sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Jovem Werther- EP [2014]

Não há controle possível quando tudo parece perdido. A casa fica mais vazia, sair do quarto parece impossível e nós ficamos horas e horas lembrando tudo. Parece que nada vai ser bom novamente. Então, (quando a gente cria força o suficiente) ficamos andando a toa por aí. Esse EP é para acompanhar essas caminhadas. É um companheiro de travessia. Quando não nos reconhecemos mais em signos externos, todos desintegrados. Canções abertas para a dor, para recolher os resquícios. E o Jovem Werther tenciona seus elementos com uma carga dramática crua. Se você teve alguma experiência similar que a banda aborda em suas canções (eu, com certeza, tive) vai haver um reconhecimento instantâneo, alguma amizade para reconhecer na escuridão.

Escuridão essa que não é um “mundo perdido” ou qualquer bizarrice do tipo. Eles tratam de um terreno em que a insegurança somada com a saudade, coordena uma sensação de não pertecimento- o fim está próximo. É como se esse EP existisse para revelar o subentendido, ou estimular sensações que as letras sugerem. São lembranças destroçadas pela memória e que teimam em surgir como assombrações, numa espécie de “desentendimento contínuo” com o passado e a forma bizarra que sua sucessão instiga em nossos comportamentos, em nossas andanças. Podemos concluir que essa soma de frustrações como os gritos, os acordes (mesmo que numa produção mais ‘lo-fi’) designam um terreno obtuso, difícil.

E, abordando esses discursos íntimos bem pesados e auto conflitantes, eles fazem um EP que não envergonharia um I Hate Myself. Há as partes mais “oníricas”, endossadas pelas guitarras distorcidas em uma “fragmentação” de texturas e as partes totalmente cruas, onde a discórdia dá o tom e se imprime na contradição entre “andamentos bonitos x letras e vocais sufocados”. É amplificada nesse sistema, então, a sensação de inospitalidade. Veja bem, não é que a banda não soe como uma “unidade”, mas os atritos que as músicas sugerem apontam para o embate inevitável de quem não se sente confortável nessa terra e é “perseguido” pelo passado, pelas confusões mentais. Como se a certeza de unidade fosse, ela própria, desafiada pela vida real- não a toa que o termo “desespero” caiba muito bem para esse EP. Em algum ponto, o vocal afirma, “não que eu esteja mal/ nem que seja o fim do mundo”, mas percebemos que ele está se enganando, percebemos sua confusão. É o fim do mundo! Aqui, o que “está dito” subentende o “revelado no dito”. Eles não querem ampliar uma “diversidade sonora” nessa transição de influências que se pode perceber; eles agrupam instantes claustrofóbicos em signos onde esse terror possa se expressar. Trata-se de confusão mesmo, perdição pura e que parece muito difícil de encontrar um caminho de “retorno”. O que se fazer quando tudo bom “ruiu”?


Esse EP é sobre períodos difíceis, sobre tentativas fracassadas, sobre derrotas. Períodos da existência que todos passam (alguns sofrem mais, outros menos). Essa gravação inclui muitas perguntas e poucas certezas, um tempo de questionamento e volta constante do que “já se passou” e como esses momentos continuam a nos caçar, troçando e esmagando qualquer possibilidade de expectativa futura.  “Último Farol” sugere um fim bem complicado e doloroso, um adeus a vida cujo único “paraíso” é a possibilidade de não se viver mais. Ninguém quer forçar respostas ou algo parecido, mas todos esses momentos que nos caçam foram impressos em uma história e caracterizam uma vida. “Último Farol” então pode ser vista como uma possibilidade, daquelas que pensamos quando tudo parece tão frágil. O curioso é que tudo é sim, demasiadamente frágil, ainda assim algumas coisas são tão amplas e abstraem a ponto de recorrermos a elas quase sempre; daí os “parques do bairro” representam uma história e também uma tormenta. Tudo junto, sem dicotomia simples. Porque nada é simples, os momentos se reproduzem e se dissipam, ainda assim, de alguma forma, estão lá. E vamos voltar a eles, querendo ou não.

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