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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Gorazde - The Catechism

Talvez, ao ouvir os sussurros das canções, nós possamos pensar que Gorazde está tratando de seus prazeres silenciosos ou suas poesias. Mas não. Aqui temos um relato (quase asqueroso) de um lunático sádico.

O disco relata, com rifes sem centros tonais na maior parte do tempo, alguém que está fazendo simultaneamente um ato de sacrifício e ficando satisfeito com o ato de tortura. Avançando na estrutura lírica, talvez fique evidente que se trata de um serial killer. E todo terror de  The Catechism está palpado nessa proximidade concreta da morte. A contemplação da paisagem não cura mais nada, e é de maneira direta que o Gorazde diagnostica, com uma voz irritantemente crua, o ato da falência. Ato representado na garrafa e na continuidade com o vício alcoólico que vai deteriorando os órgãos, a mente e converte o corpo em poeira rapidamente.


Não é apenas outro disco sobre a morte, mas soa sinistro por falar dela sem qualquer, absolutamente qualquer espécie de reverência.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Sketchquiet - The Nature Only Wants To Please Itself // Seize The Moment

Ninguém está em casa. As lembranças se fundem e os signos externos são apropriados assim como o canto dos pássaros; a noite passa lentamente, a observação transforma-se em absorção. As músicas de Sketchquiet são esse processo de absorver e reordenar o mundo que nos cerca de forma interna. Os versos de guitarra acolhedores de Seize The Moment flui com umas palavras em seu plano de fundo; são memórias que preenchem a vastidão do céu noturno e solidificam sensações como saudade e nostalgia. Mas o que o Sketchquiet realiza não é uma celebração e/ou tristeza em cima do que já passou, mas como Mário Alencar (ele é o Sketchquiet) é atravessado por essas lembranças. Porque elas surgem, e se decidem ficar, não há como combater e aí que músicas como as do Sketchquiet fazem todo o sentido. Elas existem não para lutar contra os nossos sentimentos, mas para acolher e dar vazão para eles, para estetizá-los de forma que eles também caracterizem uma presença. Sketchquiet pinta um cenário que sentimentos paradoxos são possíveis, nenhum contorno é simplesmente objetivo nessas duas canções. Todos os rabiscos são precisos e necessários.


Amanheceu e pouca coisa ainda faz sentido. Os versos de guitarra ainda são aquela mesma melodia da última noite, mas tanta coisa mudou, meu humor é outro. Eles continuam acolhendo minhas sensações. Na pausa de uma música para a outra, realidade se mostra existente, rígida como um concreto. Nós podemos acordar todo dia na mesma hora, mas o céu está sempre diferente. Indiferente a todos nós. O que eu sentia, ontem, na primeira vez que ouvia essas músicas, eu não me lembro. Acho que assim eu posso entender um pouco melhor a fragmentação da voz em The Nature Only Wants To Please Itself. Afinal, nossas memórias só obedecem a si mesmas e suas ordens malucas e caóticas. Elas são como os cantos dos pássaros; determinadas por suas vontades.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Taj Mahal Travellers- August 1974 [1975]

August 1974 é música ambiente par excellence. Claro, com cada faixa durando em torno de vinte minutos, é um compromisso atravessar todo o caminho, e eu nem sonharia em recomendar isso a alguém quem já não foi introduzido a esse tipo de coisa. Mas que deleite se torna se você é! A música te levará para outros mundos, simultaneamente antigos e futuristas. O mundo sonoro que o Taj Mahal Travellers cria permanece tão profundo, surpreendente e transcendente quase 40 anos depois como quando foi criado, aparentemente de lugar algum. Então faça um favor a si mesmo e pegue uma carona com o Travellers. Não se arrependerá.