanto é verdade que a relação entre os donos da economia e as bruxas ruins é extremamente próxima, o mundo das reflexões malvadas é onde estamos inseridos. Em Bad Witch, elas são maximizadas e somos nós mesmos em um pânico constante de não ter para onde fugir. O mundo foi tão longe que só pode ser explicado através de um nonsense barulhento? É o que mais me parece plausível.
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The Caretaker - Everywhere at the End of Time - Stage 4



Com o lançamento de “Everywhere At The End Of Time – Stage 4”, The Caretaker observa a superação da doença registrada nos três primeiros a partir da constituição sonora que se relaciona com todos os sons descobertos. Numa sociedade que busca conforto em autoafirmações, a afirmação de Kirby parece algo utópico: reencontrar na própria decadência uma força poética que permita uma nova forma de se relacionar com o mundo, com seu corpo e com sua mente. Bater palmas pra um quarto escuro sempre vai parecer algo apenas bobo, por mais que quem aplauda esteja sorrindo. As opções falsas construíram o cinismo que causou o isolamento das primeiras gravações. Kirby termina o disco com uma ambientação prolongada que abriga ruídos indistinguíveis, mostrando que a tensão entre o que se aparenta e a vontade de criar algo, quando justapostas, são capazes de encontrar paz nos lugares mais calamitosos.
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Natalia Lafourcade - Musas Vol. 2



Alguém ainda vai conseguir explicar, num livro de mais de mil páginas, o que a cantora conseguiu fazer neste disco. Talvez você me perdoe por eu não saber o que falar.
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Mount Eerie - Now Only



Depois de ouvir “Now Only” pela primeira vez e chorar dentro do meu quarto abafado em Santo André, perguntei-me se seria errado escrever sobre isso e sobre o disco. Mas então eu pude lembrar de todas as pessoas próximas que deixaram seu corpo recentemente. De como Phil criou uma paisagem desolada dentro de mim e porque essa desolação sempre é dolorosamente real. A morte é real e seu eco nunca nos abandona.

sábado, 12 de maio de 2018

poemas para as ruas pedregosas


  • NASCIMENTO

Foi a rugosidade primária que me expulsou da província natal. No eco da esfera noturna, eu descobri o acesso aos rios e córregos cheios que sempre demarcaram nossa província. Eles diziam que o mundo sempre esteve preenchido por um ruído branco, um fantasma da primeira intimidade que nunca pôde ser esvaziado totalmente. Isso foi o nascimento.

  • PREENCHIMENTO

Durante anos eu achei estar preenchido por um tímido sopro que me individualizava enquanto auxílio divino no mundo demarcado. Achei que desse elemento brotariam gestos inaugurais batizados pelo enigma e pela desmedida. Mas essa hipertrofia do negativo apenas foi outra alquimia da esperança. Veja , eu sempre estive tocado pelo sopro de um mundo preenchido.

  • ANGRA DOS REIS

Quando eu era criança eu soprava uma bolha e perguntava-me se era possível estar sempre no vazio daquela química. Quando a bolha estourou e o mundo apresentava-se envenenado , foi a lembrança do esforço na criança que interveio quando as noites aparentavam sufocar o menino esquecido. Foi só como espuma que eu retornei ao elemento essencial e recolhi os restos de um garoto assassinado em 1991 em Angra dos Reis.

  • ANGRA DOS REIS II

Eu não estive em lugar nenhum e nunca recitei um nome. Eu nunca desejei feliz aniversário a ninguém e nunca acenei um gesto de esperança. Em Angra Dos Reis, eu mergulhei no meio do oceano e descobri que o chão estava muito abaixo do nível superficial da água. Eu não sabia nadar mas um movimento involuntário trouxe-me de volta à superfície , onde pude reparar que peixes coloridos nadavam calmamente. Como quem nunca esteve pode voltar a superfície?

  • ENCONTRO (PARA M.)

Nos seus olhos azuis eu demorava horas. Como se eles fizessem-me voltar no tempo, eu acenava para o garoto-sem-família que trafegava pela avenida Paulista. Como se eles me fizessem voltar no tempo, eu acenava para o garoto-sem-destino no ônibus. Demorou quatro anos depois que você morreu para eu perceber que aquele passaporte convidativo não era um passaporte de entrada, mas um artefato sagrado capaz de revisitar o menino-oco dizendo que na companhia se faz morada e que habitar na distância é esperar um encontro.

  • DESRAIZAMENTO (PARA J.)

Seus olhos negros e as árvores altas do interior de Minas Gerais perseguiam-me sinalizando um extremo onde ambos habitávamos. Mas você sempre encontrou conforto nesta distância enquanto eu sempre admirei o outro lado do rio, onde a descida sinalizava uma curva de outro mundo-possível. Talvez porque você cresceu numa roça cercada de mato e eu na proteção da classe metalúrgica urbana. A diferença foi que eu nunca quis me sufocar no ar rarefeito do desraizamento.

  • COLÔNIA

Um arrepio me comoveu quando você foi partiu de Santo André. Você me ensinou sobre a arquitetura dos prédios que eu sempre encarei com desencanto e morte. Até os ruídos das avenidas soam como homenagem a teu eco em mim. Se as bolhas estouram e estamos arremessados no mundo, não é sem uma companhia que nos deparamos com o isolamento radical. Chame isso de sempre levar você comigo, mas é no desalento que a feiura destes prédios sempre me abrigaram.

