sexta-feira, 21 de março de 2014

Alice e o Peso da Memória- Ódio, amizade, namoro, amor, casamento [2013]



Alice Munro é a última ganhadora do Nobel de literatura. O que inevitavelmente rendeu várias edições para seus livros. Normalmente é muito chato isso, alguém ter que alcançar o suposto prêmio máximo da literatura para poder ser reconhecida nos outros países, mas nesse caso veio em bom tempo. Sendo que os últimos vencedores dedicavam-se a romances e eram homens, a última nominação vem para mostrar que literatura séria não é feita só pelo gênero historicamente favorecido, longe disso. Por ser contista e mulher, há sim certos preconceitos intelectuais e sociais a superar para vencer tal prêmio.

Sim, algumas grandes escritoras venceram a premiação recentemente. E considerando as últimas vencedoras, fica claro que não há um tipo de “apreciação” ao sexo erroneamente considerado frágil, e que há diversas formas de literatura habitando as mentes das mulheres. Evidente que cada uma desenvolve um tipo de linguagem muito específica, embora acabem revelando temas comuns como a memória íntima, proximidade- aliás, praticamente tudo de alto nível escrito atualmente segue por aí. As histórias de Munro se desenvolvem num suposto exterior exemplificado por ações e pensamentos rápidos, numa intimidade abundante, ao mesmo tempo em que se podem ler as histórias sem tomar partido.

A força da memória e o que carregamos do tempo –a invenção, a ficção de uma autonarração- guia as personagens que andam pelo descampado e veem nas imagens nunca antes vistas um inventário de sua vida. Todo convencional objeto ganha dimensões de vida e como a madeleine de Proust, libertam as pessoas do real para serem jogadas no deserto da memória. Como esse deserto é suportável parece ser a resposta mais difícil e por onde os humanos mais trafegam e, consecutivamente, tropeçam.

Algumas peças carregam valor simbólico em seus livros, como os conjuntos de móveis ou decoração das casas, parecem estar intrinsecamente conectados ao despertar repentino da memória. Os móveis de decoração interior também representam dificuldade de ruptura e o frescor do recomeço. Essas coisas deslocam-se no universo de Munro e a forma de conexão é a metáfora para os sentimentos.



Regras da intimidade

Há uma característica de dever conviver com outros, habitar o mesmo lar de pessoas que você não quer se tornar. Quando as articulações tornam-se apenas mecanismos de abastecimento da obviedade rotineira.  O conhecimento empírico domina a literatura de Munro: em algum ponto as personagens percebem que a leveza é tão constante como o sofrimento. Na obra de Alice, as coisas estão mais submersas e não simplificam em uma possível redenção, ao contrário, os raros momentos de redenção são justamente em períodos difíceis- a mulher que vai morrer e beija um homem mais novo sob a luz das estrelas, a empregada doméstica que aceita cuidar do tuberculoso quando este encontra a miséria financeira e de saúde. Escrever esse tipo de contos -em que o real pode encantar e desencantar- exige um domínio estético pleno.

Embora os contos no geral possam ser lidos isoladamente, se analisados há um conceito que une todas essas peças, podendo retratar um quebra-cabeça –ainda não resolvido- que é a literatura de Munro, um universo arduamente construído através de mais que cinquenta anos de carreira. Alice treinava já quando criança a elaboração rápida de ideias em forma de escritos. Virando as costas para os transtornos psicológicos de delírios e poder que reinam nos grandes romancistas atuais, Munro constrói cautelosamente um mundo cuja disfunção reside justamente no fato de tudo continuar.

Os atos domésticos, como a simples tarefa de fazer comida, tornam-se uma reflexão acerca das individualidades. Por isso a época –clima, dia, mês, ano, estação- é anunciada logo no início de uma nova história, junto com uma atividade aparentemente banal, cotidiana. Coabitar sua literatura é entender a busca perdida entre os lençóis, refletir sobre nossas indulgências. Por isso os contos são orlados no mesmo país, Canadá, e na mesma faixa temporal, entre as décadas de 50 e 70, o que incorpora no universo de Munro a formação do íntimo contemporâneo, sob a dissolução das perspectivas históricas que são meras ferramentas coadjuvantes no mundo onde o impacto maior é a percepção do tempo.

Cada início uma aparição, onde surgem figuras demasiadamente humanas despidas de longas descrições, pois tudo reside nos atos que executam. Deparamos-nos com cavalos vigilantes, a comparação da morte com o sentimento de submersão em um lago gelado. Pessoas arremessadas em uma espécie de ordem que se corrói a todo o momento- a menina que se transforma em escritora e corta laços com os antigos amigos de sua família. São entradas inesperadas que abrem alas para as personagens torturadas por desejos contrastantes.

