quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Jia Zhang-Ke, Memórias de Xangai (2010)



Ao exigir do artista uma atitude consciente em relação ao seu trabalho, você tem razão, mas confunde dois conceitos: a solução do problema e a colocação correta do problema. Apenas o segundo é obrigatório para o artista. [...] Um tribunal é obrigado a colocar as questões corretamente, e que os jurados resolvam, cada um à sua maneira.”, Tchekhov.

Em maio de 2010, “Memórias de Xangai” foi apresentado em Cannes, Jia Zhang trabalhava com a China contemporânea até então, e por isso o passado transformar-se-ia em seu foco naquela produção, os confins da História talvez guardassem a razão de tudo o que o diretor abarcava em sua obra. Dessa maneira, Memórias de Xangai pode ser visto como um documentário clássico, pelos depoimentos no pretérito e por uma estrutura de entrevistados constantemente remetendo à suas histórias, a construção histórico-sociológica chinesa, idas e vindas de pessoas exiladas em sua própria terra, é observada a partir do prisma e história pessoal de cada um dos entrevistados, Yu Lik-Wai, diretor de fotografia há tempos trabalhando com Jia, explora cuidadosamente paisagens antigas e contemplações contemporâneas, paisagens que flutuam e enquadram o humano também, e quando a câmera se volta para a face das pessoas é de uma elaboração riquíssima- Yu e Jia não partem da riqueza estética, mas sim enriquecem a preciosidade dos relatos que, em última instância, comprovam uma vida e um passado.

Jia parte de Xangai, e pela óbvia complexidade que é abarcar a formação constitutiva de uma cidade, o diretor esbarra em questões inerentes à existência da arte, por isso outras cidades serão destinos-temporários nessa paisagem de observações contemplativas que é o filme, paisagens que nascem de uma necessidade de testemunhas das duas Xangais, uma recente, a outra constituída (ou inventada!) pelas memórias, os destinos-temporários que são essas outras cidades mencionadas, de testemunhas que ficaram exiladas em outras cidades distantes de Xangai depois da Revolução Cultural. Jia maximiza o conceito inicial não por simples estética, mas por analisar que não basta só exibir uma cidade para desvendá-la, é necessário testemunho e imagem e cinema, em todas as adições possíveis e de todos os ângulos disponíveis, portanto não basta se resumir nas localidades de Xangai para falar sobre Xangai. Contemplando planos justapostos, como memória que tem um ponto de partida para se perder como o fantasma que perambula por um presente onipotente.

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