  • NARRATIVA

Eu me auto-fabriquei em palavras excessivas vezes para narrar uma vida cheia de constelações. Acontecimentos e experienciais aniquilam uma narrativa sensorial e é satirizando da grande mentira do self que o abismo te encara de volta. Se não é possível, através das palavras, caracterizar o sopro de uma vida, através do recuo do estranhamento percebe-se a rugosidade do inato. Veja , eu narrei um mapa de intimidades e encontros fantasiados de exceção e negação. Como é possível negar o cordão umbilical que não forjou narrativa alguma?

  • COMPANHIA

As sombras das árvores no asfalto desenham interrupções de um caminho infinito. Os momentos passados renderem imagens inacessíveis. A imensidão da noite escondeu dois corpos encantados um com o outro. Meses depois o amor morreu e o que restou foi uma distância cheio de nada. Coisificados os afetos , as bolhas originárias tornam-se indistinguíveis. Reconquistar o acesso da intimidade é velar pela segurança da companhia

  • ATRÁS

Eu vi entre a janela da sala o pátio ONDE você morreu. Caminhei sob a chuva de abril, tocando seu chapéu e suas roupas. Eu perguntei quem você era enquanto você lia um livro no gramado. Talvez eu eu só queria sair da faculdade e permanecer em casa para sempre. As árvores estavam estáticas e a bagunça noturna aquietou a distância entre nós. Transportei-me para outro lugar quando observei os edifícios da cidade onde nasci apequenando-se à medida que o mundo ficava para trás.


  • CAOS

Eu te vi no hospital enquanto voltava para casa assistindo à cidade em decadência, os edifícios modernos sombreando nossos pequenos lares. O jardim onde eu estava padecia de espelhos aquáticos pois tudo havia secado. Nós abaixamos enquanto você me explicava sobre as emoções da experiência humana. Houve uma época em que desdenhávamos de tudo isso e também rejeitávamos a intimidade de uma cidade caótica.

  • AMOR

Eu olhei o mesmo jardim em que você correu para verificar se nosso avô estava morto. Você estava interessada em olhar os corredores e perceber se sua mãe estava em casa. Eu sentia o chapéu do avô enquanto você mostrava-me a cidade. Eu nunca estava interessado em melhorar e estava pronto para creditar meu dispersamento no desraizamento da minha vida amaldiçoada. Eu te vi no corredor, nós conversamos no jardim e antes de você partir você olhou-me nos olhos com esperança. Foi seu último recado no mundo e eu te amo por isso.

  • LISBOA

Andarilho sem passado, caminhando na esperança de reconstituir um corpo, de ser devolvido à criação. As ideias maltratavam-me, os passeios estendiam-se por horas até cãibras invadirem minhas pernas reclamando repouso. Lisboa, eu me restringi às suas pequenas casas para ratificar uma posição no mundo. Em que ponto eu nasci? Em que ponto eu vivi?

  • OUTRAS ÉPOCA

Estar desacompanhado era o existir mais frenético: a opacidade abria uma fresta e nas ruas de paralelepípedo podia-se ver frestas abrirem, convocando seu isolamento a uma tragédia mais branda, maior do que tudo isso. Eu olhava, absorto, para essas manifestações que escondiam uma verdade essencial: o messianismo no evento é um pastiche pra quem sonha com outra época.

  • LAR

Eu andava imenso pretendendo dizer os galhos secos das árvores e absorver o movimento das coisas em longas contemplações. Eu esqueci tudo quando fui arremessado na brincadeira da subjetividade e não soube nem proteger a não-morada por qual circundei nem os traços extremamente fracos que forjaram o lar.

  • INVERNO

A covardia da ausência de sentido perseguia-me pelas noites moribundas transitando pela cidade, com o peso de uma solidão abissal comandando meus instintos não permitindo que minhas mãos sustentassem um livro e que minhas palavras naufragassem em diluições matutinas. Foi na revisita do dia do evento que minha memória se mostrou falha; o farfalhar das folhas na praça vazia, sob a vastidão incompreensível da noite, soprou um retorno à continuidade. Que alívio ao testemunhar o inverno novamente.

  • LONDRES

Percorrendo o silêncio dos vilarejos , assisti a um pároco sumir enquanto cantava uma melodia de tempos ancestrais. Ele não perguntou se eu carregava uma história, mas se eu estava disposto a regredir a um tempo compartilhado e encontrar ressonância nas celebrações divinas. O sagrado da celebração aconteceu no primeiro dueto humano.

  • PERDÃO

meu ideal setia estabelecer o transe em que podemos nos acalmar. em que eu olharia para olhos odiados pelas projeções um do outro enquanto a paz invadisse os rostos com a calma de uma intimidade recém-brotada e pudéssemos celebrar o encanto de haver espaço, ar e fagulhas nos olhos redispostas a brilhar.

