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sábado, 3 de setembro de 2016
100 lançamentos de 2016
Listão TM de lançamentos deste ano que vale muito a pena ouvir. Tudo carinhosamente selecionado com a minha curadoria e minha obsessão irritante de catalogar as coisas que ouço. Link direto pro RYM, pra você saber o gênero, ter info dos artistas. Isso ai, keep musicando!
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
nossos demônios são poderosos demais
@M tinha feito algo errado mas ela pensou que mal que tem
isso porque todo mundo faz algo errado de vez em quando. @M pensava nisso
mexendo incansavelmente nos seus óculos, como se a obsessão de seus dedos pelo
tato fosse uma ação capaz de reverter as besteiras, o álcool ou devolver
qualquer inocência. Isso de "eu perdi" minha inocência sempre foi
como uma desculpa da mente para dizer como sucumbimos às fraquezas. Nossos demônios
são poderosos demais; eles nos controlam e dentro dessa mente fechada são eles
que fodem tudo. Mais fácil falar que um demônio invisível fode tudo.
"Por que você sumiu", @M lixava a unha. De novo a
obsessão do tato. Tocar a carne. Tocar um objeto. Qualquer coisa que afirme a
mortalidade. Qualquer coisa que mostre a indiferença. Que mostre que há algo
mais forte do que nossas fraquezas. Que mostre que nossas fraquezas são nulas
sob qualquer observação de um plano supostamente superior. Um ponto de vista em
que o pensamento, a cisma, a insistência e a imaginação humana não podem
acessar. Nem conseguem. Um ponto que é Deus. Um invisível em que tudo possa ser
transferido. Descarregado.
"Eu parti por sua causa" Carol estava de pé
testemunhando tamanho desdém. Aff. Ela, a outra, lixando as unhas. Aff. Carol
não conseguia comunicar, no entanto, essa insatisfação ao ponto em que @M (que
para efeito de proteção à intimidade prefere não ter seu nome revelado) queria
encontrar aguma abertura para pedir desculpas.Carol encheu seu copo com um
vinho doce demais qualquer. @M, sentada, levantou o olhar e tentou achar a
brecha antes procurada no olhar da amiga. Ou ex amiga. Esta no entanto apenas
enchia o copo à medida que nenhum contato real entre as duas acontecia. Os
objetos (a lixa, o copo de vidro) eram pretextos para o bloqueio. Mas quem iria
saber. Carol bebeu de uma só vez e colocou o objeto na mesa e fez barulho e o
barulho incomodou @M que levantou de sua cadeira e disse muito nervosa ou
melhor ela não disse ela gritou porque talvez só um grito atravessasse o campo
de bloqueio entre as duas. Mas só talvez.
"EU FIZ TUDO ERRADO EU SEI MAS EU NÃO QUERIA SER TÃO
MAL EU NÃO QUERIA SEMPRE FODER TUDO EU QUERIA QUANDO AS COISAS ACONTECESSEM
FICAR PRESA NO MEU ÓDIO E NESTE ÓDIO FICAR ME INFLANDO ATÉ ACABAR COM TUDO
NESSA PORRA". E se numa lei maluca as boas ações de @M conseguissem bancar
suas ~supostas~ cagadas e ela tivesse que fazer um inventário extenso dessas
qualidades e tivesse também que pesar tudo numa balança meramente abstrata. De
repente daria certo. Mas Carol não iria querer saber disso. Você, no lugar dela,
também não. Acredite.
"A questão é M____ que você poderia ter mudado toda
essa história porque se realmente fossemos amigas você não teria mentido para
mim e feito o que fez", Carol tentava manter qualquer suposta calma mas
suas irritação era evidente. De maneira que a abertura dessa evidência deixou
@M menos pressionada e menos disposta a repetir berros. Tentar se controlar.
Essas coisas.
"Mas a gente sempre volta pra esses jogos e perece que
essa relação nossa é baseada num loop infinito de trocas de ofensas e ver quem
ganha o quê", a lixa de unha já estava no chão e talvez fosse melhor para
o relacionamento de ambas se @M sentasse ou se Carol não ousasse beber (de uma
vez só!) outro copo de vinho. Ambas interpretavam um papel (lhes designado pela
mente ou qualquer atribuição da consciência de que é necessário se relacionar
com alguém [é realmente necessário?]).
A dissimulação é incondicional. Mas como transformar
dissimulação em amor e se este amor de fato existe (como nós preferimos
acreditar que, sim, existe) como ele volta a ser amor depois que se transformou
em uma série de atos violentos, escandalosos, subordinadamente histriônicos.
Aquela era a realidade crua. Carol alcoolizada. Um depósito de mágoas (muito
bem justificáveis, vale lembrar). @M tentando consertar tudo e fazendo tudo
errado. Dois movimentos que se afastavam.
![]() |
| dandelion hands - it's all in your head |
As luzes mercuriais noturnas emitidas pelos postes fixos na
rua inundavam as lentes grossas do óculos de @M. Aquela conversa não havia construído
nada de bom. Críticas levadas, berros, acusações, "eu te desculpo's"
realmente não ocupados e honestidade cínica.
Enquanto Carol estava morando em outra cidade @M tinha
passado por um bocado de coisas e ficou com medo de ligar dizendo coisas como
"eu sinto sua falta" porque ela não queria não apenas não soar boba e
criança como talvez quem sabe é só uma suposição admitir para si mesma que
precisava mais de Carol do que pensava.
Passando pela esquina em que as duas ficavam fazendo planos
para um amanhã muito distante - que chegou na forma de brigas domésticas e
antigos rancores cultivados muito bem obrigado sob o frio invernal- @M se
lembrou do primeiro beijo de boca que deu e se lembrou que Carol apresentou o
menino. Ela estava envergonhada (ela demorou muito tempo para parar de ficar incomodada
por usar lentes tão grossas que aprofundavam a densidade dos seus olhos). O
beijo foi ok. mas o que ela mais guardava daquilo tudo era Carol ter ajeitado
todo o esquema para ela. Carol agora que se dirigia em sentido oposto e não
lembrava de ter organizado porra de beijo nenhum e nem sequer conseguia pensar
em muita coisa. Muito álcool. Mas nisso Carol era diferente. Quando ela bebia
muito (como naquela noite!) ela não ficava agressiva tal como @M (que,
lembrando, pediu para não ter seu nome revelado). Carol estava vermelha e @M estava
com saudades de certa época. Ambas por caminhos diferentes e caminhando na rua
em que elas cresceram e se tornaram o que são se bem que naquele exato instante
elas não eram muita coisa. @M p/ex. sentia que poderia ser dissolvida ali
naquele tempo interiorana. Quando pequenas, ambas ficavam olhando as estrelas -
sentadas em frente ao muro da casa dos pais de @M- fazendo projeções que,
claro, como tudo que nós projetamos, iriam tombar e falhar e imprimir o
fracasso na face delas. A bem da verdade, @M carregava uma impressão mais
nítida desse fracaso. Impressão esta que gera não só distúrbios nela (quem dera
fosse assim!) como nas pessoas ao seu redor ao ponto em que todos se distanciavam
e silenciosamente @M sabia que isso era tudo sua culpa mas ai que tá. O
problema de saber-se culpado nunca auxiliou ninguém a encontrar a origem desta
culpa pois assim todos que sentem-se culpados rapidamente não teriam motivo
para tal. Então para quem se sente realmente culpado talvez a morte fosse a
única absolvição e @M pensou seriamente nisso e pensou no suicídio como se
pensa em coisas p/ex. como o ar. Ou seja; abstratas mas palpáveis.
Costumava ser apenas as duas correndo por estas ruas e
correndo de suas mães e correndo atrás de diversão e ocasionalmente correndo
atrás de ajuda uma da outra. Parceria. Aparentemente indestrutível.
Carol se foi e @M sentiu-se desamparada e uma angústia
diária rotineira crescia nela sem ela saber exatamente o por quê. Mas ela
prosseguia porque inevitavelmente só dá para prosseguir.
A distância é uma droga perigosa.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
td q nós amamos nós deixamos pra trás- pensamentos causados por all we love we leave behind, do converge
pra viver a vida que você quer abandonou quem necessitava de você. e você foi em frente msm assim, você sacrificou pq sua unidade era a única coisa q importava. você se recusou a ceder. você sempre teve um ego gigante; era sempre sobre eu estar certo ou sobre meu movimento está correto ou alguma ideologia idiota. e eu nunca te perdoei. eu contive um rancor absurdo guardado em algum lugar dentro de mim. eu quis te destruir pra me igualar a vc. pode ter sido td tão inconsciente, mas eu fiz. eu te deixei. eu abandonei não só a vc mas td q eu alguma vez senti. eu sempre fui atraído pela possibilidade de recomeçar. mais do que por qqlr sentimento real que eu pudesse ter.
eu cresci sobre este mesmo sol que eu agradeci mto tempo depois, quando te vi na sacada, olhando para a cidade como se tudo fosse ocorrer tranquilamente na vida. como se não iria existir nem grito nem berro nem um eu te odeio ou um eu espero q vc morra. quanto a gente se explorou e se consumiu até chegar a um ponto em que ver a cara do outro se tornou totalmente insuportável? as sombras destruidoras destroem as luzes e o que vemos a não ser todo o desconforto da ausência. eu não consigo mais imaginar o som da tua risada, ela me é estranha como as crateras da lua para algm q à distância tenta desvendar suas mais secretas nuances.
nd é bom o suficiente. quando eu 'tinha' o que eu amava eu me sentia tão desconfortável como eu me sinto agora. eu me pergunto em que ponto o estágio do desconforto começou a ser tão absoluto em minha pessoa a ponto de eu não conseguir ver esperança nem entre os momentos mais pacíficos q eu vivi. ao ponto de eu ter q forçar alcool e drogas para lidar com um vazio q me consumia mas uma espécie de vazio q eu n sei bem nomear, assim "o que é isso?", é uma espécie de "foda-se" mais ampla e que não tem finalidade nenhuma a não ser ver o q acontece se eu fizer tal merda. eu cresci cansado de repetição então eu expurguei tudo em deliquências infantis achando mesmo q a única maneira de suplementar uma constante sensação de ausência seria me tornando o mais inconsequente possível.
vazio por dentro então mais uma garrafa
(o alcool sempre te preenche henrique, mais uma garrafa)
(vc acha henrique que essas histórias vão valer algo ou vc só está aqui pelo efemero? mas se vc só está aqui só pelo efemero pq vc não abusa de si até morrer henrique? você não é este tipo de pessoa não é mesmo eu quero dizer vc n é do tipo de pessoa que se intoxicaria até morrer?)
do peso morto de td q te habita à uma condensação estúpida de perguntas e jogos de atitude. de tudo que é externo até essa parede interna que é vc. quando você realmente sentiu-se atraído por algm e não pela possibilidade de uma redenção eu quero dizer pela possibilidade de sair por alguns minutos de qm vc é e tentar estabelecer um contato válido e digno de qqlr tipo de afeto.
