segunda-feira, 24 de março de 2014

Entrevista com Robert Rich




Eu gosto muito de música "ambiente". A fantástica discografia de Robert Rich me deixa a sensação de eternidade. Muitos barulhos bonitos, como uma jornada no desconhecido. Preenchendo muitos espaços vazios, me deixando fora de consciência. O mundo real parece muito distante, com sons ininteligíveis. Demorou um pouco para "entrar" nos seus álbuns, mas depois disso, fiquei obcecado para ouvir suas gravações. Então, é claro, fiquei muitssimo feliz quando ele aceitou ser entrevistado:
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[Anthem Albums]  Como o norte da Califórnia influência sua música, a maneira que você compõe, cria?

[Robert Rich] No sentido de que eu nasci aqui e permanece o meu lar, eu tenho certeza de que a música e o clima tem afetado minha música mais do que eu sei; mas não de maneiras simples que as pessoas podem imaginar. As pessoas pensam que tudo da Califórnia deve soar ensolarado e feliz, como os Beach Boys ou algo assim. Obviamente isso não tem nada a ver com a realidade. Eu consigo pensar em duas linhas na minha música, que talvez estejam ligadas com o ambiente.
Primeiro, as memórias de crescer na década de 60, sul de São Francisco, cercado pelo inicio dos beatniks e dos psicodélicos do submundo. O ônibus de Ken Kesey estacionava na rua acima de nós, o Grateful Dead fazia seus primeiros ensaios como The Warlocks em uma garagem na esquina, e eu conseguia ouvir o som do meu quintal, toda quinta e domingo. Essas são as primeiras memórias, eu tinha mais ou menos cinco anos. Eu iria de bicicleta a uma famosa livraria, Kepler, e olhava todos os pôsteres e livros da contracultura, o começo do movimento ambientalista, religião oriental e música mundial começavam a chamar nossa atenção. Algo como a sensação de possibilidade definiu minha mente em uma direção, uma esperança de que a mudança pudesse acontecer, um passo por vez.
Outra parte dessa história é de perda, perda do meio ambiente, o crescimento populacional, uma sensação de que o paraíso está desaparecendo por nossos próprios atos (ou atos falhos). A Área da Baia de São Francisco era um tipo de paraíso, duzentos anos atrás, uma terra muito fértil com clima perfeito, algumas das melhores frutas do mundo, montanhas, florestas antigas, oceanos, estuário, fauna. No meu tempo de vida de apenas 50 anos, eu tenho observado as sombras desse paraíso ceder ao concreto, rodovias, sedes de empresas para o Vale do Silício, e habitações para pessoas que vieram para cá trabalhar. Eu sei que esta é apenas uma pequena amostra da crescente população de seres humanos em nosso planeta, urbanização global, e perda de lugares naturais. De alguma forma minha música representa a busca do Éden, e está cheia de desejo e uma sensação gritante de perda. Se nós observarmos que muitas culturas tem o mito da “queda do paraíso”, vemos que pode ser uma metáfora para a exclusão autoimposta do Jardim dentro de nós mesmos, que realizamos todos os dias. Com a música eu tento manter os portões abertos.



[A.A] Quanto você mudou como artista e pessoa de seus primeiros discos para o Meridiem - A Scattering Time?

[R.R] Vale lembrar que nós gravamos "A Scattering Time" quatorze anos atrás, e o atraso em seu lançamento causa alguma confusão. Também, meu papel em Meridiem foi ajudar o  Percy Howard a alcançar sua visão. Eu sou apenas um servo nesse projeto. Quando certas gravadoras progressistas saíram dos negócios, Percy ficou cansado de constantemente tentar. Eu senti a necessidade de completar esse buraco; então eu mesmo lancei o álbum. Isso dito, eu acho que Meridiem é um exemplo de como eu trabalho meu próprio centro de gravidade: como eu experimento novos vocabulários, eu uso o centro como um ponto de balanço, um núcleo que me ajuda a confiar nas decisões que tomo, mesmo que as tome rapidamente, quando improviso. Em 2013, eu voltei para remixar algumas gravações que fiz no primeiro estágio da minha carreira, por volta de 1980, para o conjunto de 4 LPs “Premonitions”, e eu fiquei um pouco surpreso com o quanto que essa música continha sementes para meu trabalho posterior. Como aprendi novas habilidades, novos vocabulários, acho que essas técnicas ainda têm raízes das sementes plantadas muito cedo na minha vida.

[A.A] Como um artista, você acha que a crítica ainda é relevante? Você lê críticas?

[R.R] Sim, eu queria que elas fossem mais pensadas, discussões bem informadas sobre arte e música. Todos nós somos beneficiados ao aprender sobre as ideias atrás das ações criativas, quando a discussão é inteligente e balanceada. Boa crítica escrita pode ajudar as pessoas a entender o contexto em torno da obra de arte. Eu tendo a ser muito autocrítico, por isso, infelizmente, eu costumo concordar com os comentários negativos sobre meus próprios trabalhos, e eu posso ficar um pouco desencorajado em função disso; eu também tendo a ser cético quanto a louvores que dizem que sou brilhante. Eu acho que essas são reações típicas de certo tipo de personalidade perfeccionista.

[A.A] Como foram as sessões de gravação de "A Scattering Time"? Difíceis, divertidas, desafiadoras?

