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domingo, 9 de fevereiro de 2014

A ambição do Title Fight

Title Fight é uma das  minhas bandas favoritas. Sério, fica difícil imaginar como seriam meus últimos cinco anos sem a música desses rapazes estourando meus ouvidos. Abaixo, uma pequena análise da carreira da banda e de como eles evoluiram, absurdamente, nos últimos quatro, cinco anos.

The Last Thing You Forget [2009]


 

Pop punk sem a parte chata do negócio.

“I'm not hiding out, I'm far away.”

Title Fight é uma banda rara. Esse álbum é a prova disso. O conjunto não carrega o ritmo otimista tão comum das bandas do gênero. Ultimamente, a tendência tem sido coros empolgantes, som mais limpo. O que acarreta em um punhado de bandas parecidas. Canções com letras chicletes, condução hardcore melódico e pausas para o vocal cantar sozinho e tá tudo certo. Title Fight deu o primeiro passo para fugir da obviedade nessa compilação. Todas as canções fluem sem parecerem com aquelas fórmulas pré-estabelecidas e, coisa difícil no pop punk, não tem aqueles “breakdowns” irritantes no meio. Pegue a honestidade brutal emocional do Lifetime, e o Brand New nas situações limítrofes que propõe, temos o Title Fight.

The Last Thing You Forget é uma compilação entre um EP do Title Fight e um Split. Há também algumas músicas novas. Todas as canções dispostas de forma que não vão te entediar. Symmetry abre o jogo, e já introduz rapidamente o som geral da banda. Dois vocais alternados- um mais berrado; outro mais limpo- punk rock acelerado. Embora isso seja o que marque todo o álbum, os caras são grandes músicos e criativos letristas. O que fatalmente vai te deixar querendo mais ao término do disco. Angústia adolescente desabafada da forma mais honesta possível. A simples ideia de solidão é o que assusta o eu lírico. Algo que obviamente faz o ouvinte se relacionar diretamente.

The Last Thing You Forget é uma bela estreia! Mal posso acreditar que verei essa banda ao vivo. Cria uma conexão muito forte, dessas de berrar as músicas mentalmente enquanto está entediado num trabalho chato. Você vai querer ouvir mais Title Fight.

“I'm burning down all of these memories
Throw the ashes out to sea”

Shed (2011)  



O Title Fight melhorou muito e avançou para direções digamos, hum,mais adultas. A banda mereceu uma nova chance mesmo para os que não gostaram dos lançamentos anteriores, pois a fase hardcore/pop-punk aos poucos era deixada como mais uma ferramenta sonora.  No primeiro álbum cheio, o conjunto decidiu por canções mais arrastadas, volumosas, impressionando de fato desde a primeira ouvida.

A banda acertou em cheio ao somar influências punk rock de bandas como The Draft, o emo do The Casket Lottery e a melodia do Make Do and Mend. Na verdade, se pegarmos os álbuns dessas três bandas, e fizermos uma seleção de melhores momentos, teremos o Shed. O acerto foi aí, saber fazer a transferência do som mais acelerado e melódico para as guitarras e vocais dilacerantes.

Lógico, não podemos esquecer-nos de citar “27”, que é uma das músicas mais comoventes que ouvi na vida. A variação entre as canções no Shed atinge certa constância, o que é um grande mérito para uma estreia, a ordem das músicas torna tudo mais legal, com meio-tempo, canções arrastadas e as mais aceleradas.

Title Fight acertou em cheio ao se juntar com a gravadora  SideOneDummy, que já vinha lançando algumas bandas promissoras. O que vale uns parabéns para a gravadora, também, por enxergar numa banda ainda em fase inicial um potencial que talvez seus lançamentos antecessores não demonstrassem. Uma das maiores surpresas musicais, com certeza! Para fãs do que se convencionou chamar “post-hardcore” se debruçarem e berrar em plenos pulmões (enquanto mosham!).


 Floral Green [2012]  



Se em Shed é constatada a fase da mudança, da transição para uma suposta vida adulta, em Floral Green nos é mostrado o espanto em se perceber paralisado no mesmo lugar.