meu amor tire suas mãos de mim meu amor isso n é uma letra do legião meu amor eu n te amo mais meu amor eu tenho q seguir em frente eu tenho que ver o mundo
(mas qual mundo henrique se foi ela que te encerrou se foi ela que te fez acreditar nessas casualidades q chamam de romance)
eu fantasiei tudo isso nd foi real eu quis falar eu te amo para alguém para sair de mim. eu quis me livrar deste casulo q envolve nossas vidas eu quis abrir alguma verdade em um campo novo e habitável e quem sabe qualquer dessas besteiras ser algm estável ou ter um emprego ou chegar em casa à noite e ter algm q te ama para comer junto assistir filme transar dar boa noite.
(vc quis ser isso vc quis provar q podia ser qualquer fatalidade dessas msm sabendo q ia intoxicar td mundo em volta e que ia cair no chão pq pessoas feito vc pessoas q pensam e contemplam muito e bebem pra caralho não são programadas para qualquer coisa q tenha a ver com estabilidade)
(não deixe isso ir! se vc tem algo permanente tente lutar por isso! pq tudo é tão diluível henrique! vc sabe disso. luta pela permanência! vai valer a pena)
que tipo de vício q nos quebrou? o tempo é um vício e ficamos de saco cheio um do outro e desesperamos quando vamos ver nossas faces e se encontrar torna-se algo desagradável. os momento pararam de ser a partilha de algo raro e virou uma disputa de individualidades literalmente esgotadas uma da outra.
"seja bravo seja forte" mas como eu começo a ser essas coisas como eu começo a ser qqlr coisa digna de um adjetivo e nem falo de algo intrinsecamente positivo pq a única coisa q sinto é um trânsito absurdamente desconexo e q insiste em n ligar ponto algum dentro de mim. mas eu acho q todos se sentem assim em algum nível. eu acho q todos veem seus amados partir sem saber como pedir para ficar ou dar um adeus minimamente agradável eu tentei mandar emails cartas e presentes sem saber q tudo q vc precisava era o meu silêncio.
memórias como vc na praia como vc na piscina é tudo q vão restar para mim eu n estou correto? e eu vou pensar q parte ou q fatia ou q miséria de mim vc carrega (se carrega) e qual vai ser a história e pq eu tenho q lembrar tanto dos seus potenciais futuros demônios pq se td é efêmero meus amores de agr vão se tornar demônios tbm
(e se vc n tem amores?)
eu n os sempre inventei?
(se o amor é efêmero ele n pode ser inventado)
e quem disse que só inventamos coisas que duram até nossa morte? pq eu tenho a impressão de q é tudo um nível de fingimento e há os q fingem melhor há os q fingem pior mas eu acho realmente q em alguma medida todos cagam todos não se importam eu acho q em alguma medida é isso aí.e eu volto a me afogar nestes questionamentos e eu volto a essas perguntas idiotas q nunca vão recuperar ngm de algum mar de memórias falecidas ou essas coisas q eu insisto em mergulhar e viver em risco.
(mentira vc n segue risco nenhum vc só entope sua cabeça com essas merdas pq vc foi tomado pela grande ideia romantica)
eu sempre soube q houve este mar mas juro q pensei q só passaria férias aqui n esses últimos 25 anos
a tristeza toma nossa fala e a gente usa o sarcamos ou a ironia ou qualquer recurso minimamente cômico para escconder uma densidade q nos toma em momentos à toa por exemplo eu estava andando pela rua na vdd no supermercado e lembrei de nós comprando besteiras para o fds e fiquei desesperado pq tudo tinha ido a algum lugar q nenhum de nós poderia visitar novamente.
todas as feridas tudo q nós salvamos presos em algum lugar do passado ou na nossa mente em algum recôndito de nosso cérebro e as vezes surge abruptamente só para lembrar q perdemos algo e se temos a sensação de perda era obviamente algo importante.pq se n fosse assim tão importante minhas veias não se sentiriam congestionadas por interrupções de memória essa bosta de memória. nós vivemos num inferno e vamos queimar até os ossos. até q o fogo deixe de iluminar e mesmo queimando fiquemos perdidos no meio disso tudo
(mas vc já n está perdido?)
quanta coisa! quanta besteira! ainda há o amor
(mas vc vai deixar os alvos desse amor eventualmente henrique tudo é transitório pq vc simplesmente n aceita o fim das coisas?)
mas eu aceito eu acho.
De qualquer jeito, eu não estarei aqui amanhã. Veja bem; eu só tentei fazer as pazes (póstumas) com tudo que amei e acabei por soar alguém extremamente sensível à ideia de ficar só. E a voz solitária perguntaria "é só medo de morrer sozinho?"
Eu acho que sim.
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
O Legado De Saul Bellow
"O tédio é a convicção de que você não pode mudar ... o grito de capacidades não utilizadas"
Em 1948, Saul Bellow estava morando em Paris e começou a
escrever As Aventuras de Augie March (que
seria lançado em 1953). Um romance picaresco com influência forte da primeira
literatura do século XVII. O livro começa com um dos parágrafos mais famosos da
história da literatura, e segue o herói Augie March por uma série de encontros
e trabalhos, já que ele vive através dos seus métodos. Escrito de maneira
coloquial e ainda sim filosófica, não há dúvidas que As Aventuras de Augie March estabeleceu Saul Bellow como um autor
“maior”.
