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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ricardo Donoso - Machine to Machine

Impressiona muito a coerência dos últimos lançamentos de Donoso no decorrer dos últimos anos; é sempre essa áurea essa celeste, como se outros seres (trajados às vezes como espíritos ou entidades) fossem invadir nossos corpos. Sua obra é repleta de trabalhos atmosféricos arquitetadamente construídos sob a influência da utilização de sintetizadores.

Machine to Machine é realmente aquele típico trabalho que é melhor ouvir sozinho, com os fones de ouvido, imaginando cenários possíveis para a grandiloquência que é o clímax da primeira peça. O álbum, inicialmente, se revela como algo que vai conter muitas insinuações e detalhes que só podem ser percebidos depois de algumas ouvidas. O problema é que os “defeitos” nunca vão ser concretizados enquanto potência e vão permanecer no plano do interminável. A música de Donoso é muito pautada em riscos, mas aqui eles não soam perigosos; parecem efeitos que existem por uma aleatoriedade estética que Donoso raramente mostrou em sua carreira. Infelizmente, essa falta de força e fibra está em todo Machine to Machine.

Não é um disco coesivo como Saravá Exu em que a unidade da progressão sonora convivia com a repetição sem corromper nenhum propósito de Donoso. E não é nem que algo soe “corrompido” em Machine to Machine, é que não há ponto de ligação entre os microssistemas que o formam. Não é um processo de derretimento como o antecessor e pra falar a verdade, eu tenho alguma dificuldade para saber sobre o que se trata exatamente. Há, no entanto, em alguns momentos, uma pluralidade de sons que aponta redenções para o disco (elas só podiam acontecer mais). Aliás, é essa pluralidade que pode rasgar a faceta mais “frágil” da música de Donoso e aproveita melhor seu potencial.

Não é no conceito que Machine to Machine se equivoca, mas sim na falta de um cerne que realmente represente toda a história intencionada. Há intenção, mas não há evidências dessa intenção. Não há cortes, não há interrupção. Ao mesmo tempo, nada parece intencionalmente contínuo. Parecem sons aleatórios. Os movimentos não soam vivos (e não é realmente como se a morbidez fosse a intenção). Sabemos a vocação de Donoso para a retaliação, para a estruturação cuidadosa de ambientes que depois são esmagados.


Sei que soa um pouco impreciso simplesmente falar que não há naturalidade na movimentação de Machine to Machine, mas realmente me parece um apanhado de sons que normalmente (pela facilidade de Donoso) transitariam em unidade sem problemas. As máquinas de Machine to Machine existem por existir; elas não constroem nada, elas não retaliam nada e elas não ameaçam nada. A música não se mostra soberana; é evidente que tem alguém manipulando e que estamos sendo manipulados.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

hateyourmusic - tenha bons sonhos [2015]

Gosto de falar sobre discos, aqui, “a partir” da percepção. Ou seja, como a música de tal artista realmente me atravessa e a experiência que esta me propicia. Acredito que isso seja mais honesto e não estou tão apto a falar de “gêneros” ou “tecnicismos”. Acredito que isso cega a conversa e o diálogo/rombo que a arte pode causar. Digo isso porque “tenha bons sonhos” perfurou minhas sensações desde a primeira audição.

“tenha bons sonhos” trata, principalmente, de problemas grandes. Problemas enquanto indagações numa escuridão profunda. Os signos que importavam tanto pra gente (o desmoronamento de uma casa) se dissolvem em desilusões presentes, onde apenas restam rememorações angustiantes do que se passou. São essas narrativas misteriosas e inconclusivas que ambientam o disco. Relações entre o que “está submerso” e a estética, onde expressar essas obscuridades se torna a complexidade do próprio discurso. Trata-se de colisão, as mesmas memórias que nos formaram são nossas fraquezas, e reparamos na nossa fragilidade, em afirmações tão simples ainda assim essenciais (“porque tudo é em vão”). É trazida a nós uma lamentação profunda e verdadeira de quem sente a vida (assim com suas fortalezas, sua segurança) escorrer pelos dedos. O que podemos ver, depois de tudo que passamos? Nossos sofrimentos e nossa tristeza não nos ensinaram nada?