Os anos 90 desfilam entre as músicas, passando por nomes mais “discretos” como Christie Front Drive e Lifetime, ou os ruídos do Mudhoney e Sebadoh. A banda funde essas influências externas com sua própria proposta para novamente lançar um álbum que se destaca dos outros. As composições e estrutura musical atingem o topo em comparação ao que haviam feito e experimentado; arrastando, explodindo.

As letras falam de incertezas, fracassos pessoais, como em Numb, Nut I Still Feel It: “I held my breath through every title/ I wish I could get over this feeling of slipping under/ I never get that far”. Vale notar a maneira que Ned Russin cresceu liricamente e como vocalista. Pode-se conferir exatamente a mesma sensação de fracasso em Leaf: “Pull down the shades/ Rather stay inside all day/ My own thoughts are in my way/ Rather sleep than have to stay”.

Jamie Rhoden opta por seus vocais mais baixos, embora permaneçam certeiros e passando certa sensação de cansaço do eu lírico. Rhoden divide os trabalhos de guitarra com Moran, e estas muitas vezes se difundem pelo disco, caóticas; afogando-nos numa poderosa imersão sonora. As letras cabem perfeitamente nos vocais mais lentos, bem feitas para serem cantadas junto. Veja bem, o formato Title Fight é muito mais punk rock do que hardcore nesse disco, certas canções contem simplicidade e profundidade tremendas.

As transições são dissonantes, ruidosas; o que tem muita a ver com a forte influencia de bandas da Dischord. Essas partes mais arrastadas e angustiadas resumem-se perfeitamente em Head In The Ceiling Fan, onde a letra abstrata casa com o clima delongado. Competente também são as partes em que Rhoden e Russin dividem os vocais, em canções viscerais, bem rock’n’roll. O interessante é como os estilos e tons se diferem, embora a temática seja sempre introvertida, essa oscilação ajuda o álbum a não cair na monotonia.

A parte “experimental” da banda é mais bem aproveitada em Lefty, aonde uma bateria torta conduz a música, enquanto Rhoden não hesita em desafinar propositalmente. Com certeza uma influencia de bandas como Hole, nos componentes elétricos mais lentos.

Floral Green é um álbum que precisa ser ouvido diversas vezes para ser “digerido”. Com certeza não tem o impacto inicial de Shed, mas em contrapartida, é repleto de detalhes e não soa enjoativo. O desenvolvimento desses garotos eclodiu em uma verdadeira ode às guitarras, com letras introspectivas.

Spring Songs [2013]  



Embora o cenário punk em Kingston seja cheio de nomes locais realmente poderosos, requer muito trabalho para uma banda, além de tentar romper com preconceitos sonoros dentro do gênero, se tornar um sucesso internacional. É claro que você precisa de canções brilhantes, e isso o Title Fight tinha um punhado. O problema é que, mesmo Floral Green rompendo a com as tradições musicais da banda, as canções ali tinham mais ou menos o mesmo esquema. A banda é produtiva, respeita suas referências Straigh Edges, fazem turnês com bandas menores da cena. Eles não largam tempo, como exemplo inusitado, a conta da banda no twitter tem milhares de seguidores, enquanto o conjunto não segue ninguém.

Muita gente que não acompanhava a banda chamou esse EP de “ambicioso”, deixando claro que não conhecia a música. Para mim, fica claro a invasão de suas influências como Kid Dynamite, Jets To Brazil e The Get Up Kids no tão chamado indie rock. Vale chamar atenção para que o Title Fight acabou de ultrapassar a adolescência. E como nos últimos lançamentos da banda tinham progredido muito qualitativamente entre um e outro, podia se esperar muito desse EP. Spring Songs reveste, novamente, o som do conjunto, mostra quão ambiciosos são.