Há algo de esquisito de como a sociedade acompanha artistas
e atribui uma vida de festas. Quando na verdade há uma dedicação e certa
depressão em diagnosticar cronicamente as mazelas sociais, evocando em uma
troca constante de memória e invenção um tempo usurpado da realidade. Uma
absolvição do concreto. São comentários rasos, é verdade, mas como os
escritores novos atingiriam um lugar em que pudessem exprimir alguma obra de
valor entre tanto fetichismo com a figura literária e infelizmente com medidas confusas
em relação às obras? O jovem escritor está abandonado entre um milhão de obras
que internalizaram nele certa vontade de fazer, pessoalmente, parte desse
grande diagnóstico do absurdo que chamamos de literatura ou ficção. Ele fica
reduzido entre fantasmas de criação e história (Stephen Dedalus bradou, em
Ulisses, uma das maiores frases da literatura “a história é um pesadelo do qual
eu estou tentando despertar”). Indeciso, mas mesmo assim muito confiante em sua
visão de mundo, Saul Bellow decidiu enfrentar este monstro histórico.
Após uma tentativa fracassada de iniciar uma novela em Paris
“The Crab and the Butterfly”, Saul
Bellow, deprimido em um pequeno quarto de Paris, sentiu saudade da
América (Estados Unidos). Naquele teatro em que toda a geração de 1920 fez uma
festa, ele diagnosticou que a grande pompa europeia havia sido profundamente
desestruturada pela segunda guerra mundial e não aguentava viver ali. As Aventuras de Augie March parte da
intenção de reviver o mito do sonho americano invertido.
Logo de início somos levados aos bairros com pequenas casas
da classe operária de Chicago. Já aprendemos que estamos em uma cidade
amaldiçoada pela disputa de soberania. Isso começa no próprio lar dos March. É
que todos os símbolos da vida adulta (perdas, saudades, confusão de identidade)
são retomados como um conto idílico infantil e são exploradas com a mesma
curiosidade que uma criança vai desbravando as ruas do bairro em que cresceu. E
não é por acaso que Bellow fez isso. Ele sabia, como as recriações da infância
de Proust, que a infância é o mito que revigora as crenças adultas. Há um
sentido em narrar toda Chicago em uma frenesi de acontecimentos- vamos e
voltamos no tempo para atender um chamado urbano e também interno. Um chamado
que é evidenciado quando encaramos o horizonte cinza de nossas cidades, o mesmo
chamado que levou Leopold Bloom na caminhada heroica por toda Dublin. E é numa
Chicago mais adiantada que a França de Proust ou a Irlanda de Joyce- é uma
Chicago que pode ser ela mesma a conversão do que entendemos por modernidade (automóveis
,especulação imobiliária, serviços de luxo, sindicatos). Reconhecemos o
capitalismo industrial e vamos adentrando em seus sonhos, ilusões e mitos. As
personagens todas enxergam a ascensão pelo dinheiro (e não da maneira aristocrata
da literatura do século passado), em uma cadeia múltipla de possibilidades em
que cada contato humano é uma possibilidade de escalada rumo a um topo tão
impreciso quanto o último andar dos edifícios que cobrem a cidade.
Trata-se de núcleos familiares muito distintos e que estão
marginalizados pela variação econômica de um país que ainda não sabe bem qual
doutrina adotar, quais medidas públicas tomar ou quais programas sociais
instalar. A história se desenlaça enquanto acompanhamos o menino Augie (que nos
é apresentado com oito ou dez anos de idade) e a exploração que o garoto
realiza no ambiente urbano. Essa é a família March: três filhos, uma mãe
solteira e uma avó autoritária (Bellow denota muito bem o ponto em que começa a
relação de poder). A avó tem acessos de raiva, gosta de estudar russo e pensa
maquinar muito bem o futuro da família. Apesar de garantir que descende de uma
família rica, aos poucos vamos percebendo como a avó vai sendo deixada de lado
e sua situação de parentesco com a família March era apenas uma farsa (mais uma
vez, Bellow é cruel ao diagnosticar o ponto em que o veneno se instala- em que
as mentiras começam a serem contadas).
Trata-se do descobrimento de Chicago e suas disparidades já
na década de 1920, antes da Grande Depressão. E nos desenlaces das ações, em
várias mudanças de emprego de Augie, nós lidamos com a habilidade precisa de
Bellow em retratar em longas e proustianas sentenças que se desenlaçam em uma
análise densa do ambiente humano e dos traços psicológicos das inúmeras
personagens que passam pela trama. Sobre a condição humana (e todos os
complexos que carregamos em nossa mente) cada sentença parece tratar
primordialmente. É como se todo o cotidiano e tudo que é mundano evidenciasse
fenômenos mais essenciais atrás de um véu (ai com certeza ele sofria uma
influência grande da filosofia francesa em voga na época). Nesses acessos que
cada sentença revela, percebe-se que Chicago é o retrato perfeito dos EUA; e
também todas as digressões em cima de perfis psicológicos tão confusos
representam o avanço capitalista da maneira mais imprevisível possível. O que
fica mais fácil, pois o eu lírico é um grande erudito e consegue comparar
pessoas regulares de seu convívio com nomes pré-socráticos. Porque
aparentemente Chicago é o mundo e é através de um minucioso (e muito divertido)
microscópio que Bellow trata sua escrita e visão de mundo. Há uma noção
estranha de centralidade e protagonismo em As
Aventuras de Augie March; judeus, hispânicos, refugiados do leste europeu-
Bellow atribui à dificuldade dessas inter-relações (e sua obrigatoriedade) o
complexo sociocultural norte-americano.
