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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Odradek - Homúnculo Vol. 3 [2015]

O conceito de homúnculo talvez seja muito hermético, mas basta lembrar-se daquelas criaturas extremamente desproporcionais, cujas deformidades chamam a atenção, principalmente em um mundo onde a aparência anda tão alinhada e restringida. Talvez essas imagens nos orientem através dos três volumes de EP’s lançados pelo Odradek. Tive a oportunidade de ver uma apresentação desses caros, ano passado em Araçoiaba da Serra, e fiquei de boca aberta. Lá eles já davam a cara com a variação rítmica, sensibilidade autêntica e diversidade de timbres. As referências aqui também apontam algo; é impressionante como em apenas três canções fica a sensação de que não há repetição, entre as melodias vocais contradizendo com o instrumental feroz, a progressão sonora estimula novas formulações cada vez que há uma troca de tempo, por exemplo. Talvez esses surgimentos inesperados justifiquem o título.

O contraste entre o instrumental evidentemente progressivo e os vocais melódicos, as letras inteligentes ( I accept the challenge/ Little did I know/ That satan flirts with shaved legs/ High heels, painted nails and nasty offers) e a interação entre os instrumentos mantém uma dinâmica que não se desgasta. Ao contrário, cada momento é valioso em Homúnculo Vol. 3 e direciona conexões improváveis que ao se estabelecer desafiam noções “comuns” de música. Ao decorrer das faixas, percebemos que eles não se assentam nas mesmas engrenagens e que cada canção surge como um surto para surpreender o ouvinte. A bussola do Odradek não tem vergonha nenhuma de mudar abruptamente, - norte ou sul, a mudança de caminho é como se fosse a única “pré-exigência” da banda. Eu pensei, na primeira escutada, que as faixas, apesar de boas, soavam incompletas. Depois de algumas outras, fica claro que a mutabilidade de cada canção torna o processo de ouvir o disco repetidamente obrigatório- pelo menos se você desejar aproveitá-lo em seu máximo; os grooves surpreendentes, as viradas na bateria.

A diversidade é realmente o ponto forte do Odradek, e mais do que isso, como as transformações sônicas do disco se passam de modo que não invalidam a construção anterior e ainda assim tira o ouvinte de sua zona de conforto. Pense bem, essa dinâmica de mudanças constantes pode muito bem dar errado e soar ruim se não há uma vontade coletiva dos membros da banda.

Parte também da alquimia é a troca entre o idioma das letras, de inglês a português. Esses eventos que preenchem o universo de Homúnculo não servem apenas para mera contemplação dos ouvintes, mas muitas vezes essas inversões forçam uma ruptura entre o “esperado” e o que “surge”. A banda claramente está “dando forma” a um produto que parece muito longe do seu fim. Tenho a impressão de que, embora obviamente muito ensaiado, esse EP não surgiu de contornos pré-estabelecidos, mas sua modulação foi se transformando e ganhando corpo a muito custo, muitas ideias desperdiçadas e outras tanto aproveitadas.


O Odradek tem a moral de não “repetir” mesmos seus instantes áureos porque sabe que a construção que eles optaram é sempre de uma novidade surpreendente. Homúnculo traz acima de tudo uma tensão e tudo que pode envolver ambientes tensos- a guitarra fritando, o cinismo de alguma das letras, as jams que progridem e transmutam de forma implacável, as viradas loucas da bateria. Tocando o que esses rapazes tocam, eles podiam cair no limbo do mero “exibicionismo”, mas a construção desse EP implica em um não ostracismo evidente. Falei da tensão, mas a tensão de Homúnculo é aquele de que “sempre algo vai acontecer” e isso devido ao mérito da banda adicionar mudanças constantes em uma dinâmica estrutural que surge sempre algo “novo”. Novidade que nem sempre é tão aceita num mundo que todos ouvem “apenas o que gostam”, mas é um desafio que merece ser encarado.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Pianos Become the Teeth e a solidez da dor

"Eu gostaria de enterrar algo precioso em todos os lugares onde eu estive feliz e então, quando eu estiver velho e feio e miserável, eu poderia voltar e desenterrá-lo e lembrar."
- Evelyn Waugh, Brideshead Revisited

I

Dois cavalos, árvores desgastadas, um campo deserto. Esse é o panorama da arte da capa de Old Pride. Quando ouvirmos a primeira canção, uma profusão de emoções vai se acender sobre nós.

Em Old Pride, nós temos uma banda que obviamente tem muito a mostrar. A natureza intensa e os gritos franzidos, embora algumas vezes percam a mão, mostram o grande talento da banda e um potencial enorme para um disco definitivo. Percebe-se que cada músico lidera com notável conhecimento seu instrumento.

Seria, de fato, um disco ainda melhor se tendesse mais  para “Cripples Can’t Shiver,” (belíssima história sobre um família destruída pela doença) do que Young Fire, que é um post-rock muito genérico. Mas, além disso, há histórias de micro deslocamentos remetendo ao cotidiano, colocando muito emoção nos momentos mais “comuns”. Transformações que modificam para sempre nossas vidas e que nem sempre são notadas. Implicando em angústia uma espécie de desespero pela urgência de melhorias. Fica em dúvida nossa capacidade de se recompor e lutar contra as adversidades. São trinta e seis minutos de screamo baseado basicamente na emoção. A produção é muito acertada, embora relativamente “polida”, consegue manter aquele climão de “show de porão”. Ainda que uma banda realmente orientada pelo “screamo”, é notável a influência de bandas como Thursday, por exemplo.