sábado, 7 de abril de 2018

esboçar uma existência

No limite em que eu escondi minhas incertezas, eu fui fingindo tudo para parecer que, com tamanho fingimento, fosse possível habitar um espaço e estar verdadeiramente nele, e não vagando por distantes paisagens imprecisas. Foi só em 2014 que alguém descobriu a farsa que eu era enquanto eu orava silenciosamente para que o show de performances mantivesse a esperança de ser algo possível. Antes do ano da Copa no Brasil, foi um acúmulo indistinguível de rosnares e uivos, sozinho em casa ou na faculdade com alguém- foi só ao me entregar ao que chamam de amor que meu trânsito de fantasias foi policiado e eu fui arremessado a um lugar não-hospedeiro. Sozinho, enchia-me de medicamentos para dormir o maior número de horas possíveis e anestesiava-me com jogos de futebol pela televisão. Eu sabia que as bestas as quais estavam enjauladas desde o início da faculdade, e suas quimeras derivativas, pulariam do meu peito e bradariam contra o real quando eu fosse declarado culpado absoluto pelas encenações baratas e maldosas. Gritos nos shows, ler livros desesperadamente, ver todos os filmes metafísicos não eram sequer capazes de fazer cócegas na armadilha que eu montei durante tantos anos. As vozes de todos que partiram ainda ressoam nos meus sonhos, em que na maioria das vezes estou trancado sozinho no banheiro de uma casa  que não reconheço. A bebida também não era mais capaz de acalmar os lamentos e por causa dela eu frequentei o inferno pela primeira vez. Eu não tinha medo das lágrimas (elas eram raras), mas sim de que os arrependimentos deixassem-me tão imóvel e incapaz de vibrar com as cidades pelas quais eu passava. Eu não tinha medo da dor ou do pânico e nos únicos dois colapsos que eu tive eu não consegui evocar salvação nenhuma a não ser melodias espectrais de canções que ouvira uma ou duas vezes. Um corpo sem emoção é capaz de muita coisa e arruinar muitas vidas, espalhando a falsidade pelas palavras disfarçadas.

Domado pela ferida no olho causada por dois policiais em São Bernardo Do Campo, eu viajei pelas estradas escuras rumo à casa da minha avó. Tentando construir um futuro depois de tantos anos de desespero e sem saber o que fazer. Um ano depois eu consegui terminar meu primeiro romance, mas nada nunca conseguirá apagar a sensação de que todos os anos formadores da minha pessoa adulta foram um desperdício, de que eles renderam apenas narrativas fictícias para esboçar uma existência.

Paul Gauguin - Jacó e o Anjo

sexta-feira, 6 de abril de 2018

água transparente e peixes coloridos

E as águas estendiam-se por um horizonte tingido apenas por um azul indecifrável, e éramos jovens e os coqueiros altos de Angra dos Reis eram motivos de risadas (e o que não era naquela época?).

E o ritmo era de abundância porque o futuro prometia muito para todos nós. Enquanto tomávamos cerveja num boteco bem pequeno ao lado da pousada e contávamos histórias daquele mesmo ano e ríamos porque achávamos que elas se repetiriam de novo e de novo. 

E quando voltamos a Santo André o sentimento de oposição era algo permanente e aquelas histórias instalaram-se em nossa memória e sempre que as coisas apertavam recorríamos a elas como um depósito mal organizado de lembranças com algum poder restaurador.

E podíamos destruir tudo que de alguma forma recuperaríamos qualquer outra coisa em uma espécie de sistema assimétrico de recompensa. 

E era impossível medir o futuro porque guardávamos um otimismo materializado em bebidas e rolês, guardávamos a sensação ininterrupta de viver os clipes do Blink em looping porque, de fato, aos nossos olhos tudo era uma oportunidade para rir.

E eu sou apenas um ser choroso e incapaz porque eu vi suas fotos magro e careca e fechei o notebook tão rápido e bravo com tudo aquilo que quebrei seu suporte.

E reclamar do vazio existencial pareceu um absurdo e uma irrealidade fantástica, mas ainda tão afincada na existência porque quem morre são as pessoas velhas e não antigos amigos da adolescência com apenas 26 anos.

E com meu sangue escorrendo de leve do supercílio nós apenas ríamos novamente, pois havíamos tomado muita Bananinha gelada e qualquer tragédia era expelida por nossos risos.

E nomear qualquer piada interna era impossível e, se nunca dizíamos "eu gosto muito de você", era improvável não reconhecer nosso afeto nos jogos sábado de manhã ou nas longas e entediantes aulas do período noturno.

E os anos que se seguiriam nos separariam abruptamente e as conversas se tornariam mais esparsas a ponto de terem se encerrado pouco mais de um ano depois que terminamos o colégio.

E eu admirei essas lembranças ontem quando sonhei com esses momentos ouvindo Blink anos depois.

E eu percebi o quanto era refém das minhas distorções de memória e do meu egoísmo quando uma amiga me contou que preferia se afastar, e eu acho que fiz isso quando fiquei sabendo da sua doença e vi seu estado e nem procurei saber em qual hospital você estava porque a gente não vinha conversando, então minha amiga disse que eu era uma pessoa muito orgulhosa. Mas não era ressentimento pelo afastamento, eu realmente não tinha coragem de perguntar para qualquer um onde você estava.

E eu tenho oferecido meus dias às lembranças e me resignado ao fato de que eu sempre vou ficar estacionado e de que tudo de bom já foi vivido.

E eu não aprendi nada disso, não tirei uma lição mais humana ou uma decisão definitiva sobre me agarrar a vida e ver seus milagres em cada desdobramento.

E quando a notícia chegou eu lembrei imediatamente nós nadando pelados em uma piscina em Angra dos Reis ou nos mergulhos naquelas ilhas tão distantes de nosso colégio , com água transparente e peixes coloridos.

