sexta-feira, 7 de julho de 2017

meus discos favoritos de 2017

TRÊS GUARDA CHUVAS – CAIDÃO



Três Guarda Chuvas (assim mesmo, sem o hífen) delimita em espaços internos (“o cinza em mim”) fragmentos bonitos mas que, por alguma razão (ou justamente por nenhuma), parecem distantes, inalcançáveis. Em “Caidão”, é realizada a junção de momentos em que se reconhece o Belo mas é impossível reconhecer uma ligação de ti com os objetos de possível afeto. 
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Johan Berthling / Martin Küchen / Steve Noble - Threnody, at the Gates



O que faz o trabalho em Threnody é toda energia excitante de três músicos com diálogos bruscos entre si , mas que estranhamente ainda conseguem construir um mundo a partir de fragmentos de composições.Porque em nenhum momento o caos se dispersa do controle e em nenhuma momento mais "tranquilo" a calmaria também não é regida pelo pressentimento da destruição.
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BATISMO – TRILHA PRUM POSSÍVEL CURTA



Ouvir “Trilha Prum Possível Curta” é um mergulho na capacidade de ressignificação e como isso é capaz de maravilhar, de essencialmente transcender o objetivo anteriormente proposto e inaugurar sensações antes impensáveis (e por isso impossíveis). A demo é parte de algo e também é uma origem com representações múltiplas enquanto estas se deformam por nossa imposição e, paralelamente, deformam nossa concepção.
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William Basinski - A Shadow in Time



Os loops ,que são a marca-mor de toda a discografia de Basinski, reúnem dispersões impossíveis e retratam uma visão totalmente subjetiva de uma realidade usurpada ; em que o Tempo é cristalizado como imagens borradas , cujas formas beiram a incompreensão.
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CLAN DOS MORTOS CICATRIZ – CLAN DOS MORTOS CICATRIZ



Parece que o debate (ou ofensas propriamente ditas) sobre a palavra e sua (im)potência é o tema centralizado que propulsiona o Clan Dos Mortos Cicatriz, banda de Curitiba com dois integrantes da essencial Concreto Morto, em um terreno de pouquíssimas convicções – e as poucas que restam são rapidamente esfaceladas neste “eu próprio” fracassado que o disco sugere. O tempo só passa pros outros e somos corroídos por uma sensação constante de andar à margem – de nos esfacelarmos também enquanto a vida propriamente dita transita do outro lado (cujo acesso nos foi vedado).
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Vince Staples - Big Fish Theory



Confinadas em fluxos de consciência (não apenas líricos , mas também sonoros) as colagens de Big Fish Theory são capazes de dissolver o que se passa na cabeça de Vince Staples e a realidade imediata . Deixando as tropas de seu disco antecessor para trás , Summertime '06 ,o que se vê aqui é um acesso não-obstruído - e por isso confuso & caótico - a uma das mentes mais promissoras do hip hop.
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TRIO REPELENTE – AO VIVO PRA NINGUÉM



bem antes do trio repelente ser uma teoria, é um exercício contínuo que continua a operar na cabeça do ouvinte. em “ao vivo pra ninguém”, é desenvolvido um arranjo sônico que estende a percepção e com ela estendida é muito mais fácil pro grupo evidenciar seu precioso processo interativo. a manifestação individualista daria apenas a “impressão rasa de interação” e embora seja dificílimo exemplificar uma interação falsa (ainda presa em gêneros, ainda presa em tabus progressistas), é evidente que este trabalho aqui é tudo menos isso.
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Oxbow - Thin Black Duke



O disco mais "direto"  e menos agressivo da banda , apostando em uma estrutura sonora que beira o orquestral , com emocionantes passagens do vocal.
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EXAUSTA – RAVE DA MORTE



“Rave Da Morte” é a performance musical que não sai de si mesma pra evidenciar que, claramente, há outra coisa. Evita se posicionar (!) pra questionar (?) e é por meio da exploração do elemento interrogativo que evidencia as variações que partem dum mesmo ser.
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Evans / Fernández / Gustafsson - A Quietness of Water



A Quietness Of Water confirma Gustafsson como um dos músicos contemporâneos mais envolvidos em extremas explorações sonoras. Em conjunto com Evans , ele cria vácuos de impressões abstraídos de nada (não há sequer uma linha de composição) e contam com um Fernández que ainda tenta manter as coisas em seus lugares - o que não garante absolutamente nada e cria uma tensão que se registra durante todo o disco.
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VULGAR DÉBIL – A FLAUTA DE PÃ



