terça-feira, 12 de maio de 2015

Kamasi Washington - The Epic [2015]

É verdade que muitos (muitos mesmo) veículos trataram The Epic como um suposto “renascimento” do jazz, como se não houvesse uma vanguarda forte envolvendo suas ramificações e intersecções com outras sessões radicais da música experimental. Há de se realizar uma análise profunda de como é injusto o jazz ser simplesmente ignorado tantos anos (há apenas duas resenhas do Peter Brotzmann na pitchfork, por exemplo) e um jornalismo um tanto quanto preguiçoso eleger esse retorno pelo Kamasi. Sua participação, principalmente com rappers muito famosos, catapulta a atenção voltada para o The Epic. Mas aqui vamos tentar realizar a análise de The Epic tentando desconsiderar parte da crítica superficial, com o que o disco realmente pode trazer para o jazz contemporâneo (onde, repito, já existem diversos artistas realizando trabalhos extremamente relevantes).

Fica óbvio então que o jazz perdeu uma parte significativa do mercado, sendo seus representantes mais procurados músicos que abordam temas repetitivos desde os anos 80. É verdade que esse “deixar de lado” ocorre em todos os nichos musicais, mas no tocante ao jazz é de se admirar como nomes do livre improviso europeu, a intersecção com o “noise”, “drone”, etc, é reduzido a um público ultra específico, dificilmente alcançando mais que cem pessoas em um local de apresentação (e isso falando dos nomes já consagrados).

Pode-se ver que para “analisar” esse álbum é necessário uma visita ao que do jazz já foi realizado e tem sido realizado. Ora, o disco tem quase três horas de duração, autoproclama-se “épico”, e todas suas estruturas vem do jazz tradicional- a apropriação com estilos musicais étnicos, o órgão elétrico Hammond, a incorporação de riffs elétricos de rock, os tempos rápidos e as frases melódicas irregulares. São desenvolvimentos importantes e tecnicamente a aproximação dessas abordagens já caracterizam Kamasi como um grande líder de banda.

Todos esses desenvolvimentos (com ceteza ele ouviu muito mais discos de jazz que qualquer um de nós) não devem, no entanto, elevar The Epic para um espectro além-crítico. Acreditem, é um disco bem divertido e fácil de ouvir. As três horas de duração não intimidam nada. O interessante é que essa “crítica hegemônica” que li sobre o álbum não relatou praticamente nada das intensidades emocionais que este atinge às vezes. The Next Step, quinta faixa da primeira parte do disco (são três, no todo), jaz jus ao título- Kamasi sai de suas influências exercidas em todas as músicas anteriores (pode-se ouvir essas canções como homenagem ao Coltrane) para solar com grande intensidade- temos então o vislumbre do artista Kamasi, mais do que qualquer revisão cultura e musical. E nesses fundamentos que a parte crítica deveria se debruçar, é nesse “desabrochar” que podemos prever um músico muito mais autêntico do que as simulações anteriores (que não deixam de ser divertidas e reverenciais), que talvez alce o público do hip hop às possibilidades incríveis do jazz- não apenas meras deferências que soem agradáveis para os ouvidos. É bom prevenir tudo isso antes de escutar esse disco para que as pessoas não pensem “ Kamasi é superestimado” depois de ouvi-lo. É um álbum que fatalmente vai agradar as pessoas já inseridas no jazz, mas que talvez pare por aí. Aos muitos não inseridos que vão entrar por esse disco, ele é apenas um leve espectro das proporções neuronervosas que o jazz pode exibir.


Ao contrário de muitos, não vi radicalismo nenhum na proposta. E possivelmente não consegui cumprir minha ideia inicial de falar só do disco. Não é que ele não mereça, mas seu objetivo precisa ser visto de outra forma para que possamos aproveitá-lo em seu máximo potencial. Gostar de sua leveza, de como quase todas as músicas nos remete aos grandes discos de outros mestres. Minha dúvida sincera é se um entusiasta do jazz pós anos 80 iria achar algo de verdadeiramente impactante no trabalho de Kamasi? A já citada The Next Step e Miss Understanding me garantem que sim- embora ambos os momentos tão significativos possam ser esquecido após três horas simplesmente agradáveis- e é justamente em instantes assim que eu atribuo valor a esse disco. Pois a função harmônica, as assinaturas de tempo e as progressões de acorde dizem que está tudo devidamente no lugar na obra de Kamasi. No entanto, o que mais me impressiona é esses outros momentos, onde o próprio artista sai de sua ambiciosa zona de conforto para pisar num terreno onde a surpresa acontece.

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