A prosa longa e barroca, interlaçando narrativas com
reflexões encontra referências nos contos iídiche, tradicionalmente judaicos,
de qual Bellow faz parte. Em As
Aventuras de Augie March a mistura entre coloquialismo e grandes imersões
na psique das personagens é a base em quais todas as digressões confluem
facilmente. É tudo tão “natural” em Augie March que podemos afirmar que estamos
mesmo no campo semântico riquíssimo de um Cervantes, em que a literatura avança
em seu terreno objetivo para dar lapsos da interioridade de uma nação. Quem
assiste algumas entrevistas de Saul Bellow, pode perceber como este reluta em
se descrever como um “escritor” judeu. Seu papel, segundo ele, era ser um
escritor norte-americano que calhou de ser judeu. A trama em nenhum momento
reduz a cultura judaica ou também a protagoniza; ela mostra apenas como é outro
fato importantíssimo para a construção dos Estados Unidos. Os judeus que perambulam
pela história são frequentemente de baixa renda e apenas procurando o próximo
trabalho que possa lhes dar o que comer.
Trata-se de um romance sem qualquer tipo de enredo. Bellow
leva seu herói por uma série de aprendizados no que se convencionou chamar
faculdade da vida. A decadência de um EUA muito próximo de seu primeiro grande
colapso (a grande depressão) em contraponto ao humor gentil e leve de Augie.
Como se ele fosse o contraponto de seu irmão mais velho, Augie é uma pessoa que
“desliza” pelas estruturas e pelos relacionamentos pessoais. Não é que ele não
se “rebaixe” aos demais, mas talvez sua personalidade fosse a única construção
que Bellow poderia dar para alguém que quer exemplificar a coerção capitalista
dos EUA. Dessa forma, ao invés de impor um ato contra este regime, o autor
atravessa a protagonista nas experiências limítrofes do ultracapitalismo.
Coloca uma personagem que é a negação ontológica do liberalismo ocidental, Mas
realmente uma negação em primeira instância: Augie não se recusa a jogar o
jogo, mas antes de tudo, para ele, nunca existiu um jogo. Muito pelo contrário:
mesmo passando por todos perrengues ele parece ser o único organismo que flui
naturalmente no romance.
Em As
Aventuras de Augie March, Saul Bellow leva o idealismo original do seu
protagonista para um terreno que a objetividade gritante do mundo explode
qualquer idealista. Não é que Augie seja algum panfletário nem que seu
idealismo tenha contornos definidos; e talvez seja justamente a falta de algo
concreto que guie sua vida (nunca um vazio sem guia, mas uma falta de significado
maior- amor, religião, carreira- que normalmente guia a vida das pessoas).
Tanto que muita gente que “invade” a realidade de Augie tenta trazê-lo para os
campos mais pragmáticos da vida. A resposta da Augie para tais intrusos é sua
mesma atitude leve e aparentemente descompromissada com os vetores que guiam a
sociedade. Essa atitude de não compromisso com o instituído é uma marca
recorrente nos heróis de Saul Bellow. E nestes “trancos e barrancos” ele vai
adaptando constantemente sua percepção da realidade, mas a todo ponto parece
haver um distanciamento com a situação que ele vive. Não é como se ele não se
emocionasse (a história dele ajudando uma amiga que faz aborto é uma das
passagens mais tocantes da literatura), mas as atrações do mundo revelam para
ele um enigma fantástico não dos objetos de afeto em si; mas do fenômeno que os
originou. Dessa forma o individualismo que Bellow parece preservar em seu
protagonista não é nada mais do que uma necessidade de afetos mais urgentes e
desmedidos. Mostrando como toda espécie de formulação de plano é insustentável
nos níveis mais essenciais, as cordas que regem o mundo podem ,às vezes, serem
desveladas. Caso contrário, Augie não lutaria tanto contra qualquer estereótipo de “vida adulta” que ele internamente e em suas
longas digressões continua a recusar.
Talvez nenhuma ficção na literatura tenha sido tão palpada
no desenvolvimento de um país para explicar como as estruturas capitalistas
coagem as pessoas e ainda explicitar que há momentos de saída disso tudo.
(Acima de tudo, As Aventuras de Augie
March é um livro sobre encontros). É claro que toda a energia e ritmo
empolgante do livro derrubam um romantismo já obsoleto na época em que certas
ficções norte-americanas e modernistas europeus queriam bradar contra o avanço
da tecnologia. Se aprofundar nas possibilidades do capitalismo desmembrando-o
em sequências tragicômicas é uma coisa, negar sua época temporal é outra. Um livro que se funde em experiências
vibrantes para afirmar a vida, mesmo que essa afirmação seja sem um contorno
determinado. Bellow sabe que nós temos um alvo em que podemos mirar um amor
infinito e que nosso único trabalho importante na vida é não desistir dessa
carga. Os múltiplos significados confundem, nos deixam perdidos, mas é uma
noção importante que Augie, sem nem saber direito, carrega desde pequeno.