Old Pride pode conter certa dose de “falta de originalidade”, mas é muito inquestionável seu valor enquanto carga emotiva, catapultando o PBTT em uma das melhores bandas de screamo na época do lançamento de seu primeiro disco (ao lado do Touché Amoré e do Sed Non Satiata). Embora exista claramente uma tendência da influência post-rockeira em bandas desse tipo, a abordagem e atmosfera erguidas em Old Pride –suas pequenas histórias, a épica canção sobre deterioração- valem a ouvida. O que caracteriza o Pianos é a voracidade e momentos destruidores, empacotando em menos de quarenta minutos sinceras entregas emocionantes. Muita gente disse que era genérico; “repetição dos melhores”, mas os berros, “SIX HOURS, SIX HOURS”, certamente comprovam o contrário.
II

Se em Old Pride tínhamos uma banda ligeiramente perdida no seu grande leque de influências, The Lack Long After estabelece o conjunto em outro degrau. Embora seja inegável a influência de bandas como Heaven in Her Arms e Portraits of Past, o Pianos aqui sai da mera emulação para definitivamente lançar um álbum que dignifica a banda em uma categoria bem própria. Ainda temos a perspectiva da morte, de como nos comportamos perante isso, porém decididamente mais aprofundada e agonizante também. Claramente o “fim da vida” é a principal abertura que a banda encontra como expressão artística, assim como suas exaltações instrumentais e tristes passagens líricas. Deprimentes. Poucos álbuns me fizeram alguma vez chorar, mas a melodia fora do tom propositalmente na última faixa é simplesmente devastadora. É com certeza um disco mais “direto” ao ponto que o antecessor, e talvez não acuse tantas variações, mas isso se adapta surpreendentemente bem com o conceito proposto. Vale repetir: The Lack Long After é uma experiência pessoal extremamente emocional, com nuances de perdas e nossas fúteis tentativas de superá-las. Um dos meus discos de screamo favoritos e que causa devastação a cada escuta.

The Lack Long After aproveita mais os minutos de cada faixa (as conduções entre o fim de uma música e o início de outra “encaixam” o conceito), deixando o disco uma experiência mais profunda que o antecessor. Os relatos são passados em cenas que a memória irrompe como busca de explicações ou anestesia, em combate com os constantes arrependimentos do eu - lírico. Essa espécie de “não-discurso”, onde a banda fica atolada por problemas muito maiores do que ter que determinar uma estética própria, é o que valida todo o sofrimento que o álbum quer e consegue passar. Pela falta de um compromisso discursivo, acaba tudo soando mais genuíno e sincero possível.

Apesar de ele ser mais “direto” que o antecessor, The Lack Long After tem épicos momentos emocionais enquanto a banda simplesmente desmorona a cada canção. Os vocais limpos foram adicionados aqui e ali, e os berros ficaram mais intensos, quase inintelegíveis- as duas guitarras também encontram uma combinação melhor na troca de acordes. O que mudou realmente é que temos uma banda mais “comprometida” com a sonoridade e estética. Parece que eles deixaram para trás aquela idéia de “temos que unir post-rock e screamo, fazer crescendo na parte correta antes da tremulada, etc.” e deixaram-se guiar pelo que eles realmente intentavam revelar. A maior “transformação” foi decididamente a opção pelo som mais “pesado” e “obscuro”, tornando o disco uma seqüência de canções agonizantes que tem como tema principal predominantemente a morte. Muitos talvez pensem que optar de forma tão rígida em um tópico reduzisse o aproveitamento de assuntos tão pertinentes quanto, mas o Pianos ao se debruçar sobre a morte e revela nitidamente como todas nossas outras ações parecem girar exclusivamente em torno dela. O que normalmente é realizado quando bandas não sabem mais o que fazer- ou seja, optar por uma estética mais “pesada”- foi um acerto claro para o conjunto e sua capacidade de empacotar em menos de quarenta minutos, com uma abordagem curiosamente delicada (não caindo no melodramático) ainda assim sofrida. São sentimentos resultados diretamente do caos e da paixão, naquele ponto em que as explicações não são palpáveis, mas há uma larva interna que precisa ser exposta por esses registros.

Acho que devemos reservar um espaço para I’ll Get By, a última e melhor faixa do disco. Com os tons da guitarra decididamente mais baixos, o vocal de Durfey soa fraco, exposto e frágil. Enquanto o clímax da canção se desenvolve, esse sofrimento parece inabalável e continua- mesmo nos berros, parece que não há saída para essa debilidade- nas sensíveis alternâncias entre vocais gritados e limpos na mesma frase! (aliás, aceito sugestões de bandas que também fazem isso). Pode-se afirmar que o disco todo é escrito tão visceralmente quanto Filial, música que inaugura Old Pride, onde caos e beleza se encontram e são apresentados nos mesmos momentos. As abordagens continuam excelentes, sempre com uma propensão à tristeza e dor, sentimentos que a banda parece conhecer tão bem ao criar dois discos que basicamente retratam isso (Old Pride é um pouco mais “feliz”). O que caracteriza uma temática rígida da banda, mas que ganha “validade” ao evidenciar tamanha evolução entre os discos, deixando claramente a influência de outros grandes nomes do screamo para trás.

