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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Pesta - Bring Out Your Dead

Pesta é uma banda talentosa de Belo Horizonte que nos brinda com seu primeiro disco cheio. No momento em que eu já ouvi os primeiros rifes eu fiquei obcecado com a direção que eles levariam. Já nos primeiros dois minutos de disco nós já sabemos do que a banda é capaz. Um terreno lírico místico se instala e podemos contemplar um desfile decadente de atos santos e profanos.

Assim que nós começamos a sentir esse mundo dinâmico do quinteto e nós vamos acostumando com as estruturas que podem soar estranhas em primeiro momento, essa sensação de “exaustão” perdura e é arrastada intencionalmente pelo disco todo. Essa conexão entre sensação causada pelo instrumental e abordagem conceitual é a principal expressão de Bring Out Your Dead.

E embora não soe em nenhum instante propriamente “agressivo”, porque o disco justamente trata da constatação de um mundo morto. Nãoo é necessário, então, jorrar no ouvinte uma sonoridade alta e/ou barulhenta, porque se trata justamente do diagnóstico dessa Terra profundamente agredida. Percebem-se comportamentos suicidas porque há uma praga que constantemente nos ronda. É sobre a contemplação do fim tão próximo que a banda narra e tristemente observa a perda nos brilhos dos olhos alheios.

Nós já nos tornamos íntimos dessa peste coletiva e sobrevivemos com isso todos os dias e ainda assim é surpreendente que uma banda como o Pesta tenha que diagnosticar isso de maneira catártica. A naturalidade da corrosão e da grande epidemia tem que ser desvelada e é isso que os mineiros fazem. Evidenciar uma obscuridade que as pessoas insistem em esconder ou teatralizar.

Isso não é um fenômeno apenas contemporâneo. Tanto que as apropriações que a banda faz, desde o nome do disco que é uma frase inglesa de 1665 e sua capa que é de uma pintura de 1348 (obrigado https://wallofyawn.wordpress.com/2016/01/21/pesta-se-inspira-na-praga-para-fazer-doom/ pelas informações). O fim está próximo desde tempos remotos e é talvez essa constatação antiga que crie esse elo entre passado e presente. Os selos da morte são consecutivos prelúdios para os fins dos tempos; pessoas dementes, animais que falam e cavalos pálidos cumprindo a profecia.

É como se a banda atendesse um chamado impossível de ignorar. A peste os escolheu para serem seus mensageiros e é com total respeito e alguma devoção que a banda pisa no terreno do metal para cumprir algo que lhes parece obstinado. Mais do que um abalo surpreendente, Bring Out Your Dead evidencia uma banda com plana noção e que aparenta anos de estrada. Apesar dessa devoção nítida e a influência evidente de nomes como o Black Sabbath, os símbolos dessa aproximação são realmente problemas modernos desfigurados por alguma “necessidade de esconder” contemporânea. A banda e o vocal limpo de Thiago Cruz desejam contar o que testemunham e aproximar coisas, inicialmente, tão distintas. Os gritos não são necessários, pois a própria construção imagética de todo o álbum já se encarrega disso.

De maneira bem comum, as consecutivas audições de Bring Out Your Dead vão se transformando em constantes adesões nesse mundo criado pela banda. Um mundo de figuras que estão extremamente próximas da deterioração absoluta e agonizam (como os lentos andamentos instrumentais). Ou seja, já se foi o período de ódio, o período das crianças pestilentas abandonadas pelos pais e agora resta esse reino em que só pode-se esperar a concretização desse caos.

Os corpos, como dito na primeira faixa, ficam abandonados em casa porque não há ninguém para fazer um funeral. As palavras são regidas, em vão, ao vento e ninguém testemunha mais coisa alguma. Nós não podemos nem mais ser fracos, não há mais possibilidade e está tudo corroído. Pesta indica que esse medo que nos assola já não nos deixar fazer mais nada, esse medo só nós lidera nesse mundo podre.