A questão do desenvolvimento capitalista, porém, não retalha
a densidade, generosidade, diversão e poço de esperança que As Aventuras de Augie March simbolizam
(além de seus consecutivos milagres linguísticos). Bellow reconhece que a
primeira sensação que nós temos quando levantamos da cama é uma esperança
(ainda que em vários níveis, ainda que irreconhecível), mas o mesmo otimismo
recoberto de camadas de experiências complexas que Augie empregou em cada
aventura sua (e foram muitas). O herói deste livro é incansável neste aspecto e
parece que todos deveriam ser neste sentido: impregnar a riqueza da vida com o
que temos de melhor. Realmente ele caiu muitas vezes, mas de cada movimento
Augie conseguiu retrair algum símbolo positivamente instruído para acrescentar
em suas andanças. Há uma comparação para ser feita com os desbravadores de
todas as épocas, mas o ponto em que Augie os supera é a descoberta de uma
filosofia própria: que ele está desassociado das linhas axiais no mundo, que às
vezes ele pode encontrá-las e é por cada encontro que ele vive. Augie é a
pessoa passional que está disposta a rasgar os planos mais repressores. E é em
Paris que ele retoma suas ideias sobre os Estados Unidos, e mesmo assim
reconhece aquele lugar que sofreu tanto como símbolo de sua esperança (afinal,
por mais fodido que aquele país fosse, foi o que o transformou em uma pessoa).
Porque é isso que ocorre quando estamos dispostos a ficar em contato com as linhas
axiais do mundo: uma esperança contínua de que existem momentos plenos.
II
Esperança que parece ser enterrada no livro de 1975, O Legado De Humboldt. É um romance
extraordinário (o segundo maior livro de Bellow) sobre como o hiperconsumismo
norte-americano (ou seja, o que vinha sendo construído em As Aventuras de Augie March) enterra sonhos vãos como os do
transtornado poeta Humboldt, consumido em paranoia, angústia e complexidades
mentais. Acompanhamos o ponto de vista de Charles Citrine, ex melhor amigo do
falecido poeta, que vive uma confusão em sua vida pessoal. Na cena final,
Citrine discorre sobre o tipo de arte performática que parece estar obsoleta.
Arte essa desempenhada com escárnio por Humboldt que, depois de um belo início
como poeta, começa a ficar complexado com seu nível cultural e tenta usar as
piores ferramentas para lutar contra isso; advogados, ciúmes doentio da mulher,
obsessão controladora.
É como se Citrine fosse a ferramenta que Bellow utiliza para
diagnosticar ceticismo com o mundo, “as ideias dos últimos séculos estão mortas”.
Então, nós temos um Saul Bellow que saiu daquela empolgação com o mundo de
Augie March (ainda que abordando todas as suas ridículas dificuldades). Mas ainda
há uma inocência na corrosão pós-moderna que o escritor apresenta, ainda há um
ponto pacífico entre toda a desordem do livro (que aborda máfia, indústria,
cinema, poder judiciário, golpistas financeiros). Pois esse diagnóstico
pessimista é parte inerente de qualquer pessoa em qualquer etapa. Basta lembrar-se
de Augie sem esperança nenhuma no México, após perder sua mulher. A diferença é
que O Legado De Humboldt está imerso
em um pessimismo não teorizado, mas subjetivo, tanto do próprio autor quanto da
protagonista. A partir desse diagnóstico, Bellow escreve seu romance mais
distorcido com alguma estrutura tradicional; ele usa fluxo de consciência, um
narrador em primeira voz que frequentemente se abstrai para teorizar
pensamentos místicos. Mas ainda há a procura da mesma unidade que Augie March;
se neste talvez tínhamos um plano mais grandioso de encontrar os momentos mais
significativos da vida, aqui temos alguém que quer se recolher da turbulência
norte-americana, mais especificamente de Chicago (apesar de ser
consecutivamente atraído por ela).
A consciência de Citrine desfila entre o irracionalismo
místico e uma aguçada capacidade de análise estética. Citrine está desiludido
em seu romance com os Estados Unidos, ele está desiludido com um país que levar
seu ex melhor amigo (Humboldt) a morrer feito doido varrido, em um quartinho na
cidade. Quando constata esta decadência, ele se sente com o dever moral de
escrever algo que traga novas ideias e um sentido mais significativo para a
humanidade (para isso, ele pode ficar horas meditando em um quarto numa velha
pensão espanhola). Como ele próprio afirma, “explicar a natureza espiritual da
humanidade”.
Claro que não se devem confundir essas missões antroposóficas
com a implicação verdadeira do livro (algo que foi bem recorrente na crítica
especializada da época, principalmente a mais conservadora). Bellow não hesita
em colocar numa posição fragilizada um valioso intelectual como Citrine (assim
como Humboldt) para mostrar que os Estados Unidos estão fundados em uma
competição que quem não sabe jogar invariavelmente se ferra.
Saul Bellow percebe imediatamente o cativeiro que duas
figuras em declínio (primeiramente o poeta, depois Citrine) estão, por estarem
perdidas não apenas no aceleracionismo econômico, mas numa mudança brusca de
regras e condições nas quais os cidadãos tem que se basear. Ao contrário do
vigor de todos os protagonistas anteriores em seus livros, Bellow aqui faz,
pela primeira vez, um tratado sobre a fragilidade. É sobre essa fragilidade que
o escritor joga o grande núcleo de seu livro. E como todo bom pensador, ele nos
dá pistas (complexas, é verdade) de como sair delas. Porque Humboldt brada
contra uma sociedade doente (mesmo ele sendo um dos mais doentes) e Citrine
brada quietamente contra as ideias saturadas.
