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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Martin Amis e a morte da empatia

A consciência estava sobre ele, antes que ele pudesse sair do caminho."
- Kingsley Amis

A fabulação de supostos aprendizados no meio de um caminho de perdição- onde os sentimentos são trucidados- não encontra vez na catártica obra de Amis, onde o vazio da existência não esbarra escapes para transcendência exceto atos semelhantemente vagos. Parece que estamos viciados em um sistema de simulações. Por isso Martin não tem reservas ao discordar radicalmente de Nietzsche, “o que não te mata lhe faz mais fraco”. Em todos seus livros, há uma espécie de forjamento de sistemas morais, onde a individualidade parece aos olhos das figuras caricatas que rondam a ação a principal fonte de regras do mundo. São tramas que desfilam pela auto-humilhação, perversão e ambição de grandeza sendo esmagadas pelas mais variáveis bizarrices- bebês que espancam os pais, grandes hematomas causados em um simples jantar.


São essas fabricações próprias que atribuímos ao imenso abstrato exterior que norteiam histórias que resistem justamente por suas fraquezas. Aliás, residem nela e encontram daí- como as personagens- motivos para justificar os atos mais boçais e escrotos que permeiam a contemporaneidade. Na biografia de Martin Amis, as tribulações envolvendo divórcio e polêmicas familiares trançam paralelos diretos e objetivos com a sensação permanente de “ausência de algo” em sua obra. Não à toa, a tão dita “típica arrogância inglesa” invade os miseráveis, os escritores, os lutadores. E justamente por estar dentro de mais do “frenesi” literário, Amis escolheu os circundantes desconhecidos para mapear a parvoíce embutida em quase todos os sistemas de relacionamento, onde um talento inegável para escrita encontra nesse depósito de astenias a maior força para uma sofisticação reconhecível. Um misto de altanaria e uma cabeça tão erguida que não vê o tropeço dos pés com as cicatrizes de uma vida pessoal sentimentalmente turbulenta pavimentaram suas histórias. E andando por uma literatura inglesa muito bem povoada e travando amizades com figuras tão polêmicas quanto, a obsessão pela humilhação desenvolvida em sua obra pode parecer meio esquisita para desavisados. Pode ser que Amis batalhou para conseguir seu “próprio” lugar, uma vez que seu pai é um dos romancistas e satíricos mais notórios das letras britânicas, e encontrou nesses resíduos de desesperanças uma forma própria. Mas para sermos justos, Martin é definitivamente mais completo que o pai; uma espécie de pontuação praticamente perfeita e uma simpatia pela representação do grotesco somam-se às outras características do progenitor. Não à toa que tamanha volúpia não encontra nunca a satisfação, para seus personagens isso é proibido e aumenta gradativamente enquanto envelhecem, chegando aos vícios tão banais como fumar e ver televisão, e é essa mediocridade que teme Amis, mais do que qualquer outra coisa.

Mas não é uma mera mimética  de sua própria história, e sim representações dos absurdos potenciais e reais que cercam nosso cotidiano e nos micro momentos. Amis também é autorizado a falar a partir da experiência e, em Viúva Grávida, busca num estilo já consagrado pelo seu pai a melhor maneira de relatar seu passado e os caminhos que sua geração tomou, mais precisamente das amizades importantes e a dor da própria irmã, donde partimos de jovens em pleno auge da revolução sexual para os descaminhos que suas vidas tomaram- o que talvez seja um paralelo com tantas figuras que rondaram o coeso Martin, pelo menos em esfera pessoal. E temos ai o depósito de todos os acertos de contas sendo há muito planejado em sua obra: o ataque sem escrúpulos aos cânones literários e a parte mais bonita em uma história que pouco admite disso- embora “cercada” por beldades- um amor espectral pela irmã, conforme o pouco autocontrole e a transposição de valores desassociados de sentimentos foram reinando na mente de Sally Amis. Martin não perdoa os gritos que sua geração contribuiu para entoar.

II

Também em sua relação com a irmã é possível encontrar rastros em Lionel Asbo, na figura de Grace, ainda mais “desassociada”, fazendo sexo com o próprio neto. O acerto de contas de Martin estranhamente não atingiu o pai, no entanto. Que Lucky Jim ainda seja mais importante que todos os livros do Amis filho é inegável, considerando as figuras importantíssimas que o elegem como uma das maiores influências, o que talvez justifique certo aborrecimento de Martin com os meios para ser considerado cânone.

Oras. Tal livro também arrebatou Martin, que tentou, sem sucesso, dar continuidade ao estilo do pai nas primeiras obras. Mas ele estava no meio da revolução sexual e queria colocar tudo àquilo no papel, sendo radicalmente diferente do panorama íntimo complexo que temos ao ler cada página de Lucky Jim. Uma novela extremamente interessante, onde a elegia da pantomima, tal como os irmãos Marx, imerge na cultura provinciana que seria radicalmente modificada,. Segundo Hicthens, “ilustra uma diferença crucial entre o os pequenos e grandes homens. E Dixon, como seu criador, não era palhaço, mas um homem sensível apesar de tudo”. Uma talentosa observação, onde temos uma descrição brilhante sobre os rumos daquela geração, que aos poucos perdendo-ia as habilidades sentimentais. Onde a celebração da vida fica reduzida à bebedeiras em lugares públicos, sendo maliciosos, pervertidos e maldosos. O bom-humor aqui denúncia homens perdidos atrás de atos sórdidos, impensados.