Em The Lack Long After, a banda destrói os “limites de gênero” que demarcavam Old Pride, para nos mostrar o quão impressionante esses manos são. Em última instância, temos uma experiência limítrofe e sentimentalmente desgastante, uma viagem de encontro à certeza do fim e da solidez da dor.

III

Ok. Não temos mais os gritos. As viradas incríveis na bateria. Nem mais aquele som abrasivo, construído sob uma potente tensão efêmera à base de crescendo. Ao invés disso, uma pequena, tranqüila e solitária chama melancólica que insiste em se fazer presente mesmo no terreno frio.  Um som minimalista que estimula uma atmosfera de aceitação, apesar da intrínseca tristeza revestida. O panorama dessa nova fórmula do Pianos não é mais de caos. Mas, sim, do que ficou registrado em nossos corpos e nossas mentes depois de períodos devastadores (e pelo dois discos anteriores, realmente devastadores). Aquela profusão sonora que teve seu ápice em The Lack Long After (especialmente na última faixa) é colocada toda de lado para uma abordagem totalmente intimista, próxima. Percebe-se que a banda já achou esgotada a interpelação anterior- o assunto não é mais trauma pós-morte, as guitarras não precisam competir com os berros do vocalista- e decidiu não falar sobre o aniquilamento, mas o que fazer a partir da morte de alguém próximo. Por isso as ondulações aquáticas brilhantes.
Os instrumentos vão, aos poucos, deixando rastros. Claramente, cada parte foi muito pensada antes de ser injetada na produção. Há momentos que esses “resquícios” (as músicas não são construídas especificamente em cima de acordes) se juntam para incorporar uma única entidade sonora que eu chego a pensar, “uou, é isso!”. Infelizmente, eles perdem a mão um pouco em algumas canções que são simplesmente monótonas, onde a bateria, por exemplo, poderia estar em algum disco do Capital Inicial ou Jota Quest que acharíamos a mesma coisa.

Com certeza, a maior mudança na estética sonora foi o vocal de Kyle. Agora mais do que a convicção da tristeza inerente à sua condição, temos registros cheios de dúvidas e indagações, frases que se contradizem. O problema é que, embora em canções como a que abre o disco, às vezes essa oralidade fica muito monótona, e algumas músicas simplesmente “passam” despercebidas. A sonoridade do Pianos se modificou não só nesses berros, mas em todas as outras dimensões instrumentais. Não podemos exigir que um conjunto não passe transformações e, considerando que eles tinham uma base de fãs relativamente sólida, é sim um mérito alterar radicalmente sua proposta sonora. Curioso o “símbolo” que estabelecemos para algumas bandas e, ao mesmo tempo em que exigimos para muitas delas se arriscarem, elas tem que ficar reféns de nossas próprias expectativas. Caso contrário, eles fariam algo como The Lack Long After sempre e pensaríamos “nossa, que foda”.Mas, e aí?

Mais uma vez, a faixa que encerra o disco é o grande destaque. “Say Nothing” representa tudo o que o álbum tem de melhor, delicadas frases de guitarra movimentando-se junto com vagarosas baterias, eclodindo com o vocal triste e angustioso de Kyle. Poderíamos afirmar que é praticamente “outra banda”, mas se pegarmos os aspectos erguidos por “Keep You” temos a mesma fissura e as mesmas incertezas. A diferença, agora, é que pelo menos há uma brecha em toda essa neblina.

Com certeza é um disco que não surgiu visceral como todos imaginavam. Ainda assim, o Pianos consegue nos intrigar com uma atmosfera redentora imanando aceitação (isso não tinha nos álbuns anteriores) e deixar um marco totalmente diferenciado em sua recente discografia. Em última instância, é uma banda que deixa para trás suas companheiras e se lança um futuro totalmente imprevisível. O perigo, claramente, é ressoar como as canções mais “sem graça” de Keep You. O perigo também vem de nunca mais ser tão feroz quanto antes, mas claramente é um conjunto que não se importa tanto em simplesmente agradar os fãs.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O fim do mundo do Gospel - The Moon Is a Dead World [2005]

"Cada pessoa estranha no mundo está no meu comprimento de onda."
- Thomas Pynchon

Não é nada incomum bandas de hardcore usarem (e muito bem! Como no caso do Touché Amoré, por exemplo) a bateria como instrumento que lidera e conduz o ritmo dos outros aparelhos. Porém, eu nunca tinha ouvido uma bateria tão brilhante e impecável como a gravada em The Moon Is a Dead World. Tamanho “radicalismo” entre tempos extremamente diferentes exige tanto técnica quanto criatividade. O conhecimento aplicado de diversos andamentos para intercalar uma música essencialmente “torta”. E esses momentos com diferentes perspectivas têm seu brilho próprio, a ponto de cada seção ser extremamente importante não para sua sucessora, mas sim para o momento que ela representa. A determinação não é prévia, a construção baseia-se na efemeridade de cada compasso, onde a execução suga a atenção específica de cada minuto.