O álbum é dividido em duas partes e a segunda, conforme o próprio bandcamp do projeto, é destinada para “relaxamento”. São duas longas faixas, que tratam de impressão- a figura da mulher que some na escuridão noturna. Mas diferente talvez da primeira metade do disco, há nessa segunda etapa uma “aceitação das ilusões”. Tanto que a ambientação aqui se torna preponderante, como se o “eu lírico” que habitava as canções anteriores fosse lançado para um local imerso em “aparições”. A abordagem mais onírica contempla uma espécie de vazio, há um deslocamento e não estamos mais em lugar algum, as indagações também não têm mais tanta importância. Há uma espécie de deslumbramento nessa manifestação, sua finalidade não é explicita- e sinceramente duvido que de fato tenha alguma “finalidade”. É quase uma exposição do “nada”, as transições de um local “vazio” para outro. Não por acaso o álbum tem o nome de “tenha bons sonhos”, se dormir é um espaço de tempo onde objetivamente coisa algum acontece. Quase um ritual místico para o “sono”, para que a tristeza de toda a primeira parte possa ser -durante esse período- esquecida.

Claro que esse esquecimento temporário não significa uma tentativa de fuga. Ao acordar vamos ter que confrontar com as mesmas merdas pendentes do dia seguinte, não há escapatória. Justamente por estarmos nessa prisão sem saídas, que devemos aproveitar ao máximo esses períodos “entre” os acontecimentos. A última faixa, “boa noite, punpun” é uma referência ao mangá Oyasumi Punpun, de Inio Asano, onde a personagem principal passa por uma série de situações que o força ser adulto, onde as pessoas tentam encontrar significado para sua existência, e no fim ninguém encontra um significado pleno. Aliás, “tenha bons sonhos” encaixa completamente no ambiente do mangá. As emoções que se contradizem, o ciclo que nossa vida se transforma e ainda sim uma realidade imutável, praticamente intransponível. Dessa morte inescapável, porém, surge a poesia, as iminências que atravessam nossas experiências e fazem brotar sensações que nos atinge na pele, potencializando nossas possibilidades, nossas angústias.


Toda essa sensação de prisão que perpetua a audição de “tenha bons sonhos” é de uma constatação de nossos limites físicos, sofrimentos psicológicos. Nós queremos morrer, nós queremos viver e é justamente essa diversidade (que muitas vezes nos esgota) que cava sentimentos mais profundos e sinceros. O hateyourmusic amplia seu espaço (o espaço “negativo”, o campo da “escuridão”) para valorizar as coisas que ficam retidas. Para evidenciar o massacre da realidade e se maravilhar com o vazio.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Kovtun - Androginóforo [2015]

O Kovtun lançou um dos meus álbuns favoritos no ano passado, pela “desolação” e repetição de temas. Ocorre, em Androginóforo , o oposto. Aqui vemos uma obra mais aberta do que a saturação da antecessora, aqui temos mais desvios e inquietações- isso provavelmente em função de que cada uma das quatorze faixas tem participação especial. Aqui as medidas são destroçadas, pois cada movimento-canção é uma afirmação e negação da faixa antecessora. Afirmação porque reconhece sua unidade, negação porque busca outras expressões. Estamos, ao invés da uniformidade de Sleepwalking Land, em um local onde não há controle e cada imanência irrompe e se estrutura em suas próprias aflições, em seu próprio instrumental. Poderíamos pensar, “mas com essas divisões, não seria melhor ouvir o disco íntegro de cada participante? Como encontramos um núcleo criativo do próprio Kovtun?”. Mas não são objetivamente divisões, são blocos de um mural gigantesco (o disco tem uma hora e meia), e as próprias controvérsias dessa estrutura garantem a unidade de cada participante. O disco não seria o mesmo sem as aves e o barulho absurdo na colaboração com o Godpussy e assim por diante. A abertura, então, está na vastidão que o ouvinte tem que encarar, assim como na ambição do disco e suas múltiplas facetas- é mais difícil, assim tão recortado, e provavelmente mais recompensador.

As variações desafogam e trazem repentinas e interessantes mudanças de estrutura, talvez a única forma de criar um disco tão grande seja apostando tanto nas bifurcações de gêneros mais “densos”. Pois eles próprios são radicais às suas maneiras e demonstram alicerces mais dinâmicos do que a simplista nomeação de “barulho”. Com meu quarto devidamente fechado, são fascinantes os “empréstimos” imagéticos que as músicas me proporcionam, seja nas mais econômicas (ou a primeira parte, como imagino uma divisão estética) ou a segunda, que agride mais. Penso, porém, que elas se unem porque são como defuntos procurando um terreno mais hospitalar, e por isso tamanha difusão sônica e necessidade agressiva, o corpo já sabe que o mundo aparente, essa tal de “realidade”, não serve mais. Precisamos respirar em outros lugares. Nossa mente pode se atrever a isso se nos relacionamos com esse disco da forma que ele merece- sem uma “necessidade” anterior, porque as microestimulações vão jorrar com cada canção e terminar com elas também.