E na real pelo menos eu sei isso sobre mim, não foi orgulho mas sim timidez. E o que mais pesa é que isso não alivia em nada quando você não é humano o suficiente para visitar quem foi seu melhor amigo no hospital sequer uma vez antes de ele morrer.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

alívio da realidade

Quando percebi você estava com as suas mãos sobre as minhas, fazendo me sentir acolhido pela primeira vez em meses. Eu ,quem tive poucos corpos tão próximos a mim, senti que aquele tipo de proximidade era algo que eu precisei a vida inteira, andando em círculos em torno de um desejo abstrato que nunca sabia ser possível materializar. Eu tenho mastigado aquele momento desde então, retardando a digestão para viver o máximo possível no exílio da lembrança e atrasar o acontecimento da realidade. Quando eu retribuí o carinho e a Liberdade mostrava-se lotada, eu lembrei as vezes em que caminhei por aquela praça sozinho pensando se um dia seria possível o milagre do acontecimento. Iludimo-nos de que duraríamos para sempre, pois precisávamos da confirmação do amor para fazer sentido toda aquela baboseira. E no êxtase do que nomeamos Província Amorosa criamos um retiro para negar tudo o que efetivamente acontecia. Todas as manhãs eu abria meus olhos procurando uma forma de mandar-lhe uma mensagem para provar a mim mesmo que o amor ainda era possível. Incapaz de ver que eu envelhecia sem cultivar nada além da necessidade de provar, para mim e para todos, que eu estava embutido numa narrativa e que, de alguma forma, essa ficção que chamava minha vida podia ser um alívio da realidade. Alimentado com a opressão dessa noção gigantesca e uma esperança ínfima de que algo como amor fosse possível e desejado.

Reality Generator -Petras Kostinas

sábado, 31 de março de 2018

cicatrizar as feridas

Com todas nossas palavras nós construímos um esboço de futuro enquanto tentávamos acreditar que esse mesmo esboço nos redimiria de todos os nossos erros. Eu usei durante três anos a pulseira que você me deu até que um dia, bêbado, eu quebrei ela numa mesa de bar. Ainda que bêbado, eu consegui lembrar nossas brigas culpando um ao outro enquanto qualquer esboço de futuro mostrava-se imprestável para cicatrizar as feridas.

Antes de voltar a Santo André eu fiquei te observando do lado de fora da janela, esperando que nascesse alguma força inconsciente, minha ou sua, para restabelecer um equilíbrio na relação entre mãe e filho. Eu reconheço  você em cada café ruim que eu faço e, especialmente, nos domingos de manhã sinto falta do cheiro forte invadindo a casa (acho que agora eu tenho que especificar qual casa). Os domingos aqui têm amanhecido ensolarados e as velhas do bairro perguntam-me sobre como você está. Eu respondo com meu pior sorriso, como se suportasse o peso de vinte e seis anos transitando na desconhecida estrada dos sentimentos. De volta a casa depois da feira dominical, eu vejo os restos de onde nós vivíamos e tentávamos demonstrar amor.

No ponto mais alto do bairro, o último andar comercial do Shopping, eu esbocei uma carta para te mandar pelo correio. Algumas lágrimas caíram sobre ela e eu desisti da ideia achando que era piegas e idiota e sentimentaloide. Eu tenho te dado flores em todos os últimos aniversários porque nunca te vejo usando as roupas as quais te dei. Eu amaldiçoei tantas vezes nossa relação que fiquei com vergonha da ideia de redenção ser só um remendo para algo sem conserto. Ou que a carta tenha sido impulsionada com um pesadelo sobre o dia que você morreria: quem escreve cartas a partir de pesadelos? Veja bem, eu não sabia que eu perderia tanto de mim quando moramos longe pela primeira vez. Eu não sabia o que sacrifício queria dizer e triste tê-lo apenas reconhecido ao ler um livro de uma inglesa morta há mais de cento e cinquenta anos. Sua ausência foi a consagração do meu elo de distanciamento. Sua ausência cortou o filtro suportável dos dias, como uma espada que desvela um mundo sem amor e atenção. Nossa história é de como perdemos as coisas importantes até percebermos como a casa vazia materializou-se pelo excesso de ressentimento.

A incredulidade de São Tomé - por Caravaggio

sábado, 24 de março de 2018

quarto quente

Eu não conseguia mais acessar os significados dos textos que eu escrevia, eu lia-os e questionava-me, "sobre o que mesmo são todas essas coisas?". Questionava se eram literais ou metafóricos, não lembrava os dias, não lembrava a cor da paisagem ao fundo e nem as cores dos olhos das pessoas que passaram. Elas são como uma fila inacessível e eu misturo todas elas e deixo as qualidades no modo aleatório como se apenas houvesse minhas interpretações diluindo qualquer individualidade alheia. As palavras, rígidas e estancadas num branco perpétuo, estagnavam qualquer fluxo de significado ou memória para um imediato presente-emergente tão frágil quanto curto. Eu fiquei bravo com tudo aquilo e meu cérebro agitado ordenou que minha mão socasse as paredes do meu quarto. Eu soquei e soquei. As partes inferiores dos meus dedos sangravam e as lágrimas que caíram, com certeza, foram uma reação à dor e não ao que acontecia. E não entendia o que acontecia e de qual origem surgia aquele desespero somado à incompreensão. Talvez eu tivesse bebido demais e a gente nunca consegue evocar significados precisos quando se está muito bêbado, eu lembro que deitei na cama e enrolei-me com edredom num calor desgraçado tendo a certeza de que vultos rodeavam-me. Convenci-me de que havia lábios para beijar-me e corpo para eu tatear quando aquela alucinação toda terminasse, como se eu passasse pelo Vale Da Morte e encontrasse afeto materializado do outro lado através de olhos bem intencionados. Mas a esperança evaporou quando a sobriedade chegou e eu descobri que não havia nada a não ser um quarto quente.