São quatro canções, duas cantadas por Ned Russin e duas por Jamie Rhoden. Alguns vocais são ouvidos na base da produção analógica, outros maravilhosamente hiperproduzidos em cima de várias texturas de guitarra. Isso só mostra as pequenas mudanças que eles realizam para se renovar e atingir uma nova estética. Em “Be A Toy”, Rhoden conduz a música que pega influencias claras de Lifetime e o Superchunk no início de 90. Essa é uma música que o vocal cuidadoso de Jamie, meio desleixado, arrastado, contrasta com a música mais “animada”. Já Rhoden, o baixista, canta com pura explosão, algo entre Mudhoney e o punk rock melódico que emergiu em 94.

Pode-se afirmar que esse é o lançamento menos “característico” do Title Fight. Pelo tamanho das músicas –elas seriam as mais longas se estivessem nos últimos dois álbuns- e pela falta de estrutura punk na sonoridade. O que as letras não perdem são o foco direto. Os tópicos continuam tendo letras “focadas”, ao mesmo tempo em que vagas o suficiente para relacionar o ouvinte. Com muito comedimento nas letras, Russin entrega a quem escuta toda a parte dramática das canções no vocal, fica tudo subentendido. Os temas, aliás, são muito parecidos e até recorrentes de Floral Green. Talvez o único pecado de Spring Songs seja esse, como a banda é muito ansiosa a respeito de novos lançamentos, os assuntos acabam reaparecendo com certa recorrência.

Com certeza Spring Songs é outro passo importante e distinto para a banda, que deixa na cabeça de muita gente a seguinte pergunta “como será o próximo lançamento deles?”. Muito legal ver que TiItle Fight embora faça um som decididamente mais abrangente, ainda tem uma postura muito “faça você mesmo”. Uma coisa que tenho comentado com amigos recentemente é como é estranho ver a dificuldade da galera que gosta mais de rock de guitarra anos 90, demorar e até ter uma resistência a bandas como Title Fight, que ainda é ligada ao hardcore punk muito mais pela postura e pela sua base de fãs do que o som em si. Com certeza, se pedimos para eles ouvirem sem essa pré-rotulação que às vezes beira a idiotice, vão ver o real Title Fight: uma banda tão nova quanto ambiciosa. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Entrevista com Chris Simpson

Se você já leu alguns posts nesse blog ou entrevistas, talvez tenha notado que Mineral é uma das bandas mais citadas. Na primeira vez que ouvi as melodias de Simpson e li as letras, fiquei maravilhado. Desde então, há mais ou menos dez anos, venho procurando todos os seus trabalhos musicais, o que ficou definitivamente mais fácil com a internet. Desde 1994, ele vem liderando incríveis projetos, como o Mineral, The Gloria Record e o atual Zookeeper. Eu sei que soa um pouco clichê, mas o homem é um dos meus "heróis musicais" desde que eu lembro de gostar tanto de música. Então, quando ele aceitou fazer essa entrevista, trouxe apenas sorriso à minha face. Espero que vocês gostem o tanto que eu gostei:
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Olá, como vai? Como estão as coisas com a turma do Zookeeper?

Chris Simpson: Oi, estou ótimo. As coisas estão boas. Eu me sinto mais como um vigilante de crianças do que um vigilante de zoológico (tradução literal para Zookeeper) esses dias. Eu e minha companheira temos gêmeos de dois anos e meio e um bebe de nove meses. Eu fico em casa com eles a maioria do tempo e vou para a escola (poucas aulas por semestre) poucos dias da semana. De alguma forma eu ainda tenho encontrado tempo para ficar agradecido e finalizar uma nova gravação.

A canção “Flood Of Love” tem imagens muito fortes. Muitas músicas suas trabalham com imagens (como “Quando está tarde à noite e a casa está azul”). Isso acontece naturalmente ou é algo que você sempre tenta colocar nas suas letras?

Chris Simpson: Eu acho que gosto de imagens também. Eu sou muito visual. Então talvez pareça natural para eu escrever desse jeito. Eu não acho que é algo que eu penso muito.

Literatura é algo que influência a sua maneira de escrever? Se sim, por favor, poderia nos recomendar alguns autores que você gosta?