Mas as primeiras obras de Amis, todas não traduzidas para o português, insistem em equívocos porque tateiam no escuro, e embora contenham sacadas e estruturas que pré-anunciavam a sofisticação e o domínio completo de sua arte que Martin adquiriria posteriormente, insistem em surgem como tagarelando sobre opacidades que nada condiziam com o alto rigor de sofisticação de seu escritor. São tentativas e apostas razoavelmente interessantes, mas que mecanicamente recorrem a recursos metalingüísticos e meramente estéticos para tentar apagar a falta de “sangue” nos livros. Aposto que ele sabia que “faltava algo”.

D. H. Lawrence, uma das maiores influências do autor, escreveu sobre a diferença de “ser social” e a “verdadeira individualidade humana”: "Enquanto um homem continua a ser um homem, um verdadeiro indivíduo humano, habita em seu coração certa inocência ingênua que desafia toda a análise". Grana- o primeiro livro realmente importante de Martin, é uma demonstração clara da perda da individualidade própria, subjetiva e ingênua por comportamentos sociais que podem ser vistos como verdadeiro massacre. Então o indivíduo se protege dessa espécie de carnificina abnegando sua própria individualidade. Segundo Lawrence, o dinheiro representa a salvação material, ou seja, Deus. Castrados de características próprias, o que resta? Desprovida da teologia mística que envolve os escritos de Lawrence, o desenvolvimento de Grana, adicionando o humor pontual de Amis, é tão bem elaborado quanto em D.H. Num mundo onde nem mais os desejos são autênticos, Martin emergiu no que Lawrence havia começado e dialogou com essa linguagem para aprofundar uma questão que já habitava um poço que parecia desconhecer limites.

Amis abusa de uma metrópole decadente e apuração dos cinco sentidos para contar uma história onde tudo que é próprio vai se dissolvendo, e os signos exteriores apropriam-se tanto de nós que percebermo-nos desprovidos de qualquer tipo de munição íntima. É como ficar pelado sem perceber que suas roupas foram tiradas. É a decadência natural. O consumo de pornografia (o que seria rotineiro nos romances posteriores) talvez seja a principal marca da perda do verdadeiro desejo, porque a consumação da vontade responde apenas reflexos sociais estipulados, e aqui Amis se reencontra com Nietzsche.

É irônico o nome do pub que John Self (protagonista) ser chamado Shakespeare. No fundo, Amis está dizendo que praticamente todos nossos vícios já foram estabelecidos. Poucos são os ângulos em que é possível se deparar com algo que “re” humanize Self. Como provação de descrédito, ele não compreende o valor literal de A Revolução Dos Bichos, de George Orwell. Ou seja, o que não é um “bem de consumo” (como a pornografia veio a ser), é descartado e colocado em uma sessão sem valor algum. É como se as poucas coisas que apelam mais necessariamente a algo íntimo, verdadeiramente pessoal e que exigem algum nível de esforço estivessem inacessíveis, na maior altura de uma estante cuja base é estruturada em satisfações pré-fabricadas.

O apelo maior à pornografia e as perversões do “submundo” seriam melhores desenvolvidos no romance pós Grana, Campos De Londres, Neste, Amis desenvolve em três personagens um triangulo amoroso bizarro para colocar em xeque nossas motivações. A estrutura da história banca sua força em três “outsiders”, cada qual à sua maneira, em um mundo onde o automático é tido como premissa. O próprio narrador de Campos De Londres, um escritor, nos coloca em dúvida a toda hora de porque realmente escrever um livro, enquanto tem lembranças do fracasso de seu último relacionamento e percebe a única mulher com algum interesse sexual nele desenvolve uma gula absurda. A relação entre ficção e realidade não é disposta como “uma dúvida do que é verossímil”, mas uma disposição de mentiras tão grandes que vivemos também em uma ficção. Em um período não tão extenso de tempo, analisamos derrocadas e simulados de vitórias na deteriorada e turbulenta Londres. Vivendo imagens da degradação do próprio homem no ambiente urbano.

A idiotice é a nova ordem social, é o que afirma Campos e seu sucessor, A Seta Do Tempo. Onde nossa própria estupidez é testada pelo fato de acreditarmos no narrador. Todos os eventos na história parecem lógicos quando explicados por ele. Amis escreve um enredo incrivelmente fantástico que permanece “lógico”. As cenas que acompanhamos o protagonista Tod são bonitas e tocantes. E a chave de Martin é transformar momentos terríveis em algo poético, como essa passagem, que pode ser vista como exemplo de seu amplo domínio técnico ao transfigurar uma imagética tão complexa quanto suas personagens: “Acima de seus arcos e empenas o céu à noite é cheio de nossos erros inconfessáveis​​, nuvens hidrocefálicas e o paladar erroneamente curvo do oeste, e as cinzas de nossos fogos. Eu posso ver uma mecha de cabelo humano branco-neve à deriva para cima, que então se junta ao ritmo mais elíptico e elementar do ar secundário”.

Os homens não só não possuem qualidades, como estão embriagados em fraquezas. E depositam nestas, justificativas pálidas e sem graça sobre seus comportamentos primitivos, grotescos e bizarros. Keith, de Campos De Londres, talvez seja o exemplo do idiota maior, que só encontraria semelhança em Lionel Asbo, onde suas justificativas próprias autorizam um utilitarismo realmente vil, e os códigos de honrar são meras simulações da própria distorção da realidade.

