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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Chicago Underground Duo: Locus (2014)



As ramificações originadas pelo trabalho em conjunto de Rob Mazurek e Chad Taylor são as mais variadas, isso tudo começou há dezessete anos, com a formação do seminal Chicago Underground Duo. O que prova que músicos que se dedicam à sua arte, mesmo que ambos já tenham circulado pelo mais vasto terreno de vanguarda no mundo, conseguem criar um ponto de bifurcação e a partir daí executar ideias que sejam de interesse mútuo.

Ainda que Mazurek venha se aventurando em diversos campos do eletro acústico, incorporando sons eletrônicos e às vezes se distanciando muito do jazz tradicional, é fundamental citar a influência clara desse gênero para seu modo de tocar, especialmente o hard bop. As contribuições de Taylor também vão além de jazz, muitas vezes tocando para bandas de rock independente. No tocante à Locus, aqui eles puxam suas fronteiras ao máximo, estudando a estética por diferentes ritmos, harmonias e melodias.

Locus, o sétimo lançamento do Duo, representa uma quebra ainda maior no tradicionalismo que ressoava vez ou outra nos antecessores. As composições abordam interpretações vastas do futuro, assim como um estudo mergulhado em música eletrônica e folk tradicional étnico. Na faixa título, por exemplo, temos algo de post-rock pioneiro, em um ambiente conectado com relapsos. A variação é tão grande e o campo é tão vasto, podendo ir a um afro pop repleto de ritmos hipnóticos e dançantes. A inspiração também chega ao Japão, em um eletro acústico que fica difícil de afirmar onde está a linha entre passado e presente, com batidas justapostas a um baixo progressivo.

Outro atrativo do álbum, e talvez devido a seu ecletismo sintomático, é a conexão muito mais com a cultura popular do que a média de álbuns de vanguarda no jazz. Em diálogo constante com a música contemporânea, a mixagem de John McEntire é essencial para esse trajeto da dupla. Os sintetizadores, os beats, a imersão no drone eletroacústico, onde há uma espécie de onipresença enquanto o livre improviso está desesperadamente imerso em sons fantasmas.

Globalizado em um ciclo, a última faixa -referencialmente à Dante- encerra um percurso amplo. Seriam todas essas imersões uma tentativa de ampliar o já vasto terreno musical percorrido pelos dois? Nem poderia; aqui o que temos são poemas onde respectivas finalidades exigem se pronunciar e bastar em si- o dialoga existente é justamente a micro individualidade inserida em um macro ambiente. Partindo do conceito que em quase vinte anos o ostracismo é repelente, Chad Taylor e Rob Mazurek escavam a fundo e não têm medo de afirmar que as fórmulas podem ser refeitas sempre- constantemente seguindo em frente.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Fire!Orchestra: Second Exit (2014)




Sempre se pode conseguir tirar algo de coisas que a gente não imagina que tenham valor”, Alice Munro.

Em todos os sites que acompanho sobre música, foi batata, o último disco do Fire! foi considerando um dos grandes álbuns de 2013. Muito em função disso, Mats Gustafsson, líder do projeto, pôde levar sua orquestra com mais de trinta músicos para uma extensa turnê.

Teoricamente, os acordes e sessões do Second Exit são iguais ao Exit, pois é um registro ao vivo deste álbum. Mas há algumas alterações, os vocais de manifestação da mente por Mariam Valentin e as frases condutivas de Sonja Jernberg ocupam muito mais o segundo plano do que no álbum de estúdio, deixando as guitarras e eletrônicos muito mais presentes. O mesmo ambiente “eterno” é instalado, para que variações dos mais diversos instrumentos possam se encontrar e trabalhar em microssessões.

Os diálogos entre saxofone de Elin Larsson e trompete de Goran Kajfes são inacreditáveis – mesmo por debaixo de todos os instrumentos, é uma das conversas mais interessantes entre os microduetos que se formam-, Oren Ambarch (que já fez um álbum colaborativo com o Fire!) emerge toda a orquestra atrás de uma maravilhosa e ruidosa parede sonora, em dado momento os eletrônicos que tomam conta, desvirtuando toda a direção que a peça vinha tomando.

O álbum é um conjunto de ruídos delirantes, rock encardido, barulho de tralhas excêntricas, interceptação de componentes de diversas categorias, instrumentos desacompanhados em combate ao desempenho de grupo, basicamente a premissa do jazz livre incorporada em terrenos como krautrock, psicodelia, improvisação eletro acústica.

As duas peças são admiráveis, obviamente quem gostou do Exit vai se interessar demais. Talvez seja mesmo mais uma edição para quem gosta de acumular discos, etc., mas também perpetua os barulhos em nível de arte, estabelecendo-se como vanguarda na concepção sonora mesmo no vasto terreno da música contemporânea.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Ornette Coleman- Free Jazz: A Collective Improvisation [1961]


A evolução do jazz alcançou seu ápice nessa obra prima do alto saxofonista. Free Jazz é a antítese de tudo o que o compositor vinha fazendo até então, com evoluções anticlímax e passagens independentes. Não basta ele ter lançado cinco excelentes álbuns anteriormente, legitimando sua legacia no reino jazzista, também teve que renegar tudo o que vinha fazendo e se libertar de suas influências. Nesse álbum, é explorado um submundo do jazz, onde evoluções anulam frases e a palavra “free” é levada ao extremo. Há de se lembrar de que Coltrane só seguiria pelo mesmo caminho apenas cinco anos depois.

