terça-feira, 20 de janeiro de 2015

D'Angelo- Black Messiah [2014]

Uma música nova do D’Angelo ressoando em algum streaming. De repente, os fóruns musicais começam a ressaltar a qualidade de Really Love (destaque do disco), pelo romance, insinuações e melodia cativante que se confunde muito com os grandes nomes da música negra norte-americana. Pequena amostragem que exemplifica bem a qualidade Black Messiah e os trabalhos anteriores de D’Angelo. Ressaltando sua criatividade e apelo vocal que fez notícia, mesmo nesses quatorze anos de ausência.

Ele só foi dar as caras e se amigar do rádio em 1995, com Brown Sugar, que teve um impacto fulminante, influindo bastante nos futuros lançamentos de um ritmo que incorporava rap, jazz, funk e house, sendo com certeza um “genre defining”. Mas o melhor ainda estava por vir e, em 2000, o mundo conheceu Voodoo, que tem uma produção muito polida e lindas harmonias, um álbum que pode parecer “quieto” na primeira audição, mas que imprime texturas em nosso imaginário sempre que acabamos de ouvir (pode parecer loucura, mas eu juro que não tomei tóxicos pra escrever isso). Depois de dois sucessos e uma carreira que obviamente mostrava uma evolução muito gradativa, ficou a dúvida de quando e como seria o novo disco. Faria ele mais do mesmo? Em Black Messiah temos a prova de que, embora não em uma inovação propriamente dita, o desenvolvimento de D’Angelo nesse intervalo de quatorzes anos se projetou para fazer algo diferente. Voodoo é sua obra-prima, já está lá, mas nesse novo álbum temos reformulações de seu ponto de vista musical, ao mesmo tempo em que sua voz deixa claro que ele permanece o mesmo.

Com o tempo passando, parecia que nunca mais iríamos ouvir nada de novo do D’Angelo. Várias foram as suposições no meio do caminho- alcoolismo, drogas, etc. Algumas revistas estreavam manchetes indagando  a localização do cantor. Doze anos depois, em 2012, ele estava de volta aos palcos. Mais saudável do que nunca, suas performances prometiam um novo e interessante lançamento. Ficou então a dúvida se D’Angelo manteria a fidelidade às raízes que o catapultaram como dos artistas mais impressionantes de sua época, ou se renderia aos modismos e representaria apenas uma adição intoxicada da indústria fonográfica. Surpreenderia ou não?

Mas então ele sumiu de novo e ficamos mais de dois anos sem ouvir falar do D’Angelo. Até que, no final de 2014, um álbum seu foi anunciado numa sexta-feira, uma música liberada para audição no sábado e o disco lançado no domingo. Eu mesmo não vacilei muito e fui logo atrás para ouvir o disco. Juro que, mais do que para “acrescentar” na lista de melhores discos de ano, me intrigava muito saber o que ele lançaria.


O que mais me chama a atenção no retorno do D’Angelo não uma antipatia de sua música com o que é feito no pop hoje. O que surpreende é justamente o contrário. Em Black Messiah tudo soa em seu devido lugar- o baixo, as guitarras, os sintetizadores, a bateria é precisa- em uma gravação análoga impecável. BM é um disco quieto e relaxante e pop que contraria as matizes das músicas que tocam na rádio hoje em dia. D’Angelo implode essas esquemáticas simplistas que grande parte da música popular decide fazer e apela para a simples iminência e talento de cada instrumento, assim como na integração do todo. É um plano bem simples até- mas o esmero que cada instrumento é aproveitado deixa maior ainda a sensação de máximo cuidado em todas as etapas criativas desse álbum. As composições são detalhadas e saem de um virtuosismo mais fetichista que muitas gravações análogas proporcionam para aproveitar não só a sonoridade de tudo que envolve o disco, mas também o ambiente que D’Angelo propõe criar. Obviamente que a escolhe do nome, messias negro, não é arbitrária.

A maneira como a voz de D’Angelo foi aproveitada também segue uma formulação bem particular. A voz, ao contrário de muitos álbuns que seguem essa linha, fica muitas vezes abaixo do peso do contrabaixo ou dos instrumentos de sopro. As letras, em muitos momentos, são indiscerníveis. Esse sub aproveitamento do potencial vocálico seria tosco se não justificassem as raras vezes em que o vocal é evidenciado em toda sua capacidade. Essas vezes, como em algumas partes da sincera Really Love, evidenciam que D’Angelo é sim o foco do disco. E justamente por ter todo esse poder e controle sobre as levadas que tangencia seu desempenho- os grooves dançantes, os refrões com grande influência gospel- que podemos dizer que esses catorzes anos de espera contribuíram em uma visão musical cada vez mais fluída e que tem um desenvolvimento constante.