O Pesta revela o lado predador intrínseco na maioria das pessoas e é esse mundo que beira a morte que ainda nos permite sentir algo. Como a noção da proximidade do fim não suscita nada na maioria das pessoas é difícil realmente saber, mas felizmente levou a banda a sonorizar essa constatação cruel.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Warhorse - As Heaven Turns To Ash [2001/ Re-issue - Southern Lord - 2015]

Muitas e muitas bandas morrem e isso com certeza não é nenhuma novidade. Esse foi o caso do WarHorse, que tinha seu principal lançamento há muito fora de catálogo. Coube a Southern Lord recuperar esse clássico esquecido. Não bastasse isso, em conjunto eles também colocaram as músicas do último EP da banda, I Am Dying. Como expoente do metal lisérgico e decididamente pesado, a abordagem do WarHorse tem em seu diferencial uma espécie de apropriação. Eles não tentam propriamente estimular algo, aqui tudo se trata da contribuição para uma suposta atmosfera.

Dusk” começa as coisas sem indicar nada. Uma ambientação baseada em instrumentos acústicos e sons difíceis de serem identificados instauram uma áurea de mistério, situando-se como mero esboço do que está por vir. “Doom’s Bride” é forçosamente lenta, se arrastando entre solos e riffs brutalmente distorcidos. A batida da bateria se esconde atrás da distorção e só ouvimos as principais viradas, enquanto o vocal anuncia sua maldição, em grunhidos. Chama atenção esses elementos conjurados num arrastamento. Já estamos no tempo evocado pelo Warhorse. “Black Acid Prophecy” nos leva de volta aos anos 70 e tudo o que mais pesado acontecia naquela época, certa unidade dos riffs bem altos que deixam tudo mil vezes mais “intragável”, distorções que tomam a música para riffs alavancaram uma sequencia derradeira que arrebata fácil qualquer fã de Black Sabbath. Mas são canções como “Amber Vial” que caracterizam esse disco como um clássico; sua estética lo-fi, totalmente voltada a elementos psicodélicos, assim, enquanto mantém o clima de “morte” do disco, entrega a esse tema uma abordagem completamente diferente, com certeza mais “sonhadora”. Como em um caos marcado, “Every Flower Dies No Matter The Thorns” surge sem comprometer a evocação da música antecessora e ela vai, numa medida hipnótica e sem pressa, nos devolvendo as angústias que as primeiras músicas disseminavam. Como um morto que retorna, esse é o Warhorse nos dizendo “nós somos assim e você não vai conseguir fugir disso, jamais”.

“Lysergic Communion” é um acesso de distúrbio. Claustrofóbica por causa de sua lentidão, seu preenchimento é basicamente as distorções estendidas. “Dawn” segue a linha de “Amber Vial”, e decididamente subproduzida, é outra escapada “mística” do ambiente arrastado e aprisionado do disco. Os riffs que pareciam um pouco esquecidos voltam a tona com “Scrape”, criando pontos praticamente indivisíveis, as baterias ganham propulsão e aquela unidade arrastada adquire mais corpo do que nunca no disco, onde tudo fica tão incomodo e alto que dá vontade de socar a própria cabeça porque, com certeza, a importunação será menor. Esse ciclo é outra vez quebrado com o piano repetitivo da instrumental e curta “And The Angels Begin To Weep”. O disco acabaria ai em seu lançamento original,  cumprindo sua função e construindo um terreno onde morte e misticismo são abordados. Porém, nesse relançamento, temos uma espécie de conclusão, que é onde entra “I Am Dying”. Percussões tribais e as distorções bem baixas funcionam como uma espécie de batizado da morte. “Horizons Burn Red” encerra com guitarras poderosas como serras dividindo os corpos, com certeza umas das mais poderosas no metal extremo. O vocal pela primeira vez (e última) opta pelo gutural, como se fosse para estabelecer o sepultamento.


Sepultando não só o disco e suas propostas, mas também o breve período de duração do Warhorse. Os membros seguiram para outras bandas, mas é inegável que As Heaven Turns To Ash merecia mais atenção dos fãs de música extrema, porque tem todas as características que nos aprisionam em estéticas tão radicais, adicionando certa dose de fascínio em temas totalmente pessimistas, ainda assim descobrindo encantamento nessas questões. Encantamento indicado nas faixas de menor duração, que indicam que o Warhorse não é só “morte”, mas também que também há escapismos. E o processo que o paraíso se transforma em cinzas é maravilhoso.