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terça-feira, 6 de maio de 2014

Gilmore Girls, Parte II- O balanço entre segurança e espontaneidade



É estranho chegar atrasado nessa festa. Estar falando de uma série que acabou faz sete anos. Mas vamos tentar explicar os motivos que me leva a ser honestamente obsessivo com isso, do jeito que nunca tinha sido antes com nada relacionado à TV. Parece que quando entramos em um episódio, não tem acordo- seremos bombardeados por diálogos brilhantes, situações dramáticas envolventes, mãe e filha que com situações que fazem jus à Annie Hall. O que Sherman-Palladino realizou aqui, não foi só criar uma série de TV, mas sim um mundo a parte com seus próprios códigos de conduta. Uma sumula de conhecimentos aleatórios que conseguem juntar e formar algo humano.

Eu nunca tinha visto como cultura popular conhecida como banal e artes performáticas obscuras pudessem se encontrar tão facilmente. Tanto que se alguém me perguntar um guia básico de literatura, eu sugeriria os autores favoritos de Rory- na série ela foi vista lendo 339 livros. Foi a primeira vez que eu pensei que um programa pudesse ser didático e artístico ao mesmo tempo.

Cada pessoa tem sua cura. Minha avó adora ler a bíblia e ensinar didaticamente cada neto seu como invariavelmente nossa geração está condenada e iremos ao inferno. Mas a quantidade de “cura”- leia-se café- que as garotas Gilmore ingerem é absurda! Como um suporte físico, o café é sem dúvida o maior excesso de uma série sobre excessos e vícios e rotinas.




A dieta esquisita apenas reforça o caráter singular de mãe e filha- como a criação de uma série é de fato um inverso paralelo à sequência de acontecimentos físicos que denominamos realidade, todo esse exotismo dietético atribui unidade ao seriado. As falas sem pausa em diálogos hercúleos nos momentos de nervosismo é outra consequência das garotas serem tão excessivas, vivas, intensas.

Outro sinal da humanidade em Gilmore Girls são as reações corporais, um exemplo é quando Lorelai está perto de rapazes que em algum momento gostou, tendo diferentes espasmos para cada um. Quando triste, também, sue corpo muda, ela fica com aquele expressivo olhar azul melancólico. Essas relações disfuncionais que mãe e filha nutrem com homens ao longo da série reforça o realismo, ainda assim excêntrico, na vida das personagens.

Desde o começo da série, notamos uma sina dela com Luke, dono da lanchonete- sua recusa quase eterna de um relacionamento com ele pode mostrar todo o medo de uma vida segura que ela guarda- o temeroso para ela é a morte de sua espontaneidade.  Os hábitos imprevistos formar uma cadeia onde fica impossível estruturar uma relação romântica em um universo particular tão acelerado.

A riqueza da família Gilmore é parodiada com um universo tão excêntrico quanto os habitantes de Stars Hollow, cada qual à sua maneira, onde as particularidades tornam-se obsessões compulsivas de sede por controle. Emily Gilmore é o exemplo disso, sempre tentando enfiar dinheiro em qualquer problema possível, o que acarreta em diversas frestas no relacionamento com filha, neta, empregados, marido. Com isso ela só consegue, basicamente, conviver com sua filha sob a coerção do dinheiro, ou um melhor lugar em seu clube para grãos finos.



Mesmo em um nível que ambas protagonistas têm uma incrível intimidade entre elas, o relacionamento mãe-filha não cobre todos os assuntos. Às vezes pode parecer que não há limites no que se refere ao tema direcionado, mas há uma hierarquia oculta de “quem manda em quem”. Claro, isso não elimina o fato de que é sim um relacionamento a parte. O fato de Lorelai ainda estar no colegial quando ficou grávida de Rory influencia muito bem nessa suposta amizade. Isso disto, o sexo é sim um grande problema, ainda, em nossa cultura. Nem mesmo pessoas tão próximas conseguem falar sobre tudo. Sexo e álcool ainda parecerem ser exceções.