Embora “A Flauta De Pã” seja uma performance não representativa de seus micro-organismos (insetos, sons manipulados, ecos, variações de volume), o disco dá um espaço que eles anteriormente não teriam. E é em sua incompletude que eles podem se afirmar.
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The Caretaker - Everywhere at the End of Time - Stage 2



Em Everywhere a nostalgia é explorada como fator-originário de emoções derivadas. E, acredite , o The Caretaker consegue ir bem fundo nisso de "explorar emoções humanas" , apelando para sensações momentâneas construídas de momentos ultra vastos (em sentido temporal , também). 
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GOD PUSSY – ABNEGAÇÃO FILANTRÓPICA



O God Pussy remove todos elementos que o próprio Bandcamp fez questão de explicitar pra evocar, junto ao ouvinte, a satisfação de lugares desabitados. No entanto, a problemática do que é “lugar” e o que é “barulho” será efetivamente colocada na mesa por alguém. De fato: as coisas não são tão diferenciáveis assim no trabalho do God Possy. Elas “podem” acontecer. Elas “podem ser incidentais”. O músico reconhece a potencialidade do que se lança no mundo. Mas, perceba: elas nunca vem dadas, elas nunca vêm explícitas. Elas abrigam a “possibilidade originária” (claro que tudo dito aqui pode ser genérico, mas acredita-se que estas três últimas linhas – que explicitam a possibilidade dos acontecimentos – deixam as coisas menos especulativas). No entanto, não há certeza ou afirmação alguma do que pode ou não ser genérico. Consecutivamente e fatalmente isso vai caber na vivência do ouvinte em cada uma das três faixas. A distinção sempre cabe a quem assimila o trabalho final.
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Bedwetter - Volume 1: Flick Your Tongue Against Your Teeth and Describe the Present.



Com certeza o lançamento mais pessoal e emocional de  Travis, considerando seus lançamentos irrisórios de memphis rap anos atrás , ainda que tivessem seu valor estético . Volume 1 é uma tentativa de descrever um presente que aparentemente é muito pesado.
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THIS LONELY CROWD – THIS LONELY CROWD



Pela poesia, o acesso à comunhão com a experiência de outrem deixa de ser refém de ideologias e abre um pequeno acesso; a música, em especial com tal poder da TLC, catalisa isso e não apenas apresenta a percepção de alguém (a banda) muito afetada por tais palavras, mas também apresenta ao ouvinte a concepção entre origem (“no início era apenas o verbo”, Evangelho de João) e reelaboração estética através deste início (música).
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Yowie - Synchromysticism



A pouco mais de meia-hora que dura o disco não tira o fato de que é um álbum difícil de ser assimilável . Talvez por não ser tão imediatista quanto os álbuns antecessores , Synchromysticism guarda uma brutalidade velada entre os angulares e bizarros versos das guitarras . 16 anos de banda ; apenas 3 álbuns . E ouvindo e sentindo a dificuldade explícita de Synchromysticism  dá para entender o porquê.
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GROTESK Y GVTX – CELDIY



É um caminho sem indicações, em que só é possível olhar pra frente e ver um enorme horizonte confuso sem qualquer explicação plausível de como chegar no ponto em que se chegou. Se “tudo foi regresso”, há a consciência de que dá pra seguir de outro jeito. Aproveitando o microfone, com as poucas ferramentas à disposição, pode-se fazer muito e “CELDIY ” é uma pequena amostra desta potência.
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Jon Irabagon, John Hegre & Nils Are Drønen - Axis



Entre todas as dissonâncias que Axis revela , está implícito o valor que a música pode gerar através da assimilação de divergências (por mais radicais que sejam) . 
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KTARSE – INFLAMANDO A INSURGÊNCIA



Uma guerra se instala enquanto (há muito) o capital se impõe, causando um ambiente degradado onde as pessoas estão cada vez menos capazes de se insurgir contra a classe dominante, sempre intocável, sempre distante de qualquer mudança. Policiais massacrando, limpeza étnicas nas periferias, famílias sendo dizimadas. O Ktarse sabe da queda deste tipo de humanidade – políticos, indústrias, culturas antigas. Há o frenesi constante de que tudo vai, inevitavelmente, cair e se estilhaçar, sobrando apenas projeções de esperanças em cada pedaço.
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Igorrr Savage - Sinusoid



