segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O fim do mundo do Gospel - The Moon Is a Dead World [2005]

"Cada pessoa estranha no mundo está no meu comprimento de onda."
- Thomas Pynchon

Não é nada incomum bandas de hardcore usarem (e muito bem! Como no caso do Touché Amoré, por exemplo) a bateria como instrumento que lidera e conduz o ritmo dos outros aparelhos. Porém, eu nunca tinha ouvido uma bateria tão brilhante e impecável como a gravada em The Moon Is a Dead World. Tamanho “radicalismo” entre tempos extremamente diferentes exige tanto técnica quanto criatividade. O conhecimento aplicado de diversos andamentos para intercalar uma música essencialmente “torta”. E esses momentos com diferentes perspectivas têm seu brilho próprio, a ponto de cada seção ser extremamente importante não para sua sucessora, mas sim para o momento que ela representa. A determinação não é prévia, a construção baseia-se na efemeridade de cada compasso, onde a execução suga a atenção específica de cada minuto.

Estamos em um apocalipse abstrato. Onde berros encontram solilóquios, declamações e diálogos parecem ser colhidos do mar composto de todas nossas pequenas lamúrias. Um mundo de hostilidade suja para nos debruçarmos. Nesse ambiente totalmente aberto construído pelo Gospel, as inquietações são tão divergentes entre si quanto à tonalidade da guitarra, suas distorções sujas. Esta que parece ter horror a monotonia, tanto que muda suas cadências a todo instante, aposta na microfonia porque está perplexa com a uniformidade das coisas. Essa não é uma banda que sabe lidar com clichês, decididamente. O ouvinte não está de todo errado se tomar como um ataque à sua pessoa. É ofensivo em essência, não precisa do amuleto de palavrões, é um contra-ataque ao pop de massa que nos enche após cada capítulo de The Voice. É certamente uma experiência única, um deserto que parece impossível de atravessar. O objetivo então é alcançado, uma música que nasce do instinto (somado obviamente com a técnica adquirida), largando mão de praticamente todas as convenções estéticas.


Acredito que todo aspirante a baterista deveria ouvir isso. São consecutivas “quebras de expectativa”, que compõe um cenário completamente instável e caótico. Mas há uma diferença da bateria de Sean para as que são “apenas” virtuosas. Seu estilo fragmentado imputa um valor todo próprio às marcações de tempo já desfiguradas do Gospel. Concentre-se em suas viradas e como elas “preenchem” o panorama sonoro, sem descanso nenhum. É revelada aqui a expressão genuína de emoções através de um instrumento, e não apenas mero acompanhamento para as supostas sensibilidades das letras. Em certo ponto, pensamos, “nossa, mas até onde esse rapaz vai e como ele tem tanto fôlego?”. Pelo andamento do disco, seus pratos sempre soam descentrados, puxando uma música que já nasce extrema aos limites quase do impossível. A cada música duvidamos se ele vai superar seu desempenho na anterior e o nível não cai nunca. São múltiplas batidas que evocam percepções sonoras que talvez nós não soubéssemos possuir.

Mesmo na hora de construir seu “épico apocalipse”, o Gospel evita caminhos já trilhados e busca uma autenticidade. Que diga os vocais, ao contrário de quase todas as bandas de screamo, não soam “nervosos” ou “tristes”. Mas simplesmente insanos, onde a cada minuto acompanha os ruídos atraentes e repulsivos (ao mesmo tempo!) de uma guitarra que deseja apenas queimar. Mesmo usando elementos muitos distintos de bandas como A Silver Mt. Zion fica aquela impressão do céu enegrecendo enquanto as sombras vão tirando toda cor e vida do solo. Uma tempestade em que as rajadas são imprevisíveis, surgindo dos pontos mais excêntricos, ainda assim extremamente criativo e sofisticado à sua maneira. Não temos uma revolta panfletária, ou uma denúncia do tecnicismo. É a pura demência representada no envolvimento de três cabeças loucas o suficiente para querer levar adiante tamanha catarse em forma de música.

Embora os clássicos elementos de screamo e post-hardccore que eu avisei; este álbum simplesmente deveria ser ouvido por qualquer um interessado em música desafiadora. Com certeza fica no hall dos discos mais singulares da história disso que se convencionou chamar hardcore. Mas que em nenhum momento se limita, baseando toda sua força no talento extremo dos músicos. Onde a diversidade não soa esquisita ou forçada, mas como mais um elemento para puxar os limites da criação. Integrando a estética violenta e emotiva com passagens totalmente experimentais com ritmos dissonantes. A radicalização de um gênero, a ampliação da certeza do fim.

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