sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Hilton Lacerda e a redução da dor - Tatuagem (Brasil, 2013)

"Olhe para cada ser existente como sendo uma entrada para outro lugar."
― Tom Stoppard, Rosencrantz and Guildenstern Are Dead

Hilton Lacerda decididamente gosta do que atravessa os planos. Isso fica muito específico nas cenas que encerram Tatuagem- um filme “dentro” do filme supostamente experimental, dirigido por um intelectual filósofo amigo do grupo Chão de Estrelas- onde a única nostalgia verdadeiramente transmitida é as lembranças que adquirimos menos de duas horas atrás, ao sentar na poltrona. Aí é que temo que nosso cinema dito marginal resida- numa mera projeção de colorações “apenas” vivas resplandeçam e tomem o espaço de tudo que também deveria ser periférico.

A fragilidade de Tatuagem pode ser medida na relação simpática que o público adquire com as personagens- todas e todos são queridos! Embora o filme dialogue sim com conceitos de criação, arte e composição, sua saturação onde quase tudo é harmônico estimula sua vulnerabilidade. Essa impressão de um cinema onde, sim, as “leis” vigentes são desrespeitadas e todas as morais parecem ir para o ralo sofre de um aneurisma impressionante. Ora, todas as morais não vão para o ralo! Na combinação de entretenimento e discurso sociopolítico sua força peca em ambos.

Vale notar que a principal locomotiva do filme são duas figuras emblemáticas no cinema nacional contemporâneo. A fotografia de Ivo Lopes Araujo e a atuação de Irandhir Santos justificam os registros. As cenas de Santos surgem com alto teor de entrega, como se ele quisesse se emancipar do que no cinema é “pronto”. Ele revitaliza cenas perdidas e toda carga dramática do filme gira em torno de sua figura, produzindo contrapontos e ambigüidades, sofrimento e alegria juntos, abraçados. Essa singular manifestação combina com a entrega de seu personagem em sua arte. Os nervos expostos, a musculatura de Irandhir apresentando robustez em estado de tensão- como se qualquer momento fosse o clímax.


A participação de Araujo talvez, ironicamente, justifique certa preguiça de Lacerda na direção. Reconhecidamente um dos fotógrafos mais importantes do cinema nacional contemporâneo, sempre figurando em filmes com pequenos orçamentos, sua fotografia realiza um majestoso jogo cênico com os atores, nunca deixando as cenas “vazias” (o que seria um crime para outro tipo de cinema). É justamente seu pulso que torna as personagens menos “curiosidades” e mais palpáveis, especialmente nas fantásticas coreografias que envolvem o grupo Chão De Estrelas. E não é por abelhudice que o filme peca- Kleber Mendonça Filho fez isso magnificamente em Som Ao Redor- mas é uma clara defasagem entre o que foi apresentado e o que tentou ser o discurso do filme.
O principal problema de Tatuagem, o que acarreta em diversas divergências nas seqüências de cenas, é a “limpeza” da marginalidade. Embora, todos nós concordamos, seja linda uma defesa tão vigorosa da maneira anárquica que a trupe leva a vida, o que temos na constituição desse ambiente em Lacerda é um processo onde todos “têm” razão- uma facilidade superabundante em nos recolhermos nesses personagens. Nós- a classe média- não ficamos nem um pouco incomodados com o filme. Antes de proferir um “comunismo pequeno burguês”, opto pela ingenuidade e paixão pura do projeto. Eduardo Coutinho, conhecido por retirar beleza de situações do cotidiano, consegue incomodar e discursar sobre uma determinada classe com muito mais vigor no belo Jogo De Cena (2007). O que qualifica o documentário de Coutinho mais que o discurso de Lacerda é justamente sua intensidade na dramaturgia- no desenrolar de Tatuagem, temos a impressão sempre que está tudo muito bem e o Brasil é um país que recolhe bem transexuais, travestis, pobres, negros e poliamorosos. Qual a necessidade de algo intitulado como “marginal” se não sentimos uma ameaça ou nada é verdadeiramente transgredido?