Chris Simpson: Sim. Eu tenho certeza que o que leio influencia minhas letras. Meus favoritos são, na ficção: Hermann Hesse, Carlos Castaneda, Flannery O'Connor, Graham Greene, Beryl Bainbridge. Acreditem ou não, eu gasto a maior parte do meu tempo lendo não ficção: cosmologia, filosofia religiosa, psicologia, mitologia, eu até passei por uma fase de física teórica.

A primeira vez que ouvi o álbum “Becoming All Things”, eu pensei em uma festa! Com bons e maus momentos, claro. Quero dizer, depois de uma música como Boy & The Street Choir, nós temos a funk Al Kooper's Party Horn. Porque tanta variedade e vocês se divertiram enquanto gravaram?

Chris Simpson: Sim. Nós festejamos. Aquele era meio a vibe e o sentimento das sessões. Um bocado de pessoas em um cômodo se divertindo. Tocando espontaneamente e sem ensaiar.

Como são suas apresentações ao vivo?

Chris Simpson: Cruas. Elas são um pouco diferente todas às vezes. E às vezes (frequentemente) não são otimamente ensaiadas também.  Eu tenho me apresentado sozinho muito mais ultimamente, mas ainda amo tocar com outras pessoas. Quando eu tenho uma banda junto, é uma banda montada para um show ou turnê específica, então as dinâmicas e energia entre os músicos são frequentemente diferentes de um show para outro. É mais uma maneira de trabalhar com os recursos disponíveis, mas eu gosto de algumas coisas em relação a essa espontaneidade e energia dessa abordagem.

Pink Chalk me parece mais lento, intimo e tranquilo do que as gravações prévias. Por que essa “mudança”?

Chris Simpson: Eu não sei por quê. Fundamentalmente eu acho que é diferente porque com essa gravação eu iniciei e toquei a maioria dos instrumentos. Então era apenas eu e o engenheiro trabalhando juntos na gravação. Nós começamos muito disso em máquinas de fita 8-track e eu queria limitar as possibilidades técnicas de início. Para ver se poderíamos ser mais livre com a instrumentação e conseguir que as canções fossem mais simples.

Tem um intervalo de seis anos entre seu último lançamento, você meio que ficou cansado de criar música ou apenas diminuiu o ritmo de composição?

Chris Simpson: Provavelmente ambos. Eu também tenho três crianças e alguns outros desvios pelo caminho. Minha vida estava louca em muitos sentidos e eu tenho estado nesse processo de se acalmar e voltar a trabalhar. Eu tinha e ainda tenho muito trabalho interior para desenvolver, mas eu estou feliz de ter terminado algo que eu possa compartilhar com as pessoas de forma exterior novamente.

Que bandas são seus remédios?

Chris Simpson: Harry Nilsson, Van Morrison, The Velvet Underground, The Kinks, Talk Talk, Big Star, Broadcast, The Innocence Mission, Nina Simone, Thelonious Monk, Otis Redding, Neil Young, Bowie. Muitas. Eu gosto de artistas. E cantores. Eu amo cantores.

Companheiros de Zookeeper tem outros projetos, certo? Poderia por favor, falar um pouco sobre isso?

Chris Simpson: Seth tem um projeto chamado The Whiskey Priest. Ele mora no Novo México agora e não toca mais conosco. Alex Dupree escreve as melhores canções sob o nome de Idyl. Ele mora na Califórnia agora e faz pós-graduação em poesia. Ele é realmente um verdadeiro poeta. Mesmo que não aconteça dele escrever poesia. Ben Lance e Ben Houtman tocam em uma banda chamada Frank Smith, e Ben Lance também toca com nosso bom amigo Booher. Jeremy Gomez, que também tocou comigo no The Gloria Record, e Mineral, também toca com What Made Milwaukee Famous às vezes. Joe Salinas também é um cineasta aspirante cujo trabalho é produzido sob o apelido de Miso Mesican Media. Cully Symington tem tocado com Cursive, Okkervil River e The Afghan Whigs. Essas pessoas são todos músicos incríveis e artistas e muito mais. Pesquise por elas e seus projetos.