As personagens do mundo amisiano insistem no erro porque não conseguem “transfigurar no plano comum da realidade”, resta tentar violentá-la do jeito que é possível- matando, violentando menores de idade, fingindo deficiências públicas para ganhar dinheiro do serviço público, pagar para alguém “ferrar” a vida de outra pessoa. São pessoas que negociam previamente aos conceitos e códigos sociais, mas não é como se elas quisessem “derrubar” essa dimensão entranhada no real. Não, são figuras que encontram em regras próprias evidentemente estúpidas uma legitimação para tal asquerosidade. É como se tivéssemos uma escala de idiotice e numa vasta demanda Marti Amis decidiu retratar o ato de quem figura nos piores níveis.

III

Amis encontra novamente o filósofo que contrariou quando seu amigo Hitchens morreu, e nos trás histórias de personagens com imenso “alvedrio de existência” e aponta nestes absurdos pelos quais objetivam chegar ao lugar desejado. Oras, temos aquela antiga dinâmica de “se não dá com esse, vamos com aquele!”, e é abusando de linguagens e gestos grotescos e obscenos que eles encontram a vontade e força. Como se a “vulgaridade” fosse uma fonte de poder tão rica quanto sentimentos considerados mais “nobres”.
Martin Amis encontra então na ficção narrativa uma tentativa de explicitar coisas muito difusas e que não podem ser reveladas pela “técnica”. É necessária essa comunhão de paisagens representativas e fenomenologia dos atos para tentar encontrar algum sentido ou ponto de redenção na existência. Convenhamos que é uma tarefa árdua e esses pontos são raros e escassos, então o preenchimento com a estupidez é justificado como representação dos entes que deixamos subjugados. No jogo dos conceitos, Amis adiciona as criaturas mais desconhecidas e submersas para seu grande painel de “desencaixados”. Aqueles ruídos que não ouvimos a não ser que andamos por parques perigosos em plena madrugada ou respirando aceleradamente enquanto transamos com a mulher do melhor amigo “pagando” para ele, enquanto este observa tudo.

Mas depois da consumação dos desencantos-principalmente na primeira metade da década do século XX- e da chegada definitiva da ciência substituindo Deus e nos apontando o “nada cósmico”, a ficção não está serve mais como “organização para um mundo caótico”. Não, hoje os autores realmente bons, indicam com sofisticação exorbitada- e aí Amis se inclui nessa tradição que condecora também nomes como David Foster Wallace e Philip Roth- para o desmembramento do real e suas várias ramificações. E para que isso seja eficiente, a opção estética de Amis por enfileirar em seus romances criminosos que não seguem o padrão “comum” de marginalização. Martin retrata a desintegração da vida através da profundidade dos agentes desse caos. Pode parecer muito legal, mas suas obras sinalizam o absurdo da “falta de amor”.

E esse exame minucioso nas formas que os “eleitos” manuseiam respectivas ferramentas para “foder com tudo” se amplia a cada livro até explodir em Lionel Asbo, seu livro mais recente, aonde as “regras” que vinham cada vez sendo menos necessárias na opção estética de Amis são realmente dissolvidas e percebemos na vida do “durão” Lionel, a soma das atitudes maléficas de todos os personagens anteriores. Mas com um problema, dessa vez o “estúpido” é muito mais inteligente do que parece, porque embora não saiba lidar com as “etiquetas sociais”, ele compreende bem, muito bem, os mecanismos que as geram.
Porém, dentre os elementos que consagram os escritores contemporâneos que melhor evidenciam “o grau de degradação dos sistemas”, Amis talvez falhasse nisso nas últimas cinqüenta páginas de seus romances inicais. Não entendam errado, o nível de apuração e deleite estético que ele pode causar se compara a muitos outros poucos autores vivos ou mortos (eu mesmo afirmo sem pensar duas vezes que ele está anos a frente de um Dostoievski). Uma diversidade de abstrações impelia o leitor do núcleo que amarra a obra amisiana. Assim, a busca de Amis parecia um tanto quanto inócua se pensássemos em termos épicos que a “malandragem insubordinada” de sua obra nunca o impediu de ambicionar.

Mas eu fui cruel e explico o porquê. Se Amis ambicionava o “épico” ou uma espécie de “epopéia da desintegração”, ele perdia a mão no tamanho dos romances. Quando toma conta dessa ambição e se permite ser “apenas” o Martin, ele lança belíssimas publicações, como a coletânea de contos Água Pesada e Outros Contos. Nesta, Amis mostra uma habilidade perversa em inverter a realidade, abusando da imaginação e humaniza as caricaturas espectrais que tememos tanto.

IV

Em seus romances realmente brilhantes, como A Informação, a catarse é organizada em estratégias de prosa virtuosa e muito sofisticada, onde o “existencialismo” não se pauta amplamente nos melodramas extensos de Dostoievski, e sim é retratado em perversões pessoais que assumem o protagonista e o “autorizam” a se juntar às pessoas mais vis. A abordagem do romance não só provoca intensas risadas- o humor “negro” em seu mais alto nível, em zombarias à poetas e escritores que atingem níveis hilariantes, o que deveria ser um aula para o “stand up” tão em voga ultimamente- como disseca o tão chamado “ambiente” literário em fracassos seqüenciais que evitam o vazio empregado pelo Vila-Matas.