Incomoda-me muito a positividade reinante no filme. Em um dos momentos que, pela construção, surgiria um “clímax”, na reconciliação de Paulete com Clécio, o que temos são meras ruminações. Não é um filme de rupturas e dói demais ver um ator como Irandhir simplesmente chorar em vão. Vejam bem, não é como se as personagens não fizessem besteira. Mas a construção do filme é tão solidificada em cima desse “bem-estar” que não acreditamos. Suas personagens falecem de um bem eterno que não encontramos nem em histórias das Disney. Há diversas relações possíveis entre seres humanos tão “libertos” de convenções e doutrinas sociais como afirmam serem os representantes do Chão De Estrelas, mas Lacerda teima em reduzir as ações e reconduzi-las a uma espécie de “pureza marginal”. Lacerda quer dizer o que para nós? Na tentativa de defender um “modo de viver” ele faz apenas uma declaração de amor intragável desse estilo.

Espantoso isso se considerarmos que Hilton Lacerda é um roteirista experiente. Temos um drama que nos retrai à medida que seu desenvolvimento se “prolonga”, sempre optando por saídas mais fáceis e reconciliações estancadas. Cenas como a da tatuagem, que deveria ter forte impacto no público, ficam condicionadas a toda a afirmação nauseante que é o filme.  Por isso devemos duvidar, também, do tão chamado “cinema de autor”. Obviamente, se o autor não tem nada a dizer, para onde ir, então? Ficaremos reclusos à boa atuação do protagonista e aos planos deslumbrantes do fotógrafo? Nós já chegamos a um ponto da Arte em que não precisamos desses “fofismos” escondidos sobre a fantasia de “cinema marginal”.

E não quero aqui promover um manifesto contra a celebração. Celebração e êxtase se confundem porque convivem com o horror e a angústia. Uma comemoração autêntica exige contrapontos porque a existência não é desenhada apenas em um plano. Pior, nem a defesa de certo estilo de vida (se falamos em uma defesa sólida) é escrita apenas por um viés. Temos o erro do desígnio histórico em um filme que pretende ser contra designações. Filmes como Os Monstros (dirigido pelo coletivo formado por Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Pedro Diógenes e Guto Parente) apontam para um futuro menos condicionado e mais caótico, cujos prazeres são experimentados na carne.
Sem perversão não há cinema. Sem perversão não há arte. Há muito que se duvidar de um filme onde uma dicotomia simples é construída, “quartel x Chão das Estrelas”, e temos uma exaltação da vida dos artistas ao mesmo tempo em que os militares se mostram sempre carrancudos e nervosos. Sabemos que não é assim. Nunca foi.

Tatuagem acaba pro ser um filme que recusa o conflito. Um feel-good movie para um público dito “alternativo”, mas que carrega os mesmos clichês dos filmes que lotam as salas de cinema. Tatuagem não tem coragem de indagar, não tem coragem de mostrar o exército metendo bordoada no cabaré, não tem coragem de mostrar a dor de Paulete, não tem coragem de se debruçar sobre o “seu” Romeu e Julieta. Hilton Lacerda prefere deixar tudo para fora de campo. Mas essa jogada, aqui, não trabalha com nosso espectro especulativo, com nosso recolhimento de signos externos. Ele não quer dor. Simplesmente. Se eu teimo muito em zombar de filmes panfletários, Tatuagem não quer zombar de nada. Tatuagem é uma paródia das coisas que mais quis atacar e tenta nos seduzir justamente pelo que nunca vai poder ser. Isso é; um filme que problematiza o inter-relacionamento entre diferentes ideologias em um período de opressão. O problema é que Hilton Lacerda não só não consegue problematizar, mas consegue reduzir algo tão sério e grave.

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