E é dessa zona quieta que D’Angelo controla as constantes tensões que são dissolvidas em Black Messiah. Sejam em letras que abordem o ato sexual, as canções mais relaxantes com um clima decididamente atraente, em BM temos um artista que coloca suas variáveis emoções dentro da mesma música, estabelecendo e negando clímaces- um violão aqui, um assobio melódico ali, uma gravação de algum líder falando sobre Jesus. Impressiona como a banda pula dos temas para outros nas mesmas canções assim como varia os andamentos e constantes estruturas musicais. Isso faz de BM um disco denso que vai exigir constantes visitas, pois está tudo muito unido que temos que vasculhar bastante para encontrar suas enormes divergências ocultas por todo esse balé de ritmos. Varia; Black Messiah é um álbum dançante, politicamente consciente, sexy. O que também leva a questionamentos como, “que porra estava D’Angelo fazendo nesses catorze anos para esconder tamanha imponência musical?” Eu quero dizer, escute o desenvolvimento de 1000 Deaths, o ritmo funk, sua letra direta, até eclodir em um solo de rock’n’roll para voltar a ser mais pesada e grooveada novamente. Realmente não se trata de nenhum iniciante.

O que apenas ratifica o acompanhamento no nome da banda, The Vanguard. Mesmo com essas ricas texturas e envolvimento de ouros instrumentos, a base para todas as músicas é estabelecida na interação baixo-guitarra-bateria. O baixo faz um trabalho bastante alto e desconstruindo a própria atmosfera das músicas e lidera a banda instrumentalmente, muitas vezes. D’Angelo toca a guitarra em ritmos menos ofensivos e mais acolhedores, influenciado no blues e nos grandes mestres do funk dos anos 70. Embora exista toda uma fidelidade à construção da música negra norte-americana, é justamente por não deixar tudo tão “exposto” e combinar diversas dinâmicas que protegem a criação e lhe dão um ar de novidade.
Não apenas as influências sonoras, mas também as letras destacam toda a história negra. Sendo planejadas, mais ou menos, em 2007, elas refletem a situação de humilhação que a população negra- desde a brutalidade policial até os negros da “linha de frente” nos exércitos norte-americanos- sofre constantemente. Como mencionado anteriormente, o nome do disco não é em vão e D’Angelo considera todas as variáveis para mapear as sensações de impotência, amor, sexualidade, alegria e medo que a população que ele representa atravessa no dia-a-dia. A adoção dessa perspectiva não é realizada de forma panfletária nem idealizada, mas através de relatos de um eu - lírico que atravessou essas experiências. Fica evidente que é impossível o distanciamento desses relatos e também não é como se ele ambicionasse isso. O comportamento de todo disco transpira calma, mas um equilíbrio merecido entre todas essas batalhas duras da vida. D’Angelo não tem medo de explorar essa sonoridade tradicional e estabelecer o comando de seus direcionamentos estéticos.

Embora Black Messiah aponte mais direções que Voodoo, ele não avança tanto em algumas explorações- D’Angelo quis resenhar sobre quase tudo em quase todas músicas- e prioriza uma interação sofisticada entre os membros da banda, uma interação mais simples que relembra os melhores momentos de Brown Sugar.

Black Messiah então- por apontar tantos caminhos e habitar zonas que privilegiam uma abordagem mais relaxante, mesmo nas canções com conteúdos pesados- se apresenta como um disco, surpreendentemente, sem “pressão”. Depois da obra-prima que é Voodoo e depois de catorze anos sem nenhuma produção em estúdio, muitos esperariam um D’Angelo angustiado pela pressão. Não temos nada disso. Somos apresentados a um artista no domínio de sua técnica e intuição. Alguém que não se apressou para criar canções tão cativantes e ricas como às desse disco. Não há um destaque em Black Messiah. É sua abordagem tão ampla, ainda assim ressoando muito íntima e próxima de experiências pessoais, que garante esse disco como o único sucessor que a obra-prima anterior poderia ter.

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