Este álbum traz TANTA coisa junta que é um dos discos mais difíceis de categorizar do que eu ouvi em 2017. A capa ilustra bem.
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CÁSSIO FIGUEIREDO – LEMBRANDO ASPECTOS MORTOS



O clímax (do ato) de lembrar, portanto, é trafegar num espaço denso em que os objetos são apenas silhuetas, resquícios do vivido ou apenas próprias criações do músico. A música, em si, é apresentada como materialização duma tentativa frustrada. Ela não apenas necessita do engajamento do ouvinte, ela dialoga com ele através dum lapso temporal. Chame isso de “lembranças”.
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Piernikowski - No Fun



Considerando a mesmice até no "hip hop alternativo" , a interferência manipulativa dos MIDIS em No Fun traz uma áurea arrastada que ambienta o disco , fazendo com que o clichê "ouvir de uma vez" se torne necessário.
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 BETO CUPERTINO – TUDO ARBITRÁRIO



A urgência estabelecida em “Tudo Arbitrário” – em contraponto aos instrumentais calmos e a voz gentil de Cupertino – muitas vezes encontra seu contrário em surpresas boas. Se “Tudo Arbitrário” respira uma necessidade de finalização, o disco admite que a caminhada pro “acerto de contas” não exclui reparar no ambiente ao redor ou mergulhar em lembranças que também são testemunhos de como se chegou a este lugar.
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Circle - Terminal



Outro disco que tira da Nostalgia sensações derivadas e trabalha em cima destas para estabelecer sua atmosfera . O Circle se baseia em grandes riffs para estabelecer um ambiente específico e , a partir destes , adicionar estranhezas à coisa toda. Os vocais do disco são entoados com grande drama e humor , sempre num viés futurista/ritualista. Toda a melodia e entrega da banda evidenciam uma paixão pela música e que pode ser exercida sempre de um jeito novo, jamais deixando a competência.
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SENTIDOR – AM_PAR_SIS



Naturalmente, trabalhar com a obra de Tom Jobim requer mais do que técnica – requer também uma percepção ampla (além do sentido estritamente musical) de como reelaborar sua cosmogonia. Principalmente na implantação que o Sentidor, alter-ego de João Carvalho, quer submeter tal reestruturação: não há um paradigma de como interagir com Tom Jobim em representações esparsas. Deste ponto, do preciso ponto entre uma interação significante pra uma elaboração de multiplicidades (lembre-se que nos trabalhos fora da El Toro Fuerte, João Carvalho segue uma fragmentação esquizofrênica do que é atribuído como realidade), é criada o reflexo deslumbrado com as possibilidades. Esse é o caso de um reconhecimento meta-acadêmico da obra de Jobim, em que o Sentidor se despe de todas postulações acerca da obra pra investigar as possibilidades legadas pelo mestre.
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Led Bib - Umbrella Weather



Toda a identificação inicial do disco vai ser belamente dizimada no desenrolar deste. 
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GUSTAVO TORRES & J.-P. CARON – ~Ø (NÃO-VAZIO) M.P.S.S.T.N.G.G.C.O.P.PG.



Um tema muito difícil de propor e que mesmo assim transfigura um rito anteriormente estagnado em um processo renovador de descobertas, manifestando subsolos múltiplos em um chão que uma vez foi concreto.
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David Kanaga - Operaism



Colagens sonoras de videogame , noise e músicas étnicas formam a Ópera de David.
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G. PAIM – SHARPEST KNIFE



Não há nada que difere as situações além de suas impressões e ainda assim é evidente que não se trata tudo duma mesma coisa, mas advém dum mesmo âmbito (além de obviamente do mesmo artista). A música existe porque causa uma situação. Em “Sharpest Knife” nós nos encontramos imediatamente num acesso múltiplo simultâneo.
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Strange U - #LP4080



Altamente influenciado por MF Doom, todo o álbum é um BANGER esquisito e bizarro demais para não deixar de ser notado.
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FELIPE ZENÍCOLA – PHERSU



A capa diz muita coisa : impressões registradas que depois transformam-se em outras coisas e ainda guardam o espectro inicial da aparência.
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Stabscotch - Uncanny Valley



