terça-feira, 18 de março de 2014

Dead Body Collection - Psychological Mechanisms [Self Release - 2012] A liberdade e a repetição




“… era preciso haver um lugar em que você pensasse, de cuja existência soubesse e pelo qual talvez suspirasse- mas jamais viesse a conhecer”, Alice Munro

No final de 2012, surgiram alguns ruídos bem criativos. Dead Body Collection oferece mais de setenta minutos de pura imersão no desconhecido, e com uma linda arte artesanal preto-e-branca.

O disco é composto de duas longas músicas sem nome. Eu fiquei muito admirado com as texturas da primeira faixa, que embora seja sim difícil de “digerir”, tem ruídos prolongados e de maneira nenhuma agressivos. Como em um lugar desconhecido, sua simbiótica -com nossos ouvidos- é organizada por uma interessante relação de percepção. Em relação às mudanças, a primeira ocorre ao redor dos 10 minutos, demolindo o ritmo. Aos 20 minutos, as interferências internas ficam mais intercaladas, quase sem harmonia principal. Outra variação ocorre aos 27 minutos, voltando a ter um tom mais harmônico- com uma textura que vacila entre rápida e lenta.

A segunda faixa- também não nomeada- é apenas um prolongamento da primeira, ocorrendo à mudança entre as músicas de forma orgânica. Não mais temos barulhos rápidos, ao invés disso, o desempenho anda em circulo, a busca da fixação inexistente. Este processo é desequilibrado e nada preciso. Você pode pensar aos 10 minutos de música, que as coisas vão se abrandar, porque os barulhos suavizam- ledo engano, o ressurgimento inesperado é concretizado com tanto peso como uma chuva de granitos. E a repetição de enganos não se prova seletiva ou involuntária- no resto de toda a faixa, as texturas vêm, voltam, ficam mais densas novamente. O som passa por outra mudança aos 20 minutos, onde pequenos tecidos que haviam esparramado durante os primeiros dezenove minutos de música juntam-se, ou tentam se reconstruir “amigavelmente”. Apesar de ao decorrer da obra, pensarmos “eu já ouvi isso”, a maneira que as fagulhas a pouco deixadas no caminho voltam à tona e se tornam base da construção sonora evidencia que a repetição é de fato uma arte. Ficamos trancados nesse muro sonoro, e ao nos depararmos com a liberdade- ou quando se encerra o álbum- a sensação é de confusão.

Além de uma qualidade gritante, Psychological Mechanisms é sim um trabalho psicológico que lida com uma questão: é possível existir liberdade onde a repetição é cotidiana? Neste sentido, é óbvio que a única resposta plausível é ouvir o disco e tentar compreender o processo de elaboração de alguma possível saída. Resposta, eu não tenho. Mas quem disse que os meios têm que justificar os fins?

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