Portrait Painting - Merge by Michael Lang

segunda-feira, 12 de março de 2018

interações grotescas e performadas

Foi a minha pequena morte e foi lindo. Tudo desvanecia numa mancha irrepresentável, como se o próprio tempo fosse abolido em função daquele líquido instantâneo. Eu perdi o interesse em tudo ao redor e qualquer esforço para contatar alguém parecia em vão. Fatigado de interesse, fatigado de ter que ser cênico (e não corporal!) o tempo todo. Não havia isso enquanto eu estava lá: refém da dopamina e sua urgência. Ali, eu não queria poupar nada para o Efeito Coolidge, eu queria ser a combustão e a efemeridade e se tudo terminasse no clímax eu morreria com um sorriso satisfeito. É claro que depois eu fiquei triste, é claro que depois eu olhei uma casa vazia que se esquecia da presença de outros corpos, tão habitada com meu excesso: os feijões prontos, os pães e os cafés solúveis. A mesma linha que promove a euforia é arrebentada num desgosto vulgar ao reparar nas cores tingidas das paredes se descascando, neste quarto em que eu me enfiei com esperança de triunfos através de interações grotescas e performadas.

Depois que o ato estava completo eu encarei meus pés e a onda oculta de cansaço invadiu-me e fez-me arrepender instantaneamente do que havia sido feito. Eu pedi desculpas e jurei não fazer aquilo nunca mais, eu encarei o espelho desfocado como se aquilo fosse um transe: como se o cansaço que me abatia fosse temporário, ainda que eu soubesse que nada é capaz de rasgar essa convivência. Eu convivo há anos com essa vergonha e esse arrependimento-instantâneo.

Dane-se as interações, eu pensei. Dane-se ser qualquer coisa de sociável, há vida o suficiente neste cubículo onde tenho me enfiado. O que importa é a carne e essa criatura, o que importa é a fantasia que eu criei para alimentar meu avatar, a ponto de eu não saber quem domina e quem é dominado: se os comportamentos são reféns da distância, ou se a distância que fabrica esses esboços de relacionamentos. A mesma neuroquímica que produziu todo o prazer transformou-se em arrependimento, o mesmo racionalismo -do qual no ato eu me abdico ter- cresce volumosamente depois que só resta a mesma casa silenciosa e as mesmas esperanças estúpidas de encontrar algo online. Eu já vi coisas piores e mais reais, eu já vi pessoas próximas passarem pelos desafios nos quais eu nunca encontraria forças.

Todas as coisas ridículas a serviço da auto-estima se desvanecem depois que a máscara do pseudo-prazer cai e só resta um rosto em carne viva encarando. Ser desejado, a força que isso carrega, os hábitos que isso carrega e o quanto eu me anulo em prol desse objetivo irreal. A alegria fajuta das interações, a alegria completamente metabolizada de egoísmo ao ser procurado, ao aceitar o jogo de desejo-atração. A demonstração pública de necessidade, a submissão constante do próprio desejo às avaliações completamente aleatórias elencadas em um tribunal fluído do qual tanto dependo.

Eles são outros, eles são fantasmas e eu sou uma aparição para eles. A minha webcam não responde nada. Ela só pisca e pisca até a hora de eu dormir e, mesmo nos sonhos, ser preenchido pelas próprias aparências tão distantes de mim, tão inequivocadamente grotescas em seus aspectos sóbrios de onipresença. Redes extensas conectadas pelo consumo da falácia e da exposição, das fotos quadradas e redondas e da eterna vegetação no simbólico.

Eu vou tentar não ser tão duro comigo mesmo e pensar que isso acontece com todos.

Small Pleasures, 1913 - Wassily Kandinsky

sábado, 3 de março de 2018

vingança (The Spirit of Versailles - A Form of Closure)

Eu nunca pensei que isso seria tão difícil. Que, conforme a idade avançava, eu me fecharia mais e mais a ponto de os contatos serem sempre amenizados com um desvio de olhar. Sentimentos assim nunca me ocorriam até então. Essa "suspensão na vida adulta" desestabilizou o que tínhamos por regularidade ou idoneidade. Os dias passaram rápidos demais ao mesmo tempo em que senti que eles eram longos, demorando-se em sonolências arrependidas sobre a falta de perspectiva e o cansaço inebriante de quem sempre quis se retirar. De quem nunca soube falar nos momentos de que sabia serem marcantes. As palavras faltaram quando mais nos aproximamos, quando mais estivemos próximos retiramo-nos por lacunas auto-depreciativas e irônicas. Eu não posso saber o que isso tudo significou para você. As conversas de madrugada, o apoio, os desabafos. Eu queria sair desse labirinto que é imaginar os outros. Porque até mesmo minhas coisas são inacessíveis. Ou estarei sempre aqui, no início/fim de um ciclo repetitivo que se locomove por lacunas estranhas demais, as quais não cessam de nos surpreender pela capacidade de sufocar?