E ouçam isso alto. Pois há aqui uma espécie de “grito” anônimo que ecoa em cada base distorcida, cada repetição que aumenta e cada acidente que topamos. É um disco que versa sobre uma dor que é impossível de especificar, uma inquietação constante que fez com que Mandra (ele é o Kovtun) decidisse reunir esses nomes e nos oferecesse tamanho corpo que registra uma época bem importante de nossa música independente (aqui eu estou assumindo as motivações por trás do disco). O ambiente enclausura e rompe com uma organização mais “meditada”. Ao mesmo tempo em que temos aberturas instrumentais que nos deixam mais a vontade até mesmo para divagar, as pancadas dessa parede nos deixam estáticos. Não há uma limitação da experiência, apenas uma força própria que não permite titubeação. São músicas que exigem sim atenção e apresentam camadas que merecem ser ouvidas muitas vezes. Falei sobre a “possibilidade de divagação”, mas não quero diminuir nada. É um disco perturbador. São barulhos agressivos, são estruturas que nos confundem, na maioria das vezes.


Eu evitei ler qualquer coisa sobre o disco anteriormente porque queria deixar aqui somente minhas sensações, minha experimentação. Por exemplo, o nome das músicas, aparentemente científicos, o que querem dizer? Aqui eu volto à parte que questionei o porquê de um disco em que todos os faixas têm participação de outros artistas. Não há resposta, na verdade (para o nome das músicas). Eu poderia ter falado também sobre as variações e os “gêneros” que esse disco atravessa, mas imagino que tags reduziriam a inauguração que Androginóforo propõe. É através da escuridão que envolve todo o disco que, talvez, podemos encontrar algo mais simples, para podermos nos maravilhar com cada “surgimento” (e não começar a questionar o porquê do nome das músicas, ou o porquê das participações). Androginóforo é um experimento do Kovtun, mas também uma afirmação. Sem objetivo aparente, ele se ergue e exterioriza que uma música significativa sendo realizada no Brasil que não é demonstrada em charts, na Wire ou qualquer outro veículo. Mas que ela existe e é substancial. Que ela não hesita e que ela não se explica- ela só pode atravessar e ser atravessada. Espero que essas irrupções aconteçam com quer ouvir o disco. Comigo aconteceu.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

No caminho de Swans, a tortura e demência em To Be Kind [2014]


Pra ouvir Swans, não tem jeito- headphones grandes que abafam qualquer som ao redor. Ou alguma caminhada no parque perto daqui, de tarde (quando não vão as crianças, os idosos, mas só os vagabundos desempregados). Um pequeno lugar desolado no meio da sempre preenchida paisagem urbana. Dali é possível ver as prisões domésticas que nos trancafiamos todos os dias, dali tudo parece tão simples e óbvio. E desculpem-me o sentimentalismo, mas ouvir Swans é uma experiência, algo que pulsa e que nos tira de qualquer racionalização babaca.

Esperei até que o álbum pudesse ser, hum, encontrado, em 320 kbps- poxa, o Swans merece isso. Fazia frio e chovia. Assim que Screen Shot iniciou, lembrei-me rapidamente dos primeiros lançamentos do conjunto; um mix conturbado de dissonâncias punks e ruídos, um Swans ainda que fora da caixinha, relativamente acessível, como uma isca para ouvintes ingênuos, que deveriam ficar mais atentos com o final tenso da faixa. Já podemos sentir o monstro sonoro que é a banda, ou melhor: que a banda se transforma constantemente em suas apresentações ao vivo, adicionado à dissonância já conhecida dos outros trabalhos.

Eu não sei o critério que eles usam para selecionar o que de fato “entra” ou não em um álbum, mas há uma catarse única em que vazios sinistros são arrematados por dissonâncias- e esse inter-rompimento, brusco ou não, talvez seja a característica mais marcante da carreira da banda. O que Gira tem imposto com muito conhecimento, é uma espécie de simplicidade sônica- como criar texturas tensas sem deixar de ser relativamente acessível, e o que importa é o impacto e a intensidade dessas explorações. Esses grooves simples, do contrabaixo, por exemplo, não estão dispostos como fim em si- mas para causar no ouvinte uma sensação de amedrontamento, desespero, fobia, horror, medo, pavor, temor.