[R.R] Excelentes e intensas! Eu encontrei Percy Howard num casamento de um amigo em 1999, quando ele estava começando seu trabalho com Bill Laswell, Fred Frith e Charles Hayward. Eu nunca tinha visto um vocalista com sua intensidade de trabalho em um contexto de rock improvisado, foi desafiador e excitante. Nós começamos a falar sobre desenvolver o projeto Meridiem, com uma rede mais ampla de músicos, muitos deles da Área da Bacia [de São Francisco]. Percy perguntou se eu queria ser o produtor, e nós começamos a produção em meu estúdio. Trabalhamos juntos cerca de uma dúzia de vezes ao longo de um espaço de 4-6 meses, no começo de 2000, para algumas sessões intensas de raciocínio rápido, a sincronicidade quase Zen. Percy confiou em minhas decisões, e nós confiamos nas pessoas que colocamos juntas no grupo musical. Eu amo experimentar esses momentos fluidos de criatividade, inspiração, improviso. Percy é um cantor de “primeira tomada”. Eu tinha que me deslocar rapidamente. Após essas seções fluidas, eu poderia, então, ter mais tempo para editar tranquilamente as performances, e polir nas estruturas de canção, como você ouve no álbum. Eu pude permitir um pouco do meu perfeccionismo no processo, após a descarga de adrenalina que formou a base. Foi uma experiência emocionante.

  
[A.A] "Space-music" com certeza está em seus trabalhos. Como você “descobriu” isso e pensou, “isso é realmente bom”?

[R.R] Eu penso que a primeira vez que ouvi artistas como Vangelis e Tangerine Dream foi por volta de 1975, então eu comecei a olhar para todos os registros com sintetizadores listados na contracapa. Era a música na minha cabeça, como se eu sempre tivesse ouvido isso. Parecia muito natural para mim. Eu comecei a montar kits de sintetizador, por volta de 1976, esperando criar música daquele jeito, e eu aprendi que era difícil soar bem com equipamentos eletrônicos caseiros baratos! Eu sou grato a Stephen Hill, cujo programa de rádio “Music from the Hearts of Space" tocava uma grande variedade de música introspectiva, me permitindo descobrir novas direções, e ele foi a primeira pessoa a tocar minhas primeiras gravações na rádio, por volta de 1980.

[A.A] A literatura influencia sua música? Quais são seus autores favoritos?

[R.R] Sim, e não apenas ficção literária, mas também ciência, arte, cinema, arquitetura. Eu tenho me inspirado em Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marquez, J.G. Ballard, Stanislaw Lem. Talvez minha maior inspiração tenha surgido da novela "Starmaker" do Olaf Stapledo. Eu gravei uma peça sobre esse livro em "Below Zero." Eu sou muito influenciado pelo cineasta Andrei Tarkovsky- você pode encontrar muitas referências a seus filmes nos títulos de alguns dos meus trabalhos (Stalker, Zerkalo, "The Raining Room", por exemplo). Eu amo arquitetura orgânica (Gaudi), padronização islâmica (geometria). Cosmologia, ciência planetária, micologia e taxonomia (Bestiário)... Eu sou uma pessoa curiosa.

[A.A] Como são suas apresentações ao vivo?

[R.R] Eu tento tratar desempenho ao vivo de uma forma diferente de gravação. Se gravar é como criar uma escultura, se apresentar é como dançar, quero que minhas apresentações tenham uma energia focada, profunda e ritualística. Eu não sou muito preocupado com perfeição técnica, mas sim para criar uma energia mútua com o público, uma viagem em uma espécie de espaço xamânico.

[A.A] Você é muito produtivo. Tantos lançamentos. Às vezes, você tem bloqueio criativo?

[R.R] Sim, infelizmente eu fico preso. Eu tento não trabalhar quando as ideias não estão fluindo. Há sempre algum trabalho para fazer no estúdio- às vezes para outras pessoas (eu trabalho muito com produção), design sonoro, experimentando ou aprendendo minhas ferramentas, ou apenas arrumando a bagunça. Ou apenas vou para uma longa caminhada. Em média, só libero um novo álbum por ano, o que não é tão prolífico, eu acho. Eu apenas tento manter o trabalho.



[A.A] Quais músicos são seus remédios?

[R.R] Hariprasad Chaurasia, Ali Akbar Khan, Hamza El Din, Javanese Gamelan, Joni Mitchell, Bill Evans, Miles Davis, John Coltrane, Terry Riley, Neil Finn, Oumou Sangare. Eu podia seguir em frente, mas esses são alguns favoritos de uma ampla gama de sabores.

[A.A] Você ainda ouve os discos que ouvia quando começou a gostar de música?

[R.R] Não muito space music dos anos 70, ou música do começo da cena industrial, o que também foi uma enorme influência. Eu perdi interesse após alguns anos. Mas eu nunca cansei de Terry Riley, e ele é definitivamente minha maior influência. Jazzistas corajosos como Keith Jarrett, Bill Evans, Miles e Coltrane permanecem frescos para mim. Música clássica indiana é sempre o meu lugar para ir quando eu preciso recuar para a música.

[A.A] Deixe uma mensagem final para nossos leitores.

[R.R] Surpreendam-se com a vida. Acho que se pudermos manter um senso de admiração em nossa existência, tanto a luz e as sombras, e permaneçam humildes sobre nosso pequeno papel nesse planeta, então talvez possamos refletir em nossas ações e nos ecos que deixamos para trás quando morrermos.

Robert Rich
Março 17, 2014.

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