As personagens buscam sua sensação da memória, e não os atos executados, por isso ficam perdidos. A destruição de marcas da infância refere-se a estas perdas. Como produtos queridos que de repente somem de nossas gavetas. Uma catálise do jargão: “só se ama quando se perde”. A recusa está em aceitar que as coisas não estão nada sobre nosso controle. Todo trabalho de uma vida estruturada pode ser arruinado por desejos alheios.

Percebem-se no começo de cada conto, os narradores absolutamente confusos, tornando o desfecho, pela visão sentimental, absurdamente imprevisível. Essa hesitação perante a quantidade de informações que as personagens precisam exorcizar (vale lembrar que é uma indefinição muito bem construída no sentido literário), fornecem detalhes fragmentados em demasia, para ao decorrer da história os fatos começarem a se encaixar. Detalhes sem aparente relação, que ao serem pesados no fundo da memória, compõem um tocante final. Munro nos alicia, com a isca que na verdade reside em uma pergunta “quem é, ontologicamente, que está falando? O que lhe da autoridade para sentir?”. Todas essas ferramentas de construção velam um rosto muito humano que encontramos nos belos finais, a face de Alice.

 
Ação pessoal

Alice trabalha com histórias semelhantes à sua realidade. Quando aparece uma escritora que já foi casada, existe aí muito da biografia da autora. O salto da infância para os problemas adultos são incríveis, como mundos que se destoam. As imagens dos outros devolvem às personagens pedaços de vida que vivenciaram. Isso ao bel prazer da memória, que intercala acontecimentos por afetividade. Porque, obviamente, entre uma cena memorável da infância e o caos do atual, existem histórias interessantíssimas.

Mais uma vez, a morte de um sentimento é metaforizada em objetos pessoais, peças queridas de pessoas que simbolizam muito na vida das personagens. O que talvez pareça paradoxo, é que justamente a partir do descarte desses objetos representando a perda da ingenuidade, há uma base para a construção de um relacionamento mais prudente, sim, é brutal, mas só nos tornamos pessoas melhores quando compreendermos a maldade do mundo. Munro apela para o significado da memória afetiva, ou ficção afetiva, para deixar claro nossa passagem pela Terra. Parece que há uma pulsação obsessiva sobre histórias com morte em sua literatura para afirmar a vida. Assumir a derrota, jogar lixo fora, o bebê quase morto pela mãe, o pai que matou o filho ao dar ré no carro- é a catálise do fim anunciado que norteia nossas ações. Alice propõe uma espécie de reflexão: “se nossas memórias nos guiam no momento de maior intimidade, como fazer para aderir novas vivências para gerar um eu mais amplo e profundo?”.

Os desentendimentos marcam as personagens que transitam no mundo de Alice. É a ruptura que causa um relacionamento mais profundo, próximo e privativo. A construção desse mundo onde a morte é o nascimento da inauguração no sentido de existir. As pessoas, segundo a literatura de Munro, se associam pelas perdas, é a derrota que as une. É uma importante reflexão do nosso mecanismo de relacionamentos e desconstrução do discurso massivo de que união só acontece em situações positivas, isso porque erroneamente encaramos ajuntamento como algo intrinsecamente bom, fincado na positividade do mundo e na dicotomia imbecil de bem e mal. Resumindo, a morte é o encontro, a destruição é o começo.

Quando encaram o horror, as pessoas enxergam mais profundamente seus próximos. Descobrimos a fragilidade do outro. O que importa não é o ato em si, e sim a maneira que elas se unem após tais situações. Dividir um sofrimento- como um casal que divide a morte dos filhos, dois idosos em uma casa de repouso- é o cume dos relacionamentos. Confiança plena. As crianças, no mundo de Munro, também tem forte carga sobre as vidas alheias- Alice nos diz que ninguém está impune, mas como uma redenção, para afirmar nossa fragilidade originária.

Munro sabe bem o significado das tragédias, suas histórias estão cheias delas, aliadas a um forte senso autobiográfico, em um passeio pelo que de melhor a literatura oferece em sua antiguidade. E levanta outro ponto, onde nossas fraquezas são necessariamente algo que nos descaracterizam da vida social? Há circunstâncias que abrandam a violência de nossos desejos? É violento desejar? Por isso os vários saltos temporais que os narradores realizam, como se um exame muito minucioso exigisse uma cura diferente a cada revisão. Seu universo é de como criamos mecanismos para sair do inferno que nos arremessamos. Como aviso de amigo, é bem difícil.

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