O desentendimento em ” Uncanny Valley” é encarado como propulsor (temático e sonoro) que deixa tudo que rola no disco extremamente confuso. A capa diz muito: são elementos recolhidos duma realidade objetiva e distorcidos no próprio universo criativo da banda.
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CIDADE ESTÉRIL – CEGOS PUGILISTAS EP



Através de imagens muitos humanas e cruéis, o epicentro dramático de “Cegos Pugilistas” está no embate em não “perder” outro dia. Não é a transformação do dia-a-dia numa guerra, mas sobre a resistência e a força que isso requer. Somos guiados numa narrativa de que é impossível parar, mas até as mínimas pausas na correria diária contribuem pra fortalecer a resistência.
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Daniel Levin / Ingebrigt Håker Flaten / Chris Corsano - Spinning Jenny



Toda a oscilação do disco que garante sua ferocidade. Spinning Jenny é o resultado dos encontros e desencontros (como é sugerido na capa) de cada individualidade. É como se diversos tipos de tensões fossem sonorizados.
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YANTRA – DRONES E EXCURSÕES DE GUITARRAS RUMO AO DESCONHECIDO VOL. 2



Que se apreenda tanto de ilusórias iterações (na verdade o YANTRA maneja os instrumentos de forma bem ampla) é o mais impressionante do disco. Por conseguinte, o que se apresenta como central – a repetição – e o que se reconhece como emergente – as variações – são iterações da mesma origem. É o campo de bifurcação entre a consistência e inconsistência: a partir daí as multiplicidades interagem com o ouvinte.
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Jacaszek - KWIATY



Outro álbum que trata de nostalgia e lembranças etéreas construídas por nossa mente ao nos relacionarmos com a música. A conjuntura de espectros pretéritos vem à tona todas as vezes que eu ouço o disco ; é como andar em suas próprias projeções e esbarrar em seus próprios fantasmas. O ponto em que a narração não se sustenta contra a deformidade de nossas memórias , transformando esquecimentos em criaturas presentes com outros rostos. Não há construção de significados , só há aparência.
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VERMES DO LIMBO + BERNARDO PACHECO – BERNE FATAL



O desenvolvimento que o Vermes Do Limbo mais o guitarrista Bernardo Pacheco entregam em “Berne Fatal” é de uma decomposição colossal. O axioma da ação é juntar a guitarra quebrada de Pacheco com a sensação crônica de “locomoção urbana subterrânea” que os Vermes sempre passaram em sua trajetória.
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The Pablo Collective - The Death of Pablo



Eu honestamente não sei por que to colocando isso aqui, mas como um fã do Life Of Pablo eu acho que ouvi mais este disco aqui do que o "original" . Acho que a internet foi longe demais.
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MELIES – EPHEMERIS



Os vestígios impressos em “Ephemeris” são retalhos de qualquer coisa (experiências, técnicas, esboços) que surgem pra se confirmar e elevar o som a algo puro e, temporariamente, sem vestígios conceituais ou tecnicistas. As funções não importam muito e nem o tempo objetivo da (curta) duração das faixas. Elas fazem jus ao nome do disco que alçam detalhes aparentemente tão pequenos a uma dimensão cósmica e, portanto, humana.
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Avec le Soleil sortant de sa bouche - Pas pire pop, I Love You So Much



Desde que eu ouvi Pas pire pop , eu preciso voltar nele de tempos em tempos. É um disco esquisito e viciante.
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PALLIDUM – STRICT



O efeito cumulativo de “Strict” se sobrepõe a todas as predisposições que inegavelmente criamos quando vamos ouvir um álbum. Não é apenas que o disco tem “vida própria”, mas ele carrega em si uma paranoia intrínseca à realidade, dialogando com resíduos e lugares desabitados e esquecidos.
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Paal Nilssen-Love & Frode Gjerstad - Nearby Faraway



Desde o começo calmo até os caóticos frenesis no meio do disco, Nearby Faraway nos apresenta um Nilssen-Love em seu melhor. É como se a dupla tentasse não dividir suas individualidades, mas sim a intimidade da qual uma relação é constituída.
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CV – II


Em seus momentos mais intensos, principalmente na faixa “ii”, o submundo erguido por Miazzo parece um culto secreto onde não há ninguém presente. Talvez, realmente, um (por assim dizer) “momento-eterno” só apresenta seu vigor físico (o chiado constante) quando não há alma para testemunhá-lo.
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Mary Lattimore - Collected Pieces



