sábado, 8 de março de 2014

A crueldade exposta- Grunt e a misantropia de Mikko Aspa em Europe After Storm




Ele e sua esposa sabiam disso juntos e isso os uniu, pois uma coisa como aquela ou separava o casal ou o mantinha atado para o resto da vida. Não que fossem viver no fundo do poço. Mas compartilhavam um conhecimento disso- aquele espaço central frio, vazio, inviolável.” Alice Munro.

Mikko Aspa; polêmico, é um trabalho relativamente árduo listar outras figuras que tenham causado tanto choque no pós-industrial europeu. Se você está por dentro do Black Metal, com certeza conhece o Deathspell Omega, banda em que Mikko lidera; um trabalho bem mais complexo em sua estética (progressões extremamente bem elaboradas, conceitos embutidos entre mitos pagãos e o cristianismo ortodoxo), mas isso não reduz a importância e o impacto do Grunt, onde a mensagem é um tabefe na cara. Além disso, tem outro projeto eletrônico, Nicole 12, que se difere dos outros dois por sua temática obscena e sexual. Acredite, esse cara vai pegar todas suas zonas de conforto e mandar para o espaço, queima-las, rasgá-las, desconstruí-las e provavelmente foder com elas. O cara é referido como egoísta, esquivo, insociável, intratável, introvertido. Obviamente não dando a mínima pra isso, ele continua puxando os limites de nossos milhares sensos comuns, nos forçando a encarar os recônditos mais obscuros e cruéis que por tantas vezes insistimos fingir não ver.

Mas em Europe After Storm, não reside a malícia obscena do Nicole 12. É um dos álbuns mais encorpados dos trabalhos solos de Misko. Assim como a capa rudimentar, são músicas cruas, nervosas. Com temas que tratam sobre os fantasmas de combates, autoridade, brutalidade, governo e vários outros assuntos sobre a deterioração contemporânea. O que ele quer aqui não é estabelecer ideologias, é um trabalho de denúncia misantrópico cuja única finalidade é estabelecer a balburdia; estabelecer não, apenas deixar evidente o caos disseminado. Como um espectador fetichizado pela ruína do mundo, e que provavelmente desfruta da visão do universo em ruínas. Isso é encontrado em todos os trabalhos do Grunt, um quebra-cabeça indigesto que quando montado pode ser a face da barbaridade, e Aspa faz a trilha sonora dessa geringonça.

Nada mais que o primeiro capítulo dessa epopeia sobre o caos. E nada mais que uma compilação, na verdade, entre faixas que ocupam o período de 1998. Sem que você perceba exatamente, vai lidar com uma fábula sobre a construção europeia através da barbárie tida como “evolução de civilização”. Isso desmistifica a Europa como “terra da paz”, inclusive há uma espécie de fetiche europeu em que uma elite brasileira parece acreditar, sendo que muitos lugares desse continente estão fadados a conflitos eternos. Não é admirável que certos grupos sociais ainda associam o velho continente com uma ideia de paz? Misko desconstrói esse mito. Nada mais natural que ele denunciar esse falso moralismo, e mostrar a decadência em suas entranhas. E nada mais esperado que isso seja uma metáfora sobre nosso caos, nossas sujeiras.

Eis que o Grunt se assemelha muito sonoramente ao Black Leather Jesus, expandindo nossa concepção do que pode ser música, com grandes e obscuras camadas de ruídos. O vocal surpreendentemente varia bastante, aterrorizando em faixas sanguinárias e progredindo bem nas partes minimalistas. Além de contar com os loops- o que mais aparece é um “we can never accept this”- também há quatro faixas ao vivo no final, ainda mais experimentais e barulhentas, decididamente mais cruas. Para os que acham que talvez a qualidade caia na parte ao vivo, ao contrário, além de contar com a excelente gravação (obviamente é mais fácil gravar apresentações ao vivo de quem trabalha com equipamento eletrônico), possui uma entrega enorme e visceral de Aspa.

Este processo de evidenciação da brutalidade é conduzido por Aspa de modo que às vezes beira o desespero, casando com os diferentes climas que a construção sonora exige; embora a primeira vista possa parecer tudo “igual”, as faixas seguem sim linhas diferentes de exibição estética. Digo de uma loucura, da rejeição do paraíso em função da força e da violência.

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