Essa música foi uma resposta a todo swing dos anos 50 e be bop dos anos 40, que vinham se acumulando na mesmice e lançamentos repetitivos. Ao contrário do outro maior expoente do jazz livre (John Coltrane), Coleman não tinha uma enorme quantidade de discos quando lançou sua primeira obra reconhecidamente livre. Isso é reflexo de sua impaciência e anseio artístico em produzir. Começando a gravar em 1958, é realmente incrível como em três anos sua música evoluiu absurdamente. 

Para aperfeiçoar as possibilidades sonoras, a arma utilizada foi lançar um “quarteto duplo”: Billy Higgins e Ed Blackwell nas baterias, Charlie Haden e Scott LaFaro nos contrabaixos, Coleman convoca Don Cherry e Freddie Hubbard nos trompetes, e chamando nada mais nada menos que Eric Dolphy para completar a dupla com ele. O modo como esse discou foi planejado é, na verdade, bastante simples; Coleman esboçou rapidamente uma festa musical, onde era realizada a improvisação em grupo e individual, logo em seguida os músicos entraram em estúdio e gravaram. Na configuração estética, há raros vestígios de jazz tradicional. Em alguns pontos, podemos reconhecer uma frase e alguma interação mais clássica entre instrumentos.

Há de se ver Free Jazz não pelo vazio contemporâneo da ausência de sentido (ou a época em que tudo já foi criado). De natureza fortemente experimental, as consequências desse disco refletem a Era vanguardista que parece ser a que vivemos. Eu quero dizer, não estou aqui, no teclado, dizendo que não há mais música inaugural depois do Free Jazz- mas que é vergonhosa a nomenclatura excessivamente abundante que damos a tudo o que é música hoje em dia (eu mesmo sou culpado disso, adoro colocar tags nesse blog). A experiência e distância histórica mostram que Free Jazz foi a erupção de algo que já ocorria na cena jazzista.

O sentido em Free Jazz é o contrário da natureza, ou seja, as oito partes de improviso, começam em um completo caos até que os ritmos vão se encaixando para então caminhar em conjunto. Não há praticamente nenhuma direção inicial, tudo emerge do caos. Imaginem um dixieland tradicional quebrado em multitempos entrecortados. A intenção é demonstrar a música antes da ideia, e seu desenvolvimento enquanto tema e amadurecimento enquanto filtrada pela razão.

Algumas características se mostram frequente ao longo da peça. Dentre estas, Coleman tocando blues. Através de toda a peça, ele volta a desenvolver temas que tem o blues como fonte principal. A banda toda faz isso de alguma forma, reutiliza temas enquanto invoca frases novas em uma estrutura cíclica quebrada. Entre os instrumentos de sopro, às vezes o caos se uniformiza tanto, que até podemos confundir com alguma big band. Entre esse caos e a ação sincronizada, ou seja, no vácuo entre essas duas estruturas (se é que dá para chamar a bagunça de estrutura enquanto música) há espaço para os músicos demonstrarem seu bom humor soltando frases já conhecidas dentro da história jazzista.

37 minutos envolvendo um ambiente sofisticado, onde é possível ouvir basicamente toda a forma de fazer jazz até então. Há espaço para as baterias e os baixos, na última seção de improvisos, onde os instrumentos de sopro só entram para mudar a sequência desenvolvida. Também vale a pena ressaltar a liberdade que nomes já consagrados (como Freddie Hubbard e Eric Dolphy) tiveram para desfilar suas experiências acumuladas. O disco vem com um faixa extra, First Take, para termos noção de como nasceu o Free Jazz. Duas versões mostram que mesmo em um álbum de livre improviso, as ideias demoram em ser completamente amadurecidas.

Free Jazz talvez exista de forma tão exaltada por toda sua primorosa, rigorosa e vanguardista estética musical. Se uma lição foi legada por Coleman é de que a música é sim aspecto do seu meio, mesmo nos níveis mais experimentais, sendo sempre importante reconhecer o contexto histórico. Historicamente e, claro, sonoramente, são os motivos de destaque desse que é um dos maiores discos de todo um movimento!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Matana Roberts - Coin Coin Chapter Two: Mississippi Moonchile [2013]



Não há possibilidade de existência sem narrativa, sem viver uma outra história.”, Xico Sá.