O valor, novamente, está em creditar a cada personagem, com maior foco evidente nas interpretadas por Lauren Graham e Alexis Bledel, um conhecimento único seminal, desmistificando o machismo por trás da intelectualidade que reina nos seriados televisivos. Ou seja: você vai se sair bem de alguma forma simplesmente agindo conforme um padrão próprio estabelecido- e que não há mal nenhum em se desviar deste quando assim entender.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Gilmore Girls, Parte I- A democratização da cultura.




Viver é lutar contra os demónios do coração e do cérebro. Escrever, é pronunciar sobre si o último julgamento”, Henrik Ibsen

Rever Gilmore Girks (G.G), além da nostalgia, talvez me dê pistas do caminho que venho tomando na tão banalizada estrada da vida. Na primeira vez que vi a série, toda tarde na Warner Channel (segunda à noite eram os episódios inéditos), fiquei maravilhado. Continuo, ainda. Enredo simples que envolve diversos contextos em uma cidade onde parece que nada acontece, mas é só impressão. Nós, jovens que só queremos abandonar nossas desgastadas cidades que caíram na mesmice, nos identificamos logo com Rory. Poxa vida, também cresci amando literatura, coisa que ninguém a meu redor parecia se importar. Televisão está tão carregada de bobagens que nos esquecemos de algumas pérolas pelo caminho.

Lembro que parecia um evento quando começava qualquer episódio da série criada por Amy Sherman-Palladino. Recomendei essa série para muitos amigos durante o colegial, obviamente que estes preferiam assistir a ação desenfreada (e boba) de Smallvile ou ficar intrigado com os mistérios (cada vez mais chatos) de Lost. E de fato, se alguém importa verdadeiramente com alguma ação, isso G.G cumpre- é só reparar na velocidade dos diálogos, movimentação cênica das personagens. Estávamos crescendo, é verdade. E talvez isso já indicasse que seria um pouco diferente da média, pelo menos do saudoso Colégio Vinicius de Moraes (você acha que é diferente até conhecer São Paulo de verdade).



É indispensável falar em toda cultura- do erudito ao pop, marxismo à Fantástica Fábrica de Chocolate- que abrange Gilmore Girls. Um minuto por página escrita de diálogos é o tempo médio de um seriado, bem, Sherman-Palladino reduziu isso a uma página a cada vinte segundos. Tantas palavras significaram aos produtores contratar “técnicos” de dialogo para os atores. Metalinguagem pode ser mais característica às obras unitárias, como um romance ou filme, mas aqui há um fluxo constante de intercambio cultural. O mais legal de tudo é que você não precisa entender as inúmeras referências para achar graça. Ceder a certo tipo de elitismo cultural-artístico não faz o jogo das séries de televisão americana, mesmo que seu criador assim seja. Revendo G.G, consigo entender muito mais as alusões, que conseguem lidar comedidamente com tudo o que nos envolve.

Como sempre gostei de literatura (inúmera referencias são feitas a esse assunto) assistir Gilmore Girls é sinônimo de boas piadas. Elas digerem enorme quantidade de comida junk, tanto que você pensa: “cara, como elas não engordam?”. Mas tudo nessa série é feita por um considerável exagero. Aliás, toda a série é baseada na repetição- o comportamento de Lorelai com os homens, alguns filmes que estão sempre revendo, poemas que estão relendo. Impossível não apreciar o cíclico e rico mundo criado, com diálogos que enriqueciam tanto o drama que até esquecíamos a linha principal. Tudo fica gravado na memória: a música inicial, o jeito da mãe de Rory mover o cabelo, a neurose da mãe coreana. O conhecimento de Sherman-Palladino não é transmitido de maneira pedante, mas sempre engraçado ou dramático. Sério, parece um poço sem fim de tanta elegância e manejo com as palavras. O dialogo também é exagerado, em um mundo catalisado pelo foco no relacionamento humano.

