quarta-feira, 20 de maio de 2015

Anna Clock- "Celestial" [2015]

Nos tempos atuais em que jornalistas preguiçosos jogam qualquer repetição vocal/sonora para a aba do “noise” (afinal é tudo barulho!), artistas como Anna provocam uma reação assustada de quem tem tanta necessidade de taxar música. Podem-se encontrar variações interessantíssimas em cima do processo “exaustivo” que Celestial é. Todas essas alterações são notáveis porque existe a repetição. Separá-las em “movimentos repentinos” seria excluir a integração que forma o bloco sonoro proposto por Anna.

Nomear não deveria ser o objetivo então. Não no famoso clichê “nomear X é reduzir X”, mas que conceitos em cima de conceitos limitam a experiência que a audição de Celestial pode causar. Para não pecar pelo excesso ou falta deste, há de se explorar as possibilidades ampliadas pelo álbum, o que significa passar pelos seus quase quatorze minutos se perdendo e se encontrando, em uma espécie de jogo de aparições iminentes. Talvez essa fuga que caracteriza todos os momentos de rupturas em Celestial seja também a fuga da nomeação. Fugir da classificação, porque por mais “radical” que uma tag seja, ela já está domesticada. Em um plano oposto, é exatamente o que a música de Anna não quer.

O começo de celestial projeta drones clássicos e uma melodia vocal que não entoa exatamente palavras. É como uma harmonia preponderante reinasse um campo de cansaço. Um plano belo, no entanto. As cordas e os pratos projetam toda essa beleza em um desenvolvimento estranhamente inconstante. Inconstante porque amplia a sensação de certa incoerência na repetição. É muito louco. No atroamento do ritmo mais intenso, os instrumentos de cordas tornam-se mais discerníveis. É a tentativa de afastamento. Justamente no momento de maior encanto, é que existe a separação mais brusca. Nessa convergência, o vocal começa a cantar palavras de verdade. O mais curioso é ver como a “união” inicial se desmancha em uma bela poesia. Nesse caso, a união era uma prisão. A harmonia era forçada!

Lidando com conceitos mais “densos” na música, ao mesmo tempo, a sonoridade de Anna puxa certa juventude. Indo para além de uma autopiedade embaraçosa, toda performance dela é uma transe entre o “interno” e a reflexão no vazio exterior, se trata aqui mais de uma “aceitação” do espírito trágico, ao mesmo tempo em que a compreensão de que tudo é tão simples quanto observar as estrelas.

A descoberta da singularidade é o processo de Celestial. Mas ao invés de muitos lugares-comuns (a transição rústico-elaborado), sente-se um empenho pela composição muito bem executada nos dois momentos. Há espaço para a poesia e espaço para a confusão também (não que a poesia seja sinônima de certeza, inclusive as palavras indicam o contrário), ambos os ambientes habitados pela voz, pelos instrumentos de cordas e os pratos. Há o comportamento distinto em dois momentos. Porque o reconhecimento da singularidade de Anna no vazio celeste exige essas transformações.


Mas não se enganem por toda a beleza que a áurea de Celestial exibe. Já disse que há espaço para tudo nesses treze minutos, inclusive para o caos. As trompas invadem e provocam uma zona sonora. De repente, a voz de Anna cede e parece que ela não tem mais tanta certeza. Essas convicções desmanteladas, no final, é o que vão garantir o espaço para a poesia final. A poesia nasce da confusão e do incerto, das tribulações que formulam nossa existência. Somos humanos filhos dos erros. Há tanta beleza nisso que Anna a transpõe para um pacto com o celeste.

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