No lançamento da obra-prima Coin Coin Chapter One: Gens Des Couleurs Libres, Matana Roberts anunciava que aquele seria o primeiro capítulo dos doze sobre a busca da formação da cultura negra nos seus últimos trezentos anos, incluindo poesia, teatro, e tudo que teve participação em diversas etapas da construção sociopolítica dessa cultura. A série tem até uma protagonista, que possui diversas ocupações em diferentes épocas, o que nos remete, é claro, a Woolf. E tudo isso poderia dar incrivelmente errado, pela ambição e pelo compromisso em relacionar uma arte estética com temas tão densos, não fosse Matana saber o que faz e criar uma obra única não só dentro do jazz como da música.

Em um contexto tão amplo, lidando com mais de 300 anos de história afro, o jazz livre é apenas mais um instrumento- incluindo gospel, Field recording, blues- para trazer a tona uma narrativa sobre supertições, invocações e luta. Podemos relacionar essa brava vastidão ambiciosa com a obra de Anthony Braxton, o envolvimento sociopolítico de Davis, a técnica de sopro fraseada de Pharoah Sanders e a ousadia de Cecil Taylor. Como contraponto ao capítulo I desse corpo monumental sonoro, Matana optou por uma banda bem menor do que a antecessora; Jeremiah Abiah (vocais), Tomas Fujiwara (bateria), Thomson Kneeland (contrabaixo), Jason Palmer (trompete) e Shoko Nagai (piano). Assim como a banda foi reduzida, a cacofonia esquizofrênica deu passagem a partes mais líricas, totalmente melódicas. Obviamente, entre todas as vozes que condecoram o disco (todos os membros da banda cantam), quem se destaca é o tenor de opera Jeremiah. São tempos complexos, e por isso a insistência de vozes, o passado ciclicamente apresenta outras versões e consequentemente novas marcas. Roberts retrata elementos como vergonha, superação, castigo e dor, de uma maneira coletiva. Ou como ela mesma chama: “som panorâmico doloroso”.

As frases repetidas, as passagens quase faladas de Matana em coro com o resto da banda, ressaltando as superações dessa comunidade ao longo da história e seus obstáculos; Roberts tem plena noção de seu dever enquanto mensageira da ancestralidade de uma minoria brutalmente oprimida com o passar do tempo. Os interessantes contrapontos criados, como o saxofone melancólico que segue a uma esperançosa melodia gospel. Aliás, partes precisas de canções gospel aparecem em cortes decisivos, num imenso jogo de contraste afetivo. Há beleza e sofrimento, belas passagens e tempos agonizantes.

Não só o punk rock surgiu em 1977, Roscoe Mitchell também lançava Nonaah, abrindo percepções sobre o saxofone, aprofundando a estética jazzista. Matana rompe fronteiras musicais para estender e continuar na esteira de grandes nomes da vanguarda musical. No momento, é difícil achar música mais relevante sendo feita em algum outro lugar do mundo que não na cabeça de Roberts.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Anthem Albums Mixtape- Jazz Room

Não tenho certeza se podemos chamar isso de jazz. É música livre. Com improvisos e texturas, desde abordagens temáticas à fritação pura, onde tanto o coletivo quanto os indivíduos que compõe o grupo buscam texturas inéditas a cada sequência, improvisada ou não.
  1. Charles Gayle Trio- Compassion I
  2. Ballister- Claplock
  3. Ornette Coleman- First Take (Bonus Track from Free Jazz)
  4. Peter Evans- Broken Cycles
  5. Tim Berne- Psalm
  6. Fire! With Oren Ambarchi- I Am Sucking For a Bruise
  7. Matana Roberts- River Ruby Dues
>>> DOWNLOAD <<<

sábado, 9 de novembro de 2013

Tim Berne's Snakeoil - Shadow Man ( 2013)

“A memória já não pode ser inocente, o passado se tornou amargo”, Alejandro Zambra.

Esperar algo lógico das composições do Berne já se mostrou estupidez- maneira de dizer, talvez, porque já esperamos dele inesperados arranjos e circulações tortas, que por vezes emprestam um tema e brincam dentro deste, ou descarregam para o livre improviso na melhor tradição europeia. Uma aventura extremamente única cada vez que piano e saxofone interagem, seguramente despontando para diversas possibilidades de aterrissagem, porque de algum modo quando entramos em Shadow Man, já alçamos voo, embora não percebemos.

O vibrafone de Ches Smith constrói uma atmosfera lúdica. As melodias crescentes se cruzam, para o saxofone de Berne abrir um dialogo catártico com as notas dispersas do piano. Não é exagero comparar a liberdade do saxofone com uma tela sendo pintada pela pura inspiração, contendo passagens mais concentrado-intimistas em que a razão dita às notas, assim como liberdade total para momentos de pura intensidade! Elementos tão bonitos e delicados que ganham corpo até formar uma disfunção enquanto música lógica. Para se perder, nos sussurros do saxofone, nas aceleradas do piano, na bateria que por vez ou outra resolve chamar a atenção, ou no clarinete de Oscar Noriega que cria um atrito decididamente bucólico entre todos os instrumentos. A discografia de Berne ganha outra grande obra, dessa vez, um pouco mais impecável que as outras.