 
Junto com toda essa mistura cultural que as personagens conseguiam manejar, de filmes secretos a entretenimentos de massa, estão os relacionamentos humanos e como os diálogos inserem a erudição em situações de atrito. Encontrei em Gilmore Girls uma cultura progressista, onde as pessoas tem o direito de saber tantas coisas. Escritores franceses, animações non-sense e melodrama variam para formar a teia de intercambio. A forma de relacionar o passado com o presente é tão natural e com uma estética plenamente artística que quase esquecemos que era um seriado da Warner e não da HBO. Podendo os espectadores assumir a formação das pessoas- não havia pré-informações antes de uma personagem aparecer. Sem deixar pontas soltas- muito similar ao que ocorre em Parks and Recreation.

Gilmore Girls demonstra que alta cultura e entretenimento popular não precisam ficar tão longe. De certa forma, a série é uma sátira de análises acadêmicas sobre temas teoricamente rasos, digamos uma música do Luan Santana, enquanto simboliza a união de diferentes abordagens na mesma estética- praticamente livres das imposições que Harold Garfinkel via nas pessoas comuns, sabiamente descuidadas em algum âmbito sentimental. Quando entrevistei a vanguardista Christina Vantzou para meu blogue, ela me disse que o que eu gosto é pop para mim. Jogando isso para G.G, não há porque não referenciar elementos de uma cultura dita erudita se as personagens estão fascinadas por isso! Qualquer escritor queria muito misturar, com tamanha elegância, formação em cultura de massa como televisão e futebol, leituras do Nietzsche, os estudos de improviso de Coltrane,etc.



Entre as coisas que eu aprendi em Gilmore Girls, toda essa mistura é a mais legal, está tudo bem gostar de Heidegger e ouvir Stravinsky ao mesmo tempo em que fico alucinado assistindo uma final de Liga dos Campeões e melodramas. Exceder os limites comuns é viver mais, pulsar com intensidade.

Além disso, a série indica as diferentes aleatoriedades que formam uma pessoa culturalmente, composta de diversos interesses. Em G.G, o excesso sugere não estar em um estado passivo- a série perpassa por quase todas as sensações, com exceção do tédio, é impossível ficar entediado assistindo. Embora todas as categorias que abrange (e acredite, não são poucas) possam parecer demasiadas contraditórias, o paroxismo indica uma esquizofrenia cultural no melhor sentido. A constante recapitulação de obras de arte por Lorelai também sugere que absorver não é uma coisa simples. Em um sentido mais amplo, pode ser um passo a passo de formação do individuo em uma Era tão conhecida com o substantivo “pós”, muito em função de não fazermos ideia do que significa essa avalanche de informações e como retê-las.



Conversas longas, dramáticas, tragicômicas, certamente habitam o incomum universo imaginário descrito por Sherman-Palladino. As múltiplas referências que verdadeiramente se multiplicam ao longo do desdobramento dos diálogos escapam da monotonia de um dia a dia convencional. Altamente influenciado por séries de televisão dos anos 50, as conversas certamente são os momentos que aperfeiçoam a qualidade da série. Embora haja uma atuação muito competente do vasto elenco, indubitavelmente Alexis Bledel não interpretará outra Rory, pela singularidade da criadora de G.G. Pois bem, não é na atuação que se encontra o desenvolvimento dramático do enredo, a ação ocorre basicamente nos diálogos. A atuação está garantida desde que as falas estejam na ponta da língua, exceto raríssimas exceções. A movimentação rápida e explosiva deixa o telespectador sem espaço para respirar. Excessos é a virtude de Gilmore Girls, as repetições e diversas referências insinuam um movimento contínuo. Não à toa, comparo assistir G.G com as peças de Henrik Ibsen. Eu sei, eu já estive nesse campo, e Palladino joga nesse time.