Estamos em um apocalipse abstrato. Onde berros encontram solilóquios, declamações e diálogos parecem ser colhidos do mar composto de todas nossas pequenas lamúrias. Um mundo de hostilidade suja para nos debruçarmos. Nesse ambiente totalmente aberto construído pelo Gospel, as inquietações são tão divergentes entre si quanto à tonalidade da guitarra, suas distorções sujas. Esta que parece ter horror a monotonia, tanto que muda suas cadências a todo instante, aposta na microfonia porque está perplexa com a uniformidade das coisas. Essa não é uma banda que sabe lidar com clichês, decididamente. O ouvinte não está de todo errado se tomar como um ataque à sua pessoa. É ofensivo em essência, não precisa do amuleto de palavrões, é um contra-ataque ao pop de massa que nos enche após cada capítulo de The Voice. É certamente uma experiência única, um deserto que parece impossível de atravessar. O objetivo então é alcançado, uma música que nasce do instinto (somado obviamente com a técnica adquirida), largando mão de praticamente todas as convenções estéticas.


Acredito que todo aspirante a baterista deveria ouvir isso. São consecutivas “quebras de expectativa”, que compõe um cenário completamente instável e caótico. Mas há uma diferença da bateria de Sean para as que são “apenas” virtuosas. Seu estilo fragmentado imputa um valor todo próprio às marcações de tempo já desfiguradas do Gospel. Concentre-se em suas viradas e como elas “preenchem” o panorama sonoro, sem descanso nenhum. É revelada aqui a expressão genuína de emoções através de um instrumento, e não apenas mero acompanhamento para as supostas sensibilidades das letras. Em certo ponto, pensamos, “nossa, mas até onde esse rapaz vai e como ele tem tanto fôlego?”. Pelo andamento do disco, seus pratos sempre soam descentrados, puxando uma música que já nasce extrema aos limites quase do impossível. A cada música duvidamos se ele vai superar seu desempenho na anterior e o nível não cai nunca. São múltiplas batidas que evocam percepções sonoras que talvez nós não soubéssemos possuir.

Mesmo na hora de construir seu “épico apocalipse”, o Gospel evita caminhos já trilhados e busca uma autenticidade. Que diga os vocais, ao contrário de quase todas as bandas de screamo, não soam “nervosos” ou “tristes”. Mas simplesmente insanos, onde a cada minuto acompanha os ruídos atraentes e repulsivos (ao mesmo tempo!) de uma guitarra que deseja apenas queimar. Mesmo usando elementos muitos distintos de bandas como A Silver Mt. Zion fica aquela impressão do céu enegrecendo enquanto as sombras vão tirando toda cor e vida do solo. Uma tempestade em que as rajadas são imprevisíveis, surgindo dos pontos mais excêntricos, ainda assim extremamente criativo e sofisticado à sua maneira. Não temos uma revolta panfletária, ou uma denúncia do tecnicismo. É a pura demência representada no envolvimento de três cabeças loucas o suficiente para querer levar adiante tamanha catarse em forma de música.

Embora os clássicos elementos de screamo e post-hardccore que eu avisei; este álbum simplesmente deveria ser ouvido por qualquer um interessado em música desafiadora. Com certeza fica no hall dos discos mais singulares da história disso que se convencionou chamar hardcore. Mas que em nenhum momento se limita, baseando toda sua força no talento extremo dos músicos. Onde a diversidade não soa esquisita ou forçada, mas como mais um elemento para puxar os limites da criação. Integrando a estética violenta e emotiva com passagens totalmente experimentais com ritmos dissonantes. A radicalização de um gênero, a ampliação da certeza do fim.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A ambição do Touché Amoré

"Oh Cristo, o esgotamento de não saber nada. É tão cansativo e difícil para os nervos. Isso realmente te esgota, não saber de nada. Lhe dão a comédia e você perde todas as piadas. Cada hora você fica mais fraco. Às vezes, quando me sento sozinho no meu apartamento em Londres e olho para a janela, eu descubro como lúgubre é, como é pesado, assistir a chuva e não saber por que ela cai. "
 - Martin Amis, Grana.

I

Não gosto muito de ficar “embaralhando” e citando gêneros apenas para mostrar que sei um pouquinho disso ou daquilo, mas no caso do Touché não tem como falar outra coisa. O primeiro lançamento cheio do conjunto se baseia no screamo dos anos 90, elementos de “transição” utilizados no que se convencionou chamar de hardcore moderno (as mudanças de tempo, as dedilhadas, os “punch” do post-rock) e muita melodia de bandas como Dag Nasty. Tudo isso tira a banda de qualquer “nicho” para abraçar as mais diversas correntes de consumidores de música por aí- tanto que configura desde sites mais “enraizados” como o dyingscene aos mais “hypes” tipo Pitchfork ou o canal de resenhas do Athony Fantano.

A voz de Jeremy, apesar dos berros, é compreensível e exalam um eu - lírico que está coberto em agonia e angústia. Como ele diria quatro anos depois, no Is Survived By, está totalmente exposto para todos observarem. Essa é a ponta para a conexão com o ouvinte que esse tipo de música tem talvez como mérito maior. O encontro ocorre no compartilhamento de fracassos ou na percepção da tristeza. Somos saturados com sons elípticos e andamentos que se desencontram, aprofundando a sensação de aflição, ao mesmo tempo em que há uma luta constante para sair dessa merda. O ouvinte fornece seu tempo e a banda nos entrega com muita honestidade suas percepções de mundo. Funciona.