Do ponto de vista pessoal, não foram poucas as bizarrices horríveis que Martin passou por toda a vida. E nas quinhentas páginas de A Informação (que foi um fracasso de vendas, o que não deixa de ser um sinal de nossos tempos) temos extratos brilhantes tirados das situações mais grotescas possíveis, sempre alinhadas às introspecções de nossa condição humana e do que realmente pode motivar um escritor. Aliás, pode esse fazer realmente alguma outra coisa?  Não é preciso de muita acuidade para encontrar referências ao mundo blasé que abriga a classe artística retratada no livro. Tanto nas cenas que ocorrem nos EUA como em Londres, o que vemos no asqueroso Richard Tull é a consciência da mortalidade e a crise da meia idade. O próprio Amis disse em uma entrevista o que ele define como crise de meia-idade, “um exagero histérico para a certeza de que você vai morrer”. Durante a narração observa-se cortes que remetem a degradação espacial, o que só podemos supor ser o livro que Tull está escrevendo, A História Da Humilhação Crescente. Afinal, observar o vasto Universo e suas aparições repentinas é ter certeza da morte batendo na porta. Além de ser um paralelo com as idéias de fracasso, sucesso e inveja.
E é em A Informação que Amis encontra uma espécie de “propósito maior” que canoniza todos os grandes escritores. Se seus livros anteriores podem ser vistos como um deboche universal do que há de mais vil em nós e como a compaixão está tão próxima da morte, em A Informação ele alinha todos esses assuntos profundos aos traumas pessoais, em uma consciência da frágil condição humana e que a única forma possível de combater esse “acúmulo de estupidez massificada” é tentar preservar as emoções.

A denúncia de Amis nesse romance é primeiramente sobre ele mesmo e os podres de sua vida. Gwyn Barry, o avesso de Richard Tull, é rico e está faturando muito em cima dos seus livros “otimistas” que conseguem abordar, segundo seu melhor amigo, “absolutamente tema algum”. Richard Tull trabalha escrevendo resenhas de biografias de mil páginas (o que ironicamente seria a primeira oportunidade de Keith em A Viúva Grávida) trabalhando para a Tentalus Press (na mitologia grega, Tentalus sofre uma eternidade de desejo não realizado).

E o que seria a “informação” do título que não à chegada aterradora da morte? Somos sujeitos expostos que inventamos a medição através do tempo e sofremos pelo mal que nomeamos. Daí Amis exprime sua força que não havia ainda se evidenciado em tamanha proporção em nenhum romance até então: os sentimentos devem permanecer vivos para que a morte imponha respeito e não se torne apenas a concretização de nosso estado psicológico.

Mas todo isso adentra na escuridão noturna como uma assombração em Trem Noturno. Esse livro não tem um “fundamento”, e é interessante o fato de Amis ter depositado os acontecimentos nos EUA. Trem Noturno, embora se envolva com os desafios da pós-modernidade, não é redutível a lúdicas gratificações intelectuais, mas explora e investiga os valores humanos do “nada” que pode anular todos os esforços de nossa existênciacriticando o mundo que habita a partir de uma firme postura moral, contrariando os detratores de Amis que afirmavam que seu “brilho estético” se dirigia apenas à degradação da civilização.

A detetive Mike Hoolihan nos traz sua história, utilizando gírias norte-americanas que talvez os leitores das obras anteriores de Amis pudessem vir a estranhar. Aliás, à priori, podemos achar que ela é uma espécie de clichê dos filmes e seriados de “suspense policial”. Mas é nesse contorno de representação nunca antes observado em seus livros que Martin baseia sua busca.
V

Se Setephan Dedalus reparou o pesadelo que a história havia se transformado, para Martin Amis ela é um débito dos vivos com os mortos. No mundo trucidado de Martin, a empatia está morta. Por isso a humilhação explicitamente caótica em seus espectros de histórias, que mais parecem apatias construídas de nossa confabulação íntima. Então por que continuar sendo escritor? Claramente podemos dizer que é para documentar o terror que nós estamos inseridos, mas a apoteose histórica é demais simplista em seus pré-julgamentos qualitativos, Amis quis assinalar a anarquia da decadência através do progresso contínuo de dissociação dos sentimentos. A tragédia de nosso século aprece ser tanto a perda da empatia com os oprimidos historicamente como um distanciamento recíproco com as pessoas mais próximas. Seus personagens vivem em um negrume de ignorância onde inventam paisagens para não ter que admitir a lama que suas vidas são- como o sogro de Des, em Lionel Asbo. Esse “não se importar” abre uma lacuna que parece só poder ser preenchida pela violência.

A influência dessa continuidade de clichês descreve o modo automático com que regularizamos nossas atitudes, o que involuntariamente exclui a possibilidade de empatia. Evitar pensar também causa essa ausência, porque todos os raciocínios instituídos parecem florescer do simplismo apático que é nossa época. As banalidades são sintomas de pensamentos ultrapassados que por algum motivo (e entenda isso como toda demência da massa) ainda perduram suspensos em nosso lar, que também abriga nossas tradições e orgulho ancestrais. Ser um bom escritor não impediu Martin ter publicado algumas coisas bens ruins no início dos anos 2000, onde o profundo virtuosismo paisagístico havia cedido espaço para deslocamentos que, embora ainda tão bizarros como a longa lista de auto-humilhados em sua galeria, pareciam não falar a partir da experiência, e sim da “verdade histórica” que ele é tão relutante.