Um céu que constantemente é cortado por nuvens e que parece prestes a uma tempestade a todo instante. Estamos debaixo dessa profusão de cólera e rebelião, onde as pequenas frestas para a luz são rapidamente cobertas por um vocal esguio, antipático- desenhando um quadro cruel, um organismo vivo capaz de dilacerar qualquer coisa bonita construída, melhor: uma britadeira criativa, ao mesmo tempo destrói e constrói. O louco nomeado como Gira é muito versátil: opta por melodias, berra, brada. É evidenciado um desgaste com pré-formulas em busca de novas explorações sonoras ainda assim dialogando com trabalhos lançados pela banda há vinte anos.

As guitarras discordantes enegrecem o céu. Nada mais está visível: apenas uma longa e prolongada zona obscura. O pior já passou ou tudo foi apenas um prenúncio do devir- já estamos na segunda parte do disco. É incontestável que temos o melhor desempenho vocal de Michael Gira ao longo de sua nada breve carreira- um esforço descomunal para desordenar tudo. Em cada canção haverá um chilique, um tremelique, um ataque de sobreposição vocal totalmente foram do tom. O que favorece totalmente o objetivo estético do disco. Vi algumas pessoas falarem que ele usa a voz como instrumento; permita-me discordar, diferentemente do Sigur Rós, a voz de Gira não une ou complementa possíveis melodias; ela é o caos, a reviravolta dentro da dissonância maluca. Sim, somos alçados ao ambiente também por causa dela, mas, e o Swans é prova viva disso, os desacordos e a justaposição de negações também auxiliam para respectivas finalidades.









Faltam alguns minutos para a escuridão completa. Eu já havia formado minha opinião referente ao disco antes da última faixa surgir como algo que tenta justificar tudo o que passamos: as diferentes sensações. Os trabalhos anteriores do Swans brotava inadvertidamente na minha mente, toda a maluquice desenfreada, as bradadas. Fiquei agradecido por ainda existirem bandas assim. A forma como o álbum termina é o melhor exemplo do quão íntimo, particular, intenso, aflito, agitado, enérgico e profundo o Swans pode ser.

Algumas críticas bateram na repetição do álbum, mas é justamente essa concentração de camadas sonoras que explodem em várias direções que amplia- pelo menos o meu- universo de apreensão estética.  A característica selvagem da condição humana. Aqueles que querem ficar dentro da convenção (ultrapassada desde sempre) usual de música podem ficar nessa casa de estruturas, mas vão sair perdendo. É uma jornada admirável, e talvez ainda seja difícil entender a proporção do corpo musical que o Swans está criando- mas já tem seu pilar fincado nas estruturas de qualquer porra-louquice que surja daqui pra frente.

terça-feira, 18 de março de 2014

Dead Body Collection - Psychological Mechanisms [Self Release - 2012] A liberdade e a repetição




“… era preciso haver um lugar em que você pensasse, de cuja existência soubesse e pelo qual talvez suspirasse- mas jamais viesse a conhecer”, Alice Munro

No final de 2012, surgiram alguns ruídos bem criativos. Dead Body Collection oferece mais de setenta minutos de pura imersão no desconhecido, e com uma linda arte artesanal preto-e-branca.

O disco é composto de duas longas músicas sem nome. Eu fiquei muito admirado com as texturas da primeira faixa, que embora seja sim difícil de “digerir”, tem ruídos prolongados e de maneira nenhuma agressivos. Como em um lugar desconhecido, sua simbiótica -com nossos ouvidos- é organizada por uma interessante relação de percepção. Em relação às mudanças, a primeira ocorre ao redor dos 10 minutos, demolindo o ritmo. Aos 20 minutos, as interferências internas ficam mais intercaladas, quase sem harmonia principal. Outra variação ocorre aos 27 minutos, voltando a ter um tom mais harmônico- com uma textura que vacila entre rápida e lenta.