Apesar do que o nome sugere, Collected Pieces não se trata apenas de peças que se individualizam no Todo que é o álbum. A harpa de Lattimore, obiamente, une os estilhaços para emprestá-los a delicadeza da mundanidade. O que explica a beleza-efêmera do disco; é uma compreensão que só pode ser afirmada na brevidade de suas notas.  
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JULIANA R. – TAREFAS INTERMINÁVEIS



A transparência vedada em “Tarefas Intermináveis” é um paradoxo temático e sonoro que cria campos particulares que teoricamente se refutariam mas isso é impossível uma vez que eles mesmos convivem em Juliana.
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ho99o9 - United States of Horror



Eu não ligo para o que dizem sobre esse álbum , mesmo. Ele é muito energético e divertido. E acho que nem esses caras se levam muito a sério, embora dá pra visualizar sim um conceito entre a agressividade do disco e as letras explícitas. Se eu pudesse dirigir, isso daí não sairia do meu carro.
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SANZIA – ATSM



Mais do que somente imposições formais, “atsm” é uma espécie de drone folk que coexiste com o ambiente conturbado de outras obras de Miazzo. São acordes intermediários entre ambiência um tanto quanto onírica e recortes sonoros que diferenciam “atsm” de seus outros trabalhos. Sons parecidos com outros lançamentos também são sentidos, só que aqui eles fazem plano de fundo para as canções de “rock” que figuram em primeiro plano.
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Moon Duo - Occult Architecture, Vol. 1



O tema de Occult Architecture é muito parecido com a capa ; há sim uma narrativa que leva o ouvinte em certo enredo até este ser desmanchado pela precisão sinistra do grupo. Por isso que este disco é indiscernível. Porque apesar de dialogar a partir de elementos bem tradicionais do rock progressivo, a utilização deles é realizada de maneira pouco usual. Então, ao mesmo tempo que o disco seduz o ouvinte fã de certo tipo de música, a instrumentação oculta outras possibilidades.
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DJONGA – HERESIA



É na noite que serve aos reis e rainhas que Djonga conseguiu se transformar junto com seus amigos, através da subversão mística e mostrando o sagrado da realidade. A palavra serviu de algo.
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Lean Left - I Forgot to Breathe



Dois ex-guitarristas da banda punk alemã The Ex se juntam a dois dos melhores improvisadores do jazz contemporâneo para criar uma banda que atravessa as fronteiras de ambos os gêneros; I Forgot To Breathe faz jus a seu nome e é impressionante o quanto de coisas pode-se criar entre uma respiração e outra.
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RALLYE – OUT AND ABOUT EP



Rallye me lembra também o tipo de hardcore melódico na virada dos anos 2000 que estourou no ABC paulista (onde eu morava na época) e que me trouxe tardes menos solitárias. Há uma razão que supera essa nostalgia, porém: os sing alongs contagiantes são capazes embalar qualquer dia não muito bom.
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Aaron Dilloway - The Gag File



É estranho que num trabalho de noise algo como "ritmo" fique tão explícito quanto temos em The Gag File. São ritmos de destroços, é verdade. Mas mesmo assim é impressionante como o subterrâneo é capaz de adquirir uma massa sonora e ainda assim resistir ao aniquilamento completo - enquanto, paradoxalmente, o cria.A narrativa 0 (zero) de Dilloway é este movimento entrópico de arcos , anteriormente criados por ele, sendo destroçados e essa destruição ser a repetitiva forma dele criar música. É neste ponto de controvérsia extrema que a música dele se manifesta, como anotações ocultas da arquitetura de uma cidade grande. A afeição pela contrariedade é algo recorrente no noise e neste vetor Aaron não peca. Ele constrói sua paisagem embaixo de conversas & sussurros, como se só tivesse sua maldição durante o resto de sua vida. 
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VATHLO – EP



O axioma do EP do Vathlo se baseia numa urgência em que a densidade sonora é profundamente esparsa, caracterizando cada som como insubstituível e como uma formulação natural de deslocamento do conceito mais tradicional de “rock” pra uma ambientação hipnótica em que a estrutura sai do simplismo “rítmico” pra aderir ao prolongamento do instante.
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P.O.S - Chill, Dummy