O crédito voltaria em sua décima primeira novela, Casa De Encontros. Um livro sobre um triângulo amoroso envolvendo dois irmãos e uma judia. São sessenta anos de história condensados em duzentas páginas através de um monólogo narrativo onde não sabemos quem é o orador. Mas já temos conhecimento de suas brutalidades cometidas durante os anos de URSS- estupros, saques. Ele não consegue parar de falar. Ele prefere falar em inglês porque em Russo apareceriam aqueles “guturais horríveis”. Em uma entrega nabokoviana, Amis é muito histórico para apresentar apenas um “triangulo amoroso” e muito estilístico para uma (outra) denúncia histórica. É um livro sobre o lento processo de deterioração. Não é sobre o declínio da Rússia, e sim sobre o declínio do homem moderno. O narrador não está aterrorizado nem apavorado, apesar das inúmeras brutalidades contadas- com muito do humor negro tão característica da prosa amistica. O terror não provém apenas do Estado, mas o horror absoluto é instituído uma vez que temos consciência. No fim da história, sabemos quem é o narrador. Como John Self de Grana ou Odilo de Time's Arrow, ele tenta convencer o leitor de algum tipo de verdade. Mas o que importa realmente, é que o orador acredite que sua vida foi autêntica.
Martin Amis  Htichens
Em 2010, foi publicado A Viúva Grávida, provavelmente seu melhor livro desde A Informação. Aclamado por muitos críticos como um “retorno a forma”, garantiu para Amis muitas participações em prêmios literários. Talvez isso tenha causado uma falha no alvo principal de sua novela. A polêmica aumenta quando a primeira passagem do livro é: “Tudo o que se segue é verdade”. O alter ego Keith Nearing compartilha de suas mesmas obsessões e desejos, assim como tem uma irmã que iria por caminhos não tão saudáveis em função da Revolução Sexual, decorrente principalmente do ano emblemático que foi 1968. De acordo com Amis, “as únicas pessoas de verdade que estão nesse livro já morreram”. Obviamente que A Viúva Grávida reflete a impossibilidade da “vida demasiadamente real” encontrar a ficção. A incompatibilidade mútua de ambas. As primeiras trezentas páginas são em um castelo Italiano onde Keith, sua namorada e outros jovens passam a experimentar a prótese de avalanche de acontecimentos que a revolução sexual gerou.

Daí ser tão forte a confusão normalmente criada, principalmente porque a irmã de Keith morreu com a mesma idade de Sally Amis. Não se pode deixar de ver toda essa confabulação de exageros que é o romance no modo mais perverso que Amis encontrou de lidar com seu passado e com o amor pela irmã. A vida se torna também numa narrativa e, nos tempos entrecortados que acompanhamos a vida atual de Keith, este cria também seu próprio passado. Somos todos escravos de nossa ficção e dos sentimentos, mais do que as ações concretas e objetivas.

Há uma espécie de “acrimônia refinada” que vai tomando corpo em toda obra de Amis e que eclode em A Viúva Grávida. Mais do que uma novela de asserção, Amis se permitiu debruçar sobre os mitos recônditos de seu passado e a dualidade sentida pela irmã para anunciar um envelhecimento preenchido de rancor, o mesmo de Case De Encontros e o fim triste do protagonista de Lionel Asbo. Como se a vida atual fosse uma forma indefinida, mas os traços passados, embora rabiscados e simulados, contribuíssem para a frustração atual. Curioso pensar que o livro de seu pai que também discorre sobre velhice, The Old Devils, encara o tema por outro viés- ainda assim usando o humor absurdo. E nesse caminho de Amis pai e filho, respectivas obras se bifurcam justamente no embate sobre a militação. Enquanto o pai acaba acertando as contas com a idéia da morte, o filho alerta sobre esta em vida, nos alarmando a cada página do perigo que é viver sem sentimentos. Se “discorrer” sobre o Fim é impossível, que ele não esteja presente enquanto ainda respiramos.

É importante atentar para a dissolução do enredo em Á Viúva Grávida porque em seu auge estilístico, Amis consegue radiografar a morte dos sentimentos que domina o homem moderno e apontar as catástrofes originadas da degradação. Esse núcleo que foi a sociedade e, às vezes, a ficção conseguia colocar ordem e objetividade, está falecido como a empatia pelo outro. É nesse automático que vive Lionel, Keith (de Campos De Londres), Richard, a suicida Jennifer, Violet e o avô de Venus.
Nessa análise de degradação, a entropia que se encontra o universo virou motivo para as tiradas de humor mais engraçadas que se pode ter noticia na literatura. E não são subterfúgios ou escapes do assunto maior que organiza intelectualmente a obra de cada autor. Em qual momento da façanha de Amis as personagens encontram algo que vale realmente a pena? Aí está a chave do mestre, em ocultar e colocar escondido a salvação no caos que seus livros mimetizam. Richard Tull salva seu filho no fim de A Informação. Apesar da merda que sua vida se tornou, a percepção de pai foi o suficiente para ele ir correndo para a rua encontrar sua cria mais recente, esta que tinha sérias deficiências psicológicas. Em algum ponto existe a abstração amorosa e esta parece ser a única forma possível de se salvar do monstro histórico e invisível que a humanidade criou para si mesma.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

GUSTAVO JOBIM – Retrospect 2013 (2014)

Talvez a melhor introdução para a produtiva obra do Gustavo Jobim seja esse retrospecto de 2013. Coletânea que reúne faixas de seus quatro lançamentos de 2013. E talvez porque não foi um lançamento planejado como “conjunto” ou “conceitual”, temos diversos pontos de vista em uma aposta que, mesmo tangendo o minimalismo, se mostra surpreendentemente ampla.

Em suma, essa coletânea funciona como um guia do que podemos encontrar nos estudos de Jobim, e também para ouvintes mais antigos, o desenvolvimento de sua obra e em que pontos nós encontramos semelhanças e disparidades.

