quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Gustavo Jobim – Inverno [2014]

"Eu me pergunto se a neve ama as árvores e os campos, que os beija com tanta delicadeza? E, então, os cobre confortavelmente, você sabe, com uma colcha branca; e, talvez, ela diz: "Vão dormir, queridos, até que o verão venha outra vez."
-Lewis Carroll

Frozen Lake é a faixa que abre o disco Inverno (meu álbum favorito de tudo o que ouvi do Gustavo até agora). Já fico arrebentado pela fragmentação que ela insunua- elementos densos e verdadeiramente ameaçadores! Sinto-me preso e sem saída, não há uma fresta possível. Jobim, aqui, não manipula seu som nos “convidando” a participar, é peso atrás de peso e dissonâncias que nos tonteiam, nos deslocam. Se Zone Of Silence é até que um refresco, embora continue cultuando a obscuridade que permeia todo o disco, Ice Age Coming e Permafrost (essa última com ventos muito, muito gelados) nos ratifica a sensação de imobilidade.

Penso muito num atravessamento de Vikernes e do Schulze, como se as feridas destes fossem também as de Gustavo e os três deram- cada qual a seu modo- um testemunho do lugar frio onde passaram. E pode ter certeza que é uma área bem inóspita. Assim que chegamos a Winter Song, porém, temos a certeza de que tudo iria se projetar nisso. Em seus vinte minutos, temos um relato trêmulo da passagem. Não sei se Jobim quis, de fato, inserir um contexto narrativo no andamento das faixas. O fascínio dessa música é que ela mantém aquela inevitável sensação de imobilidade das anteriores, mas apresenta possibilidades com uma melodia relativamente regular de pano de fundo. É nela que devemos seguir ou é apenas um oásis? Sussurros surgem atrás, sons cavernosos que se sobrepõem trazendo aspereza limítrofe. (Sério, tentem ouvir isso em casa com os headphones bem altos, parece que a redenção nunca vai ser possível).

Parece que toda essa ambientação quer nos engolir. A sobreposição e a invasão dos sintetizadores intrigam, nos balançam. É uma entrega passional o que testemunhamos. Um espaço farto de dissonâncias que exploram nossa capacidade e realizam a estética álgida. O que nós temos a oferecer a não ser essa integração impossível? Fica uma sensação de desmineralização dos encantamentos, onde só o que resta são fagulhas reminiscentes de algum outro plano menos congelado, talvez. A existência é rígida e Gustavo nos lembra disso. Em cada investida de Inverno, temos uma rigorosa catarse que se seguirmos sem pudor, levar-nos-á ao que menos suportável podemos encarar. Se eu vejo Inverno como um disco essencialmente negativo, não estabeleço uma negação primária de destruição ou qualquer besteira dessas. Falo sobre o atravessamento de uma espécie de satanismo da luz. Onde tudo tem que ser modulado e conforme o instituído- é uma obra dessas, com sua instabilidade total, que pode trazer o atrito necessário para perfurar esses elementos tão concretos, tão reais.


Esqueçam o inverno escandinavo. O frio ao qual esse disco que me arremessa é de tudo o que encaro todo dia. Inverno surge para lembrar que esse terreno inóspito, sem medidas e especificamente rigoroso, é uma abertura de tudo o que essencialmente existe. Os sintetizadores ampliam e nos apontam caminhos. Mais difíceis e mais puros. Para onde o vento sopra mais forte. Um mundo com muitas quedas que parece ser eterno. Onde qualquer amanhã é devidamente arrancado da esfera das possibilidades, curiosamente pela grande alternância de elementos que Gustavo coloca em sua música. O futuro é esse frio e esse vento. Essa agitação constante onde tudo ficará inerte.

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