A banda coloca muita emoção em apenas vinte minutos. E nesse pacote temos guitarras mudando tons, uma bateria incrível que é violenta e precisa. Nos momentos em que toda atenção teoricamente deveria se voltar aos gritos, a percussão surge precisa e as guitarras ficam num pano de fundo repetitivo como um ciclo muito difícil de se libertar. Em uma experiência de menos de meia-hora, é muito custoso encontrar bandas que conseguem empacotar tamanha entrega e surpreendente variabilidades em um gênero cuja estética sempre se destacou pelo simplismo. O objetivo do álbum é cumprido porque eles conseguem nos enfeitiçar nessa atmosfera de lamúrias e desilusões. Os diferentes andamentos rítmicos das músicas se encontram nesse ponto em comum e conseguem algo relativamente árduo: em tão pouca duração, apresentar propostas diversas que se encaixam nessa dinâmica de “angústia”. A percepção de velocidade e efemeridade se ajusta em nossa relação com o disco cada vez que ouvimos, e seu ciclo de isolamento está completo porque logo menos estaremos cantando as mesmas frustrações.
...To the Beat of a Dead Horse [2009]
I'm losing friends.
I've got a love/hate/love with the city i'm in.
I'll count the hours, having just one wish.
If i'm doing fine, there's no point to this.

Embora possa soar muito “simples” em alguns pontos,  ...To the Beat of a Dead Horse nos captura em quase todos os momentos. Uma sensação de agonia amarrada com desabafos que precisam ser expostos. Nesse sentido, talvez, não nos sentiremos melhores- mas teremos uma companhia para as longas horas em que a insônia se faz presente.

II

Se antes, “sobrava” agonia, em Parting The Sea Between Brightness And Me temos muita energia. Não há elementos novos aqui, segue mais ou menos o que os contemporâneos como Pianos Become the Teeth ou Dangers fazem, isso é: linhas que são relativamente parecidas com a progressão de metal e uma influência interessante do emo dos anos 90. Nada mal. Mais do que isso, são bandas, ao lado do La Dispute, Defeater e até do próprio Title Fight (que está muito longe dessa estética screamo), que buscam dentro dos recursos disponibilizados no “faça você mesmo” abraçar um conceito e não apenas “lançar” músicas. Mérito artístico.

Mais uma vez, a condensação talvez seja o que mais agrada no conjunto. Muitas bandas demoram demais para construir os climas e algumas partes soam chatas e repetitivas. Bem, não é o caso desses meninos, que, por exemplo, nas três primeiras músicas conseguem nos colocar no clímax pancada após pancada, variando entre o minimalismo ao épico em questão de muito pouco tempo. Assim, temos uma proposta que articula suas variações sem se perder em nenhum momento.

O que traz um problema, obviamente. Tanta dinâmica e compreensão ficam legais nas primeiras ouvidas, mas depois a homogeneidade aparente da audição primária perde-se em algo que aposto que eles queriam evitar, a repetição. Esse processo talvez perca o sentido quando a banda intenta só, e somente só, isso. Ao ponto que depois dessas três primeiras canções (e não me levem a mal, elas talvez contem pelo disco todo) percebemos que na quarta temos praticamente a mesma fórmula, e assim por diante. Num certo sentido, é um jogo perigoso o desses rapazes, afinal, se é um conjunto que aposta praticamente todas suas cartas na emoção que as músicas suscitam em nós, os sentimentos deles são tão reduzidos a ponto de sempre serem revelados em menos de três minutos?
Parting The Sea Between Brightness And Me [2011]
O Touché Amoré, em Parting The Sea Between Brightness And Me, provou que eles podem fazer um disco de hardcore bom pra caralho. E aqui todas as variações que o gênero permite: os berros, as dedilhadas, os vocais épicos.  Mas eles claramente têm vocação para fazer algo mais do que essa barreira que eles criaram. É como se a obra que vêm ambicionando ficasse presa no mesmo empecilho que no álbum anterior se destacou. Emoção conta sim, e muito, mas pedir criatividade nunca é demais.

III

Aparentemente o conjunto entendeu isso quando entraram no estúdio para a gravação de seu último disco cheio, Is Survived By. Pense em todos os limites que foram uma barreira em Parting The Sea Between Brightness And Me, eles foram colocados de lado para variações rítmicas polissômicas, em um instrumental complexo que acompanha as letras, estas adquirindo peso filosófico, onde questões sobre mortalidade e legacia pós-vida são aprofundadas. Não ficamos mais saturados com a compreensão de todos os elementos obviamente bons do hardcore, estes parecem mais flexíveis e bem distribuídos, sem atropelamento. A raiva e angústia continuam, mas a banda percebeu que há mais caminhos para explorar e não evitaram fazê-lo.