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

se você prender sua respiração (karate - If You Can Hold Your Breath)

Essa cerveja sobre a mesa diz muito sobre o quanto perdidos estivemos nessa vida adulta. Fazendo as coisas no automático e procurando entretenimento simples em coisas que ocupassem nossas cabeças até a hora de dormir, insistindo em afetos impossíveis para que algum senso banal de completude viesse a romper com a frustração crônica dos dias. Se você beber comigo, eu posso te falar isso de um modo pessoal e dar-lhe mais exemplos. Isso, é claro, se você quiser. Nós vamos lembrar os escândalos em que nos detivemos, os fracassos que acumulamos, os vacilos que demos e a gente pode contar um para o outro como viemos parar nessa encruzilhada que passa a ser um local de encontro, um local de compartilhamento. Aguente firme que nós vamos andar por essas ruas hoje à noite. Elas estão contaminadas com nossos erros e receios de uma outra época e, ainda que não possamos apagar aquelas frustrações, nós podemos andar por elas re-significando esses locais sombrios com a ressonância um do outro. Encarar os fantasmas com a dimensão do presente, de achar algum ponto determinante em olhos alheios.

Festas são possíveis no limiar da existência das memórias porque elas irrompem-se sobre a beleza triste de nossas tragédias. Se você aguentar firme, com o tempo a disposição urbana vai passar a te afetar de outra forma. Eu sei que estou pedindo muita confiança e que meu passado não credita nada a meu favor, mas quantas vezes insistimos em ficar sozinhos deixando medos antigos tomar formas? Cervejas e mais cervejas, histórias e mais histórias, e a onipresença imponente de um isolamento ao qual sempre nos obrigamos. Se você beber comigo e andarmos por essas ruas talvez possamos perceber que a matéria da memória é a mesma que nos obriga a seguir em frente.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

novo #1

Você disse que não sabia o que dizer e eu disse que tudo bem. Eu não sei, eu ainda estava presente enquanto suas atitudes demonstravam outros interesses, outras pessoas. Você disse que tinha muita coisa para fazer, indicando com os olhos revirados que não queria minha presença . Eu tinha medo de que tudo estivesse se desmanchado. Não medo por nós. Um medo mais abrangente, um medo de tudo que pingava e contaminava a insistência de existir, um medo de que Betel pudesse partir sem se despedir e ficássemos presos um ao outro enquanto você preferia ficar sozinha. Noites em que eu fiquei acordado feito um idiota, precisando de atenção como quem precisa de oxigênio. Em uma dessas noites, fui observar a rua camuflado pela janela vítrea da sala-de-estar. Um homem com uma arma estava em pé diante do portão da casa do vizinho da frente. Eu sei que as pessoas podem ser cruéis, mas decididamente não esperava por aquilo. O ódio parecia-me uma coisa secundária e não a motivação principal. Isso eu só vejo agora que estou preso aqui. Eu estava cego naquela época em que não sabia que ódio entre irmãos é mais do que comum. Agora eu consigo pressentir que a cena daquela noite podia ser antecipada pela face sem-temor daquele homem. Os disparos lembraram-me da minha futilidade, da minha vergonha ao deixar que coisas simples desmanchassem belezas potenciais. Na verdade, a lembrança dos disparos que me remetem a isso. Naquela hora da noite, não sabia o que fazer sob dois barulhos altos e secos e precisos. Quando voltei a olhar pela janela, o portão estava indo e vindo com a força do vento enquanto um corpo bloqueava aquele movimento. Só eu e Deus éramos testemunhas. Ainda bem que você resolveu partir. Ou ainda bem que eu entendi pela irritação subliminar dos seus olhos que só poderíamos viver distantes. Que eles eram a decodificação imponente do que distância pode significar.

O corpo inerte. É impossível despertar em uma cidade feita de exílios.

"Aurora" -Anselm Kiefer

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

ausência #4 (toda a sua vida)

Hibridamento, cruzamento, evolução: estipulações precavidas da união global baseadas nas normalidades  máximas, o avanço do triunfo enquanto as paredes descascadas são sinônimos de uma época ultrapassada. Ele assimila novas teorias para compensar o passado: é o ufanismo da revanche, é a invalidação da inexistência como fator originário que explica a destruição. É fácil assimilar o marasmo quando se coloca uma ficção trágica nele. A realidade é trocada pelas impressões. Como um cachorrinho que lambesse o sorvete no chão, ele fazia dos resquícios o que bem entendesse. Mas é primordial entender que, para ele, os resquícios eram tudo o que existia. Era inadmissível e improvável entender a realidade como algo além de vultos. Nós suspirávamos um futuro, a ponto do meu hálito ser absorvido pelo seu nariz. Nós acreditávamos nesse futuro? Futuro sempre foi adquirir um bônus, um mais-valia para imprimir a sensação de compensação. Não é como os princípios básicos da botânica, o futuro é a exceção à regra porque ele nos é arrancado. Ele é um improviso de uma banda a qual nunca tocou junto e que, se tivermos sorte, encontraremos instrumentos similares aos quais nós passamos a vida ensaiando. Tão claro seu dom para a observação, para a memória fantasmagórica. O melhor colecionador que eu já conheci. Peças dispostas lustrosamente nas prateleiras prontas para a utilização. Espécies mutantes de argumentos convocados como fantasmas para transformar a dimensão presente em algo inteiramente novo, inteiramente destrutivo. Um fungo patogênico com origem no tribunal da infância e que o influenciou em decisões e julgamentos durante toda a sua vida. Ritmada nas decisões momentâneas que vão destinar toda a sua vida, a lapela recomendável ao nosso luto cresce e diminui como a maneira pela qual nos tratamos durante todo este tempo. Uma flor em fevereiro é comum, é aniversário de quem ele enxergou com tanta bondade. Eu nunca perguntei por que ele sentia todas aquelas coisas e como elas nasceram tão rapidamente em poucos dias.

