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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Otacílio Melgaço - L'autre côté du vent

Eu já fiz outra resenha do Otacílio Melgaço esses dias e acho que ficou bem clara a preocupação do músico para chegar a pontos ainda indeterminados. Enquanto em Brutalism tínhamos uma espécie de movimentação capaz de desvelar estruturas e suas subsequentes ideias de “verdades”, em L'autre côté du vent predomina uma ambientação clássica, ainda que radical. Portanto é justo afirmar que essa obra é mais “sombria” que a outra, uma vez que tenta transpor ao ouvinte sonoridades mais “insondáveis”. Desde o começo das peças, a grandiosidade apontada por Melgaço resvala em tentativas de capturar uma sensação. Não é como se ele quisesse emular “pássaros voando”, por exemplo. Ao invés disso, Otacílio reconhece as entidades naturais e é a partir desse reconhecimento que brota sua música.

Esse álbum de Melgaço oferece uma resistência inicial e aos poucos, por trás dessa densa camada sonora, vamos descobrindo um quarteto que impõe diversas texturas e encontros possíveis resididos nelas. O próprio título (algo como “do lado do vento”) representa uma sonoridade guardada por rumores que de maneira fragmentada se revelam, ascendem e depois retornam à obscuridade inicial. É como se houvesse um núcleo gravitacional que esses elementos rondam, penetram, dissolvem-se. Analisar possíveis coincidências talvez restrinja a abordagem poética que é imanada em todos os movimentos de L'autre côté du vent, poesia que trabalha com reconhecimento e desconhecido de forma paralela. É uma reação que desenha no espaço vazio (o silêncio) impressões de um observador (o compositor) fascinado com essa oportunidade de preencher o espaço, preencher o que não emite barulho.


L'autre côté du vent comprova que a obra que está sendo construída por Melgaço merece ser atentada mais proximamente num futuro muito próximo. Não que ele precise de grande atenção para continuar produzindo, pois seus atravessamentos criativos parecem longe de perder a força.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Otacílio Melgaço – Brutalism

A arquitetura brutalista emergiu na década de 1950 radicalizando preceitos da época, embora não fosse um “movimento” rígido, suas explorações na forma influenciam a produção contemporânea. Os clamores que surgem na primeira faixa fazem questão de preencher tudo que é possível, não há silêncio porque não há tempo para ficar calado. Devemos apreciar as variações de Brutalism como um preenchimento em que é muito difícil de respirar. Eu encaro o transbordamento do disco como um ato de liberdade. De qualquer forma, Brutalism soa cheio e feito de movimentações inesperadas.

A concepção sonora de Otacílio Melgaço para esse disco parece ter nascido dessa vontade de preencher o vazio de maneira que não há pausas para fôlego, e embora os elementos predominantes remetam ao jazz, toda a ambientação de Brutalism trabalha no contrassentido do vácuo. Novamente, essa necessidade de expressão do músico que combate formações medianas e uniformidades.

Esses condicionamentos limitantes que esvaziam a maioria das tentativas artísticas e as transformam em mera mímesis. Melgaço diagnostica esse esvaziamento contemporâneo e reconhece nos atos mais libertadores do jazz formas que propulsionam todos os contornos musicais do álbum. Mais do que linhas retas, toda a estrutura de Brutalism (o noise rock, a música eletrônica e também a música clássica) opera de maneira que redimensiona um tempo e espaço que parecem opacos. Leiam todos esses desvios de Otacílio como uma maneira da aparência (o som) desvelar as estruturas em favor de qualquer ideia de “verdade” que você possa ter.

Essa apropriação do conceito da arquitetura brutalista não é em vão; somente os contornos podem desnudar a essência da estrutura. A produção musical contemporânea, seja pelo excesso de zelo na produção ou apenas uma estratégia de mercado, usualmente esquece-se de brindar o ouvinte com uma “crueza” ou qualquer outro ato de sinceridade. Brutalism encontra uma sinceridade há muito esquecida para transpor uma ideia de ocupação em uma época criativamente vazia. É uma gravação que escava até a raiz de seu criador para fugir de procedimentos fáceis ou confortáveis e estimular todos que a escutam para se apropriarem e tomarem parte nessa nova construção. Eu sei que soou confuso, mas é como não somente a ideia de construção musical fosse posta em jogo, mas também a verdade por trás dessa construção.