A segunda faixa- também não nomeada- é apenas um prolongamento da primeira, ocorrendo à mudança entre as músicas de forma orgânica. Não mais temos barulhos rápidos, ao invés disso, o desempenho anda em circulo, a busca da fixação inexistente. Este processo é desequilibrado e nada preciso. Você pode pensar aos 10 minutos de música, que as coisas vão se abrandar, porque os barulhos suavizam- ledo engano, o ressurgimento inesperado é concretizado com tanto peso como uma chuva de granitos. E a repetição de enganos não se prova seletiva ou involuntária- no resto de toda a faixa, as texturas vêm, voltam, ficam mais densas novamente. O som passa por outra mudança aos 20 minutos, onde pequenos tecidos que haviam esparramado durante os primeiros dezenove minutos de música juntam-se, ou tentam se reconstruir “amigavelmente”. Apesar de ao decorrer da obra, pensarmos “eu já ouvi isso”, a maneira que as fagulhas a pouco deixadas no caminho voltam à tona e se tornam base da construção sonora evidencia que a repetição é de fato uma arte. Ficamos trancados nesse muro sonoro, e ao nos depararmos com a liberdade- ou quando se encerra o álbum- a sensação é de confusão.

Além de uma qualidade gritante, Psychological Mechanisms é sim um trabalho psicológico que lida com uma questão: é possível existir liberdade onde a repetição é cotidiana? Neste sentido, é óbvio que a única resposta plausível é ouvir o disco e tentar compreender o processo de elaboração de alguma possível saída. Resposta, eu não tenho. Mas quem disse que os meios têm que justificar os fins?

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Rádio Morto- Escatologia Poética [2014]




Uma classe média cafona, travada, vivendo em prisão domiciliar, com os periquitos, os cachorros e os gatos castrados”, Fernanda Torres.

Ao ouvir Ratos Mortos, já somos contaminados pela hibridez que o Rádio Morto apresenta em seu último disco (o “grupo” aparentemente acabou), podemos ver esse álbum, então, como uma ode à morte.

O disco tem odor de noite, aqueles rolês fétidos e sombrios no centro de São Paulo durante a madrugada, como mostra a faixa de abertura, Ratos Mortos. O Salvador apresenta uma ambientação esquizofrênica, e um confronto entre crença/niilismo. No início temos uma roga a Deus para que a salvação ocorra, para no final ele pedir a liberdade do próprio salvador, de suas amarras morais e fundamentalistas.

Misantropia começa lenta, obscura, até a entrada dos tiros e dos beats de hip hop. Junto com essa levada de rap, há uma sonorização que oprime a voz, enquanto sons referentes a uma catarse urbana podem ser ouvidos.

A atmosfera de O Pesadelo é totalmente obscura, pesada, arrastada; os vocais são quase como uma assombração e a música poderia ser a trilha sonora para definir o que é sinistro. O Silêncio parece que é baseado em um conto que Raphael Mandra (quem encabeça o Rádio Morto) escreveu; mesmo clima pesado, arrastado, contrabaixo deixando a atmosfera incompreensível. Vale a pena prestar atenção na letra, a melhor do álbum.

Gótica Profana tem clima industrial e sons tensos, com o baixo completando a coisa toda, muito soturna. Carnaval no Cemitério: o título diz tudo, um carnaval sinistro com batuques de percussão, por baixo sons que lembram a morte, assombrações.

O niilismo entra com tudo em A Caveira, música que constata nossa nadidade originária. Musicalmente, é um dark ou freak folk, com o vocal praticamente falado, agredindo o ouvinte verbalmente a todo instante.

O desejo de redenção é o tema de Paisagem, música semiacústica que conta com escapadas e ecos suspensos em uma letra onde o espírito almeja os “grandes céus”. A letra de Psicofuga associa-se muito forte ao som, esquizofrênica, fala sobre desejos, enquanto ouvimos estalos fortes no plano de fundo e um alto e claro “foda-se você”.

Ave Negra é lenta, cadenciada, cheia de chiados, que me faz pensar em contos débeis e doentios. O Funeral contém uma letra muito forte, prossegue o ritmo mais lento da música antecessora, enquanto numa negatividade suprema, Mandra afirma “meu funeral é só um deus desconhecido”.

Ad Eternum fecha o ciclo; um drone com baixo crescendo, alguns movimentos e escapes bem orgânicos, construindo o muro sonoro para vozes indecifráveis. Depois dessa jornada calcada em uma obscuridade, em que esquizofrenia, misantropia, sexo, morte e redenção são explorados com um viés completamente único, parece que é o fim do Rádio Morto. Ao menos pelo que encontrei pela internet, uma pausa indefinida. Valeu Rádio Morto, as produções caseiras, o lo-fi remoto e aqueles que têm medo e ódio agradecem.