O equilíbrio entre os vocais do Jeremy e a parte instrumental está melhor do que nunca. Ao mesmo tempo em que ele se dedica com os vocais emocionantes já conhecidos anteriormente, há espaço para a melhor utilização das guitarras e o notável trabalho de bateria do Elliot, que alterna entre ritmos muito rápidos tão característicos do punk rock com seções meio tempo nos momentos mais imprevisíveis. Com as letras mantendo a qualidade e a sempre marcante entrega de Bolm nos vocais, essas novas variações instrumentais só acrescentaram, moldando para além da fórmula que foi tão agradável no primeiro disco e nem tanto no segundo. Essa espécie de “reajuste” tira o Touché Amoré duma limbo que eu temia que eles caíssem: a de bandas que são realmente boas, mas totalmente previsíveis. Fica muito difícil arriscar como vai ser o próximo disco da banda depois de Is Survived By. É algo muito mais ambicioso do que eles fizeram anteriormente, e que sempre que ouço me traz uma comparação com To Bring Our Own End, do qual certamente a banda foi influenciada.
Is Survived By [2013]
E todo esse “espaço” que a banda permitiu para variações instrumentais, indo rapidamente entre acordes diretos para uma seção jam, não tira de maneira nenhuma a honestidade que sentíamos anteriormente. A paixão doentia continua lá, só melhor distribuída e sem querer ser evidenciada a todo instante. Num certo sentido, embora as músicas, como afirmei, tenham mais horizontes onde são desenvolvidas, depois da audição, sentimos que percorremos uma espécie de atmosfera construída por todas essas divergências. Estranho que um álbum decididamente mais variado nos ofereça uma impressão de “conceito”, maior do que nos lançamentos anteriores. É como se todas essas múltiplas faces que o Touché decidiu exibir integrassem as dúvidas profundas que são erguidas durante o disco. Não há a saturação como em Parting The Sea Between Brightness And Me, pelo contrário, ouvir Is Survived By repetidas vezes vai oferecer pontos anteriormente não encontrados.

Is Survived By é construído por uma banda que parece estar completamente confortável com sua sonoridade, um Jeremy menos “contraído” do que no disco anterior (ainda que relativamente monótono). Talvez os fãs do primeiro trabalho estranhem o som muito mais polido, mas aqui isto não parece mero esmero como em Parting The Sea Between Brightness And Me, pois esse álbum justifica essa superprodução em seus micros detalhes, as passagens que se completam. É engraçado como uma banda consegue se renovar sem ir muito além do que fez anteriormente, apenas contando com idéias diferentes e mais vontade do que apenas “empacotar” músicas extremamente emotivas em menos de três minutos. Em algum ponto, Jeremy diz “há sempre uma chance de recair e voltar a ser a pessoa que eu ainda temo estar ali”. Como artistas, o Touché Amoré deu um passo a frente e fez essa queda parecer muito improvável.

This is survived by a love. This is survived by a cause; that you aren’t the only who remembers what it was. This is survived by a love. This is survived by a wish; that you won’t let down who has attached themselves to it.”

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Obrigado, Dance Of Days ! O Melhor Tempo De Sua Vida (2014)

O melhor tempo de sua vida começa com um chamado ao grito, antecedido pelo baixo e bateria. Há tempos que Nene deixou o "lirismo" mais de lado, sendo o mais direto possível em sua mensagens, alguém que testemunhou várias reviravoltas de cenários em uma suposta cena, e que ainda persiste socando ponta de faca, entre gritos e melodias apaixonadas e furiosas, sempre passionais. A proposta é como um testemunho de quem também variou tanto quanto a movimentação faça você mesmo que eclodiu nos anos 90. As baterias noventistas, onde a produção é certamente de quem não busca correções eletrônicas. O Dance Of Days sabe muito bem sua capacidade musical. Se trata da relação de devoção pelos caminhos que já foram tomados, um salto em um terreno conhecido para revelações que ainda se fazem persistentes, principalmente quando confinados na histeria paulista e os micropoderes estabelecidos desde o lar até as ruas. É a própria contradição interna de se guiar por mapas socados em nossa mente. Por que se machucar com parâmetros internos e que são praticamente bizarros de tão sem propósito? Habita nesse EP aquela chama que não conseguimos nominar, aquela luz acesa que nunca se apaga, mas que é tão fluida e orgânica que tentamos de várias maneiras- palavras, sons, fotografias- registrar esse tipo de certeza tão fugidia. Por isso podemos encarar a primeira fase da obra do Dance Of Days (que tem seu ápice em Lírios Aos Anjos) como uma espécie de exceção ao novo caminho pavimentado pelos caras, mais estabelecido em nossas certezas.

Porque eles sabem quem são os combatentes, eles sabem dos adolescentes solitários e perdidos que abraçam na música instantes raros de transcendência. Não há vergonha de converter essas sensações em "hinos" que são musicados em esperanças, no esquema tão comum de utilizar refrão em prol não de um rompimento com meras formas musicais, eles não querem isso, mas sim utilizar de terrenos e variações já conhecidas para explicitar que há outras formas de viver fora desse espaço confinado que nos ensinaram como realidade. Recorrer ao hardcore punk é completamente justificável, talvez porque apesar de tão esculhambado, ainda é uma pedra que insiste em ir contra o fluxo da corrente. O conceito de libertação, na visão do Dance, se passa sim por formas de expressão simples que abrigam uma complexidade íntima enorme, não em forma de estética, mas do exorcismo sentimental em forma de manifesto, assim como os stages dives, os sing along e toda essa porcaria que ainda amamos depois de todos esses anos. Ao notar que tantas coisas passaram na minha vida, tantas pessoas e tantas lembranças, me pego realmente surpreso por uma banda que eu amava há dez anos atrás ainda se fazer presente, e reparo que o Dance é como a luz do Morrissey e que, embora as vezes tão fraca e pouco constante em minha vida, permanece em algum canto recôndito para voltar com toda força. Então eu aumento o volume para tudo se resumir nessas músicas, onde o diálogo com os rostos suados dos shows ressurge como memórias involuntárias. Minha impressão é que voltar nessas canções sempre vai me dizer algo essencial para o momento que esteja passando.