Brutalism começa focando exatamente nessa ideia de ocupação, como se as estruturas já dadas não fossem suficiente e há uma necessidade evidente de Melgaço reelaborá-las e sem se preocupar com qualquer espécie de desconforto que isso possa causar. A seção rítmica depois dos primeiros cinco minutos iniciais mais caóticos, se reorganiza e segue caminhando para caminhos inesperados. O álbum soa como uma alçada que não pode ser freada, uma alçada preocupada em reconstruir, ocupar e desvelar as principais ideias artísticas (em constante movimento) de Otacílio.

A primeira peça é a que traz todos esses conceitos e também é o mote que colabora com a ideia do músico. Não é muito fácil diagnosticar precisamente os instrumentos utilizados nessa, mas temos uma ambientação que a recorrência percussiva coexiste com elementos de sopro, eletrônicos e outros escapes. Melgaço não quer se resignar em nenhum momento e por isso todo o disco é uma batalha contra um conformismo artístico e a voracidade de alguém que anseia em ver seu projeto realizado. Brutalism é a captura desse momento de tensão e criação, em que se percebe que nada é permanente, tudo é ocupável.


Finalmente, todos esses conceitos e ideias não devem atrapalhar sua audição. Entendam o disco como uma tentativa de sair de esquemas convencionais de composição (estruturas) para, na batalha parar criar seções mais radicais, estabelecer algum tipo de movimentação (ocupação). Vai além de meros conceitos ou usurpações para usar esquemas tradicionais e mostrar que o que cria essa tradição (instrumentos) também é capaz de criar outros contornos, esperançosamente mais verdadeiros. Somente os sons são deixados e tudo que podemos sentir dentro da estrutura que eles criam.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Steve Roach - Emotions Revealed

Um dos meus trabalhos favoritos de todos os tempos na música eletrônica é o Structures From Silence, disco no qual Steve Roach conseguia suspender toda sujeira sonora em áudios cristalinos em uma estética sensitivamente densa. Emotions Revealed se trata de duas peças compostas anteriormente à obra-prima de Reich e que felizmente puderam vir ao mundo no começo de 2016. Enquanto na primeira faixa podem-se sentir as influências de músicos notáveis e um Roach que ainda estava desenvolvendo uma personalidade, a relaxante segunda peça revela vislumbres da genialidade que o Structures From Silence viria a ser, com fortes influências dos primeiros lançamentos da Escola De Berlim.

Naquela época, os experimentos ainda estavam sendo feitos e muitos lançamentos seriam considerados anos depois como pioneiros em vários subgêneros da música eletrônica. Os próprios primeiros trabalhos de Roach se mostram um tanto quanto imaturos e genéricos, o que ele perderia já na elaboração de Emotions Revealed. Aqui temos um músico extremamente à vontade com suas ideias de repetição, em duas gigantes peças com uma textura onírica e sintetizadores que criam um espaço digno para exploração. Seria tolice afirmar que Roach foi um dos primeiros a trabalhar nessa linha, mas o talento revelado nesse disco não deixa dúvidas de que sua produção se divorciaria inevitavelmente de outras eletrônicas generalizadas.  Aliás, esse disco mostra meditações menos distorcidas do que os trabalhos posteriores de Roach e as orquestrações de cordas são o plano de fundo para a repetição de uma simples melodia que fica sempre em primeira instância e trabalha sentidos que conseguimos relacionar facilmente. Esse trabalho de associação imediata é importante porque na segunda parte do álbum Roach vai criar uma ambiente insistentemente mais obscuro e distorcido, se aproximando muito de algumas obras de Klaus Schulze.

A segunda peça se assemelha bastante a Structures From Silence; o tempo é devagar de forma gradativa, ou seja, cada momento soa mais lento que o próximo, assim como os detalhes vão ganhando mais relevância e a estética de Roach vai, aos poucos, se delineando- como um pequeno ato do cotidiano em ultra slow motion. A continuidade massiva de Firelight caracteriza uma instalação em que, aos poucos, pode-se mergulhar. Lentamente, as máscaras das influências de Roach vão se pulverizando para o movimento desgastado e repetidamente modificado exibir um artista com conceito próprio. Os sintetizadores criam uma estrutura etérea de eternos e lentos movimentos que se integram justamente pela instalação criada por Roach, sendo um exemplo das primeiras produções de música ambiente, executada por um jovem Steve que claramente ansiava não repetir suas influências.