A composição se mostra bastante abrangente, variando entre as estruturas mais simples e outras faixas com desenvolvimento completamente inesperado. São grandes momentos de inspiração e manipulação eletrônica que me lembram de Mike Oldfield ou mesmo a organização de Klaus Schulze.

Meditações que não se limitam em formas, um instrumental eletrônico variado que com certeza encontra apoio em estruturas oriundas do rock progressivo e da música clássica. Temos sempre a impressão de estar de frente a uma face nova, onde a repetição é modulada de encontro a elementos que surgem para uma combinação implicitamente distinta.


Embora possa soar muito diverso sonoramente para ser encarado como um álbum, à medida que vamos ouvindo mais cuidadosamente encontramos elementos que se intercalam, evidenciando que há uma base sólida que opta por estéticas não confortáveis, mas realizações extremamente autorais. Componentes distintos que formulam a obra (em andamento) de Jobim.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Obrigado, Dance Of Days ! O Melhor Tempo De Sua Vida (2014)

O melhor tempo de sua vida começa com um chamado ao grito, antecedido pelo baixo e bateria. Há tempos que Nene deixou o "lirismo" mais de lado, sendo o mais direto possível em sua mensagens, alguém que testemunhou várias reviravoltas de cenários em uma suposta cena, e que ainda persiste socando ponta de faca, entre gritos e melodias apaixonadas e furiosas, sempre passionais. A proposta é como um testemunho de quem também variou tanto quanto a movimentação faça você mesmo que eclodiu nos anos 90. As baterias noventistas, onde a produção é certamente de quem não busca correções eletrônicas. O Dance Of Days sabe muito bem sua capacidade musical. Se trata da relação de devoção pelos caminhos que já foram tomados, um salto em um terreno conhecido para revelações que ainda se fazem persistentes, principalmente quando confinados na histeria paulista e os micropoderes estabelecidos desde o lar até as ruas. É a própria contradição interna de se guiar por mapas socados em nossa mente. Por que se machucar com parâmetros internos e que são praticamente bizarros de tão sem propósito? Habita nesse EP aquela chama que não conseguimos nominar, aquela luz acesa que nunca se apaga, mas que é tão fluida e orgânica que tentamos de várias maneiras- palavras, sons, fotografias- registrar esse tipo de certeza tão fugidia. Por isso podemos encarar a primeira fase da obra do Dance Of Days (que tem seu ápice em Lírios Aos Anjos) como uma espécie de exceção ao novo caminho pavimentado pelos caras, mais estabelecido em nossas certezas.

Porque eles sabem quem são os combatentes, eles sabem dos adolescentes solitários e perdidos que abraçam na música instantes raros de transcendência. Não há vergonha de converter essas sensações em "hinos" que são musicados em esperanças, no esquema tão comum de utilizar refrão em prol não de um rompimento com meras formas musicais, eles não querem isso, mas sim utilizar de terrenos e variações já conhecidas para explicitar que há outras formas de viver fora desse espaço confinado que nos ensinaram como realidade. Recorrer ao hardcore punk é completamente justificável, talvez porque apesar de tão esculhambado, ainda é uma pedra que insiste em ir contra o fluxo da corrente. O conceito de libertação, na visão do Dance, se passa sim por formas de expressão simples que abrigam uma complexidade íntima enorme, não em forma de estética, mas do exorcismo sentimental em forma de manifesto, assim como os stages dives, os sing along e toda essa porcaria que ainda amamos depois de todos esses anos. Ao notar que tantas coisas passaram na minha vida, tantas pessoas e tantas lembranças, me pego realmente surpreso por uma banda que eu amava há dez anos atrás ainda se fazer presente, e reparo que o Dance é como a luz do Morrissey e que, embora as vezes tão fraca e pouco constante em minha vida, permanece em algum canto recôndito para voltar com toda força. Então eu aumento o volume para tudo se resumir nessas músicas, onde o diálogo com os rostos suados dos shows ressurge como memórias involuntárias. Minha impressão é que voltar nessas canções sempre vai me dizer algo essencial para o momento que esteja passando.

E agora que escuto tão pouco o que se convencionou chamar de hardcore punk, a ética ensinada por bandas como o Dance Of Days se mostra como uma das coisas mais legais de minha vida, esse amor incondicional pela expressão, uma espécie de necessidade que urge a cada final do dia, enquanto volto do trabalho idiota e as nuvens carregadas e acinzentadas sinalizam desdém. Temos nossas armas para enfrentar os covardes do cotidiano e as músicas sempre me lembram do garoto que sonhava acordado ou que ficava sem ir pra rolês por um mês para ver shows de lançamento no hangar, em troca de quatro horas de suor e voltar rouco enquanto garoava em São Paulo. O maior mérito do Dance, então, continua sendo o mesmo de anos atrás, e isso ao invés de ser sinal de estagnação, é uma marca notável de um compromisso sério com a devoção dos fãs e ao estilo de vida escolhido, e por isso essa base sólida de seguidores. A figura de Holden...

São micro influencias que podemos notar todo dia, na forma com que me relaciono com pessoas queridas, ou nas dezenas de bandas que fazem som por ai, nas mais variadas movimentações, que foram impulsionadas por álbuns como A História Não Tem Fim. Os limites são instituídos e, uma vez lançados no mundo, só nos resta quebrá-los. E na minha trilha sonora de rompimentos, o Dance Of Days sempre se fez presente.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Taunting Glaciers - Taunting Glaciers [2013]

Querer voltar no tempo e corrigir seus erros, desejar se sentir acolhido novamente, perceber-se sozinho. São temas que Roberto Lucena (compositor das letras) aborda com conhecimento empírico. Em seis canções, temos essas sensações exploradas sempre do ponto de vista de um ‘eu lírico’ nostálgico, confuso e sem propósito.