Há uma luta constante entre estética artística (reconhecidamente
Humboldt e Citrine possuem esse dom) e personalidades desajustadas com uma
percepção comum de realidade. Isso em si não traria grande problemática, mas a
loucura deles infere dolorosamente na vida econômica. Não é que Humboldt
abandonou sua arte, mas para um nível intelectual tão inteligente quanto
neurótico, a sua única resistência foi interpretar a sua visão de mundo da
maneira mais ácida possível (estou aqui refutando uma crítica da época, da NY
Times, que parece ter lido com imenso desinteresse o livro). Muitas vezes a
mão da insanidade parece vencer a mão da arte, e quando se tem duas pessoas que
necessitam extremamente da segunda, há este curto-circuito.
O grande triunfo de Humboldt foi entender a farsa que era
Citrine (Citrine mesmo sabia desta farsa, mas nunca teve coragem de exibi-la).
Citrine mostra uma arguta capacidade de fazer associações livres que talvez
tenha herdado do próprio Humboldt. O problema é que ele não sabe diferenciar
quando fazer estas associações livres e isso se torna um problema à medida em
que este tipo de inocência o leva às piores consequências e a ser roubado pelo
seu melhor amigo, por sua ex namorada, pelo poder judiciário e pelos advogados.
É o que a visão mais cética de Bellow denuncia: a força norte-americana é
protegida por uma imensa teia de falcatruas. E é essa mesma teia que o faz
admirar Chicago e ser seduzida pelos seus males. Parece que nenhuma “distração”
é tão importante para Citrine quanto os assuntos esotéricos que ele tenta
examinar internamente. Citrine não é atraído por frivolidades (nem mesmo o
sexo) e isso parece ser seu maior defeito.
A falta de integração entre o racionalismo de O Legado De Humboldt e as ações do
livro é o que separa este romance de
As Aventuras de Augie March, em que
as argutas divagações filosóficas caminhavam paralelamente com as aventures do
protagonista. Para o Bellow mais velho enquanto escritor e enquanto pessoa,
absolutamente qualquer brecha é ponto para discorrer sobre a beleza, o tédio e
a identidade. Em certo ponto em As
Aventuras de Augie March, Augie começa a trabalhar para um sujeito louco
que quer escrever a história da civilização desde a Grécia antiga. Esse sujeito
louco é, em menor grau, os dois protagonistas de O Legado De Humboldt.
Citrine não se interessa pelas ações do mundo, isso é nítido.
O ponto do romance se transforma no que alguém intelectualmente tão capaz pode
se interessar? Bellow prefere responder aos críticos que o chamavam de “escritor
à moda antiga” com a erradicação absoluta de Enredo e consegue provar no avanço
do seu livro que a própria tentativa de Citrine estabelecer com as linhas
axiais (a mesma problemática de Augie March) é o que o motiva a continuar o
romance, mesmo sem um alvo definido. Quanto mais internamente expressivo, mas
Citrine gagueja, se ludibria. Para um escritor, Bellow correu imensos riscos ao
deixar o ponto motor do seu romance tão subentendido.
O “legado” do título é a antítese da obra. Se o “legado” do
poeta Humboldt é um símbolo do seu gênio problemático, a vida atual de Citrine
é a disfunção legada por essa tradição “intelectual”. Toda a autenticidade do
romance não é discorrer sobre a obra de qualquer pessoa. E sim mostrar a
disfunção que pensadores mais “profundos” encontram na coexistência (e isso
para qualquer tipo de pensador e não apenas as personalidades das letras).
O sonho de Saul Bellow está escondido entre a representação
deste legado. Logo depois de obras que eram uma meditação entre a força do
dinheiro e nossos impulsos intelectuais, O
Legado De Humboldt, em toda sua loucura pós-moderna, lembra que temos que
encontrar as linhas axiais todo dia, toda hora. Depois que esta esperança passa
a se tornar perdida (o que aconteceu com Humboldt, mas não com Citrine) a
condição humana está fadada a um vazio. Por isso O Legado De Humboldt assombra em seu corpo massivo até hoje; porque
catalogar suas intenções está em cada linha de uma história muito complexa.
Fim
O legado de Saul Bellow foi acrescentar em histórias tão
complexas uma busca constante para estar de acordo com as linhas axiais no
mundo. Foi isso que o motivou, em um pequeno quarto abafado e úmido de Paris, a
rever sua história nos Estados Unidos como uma caminhada difícil, mas vibrante
e cheia de esperança. É isso que ele inferiu a sua obra: a visão que a arte auxilia
nesta busca e que há sempre um eixo terrestre para clarear qualquer coisa.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
um poema que fala sobre nossa distância
trecho de Como Este Quarto Ficou Tão Vazio. meu próximo (e primeiro ) romance.
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-
Então você poderia dizer”, ela continuou, “você poderia
dizer um poema perfeito. Um poema que fala sobre nós, que fale sobre nossa
distância, que personifique a impossibilidade de nós dois. Porque você é o ar.
Você pode tocar a luz e aderir ao esoterismo da palavra, à ascendência original
da terra, ao amor mais colossal e carnal, aos fosseis que dão energia, porque
você é o ar e é o combustível da vida. Seus pulmões iriam se inchar de uma
matéria nova, de uma energia originária que resgataria um tipo de amor mais
essencial e espiritual. Assim, sua respiração retardaria em compassos musicais,
musicando a sinfonia noturna e todas as epifanias vão soar como antigas
celebrações pagãs. Você tem essa missão e, enfim, estaremos juntos em um campo
mais urgente, sentindo o calor um do outro novamente. Você estaria no ar, me
protegendo, e eu seria a lua, te iluminando”. Seus olhos tão potentes quanto
aquele azul, o reconhecimento de que o amor cabe em círculos tão pequenos, tão
vivos. “Você seria o vento que sopra nas rochas cheias, você causaria erosão e
seria a primeira matéria humana que fascina a natureza, numa inversão absurda.