Toda a transformação artística que Roach exibiu ao longo dos anos evidencia um artista ligado às novas formas de produção, mas que ainda assim, nunca completamente se submeteu a elas. Nesse tempo, suas abordagens tem-se mostrado cada vez mais grandiosas e que necessitam de muitas análises para realmente compreendermos os detalhes dos álbuns; isso tudo é compactuado dentro de Emotions Revealed que revela um Steve muito mais acessível do que nos anos decorrentes. Esse disconão é apenas “material para fãs”, mas é objetivamente uma revisitada a um dos artistas mais importantes em sua área de atuação e que indica os rumos diversificados que sua obra de vida registraria. Ainda assim, Emotions Revealed não é uma peça de museu, é uma obra que claramente pulsa por sua vontade.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Empate – Empate [2015]

É muito difícil falar desse EP e não me lembrar de 2007, quando um amigo mostrou a demo do Algernon Cadwallader. Naquela época, eu não estava muito por dentro do que acontecia com o “emo”, e continuava a ouvir as bandas antigas que eu adorava e continuo adorando. Naqueles dias, eu não sabia do “boom” que essa pequena derivação do hardcore/punk/indie (seja lá o que for), teria nos anos 10s e quantas bandas interessantes apareceriam. Então eu percebi que aquela nostalgia barata poderia ceder mais espaço a um bando de jovens que queria produzir músicas com enorme carga dramática e a margem dos caminhos do mercado. Se naquela época aquilo ainda só se esboçava, EP’s como esse do Embate surgem para confirmar que todas aquelas bandas dos anos 90 se esforçaram e que o resultado continua sendo gente muito empolgada em desabafar e exteriorizar tudo o que nos contamina nessa vida. Ouvir Empate, pra mim, é uma celebração de um passado que valeu a pena ser vivido e de um presente que, apesar das inúmeras merdas, merece ser comemorado.

Mas eu não quero dizer que a banda é uma mera “réplica” de outros grandes nomes no ‘”gênero”. Pode-se encontrar nesse EP uma interessante variação, tanto temática quanto instrumental. Num punk bem cativante, as guitarras dedilhadas interagem criando melodias intricadas e mudanças de tempo, contando com vocais empolgantes – às vezes, em coro. O vocal  de Cassio é realmente comovente, e embora ele se debruce sobre temas cansativos que implicam em desgaste, ele enxerga ações que, embora não derrotem de fato esse mal-estar que parece estar sempre presente, diagnostica em seus berros suas angústias. Em “E aí Doutor?”, a parte mais inquieta assalta e vai culminar em um coro de vozes, onde o eu lírico só quer “esquecer quem é”. É curioso, pois, na faixa seguinte, “De Escama”, ele é caçado por uma autoconsciência que reflete apenas cansaço. Às vezes, dá vontade mesmo de parar de tentar, porque é tudo muito estressante. Parece que ninguém nos ouve e ficamos muito esgotados para esboçar qualquer ação.

Ainda em “E aí Doutor?”, onde uma espécie de “mau exemplo” se insinua, na verdade há sede para se proceder de maneira mais própria, tentando se livrar dos dogmatismos estagnados socialmente. Já em “De Escama”, o desenvolvimento instrumental mais lento gera uma ambiente de reflexão um tanto quanto solitário, o que é evidenciado quando o vocal afirma que “quanta mais tenta, prefere ficar de escama”. No fundo, essa ânsia por autonomia e essa reflexão sobre “estar à margem” fundem-se e sinto que é a temática principal do disco, mesmo que às vezes mais cobertas com o humor. “Sr. Fernando” tem uma introdução interessantíssima, revelando uma batalha entre as coisas mais “básicas” da vida, envelhecer e amor.


Esse EP é o registro dessas bifurcações constantes entre desejo de distinção e de alegrias mais “simples” e imediatas, no momento que conhecemos como “agora” e a quantidade de dúvidas que tais aspirações causam. A gravação do disco opta pela “crueza” necessária para retirar vida da mesmice cotidiana, tendo como antídoto os gritos e os instrumentos tocados e a ânsia por serem ouvidos. É algo altamente pessoal, mas podemos compartilhar dessa percepção de escape. Mas não me refiro a uma escapada de tempo. Não! Eles sabem que essa medida já está morta, e querem doses e botar tudo pra fora e pronto! O Empate consegue nos atingir com o que se propõe a fazer e traz suas dúvidas assim como a convicção de que ganhar e perder faz parte, e sempre terá uma próxima batalha.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Jair Naves- Trovões a me atingir [2015]

Em alguns casos, como em todos os lançamentos de Jair Naves, fica difícil pra eu não levar para o lado pessoal e não lembrar aquele garoto fascinado com Ludovic, Joy Division e o The Cure. Falar sobre Jair Naves é falar sobre um cara cujas letras e melodias estiveram presentes desde o lançamento de Servil. Eu associo a “descoberta” do Ludovic como um período de imersão em pensamentos mais, digamos, “profundos” em que eu ainda não tinha me aventurado. Provavelmente foi coincidência, eu sei, mas foi um período em que a música se impôs e se tornou uma das cosias mais gratificantes do universo.

