segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Adeus, Mineral

When I was a boy I could hear
Symphonies in seashells
So why am I so deaf at twenty-two
To the sound of the driving snow
That drives me home to you

Uma pequena tradição: ir pra casa da minha parceira ouvindo Mineral. Eu lembro bem, exatamente tudo vem pra minha mente em um fluxo incontrolável de memória involuntária. Os longos, intermináveis dias em um quarto escuro, ouvindo EndSerenading e The Power Of Failing- me identificando completamente com as letras de Simpson, que em suma tratavam de sentimentos como ansiedade, tristeza, isolamento e desconforto. Identificando talvez seja uma palavra forte. Não havia processo algum de identificação ali. Mas sim um acolhimento entre duas fontes (eu e a música) que tratavam a vida e os acontecimentos centrados no “interior do mundo” com um espanto imenso.

Afinal, como as pessoas faziam o milagre de existir? Como as pessoas passavam a um plano de convicção absoluta de realidade e ali residiam, sabendo sorrir e chorar na hora certa?

-Falta empatia em você, Henrique.

Sempre me diziam isso. Absolutamente toda hora. Mas eu me simpatizava muito com vários enigmas- a borboleta se debatendo pelo excesso de luz, as crianças gordinhas com cara de emburradas no banco do ônibus, os cachorros velhos e abandonados que não conseguem mais latir. Esse “simpatizar com certas coisas mortas” foi motivo para uma surpresa comovente de minha mãe, que em alguma hora do ido dos meus dezesseis anos, disse:

- Esse negócio de você ficar espantado pelo crepitar das folhas no chão e pelas árvores secas de Inverno não faz sentido.
-
E hoje, ouvir Mineral continua sendo uma espécie de rito sagrado. Enquanto dirijo para a casa da parceira e aquelas guitarras dilacerantes alternam com as lamúrias vocais, eu sinto uma saudade. Uma nostalgia imensa do garoto que fui. Quero desesperadamente utilizar uma máquina do tempo e voltar ao garoto que fui e dizer


- Vai tudo ficar bem. Você só tem que suportar com esperança. Afinal, esse é seu período de esperar a estalagem até que chegue a diligência do abismo.
Ele tinha muita vergonha e medo de tudo. Mas faltou alguém falar para ele que aquela timidez e pavor, embora reconhecidos como fracassos no mundo das representações, era sua potência para outro mundo.

E se eu tivesse morrido em um dos dois acidentes de carro em que me envolvi (ambos os carros ficaram amassados com o teto no chão) eu não teria tempo de me reconhecer e tudo teria sido sufocado num grito mudo eterno em baixo do solo.

Faltou alguém dizer para aquele garoto que todas as coisas que o mundo insistia em melhorar com psicanalistas, livros de auto-ajuda ou casas corretivas apenas representavam a doença de “luminosidade” que dominava seu mundo-casa, seu mundo-escola ou seu mundo-amigos. Um mundo de medidas pronto para massacrá-lo com exigências de opinião, progresso e bem-estar.

Hoje eu sei disso tudo e falo de boca cheia. E se eu insisto em ouvir Mineral, mais do que pra representar “como me sinto” atualmente, é para lembrar aquele período que vivi e pensei que seria eterno. Quando acabo de cantarolar The Last Word Is Rejoice- as milhares de luzes de carro atravessando o vidro e morrendo mais fracas nos meus olhos, o céu vasto noturno sem estrelas-eu estaciono, abro a porta do carro (sou tomado de surpresa pela forte corrente de ar quente) e sorrio.

Ela sai para a manhã, deixando o sol secar seu cabelo, eu queria dizer como ela estava bonita, mas apenas encarei. Sua presença dobrando meus medos como aviões de papel, perdendo-os nas árvores.
E todas as coisas que eu pensei que não merecia- a capacidade de sentir, chorar e louvar por viver, respirar e acordar todo dia- se convergia naquela sensação efêmera de compartilhar o mundo com uma graça, em um estranho movimento glorioso.

Então, eu ainda carrego aquele garoto dentro de mim todos os santos dias, mas eu já não me reconheço nele. Embora deva absolutamente tudo a ele.

How blessed we are for crying now,
For we will laugh someday…and how

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