Tão absurda quanto nosso amor, quanto nossa história que já não é mais história
e sim uma fantasia de dois corpos jovens e encantados com o potencial da vida”.
sábado, 2 de julho de 2016
Eu preciso parar de me autodestruir com sonhos recorrentes sobre você: pensamentos provocados por Celebrate, do Tiny Moving Parts
Nada nunca é bom o suficiente, eu sinto falta de algumas coisas que eu perdi. Eu quero dizer, eu sinto muita falta. Pessoas com quem eu dividi uma intimidade gritante hoje se dispersam em memórias de dias bons e não tão bons. É como se eu tivesse em uma estrada e, pelo retrovisor, eu pudesse enxergar rostos queridos se dispersando pela velocidade da vida.
Meus braços ficam cansados porque eu tento segurar coisas mais
pesadas do que eu posso. Eu atribuo um peso para as coisas e passo a viver
sobre minha atribuição. Minhas mãos estão suadas, eu estou ansioso. Eu olho no
celular para ver fotos de nós sorrindo, lutando de nossa maneira contra a
passagem do tempo. De dedos cruzados, esperando que nós nos transformemos em
algo mais do que memórias- de que nossa comunhão, mesmo que passageira, tenha
significado algo que nos ajude a enfrentar o dia-a-dia e não se torne um
epicentro negativo que sugue toda nossa energia vital.
Talvez porque eu queira sentir transcendência em tudo e
passe batido pela manifestação mais simples das cosias. Como, por exemplo,
passar a língua e sentir o formato caricato dos meus dentes ou a espessura das
minhas gengivas.
Como nós viramos o relógio e nos transformamos no que éramos
antes- em uma época que ainda nos orgulhávamos de ter algo em comum. Em uma
época que nós nos bastávamos e o mundo era extenso, porém tateável. E eu tento
repetir os mesmos gestos e, embora eles pareçam ser os mesmos, falta alguma
característica sua para configurar qualquer ato terreno como milagre. Cá estou
eu buscando por milagres novamente. É como sair de uma caminhada tranquila
beirando o mar cristalino e ser arremessado ao espaço urbano cinza novamente. É
como ter testemunhado o divino e, de repente, ter que lidar com o mundano
novamente.
Eu estou cansado de me sentir vazio em uma festa cheia de
gente. Mas sempre foi assim. Eu sempre vi tudo isso como uma possibilidade.
Raramente como algo concreto. Mas tem seu lado bom- eu nunca neguei a ninguém a
possibilidade de me maravilhar e a gente conseguir ser algo fantástico, algum
degrau para uma existência compartilhada. Eu valorizo muito quem me fez atingir
esse estágio. Meu erro, no entanto, deve ser só querer viver nesse estágio.
Eu lavo a louça e a água fria do inverno congela meus dedos.
Mantendo dentro de mim toda essa ansiedade gritante. Maquinando coisas
ficcionais e as misturando com a realidade- uma antecipação assombrosa de que
poderia acontecer e nunca vai se concretizar. Eu queria voltar a ficar acolhido
em lembranças e não senti-las se despedindo de mim com um desdém, como se eu
tivesse sido insignificante o tempo todo e toda transcendência que creditei
àqueles momentos fossem apenas maravilhas da minha imaginação e recuperações de
uma nostalgia sadia. Eu durmo com as lembranças bombeando minha mente, mas como
elas são para as outras pessoas? Eu fico ansioso e tento ficar empático com
pensamentos que nunca serão meus, por pensamentos que se despedem como
desconhecidos. Até a gente se ver qualquer dia desse e trocar um “olá” como se
apenas fôssemos meros conhecidos. Como se esse beijo selasse uma aproximação
possível e nunca houve um “nós”.
Eu respiro profundamente. Eu só estou perdendo o controle.
EU só estou sendo um “eu mesmo” escondido e que nunca se revela. Eu só preciso
superar esse terror. Eu preciso parar de ver todo minuto como uma possibilidade
de tentar antecipar um futuro que nunca irá se realizar.
Se “dois anos” é um tempo medido e se esses “dois anos”
foram a suspensão de minha constante irregularidade, eu tenho que aceitar que
esses dois anos nunca mais vão se repetir. Um amigo sempre diz “mas irão vir
melhores”. Mas eu quero AQUELES dois anos, eu não quero o desconhecido agora,
eu quero recuperar o que eu tinha. Eu preciso entender isso melhor. Eu preciso
entender esse mecanismo complexo que me faz olhar para o futuro e ainda ver tua
imagem borrada como uma possibilidade. Esse copo de cerveja do lado, com as
marcas irregulares de minhas digitais, o balcão lotado de desconhecidos, o piso
branco na parede, o cobrador atrás de uma minicabine vitral. Tudo isso, e ainda
é só tua imagem que borra todo o real.
Então, eu tento me movimentar nas formas obscuras do que um
dia nós fomos. Eu tento me locomover, não para frente como em um livro de autoajuda,
mas entre os espaços vazios dessas formas tão conhecidas ainda assim tão
desdenhosas e perturbadoras. Como Dylan disse, “I don’t understand the pain
inside my chest It’s all in my head”. A solidão é minha casa e eu preciso
aprender a viver com as crateras do que um dia eu fui.
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