Daí a minha inevitável confusão ao falar sobre tudo isso. Ouvi muito falar sobre esse disco ser “mais do mesmo”, mas penso que não é exatamente assim. Ainda que Araguari seja o trabalho dele que mais me agrada, há uma divergência conceitual e sonora bem aparente nesse espaço de tempo.

E o impacto continua. Jair tem um comprometimento incrível com sua obra e essas canções comprovam muito suor e muito trabalho. São tentativas da construção, além da banalidade simplista que permeia muito a música contemporânea, onde os choques vividos e as cicatrizes que depõem. São essas dores que autorizam Jair a falar com a autonomia dos espaços atravessados. Sua habilidade enquanto letrista não seria tão verossímil se as letras fossem apenas mimeses. Elas são condicionamentos da existência, das brigas. São investimentos que não querem “descobrir” a causa, mas simplesmente deixar de sofrer e buscar situações mais frutíferas. Essa me parece a diferença gigante entre o Jair do Ludovic e o Jair de Trovões A Me Atingir. Enquanto Ludovic era a encarnação da dor, em Araguari temos uma documentação nostálgica sobre o vivido, E Você Se Sente Numa Cela Escura [...] a tentativa de buscar um lugar mais “puro”, Trovões A Me Atingir aponta as decisões, uma posicionamento mais definido.

E assim- para o pior e para o melhor- temos um artista que definitivamente sai dos “enquadramentos” a ele designados em suas obras anteriores. A catarse mais absoluta e imponente cede espaço às outras mediações. As cicatrizes ainda estão lá, mas menos nocivas, o peito pode se abrir de novo. Esse direcionamento musical mais “vasto” desapontou muita gente, mas decididamente Jair não quer se reter apenas naquelas explosões emocionais tão características do início de sua carreira. “O peso da decisão, da escolha definitiva cai sobre mim”, é mesmo um verso que implica maior aceitação.

Mas essa aceitação não significa, de maneira alguma, que não temos alguém completamente assustado e, mesmo que em menor grau, condenado em sentenças confusas que a vida propícia. Trem Descarrilhado, a última faixa, é talvez o mote do disco- um mundo que está ruindo e é nesse caos, atravessando as cicatrizes, que Jair tenta encontrar brechas e motivos pelos quais lutar, mesmo que a desordem já seja reinante e aparentemente não há muito que se fazer.


É sem um itinerário fixo que avança a obra de Jair Naves. Acompanhamos imagens que são formadas por angústia, sofrimento, amor, expectativas... Tornou-se rotina pra mim, desde que comecei com esse negócio de gostar muito de música, ter suas canções como abrigo para os diversos momentos. É que eu acredito em testemunhos tão entregues e tão intensos. As fraquezas versadas e expostas pressionam porque não queremos frustrar ninguém, não queremos produzir a dor. É desse ponto que Jair discursa e faz sua arte, do ponto de uma incerteza absoluta (pessoalmente, não esteticamente) em um mundo que parece nos bloquear a todo instante. É tudo tão repentino e não podermos prever os trovões que vão nos atingir. Mas se há receptáculo, há vida. E isso é o suficiente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Para incomodar; LUPE DE LUPE – QUARUP [2014]

"Atravessamos nossas pontes quando chegamos a elas e  as queimamos atrás de nós, sem nada para mostrar para o nosso progresso, exceto a memória do cheiro de fumaça, e uma presunção de que uma vez nossos olhos lacrimejavam."
- Tom Stoppard, Rosencrantz and Guildenstern are Dead

Quais mortos o Lupe De Lupe quer trazer de volta a vida? Por que esse título? Em um panorama bastante amplo (onde a microfonia “cresce” no cenário brasileiro, o público nem tanto), são 110 minutos de música em que é impossível ficar inerte- a passividade não representa a banda mineira, por isso essa vibração, essa obra longa. Será que nós, a audiência musical, somos os mortos?

Essa impressão pode ser dissolvida (assim como as interrogações) assim que lemos que o disco é dedicado a um amigo falecido. Mas isso não elucida completamente. Como eles querem ressuscitar os mortos? A certa altura, Vitor diz “E que diferença faz dizer todas essas palavras?”. O questionamento continua, “Minha cidade está em ruínas/ E não é uma música que vai fazer tudo isso mudar”. Pra que serve a música, então?