Você ainda ouve as bandas que você ouvia quando começou a gostar de música?

Chris Simpson: Quando eu comecei a gostar de música foi através dos discos da minha mãe, então eu ouvia Michael Jackson e Lionel Richie e Barry Manilow e Kaura Branigan, e graças a Deus, The Bee Gees. Eu ainda ouço muito os primeiros lançamentos do Bee Gees (a Era pré-disco). E Simon e Garfunkel. Então, sim, algo daquilo.

Você percebe muita mudança como artista e pessoa do garoto que gravou Power of Failing e o homem que é agora? Quais?

Chris Simpson: Eu não posso pensar algum modo que eu não tenha mudado. E ainda assim, tudo permanece. Parece que nós crescemos e compreendemos mais e mais sem realmente deixar nada partir. Eu tenho que aprender a deixar algumas coisas sumirem, com certeza, mas é tudo parte do que sou agora. Quem eu me tornei e estou me tornando.

Quais foram seus discos favoritos do ano passado?

Chris Simpson: Ah, garoto. Eu não ouço muita coisa atual. Eu realmente gosto do The Walkmen, eles lançaram algo novo ano passado? Parece que eles estão sempre lançando discos. Eu amei o último disco do Bright Eyes, The People’s Key, foi ano passado? Eu não consigo acompanhar. Bill Fay lançou um disco novo pela primeira vez desde o começo dos anos 70, eu amo isso.

Quais são as coisas boas sobre estar em uma banda que só se aprende fazendo parte de uma?

Chris Simpson: Há coisas boas sobre estar numa banda? Não, é claro que sim. Faz algum tempo que eu estive em uma banda realmente consistente, mas a camaradagem e o vínculo criativo podem ser tão emocionantes. Eu acho que você não experimentaria isso se não tivesse numa banda.

Obrigado Chris! Eu sei que as pessoas que leem nosso blog realmente apreciam sua “carreira musical” em um todo. Por favor, deixe uma mensagem para elas, qualquer coisa. Realmente agradecido.

Chris Simpson: Obrigado! Eu apreciei muito responder suas questões. Paz e amor para você e todos seus leitores. Esperançosamente eu possa ir ao Brasil e tocar para vocês algum dia. Parece tão distante, mas o mundo é pequeno e está ficando menor a cada dia, nunca se sabe.
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Você pode encontrar a música do Zookeeper aqui: 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Silver Mt. Zion - Fuck Off Get Free We Pour Light on Everything [2014]


Thee Silver Mount Zion chega ao pico de expressar suas ideias como forma de arte, provando ser uma banda totalmente livre. Fuck Off Get Free We Pour Light on Everything marca a maior conquista do conjunto, no mínimo, nos últimos nove anos.

Logo no início somos apresentados à intensidade carregada e bem arranjada do Mount Zion. Seria dificílimo encontrar um gênero para descrevê-los, post-rock é o que chega mais próximo, por causa do clima carregado e as longas sessões instrumentais. A música dá uma grande sensação de crueza, pelas partes em que guitarra e violino são “aranhados”. Os instrumentos dispersos, cacofônicos, nunca se encontram, criam sua própria distorção em uma bela parede sonora. Talvez isso seja o porquê da banda ser caracterizada como post-rock. Mas há um vazamento que o grupo ainda não havia explorado que torna Fuck Off Get Free We Pour Light On Everything o trabalho mais completo do conjunto.

A construção de Efrum Menuck na guitarra é bastante singular, e é justamente isso que abre Fuck Of... A primeira faixa resume bem o resto do disco, violino em constante desacordo ressonante com a imersão das guitarras. Essa música, ainda assim, vai por um caminho indefinido, sempre nos surpreendendo. É com certeza a canção mais “pé na porta” que a banda já fez, terminando em meio tempo e deixando a sensação de “porra, o que vai ter agora?”... E a resposta é nada mais, nada menos, que Austerity Blues, absurdamente selvagem. Uma canção que é oposta do “lugar comum”, via de regra post-rock (aquela especificação de construção, clímax, outro). É aí que eles mostram onde acertaram, embora a música tenha em comum a “crueza” que tinha a antecessora, é mais lenta, equilibrando bem a ordem de escolha. No apogeu dessa cacofonia, a percussão brilha. Para a banda derrubar, na sessão instrumental, tudo que tinha construído, reduzindo a arquitetura a pó.