Nós tínhamos dúvidas mais simplistas. Como trabalho e coisa e tal. Como se virar materialmente para ficarmos juntos até que essa abstração de "ficar juntos" mostrou-se inviável. Com um passaporte para convocar o fim, ou seja, como uma desculpa moral para execução de suas vontades reprimidas, ele disse as coisas de uma maneira muito adulta. Droga, eu não lembrava ele ser tão adulto. Mas sua genialidade mostrou-se perspicaz tantas vezes, descobrindo coisas que eu não revelava, indo atrás de acontecimentos passados e explicando-os através de algo que fazia sentido. Droga, você podia discordar, mas fazia sentido. Através da janela clara de sua pele, as marcas do amor desapareciam gradualmente para provar que, para ele, o conhecimento notório da performance era algo mais imediato e urgente. Apenas ontem havia carinho e amor, mas esses não são sentimentos fáceis de guardar e manter e esquece-se rapidamente de seus efeitos quando o chão em que se pisa abre-se sem misericórdia. Qual era seu nome? Sei que nasceu em um estado sobre o qual eu não conhecia praticamente nada. Tentava se fixar financeiramente enquanto fazia observações pertinentes acerca dos meus fingimentos. Limpava sua casa sempre que eu ia lá ou pedia desculpas quando o piso de madeira estava empoeirado. Afastava as cadeiras e a cama para que tivéssemos mais espaço. Movia-se ao parapeito para cuidar das pequenas plantinhas pela qual nutria grande atenção. Comia em silêncio, sobre a improvisada mesa da cozinha, com um rascunho de um sorriso calado no rosto. Antes de falar algo, forçava uma tosse para desobstruir a garganta. Então esticava os braços para alcançar a plenitude da rotina. E se movia pacientemente para voltar a cuidar das plantas, em pequenos movimentos os quais eu só consigo recordar agora, com certo distanciamento.

Alguma coisa sobre seus movimentos deixam-me mais hipnotizado quando lembro sua presença do que os sentimentos que eu enfrentava. Eu recordo mais esses movimentos quase-mecânicos do que a veracidade das coisas que sentia. Eu nunca perguntei o porquê de ele tentar me desvendar tantas e tantas vezes. Era algo intrínseco nele. Eu suponho que eu gostava dele e de suas minúcias acerca da minha falácia. Porque quando eu mostrei as coisas as quais eu escrevia, eu pressenti um olhar acusatório que me isolou na mais deslumbrante distância.

Retrato de uma Dama (Van der Weyden)

sábado, 10 de fevereiro de 2018

... e crescem pontes entre nós

Solo úmido por lágrimas humanas
Ar, sombra e morte
Céu, nublado com medo e tristeza
Coração, desejo frio e traição

Agora ele está fora da eternidade;
Em um lugar onde a dor nunca acaba
Queda através do túnel escuro
Se
foi
Eu quero fazer de mim mesmo
Minhas dores no corpo
Marcado por anos de adoração obscura
Meus pulmões; aeração, fuligem e doença

A minha alma está afundada
Destruída por um abuso perpétuo
Meu templo interior agora caiu
Eu não sou nada


Você constrói a partir do exterior, foi construído a partir do interior
a construir-se como pedras
desmoronando, de fora para dentro

que são construídas como árvores
e crescem pontes entre nós



Rasgue minha garganta, beba meu sangue,
Estranhe-me, afogue-me,

Facas, executando, através,de mim,
Oh, mestre das feridas - corte-me

Deixe-me em seus braços
Mãos Frias, Dedos Como Lâminas,
Quebre meu pescoço, ponha para fora minha luz,
Esmague minha esperança,
Corte-me, me machuque, me cortar, me machucar ...
Corte-me, Corte-me, Corte-me, Corte-
Tome minha vida, mate-me e mate-me (e ...)
Eu sou o que você merece,
A morte faz-me submergir

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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Discos favoritos de 2017

Propagandhi - Victory Lap

O Propagandhi não tem um disco fraco em toda a carreira e VIctory Lap é o ponto em que as letras ultra politizadas e também especulativas encontram a conversão entre punk rock e thrash metal.






9T Antiope – Isthmus

O minimalismo do disco leva a uma desolação sem igual.







Harris Eisenstadt – Recent Developments

A empolgação do baterista canadense constrói uma atmosfera afetiva que afasta qualquer necessidade cronológica ou narrativa.







Nicole Mitchell – Mandorla Awakening II: Emerging Worlds

A flautista Nicole Mitchell é uma das compositoras de jazz mais estimadas atualmente, esta é sua obra-prima.





GOD PUSSY – “DEGENERATE LANDSCAPE”

“Como a resistência é possível num mundo invertido” parece-me uma frase que combina muito quando ouço os trabalhos do God Pussy. É claro que o músico não quer resolver nada, mas ampliar a percepção desse monstro escondido por todos os métodos de esquecimentos contemporâneos. Pior, ou melhor, subtrai as formas de encobrimento pra evidenciar um rosto em carne viva, que não cessa de sangrar.



David Phillips- Rise

A paranoia de hiper-realidade entra num loop assim que se coloca para tocar o disco de um dos músicos mais radicais hoje em dia.






Steve Coleman- Morphogenesis

A hibridez musical tradicional de Coleman atinge seu ponto mais sensível e mostra um músico que respeita suas raízes enquanto investiga alternativas improváveis.