Quarup é um disco duplo e essa nomeação faz sentido. A primeira parte, mais “melódica”, menos arranhada. As microfonias e “pancadas” surgem na segunda metade, onde influências punks e Sonic Youth emergem. Diante dessa profusão sonora oferecida pela banda- que passeia pelo noise rock, shoegaze, dream pop e até MPB- somos orientados por letras pessoais (com tom político muitas vezes) que mais do que nos fazer “refletir”, invocam a ação efêmera e imediata, nos sacudindo inteiramente.

A banda decididamente não opta por discursos prontos. Embora na maioria das vezes estes estejam colados à intimidade profunda do eu lírico, as letras proclamam uma espécie de independência do eu. Sejam nas mais “feel good” como as três que abrem o disco, fica evidente a intenção dos compositores de emancipação seja lá do que for- dos editais de cultura, de um determinado tipo de humanismo que figura entre muitos universitários, ou até mesmo de suas próprias influências anteriores. Aliás, este é o lançamento em que o conjunto mais tem uma sonoridade claramente independente. Não que o Lupe De Lupe não tivesse isso antes, mas talvez a ousadia de lançar algo como Quarup representa a ambição que faltava para finalmente libertar a banda.


E mais do que mero entretenimento (embora o disco não nos deixe entediado em nenhum ponto), vejo Quarup como uma espécie de desafio. A banda está falando “hei, nós sabemos nos reerguer a cada lançamento. E mais forte!” Num momento em que a teoria domina muito a chamada música independente (e isso aqui não é uma crítica, ambos necessitam um do outro), o Lupe De Lupe surge com um disco “soco na cara” que certamente desafia todo o marasmo que nos enfiamos todo dia.

A vontade que eu tenho é de falar, “então vamos lá. Vamos para cima”. Mas não se enganem; Quarup é um disco de feridas e dificuldades, um álbum que certamente custou muito sangue de cada um dos integrantes. Mas são feridas que escancaram uma honestidade imensa, expostas em cada distorção, em cada vocal. Não só um espírito lo-fi e com a música independente, mas um comprometimento real e absurdo em se fazer música. Música que me agita e me incomoda também. Necessária para renascer dos pequenos assassinatos semanais e dos martírios que nos afligem.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Rec On Mute -Hereafter [2014]

A vela só existe porque a escuridão está lá. A vela é apenas um símbolo de luz para nos lembrar da ignorância à qual nós somos arremessados. Como nossos erros pretéritos, que às vezes vêm como vertigem e escapatória do “real”, às vezes, como elemento que alimenta nossa angústia. Os momentos somem, as velas apagam. Uma música definida como “noise rock” não necessita de elementos que fujam a certa esquemática moderna. Seria besteira falar dos rumos que a música tomou nesse inicio de século e sua plena proliferação em vários sentidos. Mas parece ser- sinceramente- uma das poucas coisas que quebra esse muro de concreto rígido que é a vida contemporânea- com suas chateações, inquietações e milhares de frustrações.

Os sons do Rec On Mute (sempre acertando muito na afinação e nas microfonias) se entrecruzam e soam às vezes como unidade específica- os vocais bem quietos, divagando junto com as frases da guitarra. Outras, um ou outro instrumento ganha notável destaque e nos deparamos com uma produção acertada e surpreendentemente clara e polida para um primeiro lançamento. Como as nuvens que se movem no céu, como peças que às vezes simplesmente completam a paisagem, e em outros momentos estão cinzas e anunciam a tempestade.

As expressões caem para os “gêneros” alternativos que eu mais aprendi a gostar nos últimos anos. Dynamo é um bom exemplo da transição “post-rock-grunge”, nos contando a singela história de um garoto que deseja “apenas ir embora”. A música cai para um interlúdio bem atmosférico e a afinação refinada dá a graça. Uma banda como notável repertório e, mais do que isso, com noção clara do “colocar” em cada parte da estrutura musical.

Hereafter se constrói pelas incertezas líricas. As músicas são mais questões sobre; tempo, pertencimento e escapar. É oferecido ao ouvinte, entre distorções e alternâncias de ritmo, um tênue universo em que as distorções e sua potência reforçam mais a sensação de inospitalidade no lugar físico que ocupamos.