A impressão que Fuck Of deixa, é de assimetria, uma desproporção abissal entre as faixas que constituem o disco. Temos a primeira metade mais enérgica e contundente, e a segunda parte bem cadenciada; sem correspondente vigor. A faixa que encerra a primeira metade, “Take Away These Early Grave Blues”, é a musicalmente mais variada. Embora a construção não seja tão elaborada quanto às antecessoras, seus muitos apontamentos abrandam os caminhos. Little Ones Run abre a parte mais sentimental e bonita do disco. “What We Loved Was Not Enough,” é o ápice do álbum, um grande hino. Como em uma peça de teatro, invoca a tragédia enquanto estratégias são repetidas, circulando ao redor do epicentro da música. Vocais de apoio ficam iterando “E o dia surgiu onde nós não sentimos mais”. Poucos momentos musicais foram tão aprimorados.

Fuck Off é o melhor trabalho até agora do Mount Zion. Em cada registro a banda tinha leves falhas para alcançar a estética proposta, lógico, isso em termos da grandeza que o conjunto alcançava em alguns momentos. Dessa maneira, há algo arraigado, mais denso, que está presente em todos os pontos nesse álbum. Fuck Off é uma grande, espetacular, passional experiência, que implora para ser ouvida.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Alexander Hawkins Ensemble- Step Wide, Step Deep (2013)


Uma vez, li que a morte era o momento mais significativo da vida, e é mesmo. A minha foi boa, está sendo, não por muito mais”, Fernanda Torres.

Alex Hawkins lançou em 2013 um álbum solo de piano, e em 2012 um grande álbum com conjunto. O novo conjunto presente nesse álbum apresenta pequenas alterações em relação ao último.  Tom Skinner na bateria, Neil Charles (baixo), o clarinetista Shabaka Hutchin, o violinista Dylan Bates. Otto Fischer continua nas guitarras, que tem uma importância fundamental no desenvolvimento das músicas.

Eu ainda me lembro de a primeira vez que ouvi The Shape Of Jazz To Come, do Ornette Coleman. A química de vanguardismo emanava daquele álbum, com as improvisações, a liberdade criativa. A alma desse álbum me lembra da obra-prima do Coleman, não em questão de versos e temas- Ornette usou bem mais- mas em relação à improvisação misturada com uma linhagem mais palatável. E sentimos isso logo na primeira faixa, a mais próxima da arquitetura de Coleman. A interação entre clarinete, baixo e violino é sublime. Em meio a cadencia do andamento, todos os membros tem a oportunidade de solar- outra referencia à Ornette. Terminando com uma grande reverencia graciosa.

Acredito que em algumas faixas seja livre improviso puro. Legal como os músicos respeitam e atentam para o que os outros tocam, construindo um terreno onde o repentino ataca a organização, e vice-versa. As peças atingem uma pegada muito forte, onde é possível ver a dedicação dos instrumentistas. Como estes barganham com “outros”, celebrando o discurso livre. Esse âmago libertário exige muita dedicação e concentração. As sessões improvisadas reagem muito naturalmente com as partes arquitetadas.

São admiráveis as faixas que compõe o disco, Advice fica muito perto de um blues, um blues de improviso com influência óbvia de Derek Bailey. Ensemble/Melancholy brinca com a parte de improviso e composição, onde o arremesso de cada instrumento torna a coisa toda muito caótica ao mesmo tempo em que ordena uma sincronia de arranjos. Para fechar o disco, uma das faixas mais “gentis”, onde os músicos despencam para o livre improviso, cada instrumento dando seu máximo como a procura de resposta, muito parecido com as curtas sessões de improviso de Robert Fripp. Fantástico!