Vitor Brauer- Anjo Azul

Pra criação de um universo musical próprio, é necessário que o artista tenha um autoconhecimento de suas limitações e saiba como manuseá-las em prol de um repertório com valor sempre diferente. Essa mudança constante de valores talvez seja o tema central de “O Anjo Azul”.




Jaimie Branch – Fly Or Die

Estreia da trompetista enquanto líder de banda. Tanta coisa acontece neste disco que parece que tem muito, muito mais do que apenas 36 minutos. Cada um preenchido com extrema criatividade.






XIMBRA – A MALDIÇÃO DESTA CIDADE CAIRÁ SOBRE NÓS

O contraste árduo entre idealizações juvenis e a realidade crua é apresentado durante todo o disco. Em vez de simplesmente engolir essas maldades, a banda reconhece a opressão do mundo e ainda assim realiza uma expressão genuína de enfrentamento.



Irreversible Entanglements - Irreversible Entanglements

Free Jaz que é uma resposta direta às turbulências raciais e sociais dos EUA.







BOREGAS/MIAZZO – BOREGAS/MIAZZO

Talvez por uma dualidade marcante enquanto unidade (afinal, pode ser chamado ou de álbum ou de split) que “Boregas/Miazzo” me fez retornar tantas vezes ao disco e sentir estéticas claramente divergentes sendo emitidas uma seguida da outra.




Kendrick Lamar -DAMN.

Os questionamentos introspectivos de TPAB são examinados microscopicamente nesta jornada que eu demorei muito tempo para gostar. Ainda bem que não desisti.






Cama Rosa -Gato/Angular

Talvez por eu ter uma queda declarada por no wave e ser fã, basicamente, de todo o movimento de Nova Iorque do começo dos anos 1980 que “Gato/Angular” soou pra mim, mais ou menos, como a redescoberta inovadora de um tipo de sonoridade.




Vijay Iyer Sextet- "Far From Over"

A obra-prima que Iyer vinha esboçando há anos: entre composições e improvisações, o próprio ato da contemplação é confundido com o sensorialismo da cidade.





IMPOLUTO – LILIUM

Impoluto é uma dupla de Curitiba que, imediatamente, impõe uma massa densa ao ouvinte e repetições que perseguem a memória mesmo depois do disco ter acabado. Claro, o nome do duo contrasta com o que se ouve em primeiro plano, mas o que mais me chamou a atenção em “Lilium” (o segundo lançamento, que chega sete anos após “Impoluto”, de 2010) foi a forma que todo o ritualismo velado ganha dimensão, surgindo de outras delimitações sonoras.

Yazz Ahmed - La Saboteuse

Grande mistura de música árabe e jazz.








Tyshawn Sorey- 'Verisimilitude'

Uma visão fragmentada do que o jazz pode ser.






SISTEMA | OUTRO – AUTOMEMETERONIMONOMANO

Tentar catalogar toda a influência por trás do disco seria tolo, mas a primeira banda que veio à minha mente foi o Magma. As letra divertidas e caóticas encontram respaldo nos instrumentos tocados de maneira incomum e inusitada.





JD ALLEN - RADIO FLYER

Grande álbum de post-bop que lembra os maiores nomes do gênero.







OZU – THE DOWNBEAT SESSIONS VOL. 1 EP

“The Downbeat Sessions Vol. 1” incorpora a longa tradição da música eletrônica que teve seu principal expoente, claro, no Portishead e em toda cena inglesa nos anos 1990.






Rhucle / Mike Nigro - Flavor Of Water

Com certeza o disco mais subestimado do ano. Uma longa jornada de música eletrônica de enfrentamento e silêncio.






Dead Neanderthals - The Depths

Não só a visceral apresentação dos músicos é o que surpreende, mas também a própria produção do disco é forçada de diferentes maneiras ao longo do álbum.






Dálava - The Book of Transfigurations

Canções folclóricas interpretadas num nível muito intimista.







VITOR COLARES – FOTOGRAFIA DE RACHADURA

Vitor Colares diz sobre a dificuldade de esquecer alguém e a necessidade de fugir e esquecer, embora ele com certeza saiba que compor é imortalizar o efêmero, dar voz a um trânsito.






Linda May Han Oh - Walk Against Wind

Não sei o que é melhor neste disco: se a composição de Linda, se o improviso ou se a técnica.






I BURIED PAUL – NEPANTLA

A crescente insegurança que o I Buried Paul significa através do nome do disco é ressoada nas distorções arrastadas que naufragam o ouvinte em uma instabilidade perpétua na qual o transe e a hipnose do músico tomam nossa subjetividade.





Ellen Arkbro - For Organ and Brass

As mínimas frequências rearranjam constantemente as demonstrações sensoriais impostas pela música.






Stephan Crump, Ingrid Laubrock and Cory Smythe - Planktonic Finales

Três formações musicais diferentes criam uma interação que destoa a cada instante de tudo o que foi construído até então.






A-tros - Arcabouço

(Eu sempre fiquei muito intrigado sobre como certos artistas decidem abordar um passado nebuloso como a ditadura militar. Claro, não há fórmulas e dá pra fazer de todos os jeitos possíveis. Contudo, eu confesso que sinto um atrito maior em trabalhos como “Arcabouço”, que parece conter uma narrativa borrada e esquizofrênica sobre o sofrimento objetivo que foram aqueles anos)