sexta-feira, 14 de março de 2014

Jeremiah Cymerman – Pale Horse [2014], O ritual do desconhecido.




Tenho a impressão de estar completamente isolado, em um lugar remoto, perturbador. O que está acontecendo? São ruídos distintos, quer dizer, quando ouvi a primeira vez, pensei que os distinguia, agora nem sei o que são; barulhos que causam desconforto, agitação e inquietação; uma espécie de ritual do desconhecido.

Outra coisa, os instrumentos não parecem querer dialogar- clarinete, violoncelo e bateria aparentam disputar e impor silêncio aos outros dois, como se fosse impossível dividirem o espaço e iniciar qualquer espécie de diálogo.

Já falei da espécie de não dialogo que é esse registro, e a percussão é categórica nesse sentido. Mesmo que tradicionalmente a função da bateria seja harmonizar e guiar o resto dos instrumentos, aqui ela cria barreiras concretas que impendem negociações, como uma porta trancada que não permite um acesso de um cômodo ao outro.

Este processo de distanciamento e não dialogo dos instrumentos fica ainda mais estranho quando eles atingem seu “pico”, se em 1961 Ornette Coleman já praticava o anticlímax em Free Jazz, Jeremiah reforça esse tipo de trabalho, catapultando agora para uma espécie de crescendo onde os sons ficam desconexos e sinistros.

Apesar dos trinta e oito minutos, as duas peças somadas que compõem Pale Horse parecem muito mais longas, depois do fim, estou quase sem respiração, incansavelmente procurando a luz após um confinamento abafado entre tantas rejeições, a procura de ar para respirar.

O disco que Cymerman nos presenteia é tão tenso e bizarro quanto o antecessor, Sky Burial, pode acreditar que poucos conseguem criar um ambiente tão aflitivo e desconfortável quanto sua capacidade de livre improviso e noise que tem nos pulmões!

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