Variando entre frases mais certeiras e passagens mais poéticas, o clima do disco embaralha, de forma instrumental, a espécie de clausura que as letras passam. São ambiências extremamente íntimas criadas em tentativas- mais diretas, como os berros do vocal- e concretas de se reconectar a algo, de encontrar propósito onde tudo parece absolutamente vago e sem sentido. No entanto, não temos apenas a consumação própria em torno de reclamações superficiais, mas sim sempre uma tentativa de explorar a experiência para recuperar o vivido e estabelecer as sensações.

É a possibilidade sonora que emerge da combinação simples entre piano, guitarra, baixo e bateria. No fim, é sobre isso: os diversos cenários que podemos construir ao invés de olhar o passado e o sofrimento.


Trata-se, então, de construção. Mas nunca negar o dilaceramento presenciado ou aquele que ainda acontece. São emoções despejadas que não devem nada a bandas como Defeater e tantas outras. Um desempenho de testemunhas que não se ajoelham aos danos já feitos, porque estes vão nos influenciar a vida toda.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

God Demise - S/T [2013]

A demo do God Demise começa com uma guitarra suja distorcida que anuncia um pouco do que teremos em formas mais violentas. São sonoridades impregnadas das demonstrações mais agressivas da sensação de niilismo e desesperança. É nessa fonte de mundo desolado que vamos emergir nos próximos dez minutos.

Embora o som percorra mais os lados “sujos”- combinando tempo lento e atmosferas obscuras, na ampla variação entre o doom e o hardcore- não podemos deixar de falar da pequena influência do noise rock, com suas guitarras distorcidas, microfonias, etc. A proposta dessa dinâmica declaradamente mais desregrada estimula os sentimentos descritos nas letras. A bateria cobre essa variação de velocidade. Mas não se enganem por essas impressões de apenas degradação, a música que o God Demise faz é decididamente séria e densa, com temas espinhosos e uma surpreendente capacidade de mudanças, contando que a demo não tem nem dez minutos.

Com certeza coisas boas virão desses mineiros, visto que em uma gravação caseira eles já conseguem deixar claras as influências de metal, variando até as velocidades mais extremas. São relatos de experiências como se estivéssemos em um pesadelo onde o amor estivesse extinto: por isso chiados, os ruídos prolongados, estamos num mundo sem redenção e o God Demise deseja deixar isso bem claro. Uma construção que varia entre os diversos elementos citados em função da estética da perdição. Engraçado que mesmo hoje com os “gêneros” sendo cada vez menos identificáveis na música, essa banda consegue fazer desse entrecruzamento de referências algo que não vise apenas um catado aqui e outro ali. Não, a comunhão do God Demise é integrar como um caminho bem, extremamente difícil.


Confesso que só fui pegar pra ouvir a banda porque eles vão abrir pro Touche Amore e, caralho, que surpresa! Agora estou ansioso para vê-los ao vivo. Intuo uma apresentação tão visceral quanto essa pequena demonstração. Onde vemos nossas fraquezas e talvez tenhamos que nos contentar com esse mundo de ódio, sem amor.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Campbell Trio e a importância de sonhar - The Campbell Trio Sings the Blues [2011]

"A vida é feita de medo. Algumas pessoas comem sopa  de medo três vezes por dia. Algumas pessoas comem sopa de medo em todas as refeições existentes. Eu como às vezes. Quando eles me trazem sopa de medo para comer, eu tento não comer, eu tento enviá-la de volta. Mas às vezes eu estou com muito medo e tenho que comer de qualquer jeito. "
― Martin Amis, Other People

Sings the Blues começa com uma importante nota sobre uma questão filosófica, seguido de um instrumental apurado e bem executado. Talvez o tema que sempre direciona uma espécie de nova “fé” na música, ou uma admissão da importância de sonhos, por mais infantis que possam ser.

Longe de ser música que opta por caminhos “fáceis”- bem afastado disso, na verdade. Temos uma sonoridade que oscila entre o que se convencionou chamar de “post-hardcore” e timbres experimentais. Não é exatamente difícil, mas requer força do ouvinte, um envolvimento e pró-atividade, nos convidando a sair da simples zona de conforto. São composições que arriscam e nada mais justo que o destinatário também dance e se exponha.

Então não vamos parar. Apesar das disparidades, dos empecilhos. Pode ser realmente óbvio que só podemos ir em frente, mas o Campbell Trio reverbera “não tenha medo!”. É uma queda livre de qualquer jeito, e se aborrecer com fobias,especialmente quando a maioria dessas são criadas por nós mesmos, não vale a pena. Apesar da nota inicial, a estética aqui não é de teorização, ao contrário: os rapazes fazem uma música de combate, sonhos versus preocupações.

E não podemos passar batido na referência ao Grim Fandango, jogo clássico do final dos anos 90. Onde nos deparamos com o Departamento Da Morte, e uma estranha conspiração (que não deveria nada à ficção de Thomas Pynchon), e um problema no paraíso. Paraíso que reflete também a citação de Milton. Essa obra do Campbell Trio então aborda a importância dos sonhos, estrutura um “sistema próprio” de combate para não sermos almas mortas que apenas vagam por aí.