Um ciclo- parece, entre “choros e sorrisos” e tudo que temos entre esses opostos. Se fisicamente nosso espaço é limitado, as possibilidades dentro da música do Rec On Mute se mostram mais audaciosas. Entre os riffs mais pesados e os versos mais elegantes, há uma iminência. Estamos em um plano onde os afetos -assim como esmagar o que nos afeta- são possíveis.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Taunting Glaciers - Taunting Glaciers [2013]

Querer voltar no tempo e corrigir seus erros, desejar se sentir acolhido novamente, perceber-se sozinho. São temas que Roberto Lucena (compositor das letras) aborda com conhecimento empírico. Em seis canções, temos essas sensações exploradas sempre do ponto de vista de um ‘eu lírico’ nostálgico, confuso e sem propósito.

Variando entre frases mais certeiras e passagens mais poéticas, o clima do disco embaralha, de forma instrumental, a espécie de clausura que as letras passam. São ambiências extremamente íntimas criadas em tentativas- mais diretas, como os berros do vocal- e concretas de se reconectar a algo, de encontrar propósito onde tudo parece absolutamente vago e sem sentido. No entanto, não temos apenas a consumação própria em torno de reclamações superficiais, mas sim sempre uma tentativa de explorar a experiência para recuperar o vivido e estabelecer as sensações.

É a possibilidade sonora que emerge da combinação simples entre piano, guitarra, baixo e bateria. No fim, é sobre isso: os diversos cenários que podemos construir ao invés de olhar o passado e o sofrimento.


Trata-se, então, de construção. Mas nunca negar o dilaceramento presenciado ou aquele que ainda acontece. São emoções despejadas que não devem nada a bandas como Defeater e tantas outras. Um desempenho de testemunhas que não se ajoelham aos danos já feitos, porque estes vão nos influenciar a vida toda.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Campbell Trio e a importância de sonhar - The Campbell Trio Sings the Blues [2011]

"A vida é feita de medo. Algumas pessoas comem sopa  de medo três vezes por dia. Algumas pessoas comem sopa de medo em todas as refeições existentes. Eu como às vezes. Quando eles me trazem sopa de medo para comer, eu tento não comer, eu tento enviá-la de volta. Mas às vezes eu estou com muito medo e tenho que comer de qualquer jeito. "
― Martin Amis, Other People

Sings the Blues começa com uma importante nota sobre uma questão filosófica, seguido de um instrumental apurado e bem executado. Talvez o tema que sempre direciona uma espécie de nova “fé” na música, ou uma admissão da importância de sonhos, por mais infantis que possam ser.

Longe de ser música que opta por caminhos “fáceis”- bem afastado disso, na verdade. Temos uma sonoridade que oscila entre o que se convencionou chamar de “post-hardcore” e timbres experimentais. Não é exatamente difícil, mas requer força do ouvinte, um envolvimento e pró-atividade, nos convidando a sair da simples zona de conforto. São composições que arriscam e nada mais justo que o destinatário também dance e se exponha.

Então não vamos parar. Apesar das disparidades, dos empecilhos. Pode ser realmente óbvio que só podemos ir em frente, mas o Campbell Trio reverbera “não tenha medo!”. É uma queda livre de qualquer jeito, e se aborrecer com fobias,especialmente quando a maioria dessas são criadas por nós mesmos, não vale a pena. Apesar da nota inicial, a estética aqui não é de teorização, ao contrário: os rapazes fazem uma música de combate, sonhos versus preocupações.

E não podemos passar batido na referência ao Grim Fandango, jogo clássico do final dos anos 90. Onde nos deparamos com o Departamento Da Morte, e uma estranha conspiração (que não deveria nada à ficção de Thomas Pynchon), e um problema no paraíso. Paraíso que reflete também a citação de Milton. Essa obra do Campbell Trio então aborda a importância dos sonhos, estrutura um “sistema próprio” de combate para não sermos almas mortas que apenas vagam por aí.


O EP é literalmente uma pancada. É paulada atrás de pauladas onde a execução instrumental varia a todo instante e os gritos de desalento são praticamente uma convocação à essa guerra. A batalha de seguir em frente e encontrar o descanso merecido, os desafios de encontrar forças próprias na terra desolada que estamos- num tempo onde os sistemas de crenças já estão obviamente descredenciados. A estética da continuidade, onde os aparatos (e escapes!) têm que ser criados na marra.
E penso se seria possível atribuir qualquer espécie de etiqueta musical ao conjunto. Pois não são críticas fáceis formuladas por frases feitas ou sons puramente “agradáveis”. Não, a força da banda está justamente em desdobrar novos e inesperados caminhos nesse curto disquinho. Como uma espécie de fortalecimento de crenças internas e validação destas através de toda energia (que não é pouca!) dispostas nas canções.

A brincadeira com o jogo continua, e eles convidam Salvador Limones para fazer seu levante contra a perdição da alma em disparidades rasas do dia-a-dia. Já que estamos condenados- é o que o Campbell Trio parece ressaltar que passemos por essa curta estadia na Terra vivendo de pé e acreditando em ingenuidades próprias.

Ingenuidades que nos mantém de pé, no fim das contas. E é isso que precisamos nos nossos dias. Confiar em olhos amigos, se movimentar guiados por sons que transcendem a mera realidade instituída e apontam caminhos além do que aparentava ser possível. Porque é indiscutivelmente melhor prosseguir com intuições do que essas prisões diárias que abastecem nossa mente em paranoias como “se dar bem na vida”, “ter uma carreira de sucesso”.

Tudo isso, essa aglomeração de combate contra os sintomas mais claros da nossa Era de demência coletiva, me lembra dos riffs. São sonoridades que se entrecruzam para fazer frente ao Monstro Realidade, num espaço vazio em que conexões são possíveis justamente pelos sonhos. Pode soar ingênuo, mas talvez ingenuidade e devaneios sejam as características que mais faltam nesse mundo morto onde todos tem que ser fortes, realistas, competitivos.

O disco encerra com um clima “feel good demais” pro que ele vinha trabalhando. Talvez a interrupção bruta para começarmos a rítmica bem jazz seja para sinalizar que a tática para guerrilha estava lá.

No fim, Sings the Blues é um EP para seguir em frente apesar das fobias, porque embaixo do asfalto há sementes esperando.

domingo, 17 de agosto de 2014

Entrevista com Is Anybody There?

Totalmente baseado no "faça você mesmo", o "Is Anybody There?" é uma dupla de São Caetano Do Sul, São Paulo que emerge em sentimentos do dia-a-dia para potencializá-los através de música. A sensação de que a vida pode ser bem mais do que é e de que pequenos momentos que realmente importam. A dupla é composta pelo Rafael Imamura que conduz a percussão, e Rodolfo Gatti (violão/voz) que respondeu algumas perguntas, falando sobre seu estilo de composição, bandas favoritas, envolvimento com a música e mais:
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As músicas do “Is Anybody There?” são muito convidativas, atraentes e íntimas. Por que a opção de ir mais “para esse lado”?
R: No momento que penso em escrever uma canção, penso em tudo que vivi e tudo que estou vivendo. As vezes até, me inspiro nas situações íntimas de outras pessoas. Atualmente tenho escrito mais músicas de amor, com base na Gabriela, minha namorada e algumas letras com bastante ódio, raiva, a respeito da hipocrisia, moralismos e também dos políticos.

Seu trabalho do dia-a-dia  influência, de alguma maneira, suas músicas? Como é o processo de criação do instrumental?
R: O trabalho influencia, principalmente quando estou cansado e pensando em desistir de tudo. Quanto ao instrumental, o processo é simples. Faço os acordes e se sentir que aquilo tocou meu coração é o que vai ser. Não tenho noção de partitura, nem de porra nenhuma, deixo as 6 cordas me guiarem de uma forma transcendental, mágica e divina (divina no sentido de incrível e não no sentido, deus está me guiando, ou algo do tipo, pois não creio em deuses e religiões)

Quais são as bandas que mais te influenciaram?
R:As minhas maiores influências para compor são: Érico Junqueira, Nenê Altro, Legião Urbana, Portishead e Radiohead.

Como São Caetano atua na maneira que você compõe a música?
R: Creio que São Caetano não atua em quase nada. Apesar de ter bons amigos aqui, não sou fã daqui, meu coração é expatriado de São Caetano, São Paulo e Brasil. Creio que o universo todo atua na maneira, com seus eventos cotidianos, seja fora da terra, como dentro dela.

Lembrando-se de tempos mais distantes, como você se envolveu com música?
R: Desde pequeno tenho influências do rock, MPB e bossa nova, graças aos meus pais. Meu pai sempre foi um ás do violão e isso também sempre me deixou louco para aprender um instrumento. Aos 16 anos comecei a tocar violão! Uma sensação maravilhosa, uma liberdade gostosa. Não sei como explicar, sério! Atualmente canto e toco cajón também, se precisar haha. Quero aprender a tocar a gaita que meu pai me deu no ano passado, espero que consiga!


Quais são as coisas que você escuta hoje, que ainda escutava nos tempos de garoto?
R: Vamos ver, hummmm... porra, tem o Capital Inicial, mesmo achando que o Dinho ouro Preto é um trouxa, o Linkin Park, Gorillaz, Nirvana, Good Charlotte, Djavan, Iron Maiden, Green Day, Nenhum de Nós, Engenheiros, Legião Urbana, Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Raul Seixas entre outras aí.

O  “Is Anybody There?” tem planos para esse ano?
R: Nesse mês de agosto fechamos um contrato com uma “gravadora” independente chamada Selo MIV. A proposta dos caras é ajudar o cenário independente brasileiro sem alterar estilo musical da banda, letras da banda ou vestimentas. Com essa parceria aí, gravaremos um novo EP em Novembro.  Além dessa gravação do EP, eu gravarei uns sons, como se fosse projeto solo para jogar no youtube. Um deles, intitulado Ideologia, terá a participação do Batata (Douglas Barbosa). Acho que só, tudo que veio em mente por agora.

Explica pra galera como funciona o Musicômio.
R: O musicômio é um programa que passa toda quarta feira das 21h30 às 22h na www.radionagem.com.br  e tem como objetivo ajudar o cenário independente. Toda banda que tiver um som gravado pode mandar mensagem via inbox na facebook.com/musicomiooficial e solicitar participação no programa.

É isso ai mano. Deixa um recado pros nossos leitores. Valeu!
R: Um recado? Afaste-se de tudo que faz mal, não deixe professores retrógrados acabarem com seus sonhos, não seja escravo da política, seus sonhos não cabem em uma urna.Liberte-se dos dogmas religiosos! Acredite no que quiser, mas você sabe que não precisa de um líder religioso para dizer-te em quem acreditar ou para cagar regras na sua vida. No fim das contas a política e a religião só querem adestrar você, te condicionar em um sistema podre e falido. Não seja mais um que apóia a repressão policial e lute para que seja livre, livre para fazer o que quiseres. Fume, beba, leia, ria, ame, faça o que quiser, mas não interfira na vida de outra pessoa, faça o que quiser, mas saiba os riscos que isso trará a você.
E pra fechar, um trecho da música “A Vitória” do Dance of Days: “Hoje celebramos a nossa vitória contra o império da tristeza e do medo da escuridão. Nunca mais viveremos à sombra de teus deuses e reis!”
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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Isosceles Kramer - Isosceles Kramer (2014)

Eu vi fantasmas e me pareceram tão reais que pensei serem meus parentes. Cumprimentei a mão de todos, porque reconheci no toque gelado o que me foi real durante toda vida”, Lúcio Carlos.

O que podemos exigir de música em um mundo tão saturado, reducionista e de rápidas informações? Para muitos críticos, a música tem a necessidade de fazer um avanço histórico cronológico, seja na vanguarda ou nos ritmos mais tradicionais. Isosceles Kramer, banda que fechou as portas em 2003, renasceu em 2012. Até poderiam pré-julgá-los se eles fossem uma banda famosa, hype- mas não, não há necessidade de seguir a tendência de bandas que se foram e retornam depois de um bom tempo porque, bem, a única necessidade deles é musical. Não sei bem o motivo da reunião, não é fácil achar muitas coisas relativas à banda na web- mas é claro, o importante é a música! E o registro sonoro deles é relevante. De um estilo que inúmeras vezes sentimos muita falta.

A banda é formada por nomes importantes em nossa cena independente: Wash (Eu Serei A Hiena), Chovich (Tri-Lambda), Vinas (Deeper than That), Daniel (No Violence) e Irú. O interessante é que a reunião, nove anos depois, teve como objetivo- além da diversão entre a interação de tocar junto- regravar músicas daquela época. Quanto será que eles evoluíram e mudaram suas perspectivas enquanto pessoas e músicos desde então?

A maioria das letras são em inglês, músicas atualizadas que refletem bem o que acontecia na virada dos anos 00 em relação à cena independente. Embora o nome da banda tenha uma forte dosagem de humor (Isosceles Kramer refere-se a uma piada no seriado Seinfeld), o que não falta é seriedade na construção de melodias e frases de guitarra. As músicas têm métodos parecidos de criação, conquanto haja uma variação extremamente grata nos riffs, gritos e harmonia. Ao fim disso, fica a certeza de uma banda que sonoramente expressa a época onde iniciou suas atividades, sem soar velha em pleno 2014.

Para conferir algumas músicas, clique aqui.