E agora que escuto tão pouco o que se convencionou chamar de hardcore punk, a ética ensinada por bandas como o Dance Of Days se mostra como uma das coisas mais legais de minha vida, esse amor incondicional pela expressão, uma espécie de necessidade que urge a cada final do dia, enquanto volto do trabalho idiota e as nuvens carregadas e acinzentadas sinalizam desdém. Temos nossas armas para enfrentar os covardes do cotidiano e as músicas sempre me lembram do garoto que sonhava acordado ou que ficava sem ir pra rolês por um mês para ver shows de lançamento no hangar, em troca de quatro horas de suor e voltar rouco enquanto garoava em São Paulo. O maior mérito do Dance, então, continua sendo o mesmo de anos atrás, e isso ao invés de ser sinal de estagnação, é uma marca notável de um compromisso sério com a devoção dos fãs e ao estilo de vida escolhido, e por isso essa base sólida de seguidores. A figura de Holden...

São micro influencias que podemos notar todo dia, na forma com que me relaciono com pessoas queridas, ou nas dezenas de bandas que fazem som por ai, nas mais variadas movimentações, que foram impulsionadas por álbuns como A História Não Tem Fim. Os limites são instituídos e, uma vez lançados no mundo, só nos resta quebrá-los. E na minha trilha sonora de rompimentos, o Dance Of Days sempre se fez presente.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Taunting Glaciers - Taunting Glaciers [2013]

Querer voltar no tempo e corrigir seus erros, desejar se sentir acolhido novamente, perceber-se sozinho. São temas que Roberto Lucena (compositor das letras) aborda com conhecimento empírico. Em seis canções, temos essas sensações exploradas sempre do ponto de vista de um ‘eu lírico’ nostálgico, confuso e sem propósito.

Variando entre frases mais certeiras e passagens mais poéticas, o clima do disco embaralha, de forma instrumental, a espécie de clausura que as letras passam. São ambiências extremamente íntimas criadas em tentativas- mais diretas, como os berros do vocal- e concretas de se reconectar a algo, de encontrar propósito onde tudo parece absolutamente vago e sem sentido. No entanto, não temos apenas a consumação própria em torno de reclamações superficiais, mas sim sempre uma tentativa de explorar a experiência para recuperar o vivido e estabelecer as sensações.

É a possibilidade sonora que emerge da combinação simples entre piano, guitarra, baixo e bateria. No fim, é sobre isso: os diversos cenários que podemos construir ao invés de olhar o passado e o sofrimento.


Trata-se, então, de construção. Mas nunca negar o dilaceramento presenciado ou aquele que ainda acontece. São emoções despejadas que não devem nada a bandas como Defeater e tantas outras. Um desempenho de testemunhas que não se ajoelham aos danos já feitos, porque estes vão nos influenciar a vida toda.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Campbell Trio e a importância de sonhar - The Campbell Trio Sings the Blues [2011]

"A vida é feita de medo. Algumas pessoas comem sopa  de medo três vezes por dia. Algumas pessoas comem sopa de medo em todas as refeições existentes. Eu como às vezes. Quando eles me trazem sopa de medo para comer, eu tento não comer, eu tento enviá-la de volta. Mas às vezes eu estou com muito medo e tenho que comer de qualquer jeito. "
― Martin Amis, Other People

Sings the Blues começa com uma importante nota sobre uma questão filosófica, seguido de um instrumental apurado e bem executado. Talvez o tema que sempre direciona uma espécie de nova “fé” na música, ou uma admissão da importância de sonhos, por mais infantis que possam ser.

Longe de ser música que opta por caminhos “fáceis”- bem afastado disso, na verdade. Temos uma sonoridade que oscila entre o que se convencionou chamar de “post-hardcore” e timbres experimentais. Não é exatamente difícil, mas requer força do ouvinte, um envolvimento e pró-atividade, nos convidando a sair da simples zona de conforto. São composições que arriscam e nada mais justo que o destinatário também dance e se exponha.

Então não vamos parar. Apesar das disparidades, dos empecilhos. Pode ser realmente óbvio que só podemos ir em frente, mas o Campbell Trio reverbera “não tenha medo!”. É uma queda livre de qualquer jeito, e se aborrecer com fobias,especialmente quando a maioria dessas são criadas por nós mesmos, não vale a pena. Apesar da nota inicial, a estética aqui não é de teorização, ao contrário: os rapazes fazem uma música de combate, sonhos versus preocupações.

E não podemos passar batido na referência ao Grim Fandango, jogo clássico do final dos anos 90. Onde nos deparamos com o Departamento Da Morte, e uma estranha conspiração (que não deveria nada à ficção de Thomas Pynchon), e um problema no paraíso. Paraíso que reflete também a citação de Milton. Essa obra do Campbell Trio então aborda a importância dos sonhos, estrutura um “sistema próprio” de combate para não sermos almas mortas que apenas vagam por aí.