O EP é literalmente uma pancada. É paulada atrás de pauladas onde a execução instrumental varia a todo instante e os gritos de desalento são praticamente uma convocação à essa guerra. A batalha de seguir em frente e encontrar o descanso merecido, os desafios de encontrar forças próprias na terra desolada que estamos- num tempo onde os sistemas de crenças já estão obviamente descredenciados. A estética da continuidade, onde os aparatos (e escapes!) têm que ser criados na marra.
E penso se seria possível atribuir qualquer espécie de etiqueta musical ao conjunto. Pois não são críticas fáceis formuladas por frases feitas ou sons puramente “agradáveis”. Não, a força da banda está justamente em desdobrar novos e inesperados caminhos nesse curto disquinho. Como uma espécie de fortalecimento de crenças internas e validação destas através de toda energia (que não é pouca!) dispostas nas canções.

A brincadeira com o jogo continua, e eles convidam Salvador Limones para fazer seu levante contra a perdição da alma em disparidades rasas do dia-a-dia. Já que estamos condenados- é o que o Campbell Trio parece ressaltar que passemos por essa curta estadia na Terra vivendo de pé e acreditando em ingenuidades próprias.

Ingenuidades que nos mantém de pé, no fim das contas. E é isso que precisamos nos nossos dias. Confiar em olhos amigos, se movimentar guiados por sons que transcendem a mera realidade instituída e apontam caminhos além do que aparentava ser possível. Porque é indiscutivelmente melhor prosseguir com intuições do que essas prisões diárias que abastecem nossa mente em paranoias como “se dar bem na vida”, “ter uma carreira de sucesso”.

Tudo isso, essa aglomeração de combate contra os sintomas mais claros da nossa Era de demência coletiva, me lembra dos riffs. São sonoridades que se entrecruzam para fazer frente ao Monstro Realidade, num espaço vazio em que conexões são possíveis justamente pelos sonhos. Pode soar ingênuo, mas talvez ingenuidade e devaneios sejam as características que mais faltam nesse mundo morto onde todos tem que ser fortes, realistas, competitivos.

O disco encerra com um clima “feel good demais” pro que ele vinha trabalhando. Talvez a interrupção bruta para começarmos a rítmica bem jazz seja para sinalizar que a tática para guerrilha estava lá.

No fim, Sings the Blues é um EP para seguir em frente apesar das fobias, porque embaixo do asfalto há sementes esperando.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Os livros da minha vida (e ótimos discos para escutar lendo)

Livros que invadem meu espaço íntimo, suspendem a cronologia. Sempre volto a eles, invariavelmente, em qual estação que seja.


T.S.ELIOT - OBRA COMPLETA

Ler ouvindo: Kammarheit -The Starwheel

Ricardo Piglia - Respiração Artificial

Ler ouvindo: Thomas Köner-Permafrost

Juliano Garcia Pessanha - Instabilidade Perpétua

Ler Ouvindo: Halo Manash -Par-Antra I: VIR

Dostoievski – O idiota

Ler Ouvindo: raison d'être - Within the Depths of Silence and Phormations

Osman Lins-O fiel e a pedra

Ler ouvindo: Voice of Eye -Transmigration

Thomas Harris - Hannibal

Ler ouvindo: Nurse With Wound Soliloquy for Lilith

Henry James - Outra volta do parafuso

Ler Ouvindo: Ben Frost -By the Throat

Vladimir Nabokov- Lolita

Ler ouvindo: Lustmord -Carbon / Core

Rubem Fonseca - O Caso Morel

Asianova -Love Like a Veiled Threat

William Faulkner - O som e a fúria

Ler Ouvindo: Time Machines -Time Machines

Autran Dourado - O Risco do Bordado

Ler Ouvindo: SPK - Zamia Lehmanni: Songs of Byzantine Flowers

Flannery O’Connor - Sangue sábio

Ler Ouvindo: Lustmord -Heresy

Murilo Rubião - Obra completa

Ler Ouvindo: Thomas Köner - Kaamos

Cormac McCarthy-Trilogia da Fronteira (Todos os Belos Cavalos, A Travessia e Cidade das Planícies)

Ler Ouvindo: Darkspace -Dark Space III

Dalton Trevisan - Ah, é?

[Ler Ouvindo] Les Joyaux de la princesse -Exposition Internationale Paris 1937

Thomas Pynchon-O Arco-íris da Gravidade

Ler Ouvindo: U-R-I - The Bone Tree Soundtracks vol 1

Lygia Fagundes Telles-As meninas

Ler Ouvindo: Darkspace -Dark Space II

João Cabral de Melo Neto - Morte e vida severina

Ler Ouvindo- Zoät-Aon The Triplex Bestial

William Gaddis - A Frolic of His Own

Ler ouvindo: Hoedh -Hymnvs

Alceu Amoroso Lima -  Voz de Minas

Ler ouvindo: Lustmord -The Place Where the Black Stars Hang

James Joyce- Ulysses

Ler ouvindo: Bohren & der Club of Gore - Sunset Mission

Carlos Nejar- Canga (Jesualdo Monte)

Ler Ouvindo: raison d'être -The Empty Hollow Unfolds

Martin Amis - A viúva grávida

Ler ounvindo: Bohren & der Club of Gore- Black Earth

Lima Barreto- Triste Fim de Policarpo Quaresma

Ler Ouvindo: raison d'être - Requiem for Abandoned Souls

Don DeLillo - Submundo

Ler Ouvindo: Deathprod -Morals and Dogma