quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – VAZIO [2014]

Nosso corpo é o contrário de utopia. Enquanto nossa mente pode elaborar as teorias mais interessantes, viajar aos lugares mais deslumbrantes, nosso corpo permanece estático e limita muito as possibilidades de nossa vida. Aplicamos, então, segmentações que transcendem a realidade para criar algum afeto nesse terreno árido. Mas o que há além da realidade?

Muitos dizem que a explosão do que se convencionou chamar de pós-rock se baseia em “texturas que programam o lúdico”. Talvez, de fato, seja isso. Mas estou absolutamente convencido de que não. Quero dizer, ouçam a introdução de Janela Aberta, com suas ligeiras interrupções da bateria e uma distorção, contrastando com os versos limpos de guitarra. Mais do que “construir um ambiente”, o EATNMPTD faz um atravessamento. Não se trata de “música contemplativa”, mas de uma experimentação. Com certeza, essa tal de janela que está aberta deve ter muita importância para esses manos e é justamente por ter sentido isso (o bafo quente de um dia de verão? O vento frio do inverno? Uma árvore do outro lado?) que eles têm uma espécie de autorização para expor musicalmente as feridas que os atravessaram. Não se trata, então, de “contemplação”. Mas de algo mais forte e mais vivido também.

Se o EP de 2013 tratava de temas como saudade, nostalgia e decepções; Vazio aborda um limbo em que um vácuo ambulante coabita com nossa existência. O vácuo que aprisiona o corpo. Ai, desse vácuo, eu entendo abordar os discursos sobre “contemplação” no post-rock. Mas não de o ponto de vista mesmo narrativo ou de ambientação- mas quando nos sentimos tão fracos e imóveis- quando parecer que se mover é muito, extremamente difícil. É uma amostra não só do registro dessas sensações, mas também um companheiro para suportar essas horas. Eu mesmo, quando colo em algum show deles, fico todo sentimental. É tudo tão intenso e barulhento que meu coração parece querer pular do peito. São apresentações assim que nos motivam em uma semana ruim, quando ficamos distante de quem gostamos ou quando não nos sentimos queridos por ninguém.

É clichê falar sobre amadurecimento, mas em Vazio os temas apresentados são mais duros do que no primeiro trabalho da banda. As mudanças no tempo ficaram mais dinâmicas também. O que demonstra o trompete que encerra o disco. A audição acabou, mas as dúvidas permanecem. O repeat é necessário. Com certeza as respostas não vão surgir, já falei sobre o primeiro EP deles e de como é uma música baseada na incerteza. Obviamente, não incerteza artística ou sonora. Não, mas as dúvidas pulsam nas distorções e é essa sensação “o que vai acontecer” que Vazio, assim como o antecessor, transmite.


Vazio confirma o EATNMPTD como um das bandas mais criativas nesse país. Em um ano com lançamentos tão ruidosos e importantes como This Lonely Crowd, Lupe de Lupe, Huey e ruído/mm, o EATNMPTD consegue não ficar atrás e lançar um discurso muito próprio sobre o desguarnecido, livre de proteções fáceis. Aliás, se expor não é problema para nenhum desses caras.

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