O EP é literalmente uma pancada. É paulada atrás de pauladas onde a execução instrumental varia a todo instante e os gritos de desalento são praticamente uma convocação à essa guerra. A batalha de seguir em frente e encontrar o descanso merecido, os desafios de encontrar forças próprias na terra desolada que estamos- num tempo onde os sistemas de crenças já estão obviamente descredenciados. A estética da continuidade, onde os aparatos (e escapes!) têm que ser criados na marra.
E penso se seria possível atribuir qualquer espécie de etiqueta musical ao conjunto. Pois não são críticas fáceis formuladas por frases feitas ou sons puramente “agradáveis”. Não, a força da banda está justamente em desdobrar novos e inesperados caminhos nesse curto disquinho. Como uma espécie de fortalecimento de crenças internas e validação destas através de toda energia (que não é pouca!) dispostas nas canções.

A brincadeira com o jogo continua, e eles convidam Salvador Limones para fazer seu levante contra a perdição da alma em disparidades rasas do dia-a-dia. Já que estamos condenados- é o que o Campbell Trio parece ressaltar que passemos por essa curta estadia na Terra vivendo de pé e acreditando em ingenuidades próprias.

Ingenuidades que nos mantém de pé, no fim das contas. E é isso que precisamos nos nossos dias. Confiar em olhos amigos, se movimentar guiados por sons que transcendem a mera realidade instituída e apontam caminhos além do que aparentava ser possível. Porque é indiscutivelmente melhor prosseguir com intuições do que essas prisões diárias que abastecem nossa mente em paranoias como “se dar bem na vida”, “ter uma carreira de sucesso”.

Tudo isso, essa aglomeração de combate contra os sintomas mais claros da nossa Era de demência coletiva, me lembra dos riffs. São sonoridades que se entrecruzam para fazer frente ao Monstro Realidade, num espaço vazio em que conexões são possíveis justamente pelos sonhos. Pode soar ingênuo, mas talvez ingenuidade e devaneios sejam as características que mais faltam nesse mundo morto onde todos tem que ser fortes, realistas, competitivos.

O disco encerra com um clima “feel good demais” pro que ele vinha trabalhando. Talvez a interrupção bruta para começarmos a rítmica bem jazz seja para sinalizar que a tática para guerrilha estava lá.

No fim, Sings the Blues é um EP para seguir em frente apesar das fobias, porque embaixo do asfalto há sementes esperando.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

La Dispute- Rooms of the House [2014]

Era uma casa nada engraçada.

Nas pequenas cidades, os habitantes que ali residem tem que combater diariamente a carga da honra. A perseguição ocorre desde os tempos de criança, e se você, por alguma acaso, fez algo errado mesmo nos primeiros momentos de consciência como pessoa, isso irá te perseguir. Apesar de você ter mudado, apesar de você ter melhorado, parece que a poça é muito pequena para qualquer quantidade de água não transbordar. Dentre todas essas coisas da vida, provar quem você é, e porque merece ser tratado bem, exige enorme esforço. O habitante nas letras do La Dispute é essa típica pessoa, oriunda de uma pequena cidade e que ter que lidar continuamente com o problema de reputação. O que ficou claro em Somewhere at the Bottom of the River..., onde esse típico não estereotipado e demasiado real sobressaia-se na lírica e nos vocais explosivos. Já em Rooms of The House, embora a “população” ainda seja possivelmente da mesma vizinhança, há uma variação temática muito maior para o vocalista Jordan Dreye se debruçar.

A banda ficou muito mais interessante quando parou de fazer poemas demasiado românticos (o que talvez explique a baixa popularidade das letras atuais entre a galera teen). Sonoramente, Rooms of the House é uma melhora continua do que foi o Wildlife. O foco aqui são os pequenos momentos e como eles ficam documentados no narrador lírico. A banda parece afirmar que a história é uma sucessão de equívocos eternizados em nosso consciente. Se Somewhere..., continha àqueles momentos épicos, talvez até demais, Dreyer aprendeu a centralizar também em situações aparentemente mais tranquilas. Como pinturas cotidianas, reflete a construção diária fora do apenas melodramático que ele desenvolvia tão bem. Ser instrumentista no La Dispute não deve ser fácil, as letras exigem demais e sua entonação completamente não musical não alivia em nada. Mas eles não sucumbem e criam beleza a partir da progressão dos acordes entre versos calmos e partes pesadas. O vocal de Dreyer, em alguns momentos, exerce o que poderíamos chamar de cantar, é exatamente aí que a banda foca em um tema completamente cativante. Em alguns momentos, em algumas canções, Dreyer teria certamente berrado até seus pulmões, aqui não, ele opta pelo mais difícil, o que talvez cause algum estranhamento para fãs dos discos anteriores.

Em um ano que bandas emo tem optado por falar sobre “coisas pequenas” e assuntos familiares- vale lembrar o último disco do Hotelier- Dreyer demonstra que ele ainda lidera quando o assunto é a capacidade de relatar dramas domésticos. Sinceramente não entendo o problema do pessoal falando que suas canções são sempre, em última análise, austeras, defender tanto a perspectiva de como a arte deve ser exprimida e optar incessantemente por uma abordagem, sem deixar o nível cair nunca, é um baita mérito. A experiência de anos em temáticas que se aproximam (não que se repitam) deixa clara a evolução do La Dispute, álbum pós-álbum. O problema é que já existe um ferrete cravado na pele da banda, o de ter que fechar a janela e deixar tudo escuro pois haverá chumbo grosso. Essa reputação pode afastar muitos ouvintes, mas com certeza alavanca a banda que nunca olha para trás, em nome de um comprometimento com a arte sem muitas comparações por aí.

PS: Nem preciso falar que pra mim é o disco do ano, até agora.