quinta-feira, 14 de setembro de 2017

até seus sentidos ressuscitarem (para Grant Hart)

A pele começa a perder o vigor e o espelho demonstra essa decomposição melhor que qualquer coisa. Quando A. ficou viúva, ela tremia toda ao lembrar-se do ex-marido. Eu conheci ela no metrô, porque eu estava como minha camiseta do Husker Du preta e ela falou que gostava da banda. De primeira, eu não consigo escutar, pois estava com os fones de ouvido. De alguma forma, aquilo virou amizade e ela confessou-me que, desde a morte do seu antigo esposo, ouvia Everything Falls Apart religiosamente- todas as noites, não importa as horas em que chegava em casa. Na primeira vez que fui à sua casa, reparei que havia vários  vasos de flores espalhados meio que atropeladamente pelos aposentos. Ela confessou que sentia que todos seus sentidos pareciam mortos pós-falecimento. Eu engoli seco. O que eu poderia dizer? "você sabe, ele era a única pessoa no mundo que me conhecia de verdade. Eu ouço Husker Du e, de cara, lembro do seu sorriso quando falava que aquela era a melhor banda do mundo. Eu não gostava, pra falar a verdade. Só fui gostar depois que ele morreu". No avançar de nossa amizade, ela perguntou se eu me sentia usado por ela, porque -segunda ela- A. apenas falava sobre seu ex-mariado e coisa e tal. Eu respondi, meio que brincando, "até seus sentidos ressuscitarem você tem de falar dele!".

Estava frio em São Paulo e era segunda-feira à noite enquanto eu, quase congelado, esperava no bar que havíamos combinado de nos encontrar. Ela estava, +-, meia hora atrasada. Não bastasse o Frio, começou a Chover e minha paciência esgotou-se. Eu não me esqueço de um mendigo tomando aquela Chuva toda, passando Frio e ainda assim cantando alguma música com uma latinha de sabe-se-lá-o-que na mão. Quando A. chegou, ela pediu desculpas e disse que estava meio que dissolvendo-se. Estava deprimida e poucas coisas vinham ajudando-a e eu era uma delas. Confesso que meu ego deu uma esboçada, mas o pesar por ver um rosto tão jovem sofrendo não compensava nenhum filete de alegria. Agora, o mendigo pensava ser um arqueiro e atirava suas flechas invisíveis nos transeuntes de guardas-chuva. Ao entrarmos no bar, ela pediu um X-Egg e finalizou-o enquanto dividíamos um litrão. "Comer ajuda a ressuscitar meus sentidos", ela brincou e, um tempo depois, mostrou-me uma carta que tinha escrito para o falecido marido- que era mais ou menos assim: "tá difícil sem você. Você é o único que me conheceu de verdade. Eu ouço seu disco favorito todo dia, será que você percebe? Eu estou usando todos os materiais que eram seus para ter você mais um pouco comigo" e coisa e tal.


Ela disse que era sensível demais para morar onde seu marido passara seus últimos anos e precisava de mudar-se porque não aguentava o peso das coisas. "se é assim que você quer viver, eu apoio você", não tinha mais absolutamente nada que eu pudesse responder. No dia de sua mudança, fazia um céu límpido em São Paulo e eu ajudei A. a empacotar algumas coisas. Fiquei surpreendido quando ela me deu o CD do Everything Falls Apart e falou-me para guardá-lo com todo o carinho. Hoje, quando fiquei sabendo da notícia que Grant Hart havia morrido, fui desesperado procurar o CD, A.. Eu não achei e, se você ler isso, peço um milhão de desculpas. Eu vi seu inbox depois de anos sem conversarmos direito, você me falou que não conseguia ter algo sério com ninguém e que ainda pensava em Osvaldo a todo instante. Combinamos que quando você fosse a São Paulo  eu iria também para, finalmente, reencontrarmo-nos. Você pediu para eu ouvir o Everything Falls Apart assim que você também desse o play. Enquanto ouvia, lembrei-me de quando conheci pessoalmente Grant Hart e tocamos poucas palavras. E lembrei-me das histórias dele tocando em botecos decadentes pós Husker Du. Tentei imaginá-lo tendo uma morte em paz. Mas nunca se sabe, né? Aliás, é possível morrer em paz? Você respondeu que achava que não, que mesmo a pessoa mais solitária do Mundo morria deixando algo para trás. Eu falei que era legal ser seu amigo há tanto tempo, que ficara grato por tudo ter acontecido. Você disse que eu realmente a ajudei a segurar as pontas quando o Mundo desmoronava ao seu redor. Eu acho que você exagerou. Eu pensei em todas as pessoas sem as quais eu acho que não poderia viver. A bem da verdade, quando M. se matou eu pensei que ficaria dificílimo de aguentar. De alguma forma, eu aguentei. De alguma forma a gente continua vivendo, não importa quão difíceis são nossas perdas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário