terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Para incomodar; LUPE DE LUPE – QUARUP [2014]

"Atravessamos nossas pontes quando chegamos a elas e  as queimamos atrás de nós, sem nada para mostrar para o nosso progresso, exceto a memória do cheiro de fumaça, e uma presunção de que uma vez nossos olhos lacrimejavam."
- Tom Stoppard, Rosencrantz and Guildenstern are Dead

Quais mortos o Lupe De Lupe quer trazer de volta a vida? Por que esse título? Em um panorama bastante amplo (onde a microfonia “cresce” no cenário brasileiro, o público nem tanto), são 110 minutos de música em que é impossível ficar inerte- a passividade não representa a banda mineira, por isso essa vibração, essa obra longa. Será que nós, a audiência musical, somos os mortos?

Essa impressão pode ser dissolvida (assim como as interrogações) assim que lemos que o disco é dedicado a um amigo falecido. Mas isso não elucida completamente. Como eles querem ressuscitar os mortos? A certa altura, Vitor diz “E que diferença faz dizer todas essas palavras?”. O questionamento continua, “Minha cidade está em ruínas/ E não é uma música que vai fazer tudo isso mudar”. Pra que serve a música, então?

Quarup é um disco duplo e essa nomeação faz sentido. A primeira parte, mais “melódica”, menos arranhada. As microfonias e “pancadas” surgem na segunda metade, onde influências punks e Sonic Youth emergem. Diante dessa profusão sonora oferecida pela banda- que passeia pelo noise rock, shoegaze, dream pop e até MPB- somos orientados por letras pessoais (com tom político muitas vezes) que mais do que nos fazer “refletir”, invocam a ação efêmera e imediata, nos sacudindo inteiramente.

A banda decididamente não opta por discursos prontos. Embora na maioria das vezes estes estejam colados à intimidade profunda do eu lírico, as letras proclamam uma espécie de independência do eu. Sejam nas mais “feel good” como as três que abrem o disco, fica evidente a intenção dos compositores de emancipação seja lá do que for- dos editais de cultura, de um determinado tipo de humanismo que figura entre muitos universitários, ou até mesmo de suas próprias influências anteriores. Aliás, este é o lançamento em que o conjunto mais tem uma sonoridade claramente independente. Não que o Lupe De Lupe não tivesse isso antes, mas talvez a ousadia de lançar algo como Quarup representa a ambição que faltava para finalmente libertar a banda.


E mais do que mero entretenimento (embora o disco não nos deixe entediado em nenhum ponto), vejo Quarup como uma espécie de desafio. A banda está falando “hei, nós sabemos nos reerguer a cada lançamento. E mais forte!” Num momento em que a teoria domina muito a chamada música independente (e isso aqui não é uma crítica, ambos necessitam um do outro), o Lupe De Lupe surge com um disco “soco na cara” que certamente desafia todo o marasmo que nos enfiamos todo dia.

A vontade que eu tenho é de falar, “então vamos lá. Vamos para cima”. Mas não se enganem; Quarup é um disco de feridas e dificuldades, um álbum que certamente custou muito sangue de cada um dos integrantes. Mas são feridas que escancaram uma honestidade imensa, expostas em cada distorção, em cada vocal. Não só um espírito lo-fi e com a música independente, mas um comprometimento real e absurdo em se fazer música. Música que me agita e me incomoda também. Necessária para renascer dos pequenos assassinatos semanais e dos martírios que nos afligem.

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