segunda-feira, 11 de maio de 2015

hateyourmusic - tenha bons sonhos [2015]

Gosto de falar sobre discos, aqui, “a partir” da percepção. Ou seja, como a música de tal artista realmente me atravessa e a experiência que esta me propicia. Acredito que isso seja mais honesto e não estou tão apto a falar de “gêneros” ou “tecnicismos”. Acredito que isso cega a conversa e o diálogo/rombo que a arte pode causar. Digo isso porque “tenha bons sonhos” perfurou minhas sensações desde a primeira audição.

“tenha bons sonhos” trata, principalmente, de problemas grandes. Problemas enquanto indagações numa escuridão profunda. Os signos que importavam tanto pra gente (o desmoronamento de uma casa) se dissolvem em desilusões presentes, onde apenas restam rememorações angustiantes do que se passou. São essas narrativas misteriosas e inconclusivas que ambientam o disco. Relações entre o que “está submerso” e a estética, onde expressar essas obscuridades se torna a complexidade do próprio discurso. Trata-se de colisão, as mesmas memórias que nos formaram são nossas fraquezas, e reparamos na nossa fragilidade, em afirmações tão simples ainda assim essenciais (“porque tudo é em vão”). É trazida a nós uma lamentação profunda e verdadeira de quem sente a vida (assim com suas fortalezas, sua segurança) escorrer pelos dedos. O que podemos ver, depois de tudo que passamos? Nossos sofrimentos e nossa tristeza não nos ensinaram nada?

O álbum é dividido em duas partes e a segunda, conforme o próprio bandcamp do projeto, é destinada para “relaxamento”. São duas longas faixas, que tratam de impressão- a figura da mulher que some na escuridão noturna. Mas diferente talvez da primeira metade do disco, há nessa segunda etapa uma “aceitação das ilusões”. Tanto que a ambientação aqui se torna preponderante, como se o “eu lírico” que habitava as canções anteriores fosse lançado para um local imerso em “aparições”. A abordagem mais onírica contempla uma espécie de vazio, há um deslocamento e não estamos mais em lugar algum, as indagações também não têm mais tanta importância. Há uma espécie de deslumbramento nessa manifestação, sua finalidade não é explicita- e sinceramente duvido que de fato tenha alguma “finalidade”. É quase uma exposição do “nada”, as transições de um local “vazio” para outro. Não por acaso o álbum tem o nome de “tenha bons sonhos”, se dormir é um espaço de tempo onde objetivamente coisa algum acontece. Quase um ritual místico para o “sono”, para que a tristeza de toda a primeira parte possa ser -durante esse período- esquecida.

Claro que esse esquecimento temporário não significa uma tentativa de fuga. Ao acordar vamos ter que confrontar com as mesmas merdas pendentes do dia seguinte, não há escapatória. Justamente por estarmos nessa prisão sem saídas, que devemos aproveitar ao máximo esses períodos “entre” os acontecimentos. A última faixa, “boa noite, punpun” é uma referência ao mangá Oyasumi Punpun, de Inio Asano, onde a personagem principal passa por uma série de situações que o força ser adulto, onde as pessoas tentam encontrar significado para sua existência, e no fim ninguém encontra um significado pleno. Aliás, “tenha bons sonhos” encaixa completamente no ambiente do mangá. As emoções que se contradizem, o ciclo que nossa vida se transforma e ainda sim uma realidade imutável, praticamente intransponível. Dessa morte inescapável, porém, surge a poesia, as iminências que atravessam nossas experiências e fazem brotar sensações que nos atinge na pele, potencializando nossas possibilidades, nossas angústias.


Toda essa sensação de prisão que perpetua a audição de “tenha bons sonhos” é de uma constatação de nossos limites físicos, sofrimentos psicológicos. Nós queremos morrer, nós queremos viver e é justamente essa diversidade (que muitas vezes nos esgota) que cava sentimentos mais profundos e sinceros. O hateyourmusic amplia seu espaço (o espaço “negativo”, o campo da “escuridão”) para valorizar as coisas que ficam retidas. Para evidenciar o massacre da realidade e se maravilhar com o vazio.

Um comentário:

  1. eu realmente gosto muito desse artista, e é incrível a forma que conseguem me atingir como suas músicas. é um som delicado e ao mesmo tempo impactante pra mim.

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