As letras de Chill, Dummy tratam , acima de tudo, sobre as perspectivas que uma pessoa pode adotar no decorrer de sua vida. O que me fascina em Chill, Dummy é que ele é dotado duma espécie de ambição natural. As habilidades de P.O.S enquanto MC se ambientam em batidas etéreas, às vezes abstratas.
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JARDINEIRO – MIXTAPEZINHA DO MAURRICE



Mesmo com essa continuidade sonora bem delimitada e estabelecida, toda a mixtape não deixa de soar como algo esquisito, em que a dinâmica de continuidade não necessariamente “convence” (o que não importa muito, visto que toda a proposta da mixtape é clara no sentido de propor um relaxamento).
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Kungens män - Bränna tid


Uma jam tranquila que se baseia em repetição e improvisação
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CORA – NÃO VAI TER CORA



Por mais abstração que o EP traga, todo o clima constrói uma interação com o ambiente ao redor (a cidade) que caracteriza uma necessidade do eu-lírico de se erguer e afirmar em meio a todas complicações. Fazer música como forma de gritar sua autonomia exige uma fé crucial no potencial transformador que as canções podem ter.
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Tony Malaby, Mat Maneri & Daniel Levin - New Artifacts



New Artifacts é um álbum completamente conceitual e necessita de muitas audições, até mesmo para quem já está familiarizado com o trabalho do trio. É uma propagação triangular que brinca com conceitos geométricos e investigações sonoras em todo seu perímetro.
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CV – NOIR



O álbum pode ser encarado como uma maneira de relaxamento – ao contrário de outros trabalhos mais agressivos do músico, “Noir” pode muito bem ser tocado como plano de fundo pra outras atividades – embora o destaque seja sempre a condensação bizarra que é transfigurada pra audição.
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Oto Hiax - Oto Hiax



O poder do Oto Hiax se baseia em poder modificar bruscamente o humor do ouvinte. Os sintetizadores da dupla muitas vezes criam campos difusos fazendo com que habitemos em diversas instâncias durante toda a audição. Isso por que texturas diferentes interagem movendo sempre o que é "sentido", ainda assim contribuindo para que nunca nos descolemos de qualquer eixo sonoro.
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NATURAL NIHILISMO – PSEUDONYM UNKNOWN



Pra um artista com a sensibilidade social e psicológica como Jhones, o único retrato possível passa pelo filtro da angústia (eu não consigo imaginar qual seu processo de composição e fica aqui uma admiração por seguir incessantemente um caminho árduo em que, aparentemente, a única espécie de recompensa são tímidos ecos de outrem aqui e acolá). “Pseudonym Unknown” traça uma percepção produtiva de alguém carnalmente embutido na realidade.
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Expressway Yo-Yo Dieting - Undone Harmony Following



Hip-hop pesado. Do inferno.
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GIALLOS – BLAXXXPLOITATION EP



Contas pagas não significam nada. Deus não significa nada. Encare como quiser, pois, assim como as guitarras dispersas do EP (elas literalmente distorcem pra todos os lados), a banda não está apelando pra nada no ouvinte e parece muito à vontade ao expor sua curta-vontade com o mundo e os assuntos em geral.
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Group Doueh & Cheveu - Dakhla Sahara Session



Blues do deserto + sintetizadores + um rock que abandona suas estruturas genéricas 
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IN VENUS – RUÍNA



As várias influências que gritam no disco não embaçam o berro próprio que “Ruínas” vai formando – socos na cara como a faixa “Cotidiano” precisam ser desferidos constantemente, mas mais do que isso, eles precisam ser expressos no mais urgente agora, pra que as estruturas não pesem tanto nas costas a ponto de impossibilitar qualquer eco próprio.
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Shelter - Shelter



A improvisação livre é evidenciada de maneira lenta, como que se decompondo.
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BAD REC PROJECT – EVERY UNION SHOULD BE A LOVELY UNION



O Bad Rec Project narra – com “estranhas” ambientações instrumentais – passagens cotidianas que, no momento em que ocorreram, significavam o mundo e agora, com o peso do tempo, até podem perder certa áurea “mágica”, mas adquirem o corpo mundano e mortal sendo, justamente por isso, mais valorosas. Quando se é jovem e idiota não se tem noção dessas coisas e tudo parece um motivo pra rir – e não há nada de errado com isso, mas também certa idiotice adolescente é reencontrada pela pessoa que nos tornamos e podemos rir daquelas velhas coisas, ainda que por outros motivos.

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